Desde o acidente já se tinham passado quase quatro meses, finalmente tive alta e voltei para casa dos meus pais. É uma sensação deliciosa, aquele momento único de voltar a estar na rua, de sentir a liberdade.Aguardava-me Alcoitão, não queria ir, sabia o ambiente que ia encontrar e isso afectava-me, achava que voltaria a revolta e isso podia acabar com a minha força de vontade. Esta é uma fase crucial, é nesta altura que se consegue melhorar ou então o paciente estabiliza. Era contra, queria fazer a fisioterapia em casa, os meus pais e avós moveram o mundo para eu entrar em Alcoitão, a lista de espera é de meses! A minha mãe conseguiu arranjar um estratagema para levar-me a Alcoitão sem que eu precebe-se, para uma entrevista com os terapeutas. Quando cheguei e entendi onde estava, fiquei furioso!
Alcoitão é um lugar muito especial, ninguém consegue-lhe ficar indiferente ao entrar! Pessoas em cadeira de rodas, amputados, paraplégicos, deficientes motores. É um mundo à parte onde o ser humano sem problemas físicos, só existe como funcionário! As instalações são das melhores do mundo, os fisioterapeutas também, há muitos pacientes estrangeiros a tentar entrar em Alcoitão, isso por si só diz muito da qualidade do serviço prestado.
A entrevista foi com a directora de fisioterapia e uma terapeuta, servia para avaliar o meu carácter e a consciência que tinha da minha situação, respondia a todas as perguntas com maus modos, de dentes cerrados. Quando chegou a pergunta - Entende que existe a possibilidade de ficar numa cadeira de rodas para sempre? Respondi convicto - Essa hipótese não existe, eu vou voltar a andar! Fui catalogado de doente difícil! Ainda bem que assim foi... por esse motivo conheci a São.
A São era a fisioterapeuta que recebia os considerados casos difíceis, por esta altura estava quase na casa dos trinta anos, simpática e afável, tinhamos muitas coisas em comum e soube sempre lidar com o meu feitio, que náo é nada acessível. Criámos rapidamente uma grande empatia, se nunca desmotivei e recuperei a olhos vistos, a ela o devo. Todas as manhãs, das nove à uma da tarde, durante cinco meses, os dois em Alcoitão a remar para o mesmo lado. A certa altura, a São sugeriu a possibilidade de três vezes por semana, fazer com ela, terapia na àgua num clube em Cascais, foram excelentes os resultados, rapidamente recuperei o movimento da minha perna direita, a esquerda mais afectada, lentamente também reabilitava-se.
Foi assim, que passados seis meses após o acidente, entrei no Hospital Universitário de Coimbra, para uma última consulta, cheio de orgulho levantei-me antes de entrar e apoiei-me nas canadianas. Pensei para mim, enquanto olhava para todos aqueles médicos de boca aberta - Eu sabia o que dizia, estam a ver? Eu consegui, voltei a andar!
Recordo-me sempre de duas frases da São. A primeira, passou-se numa das últimas sessões que tive, estava no colchão a terminar a terapia e digo para a São: - Podes chegar-me as canadianas? Ao que ela responde: - Levanta-te e vai buscar, estou ocupada! Pensei, deve estar louca! Levantei-me, apoie-me na beira do colchão, enquanto ela controlava os meus movimentos pelo canto do olho, e assim consegui dar os meus primeiros passos! A segunda, foi no último dia de terapia. Estava a despedir-me e a agradecer por tudo o que ela tinha feito, prometi que ligava-lhe para estarmos juntos e ao que ela responde com olhos inchados, a tentar disfarçar as lágrimas: - Eu gosto muito de ti mas tu não vais ligar! Estava certa, não sei explicar o porque, embora lembre-me dela várias vezes, nunca mais entrei em contacto com ela. Por isso mesmo quis deixar aqui este obrigado!
P.S.: vão ao site do link, vale o tempo perdido, para perceber o trabalho maravilhoso que estas pessoas fazem.
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