The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida

Um dia acordas e dás conta que tudo o que te rodeia é uma amarra insossa, sentes a vida escorrer como areia entre os dedos, enquanto sonhas em alcançar feitos maiores, com a necessidade premente de seres mais do que vives. Para, respira fundo e deixa ganhar asas o imaginário que há em ti. Deixa o sol apresentar-te a sensação de calor, de quem renova energias e esperanças. Há qualquer coisa de leve, deixa-te ir no fluxo da sensação, mesmo quando a sensação de controle se esvai na percepção da independência que não é tua.
Ainda muita água vai correr de baixo da ponte e de certeza que a hipótese de perder o momento, será muito mais penoso, do que a delonga da espera. Deixa andar, deixa ver onde vai parar, deixa consolidar, acima de tudo não penses tanto, não tentes controlar e desfruta da espera, com a noção que sedimentar conhecimento, é vital e agir por impulso resulta sempre em algo efémero.
Não é fácil abstrair, o vício não passa, é necessário algum rigor e disciplina para manter a postura. A perda, tem a maior fatia dos prognósticos, portanto não há que analisar tudo. Uma postura descomplexada é o que se deseja e o tempo encarregue de trazer novidades, algo de bom deixará.

Um dia, mais tarde, um ano depois, eles voltam a encontrar-se, por acaso, num bar, à noite. Dizem olá, perguntam o que é feito de ti, e começam a falar como se se tivessem visto ontem, perplexos com o mesmo entendimento perfeito de outrora. Ficam a interrogar-se porque se separaram no passado e nenhum deles é capaz de se lembrar de uma razão suficientemente válida, de alguma questão inultrapassável que não lhes tivesse permitido ficar juntos até hoje. As questões que um dia os tiveram de costas voltadas já não lhes parecem tão importante assim. No entanto, afastam-se com uma saudade a roer-lhes o espírito, mas sem tomarem a iniciativa de sugerirem voltar a encontrar-se em breve. Tal como antes, vêem-se tolhidos pela incapacidade de dar o braço a torcer. Nenhum quer ser o primeiro a dizer olha, penso muito em ti, nunca deixei de sentir a a tua falta. Não sabem o que o outro dirá e preferem não arriscar o embaraço de uma resposta má. De modo que, de novo, o orgulho leva a melhor à possibilidade de virem a ser felizes um com o outro. Eram almas gémeas, diziam, não se deixariam nunca, garantiam.
Passam o resto da noite a espreitar-se discretamente por entre o crepitar frenético das luzes que, a todo o instante, lhes traz a angústia de se perderem de vista momentaneamente, pensando que ainda estão ali os dois, que ainda podem ir ao encontro um do outro, mas sem o fazerem. É como se insistissem num braço-de-ferro contra a sua vontade. Ela está sentada a uma mesa baixa, num banco, a vigiá-lo pelo canto do olho e a pensar ele, se quiser, que venha cá. Ele está de pé, entre o balcão e a pista, a falar com os amigos e a pensar exactamente o mesmo.
Ainda se vêem de raspão à saída, pois fazem de propósito para saírem ao mesmo tempo, mas despedem-se dizendo apenas gostei de te ver, até qualquer dia, pensando ela que ele já não a ama e ele que ela não o deseja. E, assim sendo, continuam em frente, separados na mesma cidade, mas cada um com a consciência do outro e com uma tristeza insanável que, a pouco e pouco, vão abafando numa resignação, fazendo por se esquecer, deixando-se absorver pela voragem dos dias e pela vida que corre demasiado depressa para voltar atrás.

By Tiago Rebelo