The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida


As horas correm, como o riacho por baixo da ponte de madeira. A lua percorre suavemente a sua viagem até oferecer ao palco o sol. O rádio dedica a playlist da noite ao casal que se mantêm inerte no sofá, jogados num entrelaçar de abraços envolventes, abstraídos do movimento na rua, focados no seu mundo.
Uma transformação vagarosa, sublime em todo o esplendor do tempo, onde cada gesto é executado com a preciosidade da contemplação, com a mais profunda sensação de prazer. Um sorriso que irradia, um olhar que aquece, um afago que envolve. Aqui está ela, aqui está ele, aqui estão eles, em tempo e espaço que é seu por direito.
Aqui, longe dos olhares são um, onde a saudade não segura o ímpeto de correr em busca do vício de se ser um só. Corpo que treme com a aproximação, deseja e beija com ardor sem se tocar. A face de uma realidade consagrada num caminho, que não emite palavras, mas devolve-as em chorrilho no reflexo de um olhar. Assim, emerge na imensidão da noite, a simbiose que permite viver.
O sol já se anuncia e a valsa dos corpos, dá lugar ao desprendimento, ao receio do término que se aproxima silenciosamente com o clarear do dia. A razão da inconstância que mata qualquer ilusão ou réstia de esperança. O sol já a pique, seca, mirra, mata a semente, antes de esta poder germinar.
O dia terá o seu final, voltando a dar lugar à beleza da noite, mas trará também o receio do cansaço, da repetição, do pavor de se constipar e a opção mais segura dos corpos apartados, imbuídos de orgulho, sem nunca correr o risco de espreitar o luar, deixam-se prostrar na segurança que um aconchego enganador, a que chamam lar mas não o sentem.


O mundo encardido, escuro, que outrora fora cintilante, é jogado no cesto da roupa suja, sem descaro de consciência. Foi usado durante dias seguidos, até o seu tecido perder o tom vivo, manchado, marcado com vincos. No escuro do fundo do cesto, aguarda impaciente pela lavagem da sua alma. O tempo corre, mas o mundo convicto do seu traçado, sabe que chegará o dia da sua limpeza.
Finalmente atirado para a máquina de lavar, há que apagar a existência daquela mancha. Na memória ecoará a sensação que a marca atingiu-o fulminante, sem certeza de poder apagar o seu registo. Ainda é possível centrifugar o mundo, contorcer na saída até que caia a última gota de água. Húmido, o mundo deixa-se ficar no estendal, até que o sol venha presentear-lo com o milagre da pureza do seu calor, onde a nódoa que marcou o mundo, parte sem deixar vestígios.
O mundo agora exala a lavanda, cheira a lavado, trás consigo o aroma fresco, como que acabado de sair da embalagem, vivendo na esperança de ser reutilizado num novo dia. É um mundo como novo, preparado para novas aventuras, sem receio de se sujar novamente, porque é esse o seu destino. Ser sujado, enrugado, manchado, vincado, lavado e por fim seco, num ritual interminável até que o seu tecido deixe transparecer o desgaste no seu colarinho ou um qualquer pequeno buraco, que retire orgulho no seu uso.
Nessa altura findará o seu propósito, como qualquer outro mundo, despejado para um amontado de outros mundos, ansiando, que uma outra alma o queira levar vestido com brio. É um mundo desbotado, não tão brilhante como já fora mas rico de histórias para contar a quem quiser ouvir. O mundo só quer ficar no mundo de alguém.


O lamento ecoado na escuridão da noite, é o meu uivo que tenta alcançar o céu, clamando pelo teu nome. A razão do meu canto, guarda a esperança, que o uivo bata à porta do teu coração e o deixes aconchegar-se no espaço que é seu por direito.
No timbre do uivo, vai a ambição de avivar o beijo, aquele que enche de luz, encandeia e incendeia. Aquele que envolve, levita e reconforta no lar que são os teus braços, o teu colo, as curvas que esculpem o teu corpo, o sabor da pele que encanta, deslumbra e vicia.
Leva o uivo bem além do horizonte de uma noite, leva-o para lá de um amor de praia, de um verão. Envolve-o na lareira que é o teu olhar, atraído no sorriso que alumia o caminho da felicidade, deixa-o criar raízes na serenidade que é a tua essência e na força que explanas, sem grande alarido ou imposição.
Estou à janela, já não uivo, calei. Escuto o silêncio da noite, enquanto queimo mais um cigarro à espera de boas novas. Um uivo teu, feito do orvalho da noite, só para refrescar a alma!

Contagem Ao Segundo