The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida

Estava aconchegante em lençóis de fresco, edredão convidativo a dar asas à realização de um sonho. Nesse sono profundo, visualizava o momento único do que quero para o futuro.
Eram linhas de uma arquitectura minimalista, envolvida por amplas janelas rasgadas, dando uma noção de relação intima entre o interior e o exterior. Era final de dia e sentia-se que lá fora, o orvalho impunha o término do guerreiro sol. Imunes ao anúncio, reservados à primeira fila do espectáculo, refastelados num sofá de tons claros, contemplava as pequenas labaredas que dançam na lareira, recordando o sentido da palavra lar.
O dia tinha sido longo. Um almoço convívio ao ar livre, num tapete verde imaculado, a dispersar um cheiro florestal, que enchia o apetite para os petiscos que deambulavam numa valsa sincronizada e ensaiada tantas vezes. Um final de tarde a debater ideias, a jogar pensamentos e risadas, terminando com uma partida de snooker e o jogo do Benfica na tela. Vitória esmagadora para rematar. Abraços, beijos, despedidas e planos para o próximo convívio.
Foi um bom dia mas é hora de recolher ao sono dos justos. Antes, subir os degraus ao primeiro andar, para verificar que o quarto cor-de-rosa acolhe o mundo dos sonhos. Selar a vigia com um beijo ao de leve, uma carícia pelos cabelos de laivos doirados e compor os lençóis. Caminhando para o quarto, já o calor humano preenche a morada do meu sono. Um entrelaçar de corpos, num carinho terno, movimento sincronizado de uma existência duradoira e enquanto os olhos cerram-se, ainda há tempo para um último desejo. Que este seja um momento perpétuo do futuro.

Num sorriso de esperança, num futuro que nunca mais ascende ao seu expoente mais justo, é no riso de uma sinceridade profunda, que se apartam medos, dores e angústias. Não se perde tempo, erguesse a cabeça, vislumbrasse o horizonte, esboçasse um gracejo e prossegue a jornada. Qual é o sentido de viver a lamentar o inevitável?
Há sempre valor no amanhã, existirá sempre um amanhã que trará algo novo, algo melhor, ímpeto renovado, para apreciar o que se contempla à tua frente. Não esquecer de distribuir o riso sincero, a boa disposição contagiante, mesmo que ela sirva de máscara ao profundo obscuro que existe, para cada cara que encontres nas encruzilhadas do tempo. Talvez isso ofereça um caminho mais alegre àqueles que vão em sentidos opostos.
É hora de fechar os olhos, de sentir a brisa do futuro que quer envolver-se, colocar fé na sua vontade, deixar o contagio dessa fé tomar conta do momento e sorrir. Embarcar numa viagem, desprendendo amarras de um passado, que é isso mesmo. Passado. Navegar, conquistar o leme por direito próprio, confiando nos instintos, fechar os olhos e seguir numa rota que só o futuro guarda como certo, não olhando para trás e sem temor do incógnito do novo que aí vem. Mais vale receber-lo com contentamento, deixando fugir o sorriso que é imagem de marca, a desperdiçar a sua chegada, perdendo tempo pensando nas hipóteses do que é imprevisível. Portanto vamos sorrir, pior não pode acontecer.