The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida

Já temos uma primeira análise à teoria do vaso. No final do primeiro tempo, encontramos um empate técnico com ligeira vantagem para o vaso, que apresentou um jogo vistoso, aberto e alegre proporcionando bons momentos. O vaso está neste momento em repouso de intervalo, a carregar baterias, recebendo instruções e com ganas de abordar a segunda parte do jogo.
Para a semana, voltamos à carga e à mesa de operações para receber implante ósseo. A ver vamos como corre, mas garanto-vos que depois de uma excelente primeira parte, a fasquia aumentou e esperamos que o vaso abra o livro e finalize o segundo tempo com vantagem no marcador.
Próximo relato para a semana que vem... até lá saudações benfiquistas!!!

Mais uma para a colecção. Até hoje foi parecendo que não existia, ou que era algo que estava longe ainda de acontecer. Mas no fundo sabia que se aproximava o momento. É algo necessário. Não estou muito convicto que resulte, mas também nunca fui de virar a cara ao desafio. Como diz a minha mãe: - "Eu nem com o corpo aprendo!"
Desta vez também tem o seu perigo, ou não fosse hábito da minha vida andar sempre no limite da linha. Já devo alguns anos à cova e sempre fui conseguindo enganar o Barqueiro, com esta postura meio destemida, meio de louco, confiando na sorte e no querer. Mas os anos passam, já não sou um miúdo por muito que me custe notar isso, o corpo já não é o mesmo e não sei até que ponto consegue aguentar. O êxito da operação, não é algo garantido, nem que vá resolver a situação mas há que manter sempre a esperança e nem que seja pelo gozo de ser carne para canhão.
Vou por uma teoria em prática. Diz o ditado "Tanto vai o cântaro à fonte, que um dia vem quebrado"... mas também existe aquele que diz "Vaso ruim não quebra". Vamos tentar comprovar a qualidade do vaso e ver se ele é mesmo ruim... Durante uns tempos não vou poder escrever, mas gostava de poder continuar a contar-vos as histórias do The Real Johnny Bravo, porque ainda muitas estão guardadas no baú das recordações e merecem ficar na história.


Existem momentos nesta vida, sensações e imagens que não se explicam. Não existe lógica nos acontecimentos, nas ideias mas sabemos que eles existem. É como um católico praticante acreditar piamente na existência de Deus, sem nunca o ter visto.


Se eu pudesse voltar a página da vida àquele dia, voltaria sempre ao mesmo momento. Àquela fracção de segundo antes de tu apareceres para o mundo. Porque aquela sensação ninguém me rouba, ninguém apaga. Vai sempre estar comigo. Tenho dado por mim ultimamente a sonhar de olhos bem abertos, revivendo aquele segundo. Lembro-me como se fosse hoje, do calor que senti, do aperto que me causaste no peito, das lágrimas que jorrei. Toda a emoção de te saber.


Tenho passado muito tempo a pensar em ti e no teu dia, se calhar porque ele também se aproxima e mais uma vez não vou poder estar contigo. Desta vez por motivos bem mais alheios à minha vontade, mas a promessa que te fiz mantém-se e é para cumprir. Acredita que se me deixarem vou fazer por cumprir-la.


Fará oito anos em Agosto. Andava cansado, sem dormir. Estava no carro, com o teu avô. Pedi-lhe para me acordar assim que houvesse alguma novidade. A tua mãe estava lá dentro, tu não querias nascer por nada, só te aguardavam para o princípio da manhã e eu não podia entrar para estar perto de vocês os dois. Achei que poderia dormitar um pouco e pôr o sono em dia, porque nos dias anteriores nada tinha descansado, por passar o tempo sempre preocupado contigo e com a tua mãe. Dormi umas duas horas e acordei sozinho no carro. Fiquei bastante preocupado, como se já estivesses por cá e ninguém me tivesse chamado. Encontrei a tua avó, na entrada, que me disse para subir e dar um beijo à tua mãe, pois estavam a preparar-se para ti. Subi o elevador e sentei-me sozinho num dos bancos a aguardar por vocês. Em frente estavam duas senhoras que também esperavam. Enquanto elas iam falando eu olhava ansiosamente para a porta do elevador à espera de ver a tua mãe passar. Foi aí. Foi nessa altura. Tenho a certeza que esperaste por mim, como se toda a complicação que criaste, tivesse por razão a minha presença, naquele momento.


Senti um aperto no coração, algo se passava e eu não estava a perceber, aquelas coisas que o pai tem e que por norma se chama instinto. Chama-lhe o que quiseres, foi algo diferente do que alguma vez sentira. Forte, muito presente, uma certeza uma sensação que no segundo seguinte se clareou na minha cabeça. Um choro veio lá de dentro, as senhoras comentaram: - Mais um que nasceu! E eu soube imediatamente que eras tu! Não tinha lógica! A tua mãe deveria estar a subir no elevador, mas ninguém me conseguiu tirar da ideia que eras tu. Estava sozinho, vivi esses momento sozinho, vivi-o contigo, só os dois o sabemos.


Tinha um sorriso na cara e lágrimas nos olhos mas tentava encontrar uma explicação para aquele momento, uma lógica porque teimava eu que eras tu. Não era possível, a tua mãe ainda não tinha entrado! Estava nesta divagação e sai de rompante do bloco a tua avó, a pedir-me para ir ao carro depressa buscar a máquina fotográfica. Descemos os dois e só a meio caminho é que ela confirmou-me. Tu já tinhas nascido! Eu senti-te, não sei-o explicar ou dar uma razão mas a verdade é que eras tu. É um elo só nosso, que por mais que queiram não vão conseguir destruir. O sangue é mais forte que tudo e este elo será sempre eterno, meu filho.

Sábado. O dia começou com uma reunião com o partido socialista de Bucelas. Para as horas que obrigaram-me a levantar, disse das poucas e boas! Detesto jogos de bastidores, não se coadunam com a minha postura de vida, de ser directo e não ter papas na língua. Acabei por debitar o que achava que estava errado, quais as directrizes mais sensatas que o partido deveria seguir e assim por diante! A realização da reunião tinha como objectivo fazer-nos apoiar uma outra candidatura para a concelhia de Loures. Claro está, com proveitos pessoais para a presidente de sede. Não fui na cantiga, bem como o resto dos convidados e a senhora bem teve de se contentar com um rotundo não!!!
Saí da reunião e seguia em direcção a casa, quando sou abordado pelo Nélson. Já não o via a uma semana e queria colocar a conversa em dia. Toca de ir para a sede. O senhor Cardoso, ao ver-nos entrar, sacou logo de duas médias e não tive coragem para dizer que não. Como a primeira caiu bem, acabei por juntar mais duas à colecção antes de seguir viagem para Lisboa. O Nélson, dispôs-se a dar-me boleia e ainda acabámos por fazer mais uma paragem pelo caminho.
Cheguei ao Super-Chef atrasado quarenta e cinco minutos, o Hugo e a Carla já estavam sentados. O intuito do almoço era combinar com o gerente do restaurante, o almoço dos antigos alunos do Académico. Azar dos azares, o gerente tinha acabado de sair e nem por telefone era possível falar com ele, pois tinha o telefone desligado! Bem acabámos por almoçar e como os planos do Hugo e da Carla tinham também levado um revés, ela acabou por estar disponível para acompanhar-me para a visita ao Museu Berardo, no CCB. O Hugo deu-nos boleia e combinámos de nos encontrar ao fim da tarde nos pasteis de Belém.
Eu tinha reservado um lugar na conferência com o Joe Berardo, mas já chegámos atrasados uma hora. Com muita cara-de-pau, algo que está-me no sangue. Passei ao lado da imensa fila de espera e acerquei-me do balcão e disse para o recepcionista: - "Boa tarde, eu venho para a conferência com o Comendador Berardo, às 16 horas." Claro está que eu sabia que a conferência tinha sido mudada para as duas e meia, mas fiz-me de ingénuo! Pediram-me muitas desculpas por não me terem contactado! E o rapaz encaminhou-nos para o resto da sessão! A Carla, ficou a perceber, qual é a minha lata para estas situações! Não pagámos pevas e ainda fomos acompanhados pelo recepcionista! Nesta coisa da sem vergonha sou um verdadeiro artista!
Ainda assim, tive tempo para fazer uma pergunta ao Joe Berardo, à qual soube fugir com muita diplomacia, o que já seria de esperar! Levei para casa uma brochura assinada e um bacalhau com a desculpa da resposta não ter sido a mais esperada! Percorri a colecção de lés-a-lés e embora tivesse esperado mais do período fim século XVIIII, início de XIX, consegui ficar bastante agradado com o período Americano. os dois quadros de Picasso passa-se por eles sem se perceber que o são. Do Dali só uma peça. Dos tugas, tirando a Paula Rego, que adorei os simbolismos, fiquei bastante frustrado... Há tipos que fazem uma chamada arte, que eu não consigo conceber que assim seja chamada! Mas pronto, à sempre uma alminha, que acha os tipos geniais!
Encontrámos-nos com o Hugo nos pasteis, vinha acompanhado da Marta e se não fosse pelo calor que se fazia sentir teríamos obviamente permanecido mais uma hora na cavaqueira! Mas o abafado no interior só nos convidava a dar corda ao sapatos! Ainda ficámos uma boa meia-hora no exterior, na conversa enquanto o amigo da Marta não chegava para lhe dar boleia para o concerto do Ricky Martin. Epá!!! Eu pelo meu lado, ainda tinha tempo até o concerto do Represas e estava a gostar da conversa.
Fez-se as despedias, após alguma conversa com o amigo da Marta, sobre a exposição, ao qual o Hugo e a Marta olhavam com um ar entediado e seguimos para o Campo Grande. Fiz-me ao metro até ao Rossio. Fui subindo até ao Castelo, apreciando a paisagem e pensando como esta cidade é bonita e tão pouco revisitada pelos seus habitantes. Gosto do pitoresco das vielas e dos cafés desta zona da cidade. Subi as escadas e cheguei ao Memórias. Parei para beber um imperial e após alguma conversa com o dono do bar que é meu conhecido, segui o meu caminho passando pelo Chapitô e finalizando na entrada para o Castelo. Fui levantar o meu bilhete e sentei-me na esplanada a desfrutar dos últimos raios de sol sobre o Tejo.
Entrei já passava das dez. Sentei-me a meio, a fumar um cigarro. A quatro, cinco cadeiras ao lado tinha por companhia, o António Costa. Só famosos! Eu e ele!!! (modestia à parte!). Entra o António Zambujo para a primeira parte. Artista que não conhecia mas que fez com que ficasse com vontade de conhecer mais do seu trabalho. Fadista que fisicamente e vocalmente, se compara muito com o André Sardet. Gostei do repertório, fados antigos mas eruditos, nada dos chavões habituais. A seguir veio o Represa e puxou dos galões. Os grandes êxitos: Acontece, Da Próxima Vez, Mariana, Colibri (Pureza e Desejo), Fora do Tempo, Memórias de um beijo (a minhas preferida). Coroados com o Feiticeira, no encore em dueto com o António Zambujo. Cada música trouxe-me à memória sempre a mesma pessoa, mais parecia que tinha sido de propósito! Finalizaram o serão com a noite do Max. Gostei bastante mas soube-me a pouco, uma hora e quarenta e cinco que pareceram passar-se num ápice. É sempre assim quando estamos a fazer algo que gostamos.
Quando olhei para o relógio fiquei alarmado! Quase meia-noite e a última camioneta para Bucelas a partir daí a uma hora. Desci até ao Rossio num instante. A descer todos os santos ajudam! Consegui chegar mesmo em cima da hora à paragem, por sorte a camioneta estava atrasada. Contou-me o motorista que tinha sido por causa do concerto do Tony Camionetas em Loures. Eu com um dia excelente e o Tony Carreira é que enche! Não entendo este povo!
Fiz o resto da viagem a dormitar e domingo, resguardei-me nos lençóis a ler o meu livrito... Foi um bom dia, recheado de cultura e como dizia o pin que trouxe do CCB, culture is life.

Quem foi que provocou vontades
E atiçou as tempestades
E amarrou o barco ao cais
Quem foi, que matou o desejo
E arrancou o lábio ao beijo
E amainou os vendavais...

Contagem Ao Segundo