Hoje chorei muito. Pela primeira vez, eu e a minha mãe, falámos abertamente sobre os meus acidentes de uma forma natural. Revivemos cada detalhe, relatámos como alterou para sempre quem nós somos. Senti a sua dor, senti a nossa dor, dei por mim angustiado pelo mal que causei aos que mais amo.
Recordei o meu anjo da guarda, que deixou-me amputado e o peso que a sua promessa tem em cada dia que vivo. Que promessa tão estúpida, uma riqueza de vida desperdiçada com alguém que não é merecedor.
Hoje deveria sentir-me muito feliz, sou acolhido no seio da minha família como há muito não acontecia. Sinto-me amado, foi um Natal em pleno, rodeado de mimos, abraços e beijos mas não deixo de sentir profunda tristeza.
A névoa negra que envolve o horizonte, não agoira bom futuro. Tenho saudades de nós, o que não daria para ter as minhas meninas a celebrar o auge familiar do meu lado. Eu sei, o quanto é utópico mas elas serão sempre a minha Princesa e Rainha, donas do meu mundo. Preocupado que estou com o meu irmão e os meus sobrinhos. O que guardará o futuro para eles? Não quero estar longe dos meus sobrinhos, são eles que voltaram a dar sentido ao Natal, que amenizam a ausência do meu filho. Já não basta sentir falta da Princesa, também tenho de perder-los? E a bomba que ainda não larguei, que irá mexer com os alicerces de todos? Não era justo comunicar num momento de harmonia e felicidade.
Vida madrasta, que teimas em fazer sofrer. Faz uma pausa, acalenta a esperança de um futuro, não pintes de cinza o que merece ser colorido.
Novo ano, nova vida, novo recomeço. Em busca de forças para esta mudança forçada, dou por mim a pensar: E agora? Estou com receio de perder-me no isolamento mas foi a única solução viável que encontrei. Já não estou habituado a mudanças drásticas, ao empacotar, montar tudo de raiz, ao começar de novo. Sempre aceitei o destino, encarei sem temor as alterações de residência, de hábitos, de convivências. Soube ser um camaleão e adaptar-me ao meio em redor mas e agora? E agora, que já não és jovem e as forças teimam em faltar. Será que tens o que é necessário para vencer? E agora?
Já eram alguns anos de arraiais assentes numa zona que estimo muito, onde criei laços, onde sinto-me querido. Talvez não seja tanto o que se deixa para trás mas o vazio do horizonte que se avizinha. Longe de tudo e de todos acorrentado à pacatez, de novo um estranho numa terra que me viu crescer.
Tento agarrar-me ao lado positivo, a descortinar vantagens. A possibilidade de uma vida mais saudável, poder acordar ao lado do mar, que tanta saudade deixou mas tudo isto não esbate o sentimento de perda.
Há que cerrar fileiras, não há volta a dar, portanto vamos começar de novo...
Sara Bareilles é uma das minhas cantoras predilectas. Talvez por ser uma luso-americana, consegue atingir o profundo do meu ser transformado em majestosas melodias, sentimentos que guardo nos escombros da minha alma. Por vezes dá calafrios ouvir uma música sua pela primeira vez. É como quem decifra o negro íntimo de mim em busca de inspiração para criar algo maravilhoso. Um misto de surpresa e reconforto ao deparar que todos os cacos dilacerados ainda podem ser transformados em algo harmonioso.
Cansado desta força invisível que me puxa sempre ao mesmo sitio, repleta de hipocrisia que foram acusações constantes, eu só quero sair do limbo que não me deixa partir, impregnado na minha pele e em tudo ao meu redor. Não é justo amarrar alguém a uma ilusão que nunca passou de um capricho, ainda mais quando já se está num novo rumo. Roçar por um breve instante, não é o mesmo que um abraço e cansado de obrigações sem deveres, só quero erguer no alto de mim olhando com esperança o horizonte.
Desta vez quase esqueci esta data. Parece irreal mas já passaram vinte anos, mais de metade da minha vida e contra todas as previsões, aqui estou. Ainda estou, já sem a tenacidade inicial mas presente.
Como tudo poderia ter sido diferente, se tivesse ficado em casa naquele dia. Talvez seria um caminho menos penoso, mais inocente e menos amargo, talvez... muito talvez.
A partir daquele dia tudo passou a custar mais. Para as tarefas mais banais é necessário muito empenho e com o passar do tempo, cada vez mais. Tornei-me frio, fechado em mim, tornei mestre em esconder falhas, os receios, a enfrentar a vida de uma forma cada vez mais crítica, mais crítico com os outros e sobretudo comigo.
Também houve consequências positivas. Tornei-me mais aplicado, mais objectivo, testei os meus limites e hoje tenho real percepção das minhas capacidades. Sou decidido mas não sou o poço de força que proclamam. Escondo bem o quanto custa viver, o cansaço de sofrer constantemente, a batalha que é necessária para conseguir acompanhar os outros. Utilizo um sorriso como escudo, para disfarçar a dor que há em mim.
Por vezes, fechado em mim, na minha solidão, revolto-me com o destino. Queria uma folga, poder ser quem não me foi permitido. Poder viver ao invés de sobreviver, não tratar a dor por tu e ter uma casa a que pudesse chamar de lar. A minha família, que acolhe a minha chegada com carinho e afecto. Então, eis que chegam os primeiros raios de sol, dissolvendo o escuro da minha solidão e sou puxado novamente à realidade. A minha guerra solitária continua, não há tempo para sonhar, é vital haver empenho para almejar respirar.
Vinte anos passaram, vinte anos a batalhar, parabéns a mim, por vinte anos de sobrevivência.
Ontem morri, amanhã sangrando cairei nessa luz. O futuro aberto para além do imaginável, no intuito de descobrir o porque da esperança morrer.
Perdendo o que se achou, num mundo tão vazio, suspenso de compromisso. Ainda é cedo para seguir o silêncio desse som. De alguma forma o sol se foi e para encontrar respostas, é necessário cair no esquecimento das perguntas, às quais sempre apelidámos de casa.
A razão encobre os olhos num esplendor desvanecido. Ilusões dessa luz. Um reflexo de uma mentira que mantêm-me esperando há tanto tempo pelo fim da vida. Este final de dia é a prova do tempo secando toda a fé que conheço. sabendo que a fé é tudo o que tenho.
Eu perdi quem sou e não consigo compreender onde começou o declínio, um coração desfeito que ressoa palavras sem sentido, continuando, continuando...
Mas sei, apenas sei, que começou o fim do desgosto. Quem sou desde os primórdios, menino traquina, de sorriso fácil, levar-me-à a bom porto, para um tempo ou espaço onde tudo fará sentido, onde existe harmonia e os sonhos se casam à realidade. Deixo-me ir, vou navegando, não ficarei calado, seguirei.
Todo este tempo perdido em vão, anos perdidos, palavras sem vida num mundo destruído mas a esperança insiste e esta luta não termina aqui. Há uma luz, há um sol que eleva-nos ao lugar que pertencemos. O amor irá prevalecer e ainda conquistarei a felicidade.
Amanhã cairei nessa luz.
Foram quase três anos a contemplar do convés o dia-a-dia da ilha que apelidara de sua. Conhecia os seus traços de olhos fechados, cada grão de areia de uma praia luzidia, o verde vivo da vegetação palpitante e aquele mar de águas escuras e turvas que teimosamente impeliam o barco de atracar em porto seguro. Muitas foram as noites em que admirava a calma reinante, sobre o luar cintilante, envolvido pelo sopro de um vento quente que suspirava ao seu ouvido, acalentando os sonhos de um futuro risonho. Bolinou toda a costa infinitamente, embevecido por aquele éden que ansiava designar de casa. O seu lar. A paz de espírito vivia na esperança desse dia, reflectido no seu olhar quando vislumbrava os encantos daquele local aprazível.
O tempo ia correndo e as águas turvas, teimavam em não amainar. O barco na asas do sonho arrastava-se no mar bravio, enfrentando as tempestades que por vezes visitavam o paraíso. Os dias passavam e com eles levaram a crença a pouco e pouco definhar. O desespero e angústia reinavam no escuro do porão, o canto solitário onde a luz não era convidada, indagado de porquês sem sentido. A esperança desamparada mirrava, seca, podre, sem essência de cor.
Após quase três anos a amarar ao largo da ilha, sempre na esperança de colocar pé em terra firme, é chegada a hora de içar ancora, hastear as velas e zarpar contra o vento, rumo ao desconhecido. A verdade finalmente emergiu, brilha reluzente sem pudor da sua essência. Ao leme salpicado pela água salgada, escondem-se as lágrimas de um último olhar. Nas docas, jaze um barco imponente. LR
O tempo que tudo trás e tudo leva, roubou a estrela incandescente que vivia no teu olhar, dando lugar à penumbra de um cinzento pardo. Inodoro tornaram-se as manhãs. Os lábios áridos que em tempos jorravam doce mel, já não conseguiam matar a sede e as noites passadas ao relento, frias como rochedos, mirraram a harmonia que um dia proliferou.
Não há esperança que sobreviva à irredutibilidade do ser. Não há luz ao fundo do túnel que resista, ao vento da tua vontade transformado em tornado. Devastador, assola tudo o que se construiu, deixando um rasto de destruição massiva, levando consigo o amor banalizado e desrespeitado.
O amor intenso, esse amor real e raro de um arco-íris profundo, já só consigo vislumbrar além longe pelo telescópio, perto das estrelas mais antigas e brilhantes. Foi o furacão da tua essência parda, absorvida de desconfiança e ressequida pelo egoísmo, que catapultou para as estratosfera.
De quando em vez, quando fumar um cigarro nas noites quentes de verão, talvez erga a cabeça tentando procurar entre o escuro da noite, esse amor cintilante que um dia iluminou a minha vida. Não sei se ainda existirás ou sequer se terei a sorte de encontrar-te entre dois bafos no cigarro, por isso deixo-te aqui o o meu adeus agradecido pelas memórias de um antigamente, que nunca chegou a ser realidade. Sê feliz nesse céu imenso, acompanhado das estrelas que serão para sempre tuas companheiras. Eu continuarei a calcorrear a minha estrada no encalce do arco-íris que dá cor e significado à vida.
O hábito de entregar quem és, não certifica a satisfação da correspondência. Cansado de mar alto e turbulento, olha-se para a meia-praia como se mira um oásis. Não dês a quem não dá retorno. Não mostres a quem se fecha. Não sonhes com quem vive no cinzento da realidade. Não dês cor à vida de alguém que não aprecia, valoriza, ou sequer estima.
A palavra impossível existe para ser testada mas não abdiques da felicidade. Traça um rumo para longe do vazio e faz a mala. Leva contigo na sacola o equilíbrio, ilumina o caminho com o sorriso característico e não esqueças de embalar uma grande dose de positivismo. Só assim poderás levar o barco a bom porto. Vamos em frente.
Acredita no amanhã, sem nunca recordar o que se perdeu. Não interessa com quem se partilha ou se quer se é necessário partilhar mas se for caso disso, que sintas que é alguém que deseja com a mesma intensidade e não alguém que vive no egoísmo indiferente ao que sentes. Importante é estares de bem com a vida, de bem contigo, inundado pela essência do que te faz feliz.
Enquanto houver a premissa e a crença, de que um melhor dia virá. Tudo é possível. Acredito em ti, acredito no sonho, aliás, ainda acredito que possas ser feliz. Mereces, é imperativo que isso aconteça, caso contrário qual o intuito desta passagem? Sonha menino, continua a sonhar, que o êxtase encontra-se ao virar da esquina à tua espera e deixa de persistir numa conjuntura que só vive no teu ideal. Procura a tua felicidade.
O arauto chegou com a sua proclamação solene, com medo de ouvir as palavras que sempre temi e a invasão dilacerante de um sentimento agridoce que penetra a pele ambígua a cada palavra. A esperança de realização do sonho de uma vida desvanece por completo na penumbra da mensagem, sendo apenas colmatada pela propagação de um sentimento de paz, ao compreender que já não é relevante o sentimento desta casa, a felicidade mora na porta ao lado. A noite toma conta de si, com estrelas que ofuscam a memória ao saber que voltou a sorrir. Achou o seu rumo, já não está sozinha.
Ao vislumbrar o vulto que se afasta na linha do horizonte, uma lágrima começa a escorrer face abaixo por ter dado à metade de mim, a liberdade de voar em busca do seu caminho mas essa mesma lágrima cessa ao tocar a ponta do lábio que sorri, por presenciar a existência de uma nova mão que se entrelaça. Guiando, envolvendo e acompanhando o seu caminho por águas menos turvas e revoltosas. É a maior prova de amor que poderia dar. Estou profundamente feliz por ti.
Eu nunca fui de promessas passageiras e houve algumas que quebrei mas juro que nos curtos dias que ainda restam, serei eternamente grato por ter tido o privilégio e o orgulho, de por breves instantes ter caminhado a teu lado. As memórias de quem fomos já foram embaladas e só desejo que este novo alguém compreenda e agradeça, a sorte de ser responsável pela tua felicidade. Eu não sou de muitas caras, uso só uma máscara, por isso compreendes que este desejo vem do mais sincero de mim.
Felicidades para o teu novo sonho, meu amor
Doce, eu digo o que sinto. Se olhasses para mim nesta hora em que colapso, irias vislumbrar um vulto atormentado pelo pêndulo do desejo versus a razão, quando a minha ânsia de amar-te, só encontra sossego quando embalado pelo teu toque. Rogo. Envia um sonho da família feliz, para que possa beber lentamente do que mais desejei e fingir que ainda me pertence.
Tu meu Doce, que és a arqui-rival do meu sono, meu suave veneno, vergo a teus pés e imploro. Envia um sonho da família feliz, pois estou saturado de lutar com a almofada, nesta batalha infinita de "ses" que arranham as cicatrizes do meu coração. Combate de memórias, saudades e desejos que teimam em carregar-me as olheiras, presente das noites em que tolhas o pensamento.
Neste reino do incompleto, onde lá longe a linha do infinito guarda só para si a paz interior, num egoísmo atroz. A solução para as insónias, seria o sonho iluminado pelo brilho desse olhar Doce, num enredo de abracinhos desmesurados de piolha. O soporífero perfeito para o descanso merecido deste corpo velho e degradado.
Doce, envia um sonho da família feliz
Se ainda amo? Muito. Se ainda quero? Para sempre. Se ainda vens? Não acredito mas...






