The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida

Quando era miúdo, tive a sorte de crescer num local resgardado por um jardim e baloiços, foi onde brinquei ao mata, à apanhada, às escondidas e à bola. Fui criando as minhas primeiras raizes neste lugar, suportadas nas amizades inocentes da infância. Existia nesta praceta uma amizade entre um grupo de rapazotes e de entre os miúdos que viviam naquele lugar, tive sempre uma ligação maior com um rapaz de nome Bruno Reis.

Com ele brinquei, corri, joguei, saí à noite e partilhei emoções. Essa amizade perdura até aos dias que correm, embora não exista um contacto diário, e de algum tempo para cá que não nos vê-mos, a amizade e as memórias das aventuras continuam presentes.
O avô do Bruno possui várias propriedades e entre essa variedade, uns quantos apartamentos em Isla Canela, perto de Ayamonte. Por duas vezes fomos para lá passar o fim-de-ano e em ambas, foram dias repletos de histórias. Da primeira vez, eram quatro malandros! Eu, o Bruno Reis, o Bruno Brito e o meu irmão. Mais tarde, no dia de passagem de ano, juntou-se a nós o Ismael, colega de liceu, do João e do Bruno Brito. Um rapaz de bom fundo, com energia para dar e vender e propenso a criar aventuras do nada! Encontrámo-nos todos no jardim para o dia de partida, eu tinha em mente seguir viagem no meu carro e o Bruno Reis levava o seu Vitara. À hora do arranque deixei-me convencer pelo Bruno Reis que não havia necessidade de levar dois carros e acabámos por fazer a viagem, os quatro, encafuados naquela amostra de jipe!
A viagem foi uma estucha! O poderoso Vitara fazia a estonteante média de noventa quilómetros por hora a gastar vinte litros aos cem! Não houve carteira que aguentasse o rombo e a paciência necessária para tantas horas de viagem! Ao fim de estonteantes seis horas de viagem atingimos o nosso destino. Isla Canela. Fomos para o apartamento que nos estava destinado e deparámos com o holocausto! O apartamento tinha sido alugado uns meses antes e desde então ninguém tinha entrado dentro do mesmo. O estado em que os inquelinos o deixaram, era lastimoso! Móveis partidos, lixo por todo lado e sem qualquer hipótese de alojar quatro adolescentes, com o mínimo de higiéne. Acabámos por convencer o Bruno Reis que não havia condições para permanecer ali e acabámos por nos instalar noutro apartamento.
Os dias passaram-se intercalados por boas sonecas e passeatas na vila. Já as noites eram de pura borga! Foram passando entre idas a Isla Cristina e Monte Gordo, até chegarmos ao dia de trinta e um de Dezembro. Como sempre fui o primeiro a acordar e depois de ir a Ayamonte tomar o pequeno-almoço, voltei ao apartamento ao fim da tarde. Já todos estavam despertos e prontos para mais uma noite de folia. Após os aprumos, a excitação para uma noite em grande, mas no meio disto ninguém se lembrou de reservar um restaurante ou se quer de ir comprar mantimentos para uma refeição digna da noite de fim-de-ano. Já tarde e sem hipótese de apanhar o supermercado aberto, decidimos rumar a Monte Gordo e procurar um restaurante que nos aceitasse. Nada feito! Só aceitavam clientes com reserva prévia ou já se encontravam fechados! Quatro miúdos a morrer de fome e sem saber muito bem o que fazer!

Andámos e revirámos a vila de Monte Gordo até que, cerca das dez e meia da noite, damos de caras com um restaurante indiano que ainda nos aceitava!

Recordo-me plenamente do meu pedido. Queria algo baseado em carne, que não possuísse muito picante, acompanhado de uma garrafa de João Pires. O prato que me foi destinado consistia num bife rodeado com um molho creme onde despontavam pequenos círculos de uma cor vermelha alaranjada. Sendo um restaurante indiano e de comida exótica, não fiz muito caso do aspecto (verdade se diga, que também sou um bom garfo e que não viro a cara a quase nada). Ao fim de duas ou três garfadas, as gotas de suor começaram a transparecer na testa, percorrendo todo o corpo. A garganta ardente, como se o pitéu, de fogo se tratasse. Logo apelei à comparência do empregado, para me explicar o que não tinha compreendido no meu pedido! - Picante, sim muito bom! Picante! - Raios o partam! Eu cheio de fome e a arder por todos os lados sempre que me arriscava a provar mais uma garfada! A garrafa de João Pires levou um rombo, como nunca na vida tal me acontecera!

Findada a risota à minha conta e depois de muitas pragas rogadas ao empregado, fomos direitos ao Irish bar lá da zona, para celebrar a entrada no ano novo. Tudo corria às mil maravilhas e já nem me recordava do episódio do restaurante. Poucos minutos faltavam para a passagem de ano mas ainda tivemos tempo para nos encostarmos no balcão e pedir uma bebida refrescante. Chegada a meia-noite, distribuiu-se abraços e felicitações, com brindes à mistura e desejos de

Fim de Semana da Queima, levanto-me por volta das três da tarde, dormi mal e estava a ficar com os dedos negros. Maldita raiz! Na noite anterior, em pleno parque da queima, bati violentamente com o pé numa raiz! Tomei banho, apertei uma ligadura ao pé e segui para o pequeno-almoço colocado na mesa do quarto. Enquanto tentava esquecer as dores, o Zé levantou-se com uma ressaca maior que o mundo, tinha a cabeça a explodir! Esteve uns bons trinta minutos na banheira! Lá arranjou-se e seguimos para o café, onde nos encontramos com os amigos do Zé.
Estivemos no café uma hora, forrando o estômago com uns tremoços e umas cervejas, de maneira ajudar-me a desligar das dores no pé. Durante o convívio falou-se dos planos dessa noite. Ir ao Baile da Queima das Fitas e mais tarde seguir para o Parque. Estavam a contar com a nossa presença mas eu não tinha levado smoking, nem fato, fui para lá pelas borgas, não contava ventir fatos!

Quando fiz dezanove anos tirei a carta de condução e no verão preparava-me para fazer mais uma mini-volta pela europa, com o meu pai e o meu irmão. Desde miúdo que me recordo de fazer este género de viagens. Por hábito, o meu pai conduzia ao som dos afamados Paco Bandeira, José Cid, Júlio Iglesias e companhia, cantarolando as canções. Acredito que era a Era a paga pela viagem Para nós, o tempo que estávamos no carro era passado a dormir ou a apreciar a paisagem.
Fui sair na noite anterior, antes da partida e a rambóia foi tal, que acabei por chegar a casa às sete da manhã. Não cheguei a deitar-me e fui logo tomar um banho para estar pronto para a viagem. Fui o primeiro a despachar-me e aproveitei para ir tomar o pequeno almoço a um café, enquanto o meu pai e o meu irmão se arranjavam. Ao voltar já eles colocavam as malas no porta-bagagens do BMW e eu naturalmente fiz o papel que me competia. Abri a porta e sentei-me no banco do lado, rebaixei-o de maneira a preparar-me para a minha merecida sesta. Prontos para o arranque, o meu pai bate no vidro. Eu baixei o vidro e perguntei-lhe: - O que foi? - Durante anos tive de fazer de vosso motorista, agora já tens carta e eu estou velho! É a tua vez de levares o carro! - Disse-me ele ao abrir a porta. Que sina a minha! Arrancou-me do meu lugar e lá tive eu de conduzir com uma directa em cima!
O primeiro destino era Madrid, seiscentos quilómetros e antes de chegar à primeira centena percorrida já tinha como companhia roncos e ressonares. Ia sozinho, cheio de sono e sem

ARTE & EVENTOS

A capital foi invadida por “vacas”, não que já não estivesse bem preenchida por umas quantas mal disfarçadas pela cidade, mas desta vez a exibição deste animal tinha o intuito de angariar fundos para instituições de caridade e as vacas sempre foram dando outra cor e ânimo à cidade.

Em Lisboa nasceu um complexo de luxo. Agora não é necessário contar trocos para a gasosa e fazer-se à marginal para jogar à batota. Os alfacinhas já se podem deslocar de metro com direcção à Expo para esbanjar os euros, nas promessas da sorte.

Mais uma vez Lisboa, teve o privilégio de assi
stir a um Rock in Rio, desta vez com uma presença para mim relevante, os Guns ‘N Roses. Tinha curiosidade de ver como se comportaria Axel. A verdade é que a voz e a dinâmica continuam lá e foi do melhor que se assistiu. Em 2008 há mais!

Palhaçada, das palhaçadas, foi a teimosia inexplicável do governo, com a Colecção Berardo. Esteve para ir de armas e bagagens para a terra da “
La Marseillaise”. A única imposição de Berardo? Que a colecção ficasse patente num espaço relevante cedido pelo estado! Com o poder negocial que lhe é reconhecido, Joe Berardo, sob contornar a ignorância dos nossos políticos e para nosso agrado, podemos visitar uma das maiores colecções de arte contemporânea no CCB.

DESPORTO
No desporto, foi um ano repleto de adeus aos idolos. Na minha prespectiva, uns mais sentidos do que outros. O futebol despediu-se de Zidane, um maestro da arte de tratar a bola por tu, mal amado entre muitos de nós, quis dar razão aos tugas ao despedir-se com uma reacção menos própria de uma figura mediática, na final do campeonato do mundo, vencida pela Itália. No automobilismo terminou uma era de domínio Ferrari, com a conclusão da carreira de Michael Shumacher, por muitos tido como o maior de sempre. Não que seja esta a minha opinião, mas não posso deixar de relevar o seu contribuito para a categoria. Um adeus precoce, deu-nos Ian Torpe. O “Torpedo” tem um currículo recheado de numerosos prémios internacionais e recordes mundiais onde se salienta 5 medalhas Olímpicas. Aos 24 anos fartou-se da pressão e com uma conta bancária recheada, virou costas à modalidade.
Desde miúdo lembro-me do Kid de Las Vegas, um senhor que sempre soube estar na ribalta. Foi com uma certa mágoa, que assisti à brilhante ovação prestada na sua despedida ao tenis. Para trás ficam 60 vitórias, entre elas oito títulos do Grand Slam.

Mas o mais relevante no desporto estava guardado para o fim do verão, com o caso Mateus a fazer manchete nos jornais nacionais e internacionais. Portugal no seu melhor! Foi por uma nesga que o campeonato não foi suspenso, bem como a participação nas competições europeias. Na minha opinião o Gil Vicente, bode expiatório desta história, só é culpado por aproveitar-se do amadorismo dos dirigentes que só vêem os cifrões. 2007 guarda-nos mais um circo com o Apito Dourado. Será desta que há culpados?

CURIOSIDADES
O sistema solar ficou mais curto. Da primeira vez que uma sonda chega a Plutão, este foi desqualificado. Não por doping ou por batota, mas porque não preenche os requisitos e é diferente dos outros planetas. Racismo, digo eu! Os pequenitos também tem direito a ser alguém.

O senhor Microsoft esteve por terras lusas e não faltou quem lhe fosse lamber as botas em busca dos dolares. Houve direito a condecorações e todas as mordomias. Sempre gostava de saber onde vão parar os fundos do plano tecnológico, para a tal formação de um milhão de portugueses, quando a maioria dos portugueses mal sabe funcionar com um computador!

O que mais gostei na política, do Zé Tuga, este ano, foi a história da CIA. Aqueles secretos Americanos, pelos vistos fizeram do nosso país, posto de abastecimento mas ninguém sabia! Explicando melhor, enquanto foi ministro dos negócios estrangeiros, Freitas do Amaral, de nada sabia. A partir do momento que correram com ele do poder, avivou-se-lhe a memória e escreveu uma cartita para o Parlamento Europeu a confirmar os voos da CIA! Depois querem que o povo acredite nestes trolhas!

Para finalizar, nada melhor que a implementação das novas normas antitabagicas. É proibido fumar em locais públicos, como os hospitais. Não me assustei com a medida porque estamos a falar de Portugal e não de outro país educado. Para quem já presenciou, indivíduos a fumarem uns cigarritos para rir nas enfermarias dos hospitais de Lisboa, com a maior das conivências dos enfermeiros, querem-me fazer crer que estas normas vão pegar?

Só para rir! Para ano há mais!

Há alturas em que reflectimos sobre o que foi e no que se fez. É chegada a altura de fazer um balanço deste último ano e olhando para trás, chego à conclusão que foi intenso, repleto de alto e baixos. Em todos os sentidos e sentimentos. Foi um ano exemplar, reflexo do que sou e de como encaro a vida.
Há erros que insisto em cometer e pergunto-me porque tanta teimosia? É de feitio ou de carácter? Não chego a uma conclusão que me satisfaça sobre este assunto. Tenho a noção que a estrada ainda vai mostrar-me muitas curvas perigosas para serem palmilhadas, que eu poderia abordar em modo cruzeiro. Mas afinal, seria eu, se não fossem feitas a duzentos à hora? Talvez...
O ano começou numa nova casa, cheia de sonhos de felicidade eterna. A esperança nos píncaros, depressa deu lugar à tristeza, alento trazido pela traição de quem menos se espera. Que cópia tão vulgar de um passado longínquo. Bati no fundo, desesperei e esperei. Olhei para cima, ergui-me e desta vez o erro, fez-me ir à luta, endireitar prioridades. Quando comecei a edificar o futuro, apareceu o azar. Parti um pé, da maneira mais ridícula possível! Para ironia, das ironias, foi o pé que já não era muito católico! Tinha de ser, se não, não seria eu! Numa sucessão de acontecimentos, atestada de azar, vivi de tudo um pouco do que há de pior na vida. Voltei a duvidar, a desesperar, cheguei ao ponto de pensar se seria desta. A vida reviveu o fim da adolescência ao mostrar, quem realmente me quer bem. Foi por eles, valeu por eles.
Mas depois da tempestade, vem sempre a bonança, chegou o calor e com ele voltou o ânimo, o futuro sorriu. Nova oportunidade, a não desperdiçar! A vida começou-se a compor de cores alegres e vivas. Novo emprego, nova casa, nova vida, novos amigos. Tudo feito à medida do sonho perfeito. Talvez não perfeito, mas para lá caminha. Com o frio, as prioridades deram lugar à obra e já se concluíram as primeiras fundições.
Que fiz de errado este ano? Confiei cegamente, mais uma vez, em quem não merecia. Optei por decisões precipitadas. O que fiz de bem este ano? Muito! Voltei a acreditar em mim, comecei a criar património, recuperei amizades, recuperei alguma família e tentei, ainda tento, reparar erros do passado.
É caso para dizer comecei em baixo, acabei em alta! Mais um exemplo cabal do que é a minha vida. O que peço para 2007? Que continue a acreditar, a ter forças para lutar pelo meu lugar ao sol e acima de tudo a sonhar. Porque à que acreditar que o melhor ainda está para vir.

Os meus primeiros anos de liceu foram percorridos no Colégio Académico. Na altura não dei conta, mas os estudos não requeriam muita atenção, para conseguir notas apreciáveis. Por isso mesmo, fiz o meu percurso até ao nono ano do liceu, com notas agradáveis dispondo sempre de tempo, para as amizades, o futebol e os namoricos. Ao concluir os exames globais, queria enveredar pela área das artes, área que não se encontrava disponível no colégio. Para ajudar à novela, fui “convidado” a sair. O lado negativo da arte de bem desenhar é que o nosso traço é inconfundível e devido a esse meu dote para o desenho, não foi difícil à direcção do colégio perceber, quem era o artista que tinha exposto uma exibição, nas paredes da sala de ping-pong, de carácter pornográfico!
Para bem da minha integridade física, a minha mãe achou por bem não comunicar ao meu pai, o convite que me foi endereçado pela direcção do colégio. Abordando o tema da necessidade de mudança de escola, sobre o pretexto de não haver àrea de desenho no colégio. O meu pai, deliciou-se com a possibilidade de eu poder ingressar no Colégio Valsassina, local onde ele tinha feito todo o seu percurso académico. Puxou de alguns conhecimentos e tanto eu como o meu irmão ingressámos no Valsassina.
Não posso dizer que tenha sido um local onde me sentisse bem ou do qual tenha boas memórias. Como em tudo na vida, o mais selecto esconde sempre muita podridão. Meninos bem, com código de vestimenta e atitudes, que se sobrepunham a toda e qualquer qualidade ou virtude. Círculos restritos onde o ser popular era sinónimo de possuir um nome de família nobre ou um progenitor abastado. No meio deste ambiente de cortar à faca, onde era julgado constantemente, há que salientar a existência de alguns irreverentes que se desmarcavam do círculo.
E o que trago de positivo, por esse tempo, foram as amizades criadas. Os excluídos do círculo ou que se desmarcavam dele, produziram laços de amizade. Amizades sinceras e puras. Estes desalinhados eram olhados com desdém e inveja pelos membros do círculo. Sentimento causado por sermos irreverentes, revoltar-nos contra as normas impostas e que acreditavámos estarem erradas.
No seio dos desalinhados, começei uma união com outras três individualidades:
Brito, rapaz que na infância era o gordo com o qual todos faziam troça. Na adolescência emagreceu e revoltou-se contra o passado. Adoptou uma imagem e postura controversa. Fã incondicional da era dos anos 50 americanos, apresentava-se como se pertence-se a essa época. De barba cerrada, nariz pronunciado, olhos vivos e sorriso nervoso. A vestimenta era uma mistura de James Dean com motard chopper. Casaco de napa a imitar cabedal, brinco na orelha, t-shirt branca, calças de ganga, botas à cowboy e os mais variados acessórios com simbolismo americano. No seu todo aquela postura acabava por fazer sentido e tornou-se a sua imagem de marca.
Luis Nuno, iludia a sua insegurança com uma máscara de confiança, assumia uma imagem mais conservadora, mais condizente com a conduta requerida pelo círculo, consequência própria de quem tem medo de cometer um erro social. Estes receios provinham de uma infância carente de apoio maternal. Desde tenra idade, o seu mundo particular, apresentou-se solitário. Era o único adolescente que conhecia naquela altura, que almoçava e jantava sozinho em restaurantes. Estas vicitudes da infância apuraram o seu sentido de critica e sarcásmo.
E como um grupo nunca está completo sem a sua mascote, foi incluída uma quarta personagem. O Ivo.
Era o único que não estudava no Valsassina. Apareceu no grupo através do Luís Nuno, era filho de uma amiga de infância da mãe. Veio um dia almoçar connosco e acabou por ficar. A sua aparência dizia tudo e ao mesmo tempo nada. Com quase dois metros de estatura, escanzelado até ao osso e com ar de rato de biblioteca, aparentava uma insegurança irrealista. Reservado e inteligente, soltou-se e começou a ver o mundo com outros olhos. Era o alvo predilecto das brincadeira e ao mesmo tempo o nosso protegido.
Foi assim que nasceram os quatro magníficos. Um grupo de miúdos de personalidades distintas que foram à descoberta do mundo. Do bom e do mau, viveram todas as experiências da juventude sempre unidos, sempre presentes. Estavam a toda a hora disponíveis para uma nova aventura, onde estava um, estavam os outros três. Fizeram o possível e quando já tinham feito tudo, fizeram o impossível. Foram as personagem de uma novela que durou vários anos, mas acima de tudo, o que sobressaía era a amizade que os unia.

Não sou da Terra, sou do mundo. Sou estranho, e gosto de ser assim. Divago sobre assuntos banais e peculiares. Prevejo atitudes futuras e sei falar com as estrelas. Sou esquisito, inventivo e estratégico. Não perco tempo a pensar sobre o que acham de mim e não quero descobrir. Adoro o excêntrico e o poder da imaginação. Alicia-me estar num café a dissertar sobre banalidades.

A arte e a história fascinam-me. Salvador Dali, Gustav Klimt, Andy Warhol e Le Croubusier. Na música encontro a minha alma e no futebol do Benfica encontro a paixão. A velocidade dos automóveis e a pacatez das vilas deste país, cativa a minha noção de tempo.

Adoro conhecer novas pessoas. Posso aprender algo e passar a outros as minhas teorias. Todo o indíviduo tem algo novo para oferecer. Detesto a ignorância e também a invejo. Não sou de inimizades mas não tolero traições. Sou radical e boémio, mas consigo rever-me na ponderação e no clássico. Sou despistado com o corriqueiro do dia-a-dia e diligente com questões do ser.

Intriga-me o romance e relevo a amizade. Sou fiel e convicto nas relações. Necessito de espaço mas sinto-me bem na multidão. Perco-me no espaço mas saliento-me no indivíduo.

Esta é a minha essência e orgulho-me de ser único...

Nos últimos fins-de-semana andei a pôr a conversa em dia, com um amigo e colega de adolescência. Com a nostalgia sempre presente fomos revivendo o passado, as aventuras e as grandes emoções que elas nos provocaram. As histórias já saem algo foscas, pormenores faltam, mas o sorriso nas nossas caras, ao recriar esses momentos, é impagável.

O local destes nossos encontros é no Botas, restaurante que este meu amigo possui em Ranholas. Apareci a primeira vez, durante uma tarde e acabei por ficar para jantar, chegando a permanecer até a hora de fecho. Passamos o tempo recatados a uma mesa, deliciando com os petiscos e regando os copos com bons vinhos. A conversa flui naturalmente entre duas pessoas que viveram as aventuras dos quatro magníficos. Enquanto vamos avivando mutuamente a memória relembrando episódios caricatos que nos fazem rir, falamos também, sobre outros que passaram pelas nossas vidas, como estão e o que fazem. A esposa deste meu amigo junta-se a nós quando o movimento da casa o permite e vai ouvindo todas as embrulhadas e desventuras da nossa sobrevivência à adolescência.

A conversa parece nunca ter fim, o que faz com que acabe sempre por voltar no fim-de-semana seguinte, para retomar o diálogo, como se nunca o tivessemos parado. Como se pode condensar no tempo de uma conversa, as várias histórias que temos no nosso livro de memórias? Tem sido um vício, ou melhor, um gozo. É de salutar poder reviver, em companhia, estas lembranças e estas aventuras. Poder recordar o tempo em que a vida nos permitia sermos livres, jovens e despreocupados com o amanhã. Memórias que parecem tão distantes, tão longe de onde nos encontramos mas que por estes dias parecem ter acontecido ontem. O tempo passou, os miúdos tornaram-se graúdos mas as histórias estão vivas na memória para perdurarem até onde o tempo as permita.

I know i’m going to die so my reveange is living well...

Para quem não sabe, sempre tive uma paixão enorme pela música. Desde miúdo que tento cantarolar, não que seja um Frankie mas gosto de cantar, mesmo tendo a noção que não o faça da melhor maneira. Com os anos tenho melhorado mas sei que a minha voz também não dá para sair do mediano e para entoar com a mínima perfeição conta-se pela palma da mão o número de músicas.
Nas longas viagens de carro feitas no verão durante a infância e adolescência, acompanhava o meu pai nas músicas da k7, o resultado? Mandavam-me calar! Quando das festas lá em casa com o Zé Lúcio, ou mesmo os encontros de fim-de-semana passados no Brasil. Lá vinha eu de mansinho e entrava no coro improvisado! O resultado? Mandavam-me calar! Na adolescência entrei para uma banda, tocava guitarra de acompanhamento e aos poucos, sem qualquer indicação dos meus colegas, comecei a fazer segundas vozes. Resultado? Madavam-me calar!
Até que um dia as nuvens dissiparam-se e fiz uma grande descoberta! O karaoke! Por piada e com um certo nervosismo à mistura comecei a frequentar bares de karaoke’s. Tinha a noção de não ser o melhor mas como via bem pior do que eu, lá ia cantando as minhas musiquitas pleno de orgulho! O apogeu chegou, quando tive o meu próprio bar. Às quintas fazia noite de karaoke e criei amizade com a pessoa que fazia o espectáculo. Seguia-o para todo o sitio, onde ele fosse actuar e como àgua mole em pedra dura tanto bate até que fura! Comecei a entender como entoar certas músicas e como colocar a voz em certos trechos. Na plenitude da aventura e da incosciência do ridículo, cheguei a fazer um quarto lugar num concurso! Nada mal para quem era mandado calar! Mas o melhor ainda estava para vir!
Desde que abriu o bar cá na vila, a minha presença naquele local é diária. É onde muitas das vezes vou almoçar e onde bebo o cafezito de fim de tarde. Onde bebo a imperial a seguir ao jantar e onde convivo com os meus amigos da vila. O bar possui noites temáticas, uma das quais por qual anseio é a do torneio de pes. Ainda em estado embriatório mas que já conta com acérrimos candidatos. Às sextas-feiras é noite de dj, ao domingo temos de vez enquando stand-up comedy e sábado é a noite das estrelas! Karaoke!
Ora ao princípio, não estando ambientado ao meio, foi um bocado complicado atirar-me para um palco, sozinho e pouco à vontade. Mesmo assim ganhei coragem depois de ver um certo número de participantes, fiz-me à maré e cantei a primeira música! Muita gente veio-me dar os parabéns, incluíndo o rapaz que estava a fazer o karaoke. Desde o primeiro sábado, em que cantei a primeira música, as pessoas abordam-me assim que entro no bar, a perguntar que música vou cantar nessa noite. Acho piada, porque embora continue a ter a noção de que não sou nenhum rouxinol, bem longe disso, as pessoas esperam que eu vá cantar! O meu grande problema neste momento, é que o repertório está a acabar e vou ter que começar a treinar outras músicas para não desapontar ninguém, na hora de actuar!

Que dias, belos dias, vividos nas emoções que bramam no fundo do eu. Sentido de despertar, do realizar dos sonhos. De ver real o que muito sentia-se em falta. Que gozo que é vislumbrar o sorriso que de manhã se apresenta no espelho, andava desaparecido há muito, chegou-se a achar perdido. Os degraus que andavam soltos, já fazem uma escada. Ainda não se chega ao topo mas já se pode subir ao próximo patamar.
Como parecem longe as incertezas de tempos recentes. Dúvida-se da sua existência quando se olha à volta mas as marcas da alma e do corpo, provam que foram factuais, presentes de uma realidade que não voltará a existir. Que bom que são essas marcas do tempo. Empregam satisfação no que tanto custou a construir de raiz.
Já se desenvolvem as ferramentas para as novas conquistas. Há novas metas, outras batalhas para gladiar. Vem aí a maior de todas. Aquela onde vou clamar por todas as forças do universo para que arduamente possa pelejar pela verdade e pelo que é correcto. A sensação de que desta vez não haverá espaço para desilusões, alia-se à fortuna do querer. Ela incita-me a corrigir o maior dos meus pecados passados, orgulho estúpido e banal que só a outro lesou. Está para breve o próximo degrau. Isso prometo-te.
Espera por mim à janela, eu estou a chegar!

Ora já está! Oficializou-se mais um Bucelense. Com toda a pompa e circustância, o príncipe foi recepcionado pelos habitantes. Já se encontra imiscuído no meio da população, criou amizades e já é reconhecido quando passeia pela vila. As pessoas na sua amistosidade, vão soltando cumprimentos e jogando conversa sobre os sítios a frequentar, as virtudes e desvirtudes da vila. Esta pacatez do campo inspira o príncipe, eleva-lhe a alma e dá-lhe uma sensação de concretização e bem-estar.
O seu Chateau encontra-se no coração da povoação, com vistas frontais para a serra, onde na sacada respira-se o cheiro do orvalho pela madrugada. O Salão, banhado pelo sol matinal reflectido nas paredes, apresenta uma cromática de cores que espera ansiosamente pelas recepções e jantaradas que o tempo lhe apresenta. O quarto incubído no resguardo da privacidade apresenta cores alegres e intimistas que num redomar de acolhimento aconchegador, convida-nos a disfrutar do seu espaço. O Spot perfeito para uma vida perfeita.
O Chateau é hoje inaugurado, o príncipe encontra-se orgulhoso. Cheio que nem um sapo, recorda o caminho para aqui chegar. Longo, tortuoso, mas com um final saboroso, como quando encontramos aquela cereja no fim do bolo, de que não estamos à espera! Está aí para quem o quiser vislumbrar! Venham a Bucelas encontrar a rota dos vinhos, o calor e a simplicidade das pessoas, os cheiros do campo e do verde, o Chateau du Prince de Bucelas, onde serão sempre acolhidos aqueles que queiram disfrutar de bons momento de convívio!

Convergi em vários sentimentos este sábado. Tinha-me mentalizado para o que me iria deparar mas nunca se está realmente preparado. Quando cheguei à igreja fui conversar com a minha Querida. Embora não pratique qualquer religião, é nesta igreja que consigo manter um diálogo com a minha avó. Talvez por todo o simbolismo que este sítio teve na vida dos Moser. Foi aqui que presenciámos os batizados, os casamentos e onde velámos os nossos.
Quando me despedi da minha querida, sentei-me para o início da cerimónia. Ocupei um lugar mais resguardado, equivalente à minha ligação ao seio desta família. Fui revendo os rostos à muito longe do meu dia-a-dia, ao mesmo tempo que olhava com orgulho para o Pemy. Uma opção de vida, um querer e firmeza para levar por diante essa mesma opção. Senti-me orgulhoso ao mesmo tempo que mentalmente ia vislumbrando filmes de tempos idos. Tempos de rara felicidade e beleza, momentos onde as intempéries não existiam. Ao acordar para a realidade, olhei com carinho para as minhas primas e tive consciência de como o tempo voa. Estando ali naquele momento, começava a fazer sentido de manhã ter ficado espantado ao olhar para o meu cabelo, onde já são bem visíveis uns quantos cabelos brancos.
No fim da cerimónia, segui sozinho para o copo d'àgua, onde estive à conversa com a madrinha Margarida. Por ela é que o tempo não passa, nem deixa marcas. Gostei muito de a rever. É extraordinaria a sua sensatez e postura. Depois dos aperitivos, regados com Martini, fiquei colocado na mesa da duvideo. E a entrada dos noivos, foi feita ao som do Star War's. Indicada para o meu primo. O jantar correu bastante bem e estive sempre na conversa com os meus companheiros de mesa. Já de barriga cheia fiquei tentado a atacar a mesa de queijos e assim o fiz. Quando se começou a ouvir os primeiros sons do dj, fui sentar-me mais à frente.
Estive o tempo todo, perto da mesa das bebidas, junto a um pequeno grupo de amigos. Uns recentes outros de longa data, sempre em amena cavaqueira. Fomos os últimos resistentes a abandonar a festa e enquanto seguia o caminho para casa, enchi-me de pensamentos. quando tinha a idade deles optei pelos caminhos mais sinuosos. A vida dá muitas voltas e hoje estabilizaste. Agora é o tempo deles, esta-se a apróximar a altura dos grandes desafios da vida, das grandes decisões e sinto confiança neles. Sei que tudo irá correr pelo melhor.
E assim chegamos à conclusão de mais uma etapa da vida.






















Este fim-de-semana estive na festa do Vinho e das Vindimas. A festa tradicional de Bucelas. Nunca tinha ouvido falar de tal festa e estava curioso em saber como se processava. Durante a semana, fui sabendo mais pormenores, através dos meus conhecidos do núcleo sportingista de Bucelas. Sim do sporting! Ouviram bem! É uma águia na toca do leão! Querem o que? Não existe mais nada por aqui, onde se possa estar à noite! O Luís lá me foi explicando como se iria processar a festa, enquanto o Vasco me dizia o melhor sítio para ver o cortejo.

A praça central de Bucelas é contemplada, com um palco, uma zona de dança, outra de comes e bebes, uma banca de rifas, um espaço da padaria, com pão a sair na hora e uma outra em representação da junta. Ao longo da estrada podemos encontrar barraquinhas com artesanato local. O habitual nestas romarias mas o que realmente diferencia esta festa, das outras vilas, é o cortejo. Este é no domingo à tarde e apresenta vários carros alegóricos com as variadas fazes da criação do vinho.

Sexta-feira, saí do trabalho eram umas sete da tarde e fui directo para a praça, a festa já tinha começado e queria vislumbrar o que se passava. Misturei-me com a multidão que já preenchia a praça. Percorri todos os espaços e bancas. Na banca dos vinhos, para meu espanto, as Caves Velhas, só estavam representadas com o vinho branco de Bucelas. Depois fui à barraca da padaria exprimentar um pão com chouriço, feito em forno de lenha. De bramar aos céus! Percorri a zona do artesanato e segui caminho para o núcleo para ver o jogo do Beira-mar contra o Braga. Ainda o jogo não tinha terminado e já estava a ser aliciado para uma jogatana de snooker, com uns miúdos cá da terra. Depois de levarem três séries a seco, deram por finalizado o jogo! Este também era o dia da abertura do bar laranjinha que fica mesmo por baixo do núcleo e aproveitei para ir dar uma vista de olhos ao espaço. Depois do que vi, não ponho muita fé na longividade do bar. Os donos são simpáticos mas sem qualquer experiência e durante a hora que lá permaneci, vi de tudo um pouco. Bebedeiras, rixas e caloteiros a sairem sem pagar a despesa. Tenho pena, porque o espaço se fosse bem aproveitado, teria condições excelentes. Comecei a ouvir a música do bailarico e decidi, rumar para lá.

Encontrei o Luis perto dos comes e bebes, a dar o seu passo de dança. Convidou-me para juntar-me ao grupo e bem regado como já estava, aceitei o convite. O tempo foi passando com muitas rodadas de cerveja, coscuvelhices sobre as miúdas presentes. Aquela era isto e aquilo, a outra namorava com este mas já tinha estado com fulano e cicrano.... Eu no meio da conversa, sem conhecimento de causa lá ia dando o meu parecer sobre as belezas! Com a brincadeira já eram três da manhã e cheio de cerveja até à cabeça, foi com um enorme esforço que consegui despedir-me e conseguir ir embora para casa.

Sábado de manhã, pelas dez e meia, já estava de pé e fui para a vila, tomar o pequeno-almoço. Como é meu hábito, fui comprar o jornal e segui para o café. Bebi dois leites com chocolate, para ajudar a limpar o organismo e duas merendas para forrar o estômago. Depois de pôr a leitura em dia e ter feito as palavras-cruzadas, dirigi-me para a praça. Estava na hora de almoço e a barriga continuava a pedir atenção. Fiz a asneira de pedir uma fritada! Tanta gordura meu Deus! Tive de voltar a regar o estômago. Nesta vila quando se começa a beber, aparece sempre alguém para fazer companhia! O mais dificil é ir recusando mas tentei preservar-me, porque não ia ficar para a festa dessa noite, tinha outra mais siginificativa que obrigava-me a pegar no carro. Tinha de ir a Lisboa para a festa de despedida de solteiro do meu primo! Mesmo assim foi um martírio conseguir-me safar às solicitações.

Cheguei ao restaurante eram oito e meia. Não vi viva alma e indaguei o empregado sobre se seria mesmo ali o jantar da festa. tinha a ideia que era esta a hora combinada mas estava errado. A mesa estava marcada para as nove e meia. Fiquei a bebericar umas caipiroscas acompanhadas por mini-chamuças enquanto ia vislumbrando o jogo do Porto. Os primeiros a chegar foram o padrinho do noivo e um amigo. O meu primo chegou para lá da hora combinada.

O Pedro, recusou-se logo a beber, com a desculpa que não apreciava a sangria, nem as caipirinhas. Manteve-se na coca-cola mas comentou que a sua bebida predilecta é o whisky Jameson. Quando se aproximava o final do jantar, o noivo, continuava sóbrio e Eu, O Miguel e o Tiago, combinámos de pedir um Jameson para o Pedro e que o Miguel faria um discurso, obrigando-o a beber aquando do brinde! A brincadeira pegou, e o miúdo deve ter bebido uns bons quatro baldes de whisky de penalti! Tal foi a onda de discursos!

O Pedro que ao início da noite se tinha mostrado relutante a uma ida a casa de strip, como é usual neste momentos! À saída já nem sabia bem o que queria e lá o conseguimos colocar dentro do moquinhas com rumo ao strip. Pelo caminho tive de parar o carro. O Pedro precisava de vomitar e só o parou de fazer à porta da casa de strip. Ainda fui pedir umas garrafas de àgua com gás para tentar recompor-lo mas o rapaz não se aguentava em pé e só pedia para o levarem a casa! Como só tinhamos levado dois carros. Fiquei sozinho enquanto os restantes levaram o Pedro para casa. Como àquela hora já não iria a tempo de voltar para a festa em Bucelas, acabei por entrar e beber mais um copo antes de ir para casa.

Domingo, fui para a praça era meio-dia e dei de encontro com a Paula, minha colega na empresa e que estava de serviço na Enoteca. Tinha vindo cedo de mais e andava a conhecer a vila. Fomos comprar jornais. Eu, o correio da manhã, ela o público e sentámos na praça a ler-los. Pedimos uma sopa para cada um para servir de almoço. Ficámos por lá a ouvir a banda e a fazer tempo para a enoteca abrir. Estava a contar com uma prova de vinhos antes de ir ver o cortejo!

Às duas horas seguimos o percurso a pé até à Enoteca. Pelo caminho ia cumprimentando as pessoas e a Paula ia comentando como eu já estava integrado na vila. Levei logo um balde de àgua fria quando chegámos ao nosso destino. Estava lá a Dr. Maria José, não ia haver provas de vinho para ninguém! Os planos estavam desfeitos e decidi ficar por ali a ajudar e ainda aproveitei para fazer uma visita às caves, que não conhecia.

O cortejo é giro de se ver. É diferente dos cortejos que já vislumbrei. Os participantes trajados com vestes antigas, vão em cima de carros puxados a tractores, retratando cada fase da produção do vinho. Outros seguem atrás dos carros cantando, cantigas de outros tempo. Mas o meu maior espanto foi ver que no final do cortejo, as pessoas que participam sentam-se no chão ao longo das ruas, a merendar. A invocar os tempos antigos em que as pessoas se juntavam todas a seguir à vindima. Quem está presente a assistir ao costejo é convidado a juntar-se à festa, sentando-se no chão a comer sardinhas, uvas e pão e a beber vinho tirado da pipa! Muito giro e muito penoso para o estômago! Juntei-me ao senhor Júlio, perto do carro que trazia a pipa, em amena cavaqueira, sempre de copo cheio!

Quando terminou a merenda, desloquei-me para o café da praça onde me aguardava o Luis. Tinha-lhe prometido que passava por lá para provar a ginginha e comer um pão com torresmo. E foi então que fiz a maior descoberta do fim-de-semana! Então não é que os cafés oferecem àgua-pé à discrição durante o fim-de-semana!? Podiam ter-me avisado com antecedência! Escusava de ter gasto dinheiro em bebida! Bem, fiquei por ali abancado a beber a minha àgua-pé até à hora do jogo do sporting. Ainda me aguardava um lanche ajantarado no núcleo!

Cheguei ao núcleo pelas oito da noite, levei uma garrafa do nosso Bucelas para juntar à festa. Fiquei a ver o jogo do Sporting à conversa com o Bicho, um dos dirigentes do núcleo. Ele ainda ofereceu-me uma cerveja, mas já não conseguia beber mais nada! Não cheguei a participar do lanche ajantarado. Ganhei tino e achei que tinha chegado a hora de rumar à cama e fiz-me a casa! Afinal hoje é dia de trabalho!

O Rali Rainha Santa disputa-se todos os anos no fim-de-semana mais perto do dia da celebração do falecimento da Rainha Santa Isabel. Dia oito de Julho. Antigamente estava incluído no calendário nacional de ralis mas com o vinte cinco de Abril deixou de ser disputado sendo retomado nos anos oitenta, como rali de segunda categoria. Foram convidados os antigos concorrente a participar e entre eles o meu pai, por isso desde novo que acompanhava o meu pai nesse fim-de-semana. Com o passar do tempo o rali foi aberto a novos concorrentes e um dos sonhos que o meu pai sempre quis realizar, era o de conseguir juntar toda a familia como concorrentes. Ele, eu e o meu irmão.
Em noventa e cinco o meu irmão tinha acabado de tirar a carta e eu tinha saído do hospital em Abril. Foi-me dada alta com a perna esquerda engessada, com previsão de um ano até ser removido. Na minha mente, só ponderava participar no rali desse ano como co-piloto do João ou do meu pai, e mesmo assim só o faria para agrado do meu pai. Na cabeça do meu pai, ele achava que era bom eu participar, mesmo que não forçasse o andamento, o que importava era participar. Fui-me recusando a pilotar no rali. Não estava em condições fisicas para conduzir depressa e tinha medo de poder prejudicar-me. Acabei por ceder às pretensões do meu pai e deixei-o inscrever-me.
Durante um mês o meu pai, não falava de outra coisa. todas as conversas desembocavam no rali e como pela primeira vez ia participar o "clã" Manique. Para não dar mais ideias ao meu pai, eu recusei-me a levar o Crx. Participava sim, mas com o Corsa. Assim não lhe dava uma desculpa para pedir-me para disputar o rali para vencer. Tendo-me recusado a levar o Crx era preciso arranjar um carro para o João e foi reservado um Twingo para aluguar em Coimbra.
No dia de arranque para Coimbra, o meu pai saiu à frente com a Elsa Steglich, sua namorada da altura e co-piloto, enquanto eu ia buscar o Ivo e o meu irmão. Tinha combinado com eles em Alvalade num café por baixo da casa do Ivo. Iriamos os três no meu carro para cima. Ao chegar a Alvalade, à hora combinada o Ivo estava atrasado como sempre e comecei a ligar ao meu irmão. O telefone tocava e nada! O Ivo desceu e fomos tomar café. Passei as duas horas seguintes a ligar para casa da minha mãe e nada de resposta. Já fartos de esperar, comecei a ponderar passar em casa da minha mãe. Voltei a fazer uma última tentativa. Atende-me o João com voz de sono, tinha-se deitado tarde e não ouvira o telefone. Disse-lhe para se despachar rapidamente e para ir ter ao café, estavamos mais do que atrasados. Passou-se mais uma hora e nada do João aparecer! Entretanto, recebo um telefonema do meu pai preocupado conosco, contei-lhe o que se sucedia e ele disse-me para me vir embora. Respondi que ia dar ao João mais meia hora depois disso seguia viagem.
Quando estava prestes a vir-me embora o João chegou, com a maior cara de paú. Dei-lhe uma descompostura e preparava-me para ir-me embora, quando ele me comunica que ainda teria de voltar a casa para fazer a mala. Perdi as estribeiras e disse-lhe para ele fazer a viagem como quissese pois de certeza que comigo não a faria, pois recusava-me a esperar mais um minuto por ele! Já se tinham passado três horas desde a hora combinada! Sua excelência, saí-se com o seguinte comentário: - Por mim nem vou. Eu até nem queria ir! Foi a gota-de-àgua! Vim-me embora e liguei logo ao meu pai a contar a história.
A minha participação no rali estava a ser de uma postura de passeio e tinha dito em alto e bom som, para toda a gente ouvir-me, que iria fazer a prova de perícia devagar. Esta é a última fase do rali e na qual se encontram os resultados. Todo o resto da prova é de uma postura de convívio e todos cumprem o mesmo tempo. Quando chegou a minha altura de entrar para a perícia, olhei para o meu pai e vi uma certa amargura por não se cumprir o seu sonho. Tomei uma decisão e pensei bem na asneira que ia fazer. Não disse-lhe nada.
Mesmo antes do Ivo sair do carro, para eu começar a minha participação. Virei-me para ele e disse-lhe só isto: - Vou dar tudo por tudo, pelo menos a ver se o meu pai ficar contente. Ele respondeu-me: - Achas que é boa ideia, estando tu nesse estado? Só tive tempo para dizer: - Não! Mas tem de ser.
Foi o minuto e quarenta e nove segundos, mais longo da minha vida. Acabei a participação e não tinha forças para sair do carro, todo eu pingava do suor. Fiquei sentado no carro uns bons dez minutos a tentar recuperar forças. A primeira pessoa a vir ter comigo foi o Ivo. Pergunto-me se estava bem, fiz sinal de mais ou menos. Ele sorriu e disse-me: - Tens o melhor tempo e só faltam mais cinco concorrentes! Não quis acreditar, tinha a sensação que tinha corrido bem, mas nunca imaginei ser possível bater os tempos dos Coopers. Esta notícia deu-me animo e sai do carro para ir ter com o meu pai que estava sentado ao lado do Ni. Quando me acercei deles, não me disseram nada. Nem um, nem outro. Sentei-me ao lado deles a apreciar as outras participações que faltavam, mas eu bem que vi a troca de olhares entre eles e pensei: - Pronto, o meu papel está feito. Fizeste bem!
A espera pelos fim das restantes participações parecia-me uma eternidade. Fui-me embora sem saber os resultados finais, precisava de descansar. Eram umas cinco da tarde e tinha de estar pronto às nove para o jantar de entrega de prémios. Cheguei ao hotel e caí que nem uma pedra na cama. Não me dei, sequer ao trabalho de tirar a roupa. Não tinha forças. O Ivo acordou-me, faltava um quarto de hora para as nove. Não teve coragem para acordar-me antes, passei o tempo que estive a dormir a gemer com dores e ele simplesmente percebeu que eu necessitava de descansar e teve pena de me acordar antes.
É com muito gosto que recordo o momento em que recebi o meu troféu. Foi das mãos do meu pai que o recebi. Foi um abraço muito sentido, de ambas as partes. O mais caricato da situação foi ver a cara de muita boa gente, quando subi ao palanque em canadianas. Pensavam que o Ivo é que ia a conduzir e eu seria o co-piloto! Passei uma boa hora a tentar explicar a muita gente que afinal era eu o condutor!

É incrível o ciclo de altos e baixos que existe numa vida. O que queremos hoje, pode ser o oposto do que tanto ansiámos no passado... Vá-se lá entender a vontade do ser humano!
Quando miúdo, fui um previlegiado por ter acesso a tudo e consequentemente isso era-me atirado à cara sempre que despoletava uma discussão com o meu pai. Essas discussões acabavam sempre com o mesmo final. A refugiar-me no fundo da minha cama, sonhando, em como de bom grado, trocava tudo o que possuia para poder usufruir de um pai presente. Alguém com quem podia contar no apoio das decisões. Que fosse comigo à bola ou que estivesse presente nas minhas pequenas glórias. Tal nunca sucedeu e a infância e adolescência, passei-a sem a figura paternal que tanto ansiava.
Depois do divórcio dos meus pais, passei a usufruir de uma relação muito estreita com o meu pai. Aquilo que tanto almejei chegou de uma maneira deturpada. Talvez por necessitar de um ponto de referência familiar onde se abrigar, o meu pai apoiou-se muito na nossa relação, tornando-se a mesma algo extravagante, muitas das vezes os papeis foram trocados. Tive que tomar as rédeas da nossa relação para poder preservar o seu bem estar e muitas foram as noites passadas em claro dando sermões sobre excessos e comportamentos menos próprios.
A adolescência percorri-a repleta de namoricos, nunca me entreguei por inteiro e descontraidamente ia coleccionando relações sem futuro. Fugia sempre que encontrava alguém com vontade de se entregar por inteiro e com isso, ainda parti alguns corações. Quando entrei na idade adulta passei a olhar com ternura e inveja as relações duradouras e desejava muito, quando miúdo, ter tido a sabedoria de cultivar uma relação. Vivia a sonhar com a "minha" família e como trocava num ápice toda a vida noctívaga e de luxo, por um ambiente aconchegante de um lar nosso.
Um dia esse momento chegou, um pouco forçado pelo meu sonho de ser pai e pela vontade de alguém de ser independente dos progenitores. Foi uma altura repleta de dificuldades, onde vivia com o único objectivo de ser melhor pai, que o meu tinha sido para mim. Esqueci-me, ou melhor, a vida não me tinha ensinado que era preciso existir amor entre duas pessoas para que as coisas resultassem. As privações foram várias e com elas vieram ao de cima conflitos. Inevitável entre duas pessoas de classes sociais diferentes e com maneiras de estar na vida tão opostas. Eu conhecia o lado luxuoso da vida e não sentia falta dele, o outro lado desejava ardentemente por essa face supérflua que eu não conseguia proporcionar naquela altura. Abrutamente tudo terminou e que com isso quem mais sofria era quem eu mais tentara proteger.
A seguir, vi-me isolado durante muito tempo da lucidez necessária do querer. De objectivos para existir, vagueava pelos caminhos da vida à espera de algo que me fulminasse a ter vontades. Conformei-me com o que recebia da vida e dos outros. Fosse muito ou pouco. Não tinha projectos e não pretendia criar um futuro. Aceitava os impropérios, a castração e as criticas com indiferença. Nessa altura indagava-me sobre o que falhara no campo profissional e no campo sentimental, embora não desse relevância ao que o destino poderia guardar-me.
Foi num dia sem planos, que deixei-me impressionar por alguém que viu em mim capacidades que nem eu mesmo já era capaz de rever. Fez-me acreditar novamente, ganhei uma lufada de força interior e julguei que seria possível ser feliz sentimentalmente. Mais uma vez errei. Voltei a sonhar que o materialismo dos nossos dias não afectava os demais. A verdade é que quem nunca teve não sabe apreciar o que é o não ter e o gozo que dá a luta a percorrer para ter. As dificuldades fazem parte desse caminho e fazem com que o sucesso tenha um sabor ainda mais especial. Será tão complicado entender isso?
Nas primeiras dificuldades o timoneiro ficou sem a tripulação e revelaram-se as reais posturas de vida de outros. O barco foi apanhado numa tempestade sem ver um porto de abrigo. Mas a vida tem destas coisas, a experiência é um factor extremamente importante. O saber e o querer, ganharam mais força e não podiam dar razão às críticas e depreciações que se conjugavam à sua volta. Prometi a mim mesmo que embora a fé nas minhas capacidades tivesse desaparecido da face dos outros, um dia todas as críticas de desperdício de talento e de sucessivos insucessos seriam bem refutadas. O tempo amainou, e o barco chegou a bom porto profissional. Agora há que consolidar alicerces e recuperar o tempo perdido. Vamos dar tempo ao tempo e focar um aspecto da vida de cada vez.
Continuo a sonhar... Talvez seja possível, um dia conciliar os dois campos com sucesso mas nesta fase da vida aprendi a não voltar a abdicar do que conquistei. Custou muito voltar a estar no topo e hoje já não faço qualquer troca radical.
O calo da vida lembra-me, que o meu sucesso profissional é uma grande orgulho para todas as privações passadas e que se a vida não me bafejar noutros campos posso sempre dar-me por satisfeito por ter chegado aqui.

Quando recordo a minha adolescência e os tempos passados na Ericeira, vêm-me à memória aquela série espanhola do Verano Azul. As nossas viagens de Lisboa até aquela vila, eram feitas por quatro miúdos lado a lado na suas motas, relembrando a introdução da série onde os protagonistas aparecem numa passeata a andar de bicicleta.
Instalávamos as trouxas na vivenda do Brito ou em casa da avó do Ivo e à boa maneira do veraneante tuga, passávamos os dias entre os banhos na praia e os copos da esplanada. Naquela zona pitoresca passei dias muito divertidos, já reconhecidos pelos habitantes da vila e considerados uns putos à maneira.
São momentos inesquecíveis, as tardes passadas no Big Wave e as petas que o empregado contava das suas aventuras no surf. Histórias fictícias mas sempre numa boa onda iamos incentivando e fingindo acreditar. Encontrava-mos ócio no salão de jogos, numas partidas de snooker e de bilhar, depois de banhos de sol e de uns mergulhos naquelas àguas frias. Na praia o tempo era dedicado a gozar com os putos de Lisboa que se faziam à àgua como sendo grandes cromos do surf e do bodyboard ou a regalar os olhos com as miúdas, tal como Javi e Pancho miravam Bea.
A noite começava no bar Cadillac e os seus cocktails. De seguida rumávamos à discoteca polvo, onde iamos todas as noites, exceptuando as quartas e os fins-de-semana. Já conheciamos o pessoal e acabei por fazer amizade com uma das barwoman. Existia sempre bar aberto para nós! As noitadas de quarta e os fins-de-semana estavam guardados para a S.A. e o Ouriço. eram sempre grandes noites! Havia mais gente pela vila e por mais incrível que pareça acontecia sempre algo inabitual, uma rixa, uma conquista, copos a mais, novas amizades! Era impossível prever o que iria acontecer!
Tal como na série tivemos por lá algumas aventuras, namoricos e festarolas. Quatro miúdos nas suas travessuras, embuídos pelo espirito de verão! Que bons tempos e que saudades...


No sábado passado tive um dia no mínimo bizarro. Tinha planeado um encontro em Lisboa para as dez e meia. Ia ter com a Pipa para fazermos um raide de fotografia, algo que já não fazia à muito tempo e que aguardava com uma certa ansiedade. Tinha também programado ir ao mecânico antes de ir ter com a Pipa, para tratar de encomendar um radiador e tratar do Fiesta do Fran.
Eram sete da manhã e estava mais do que acordado, já farto de não ter nada para fazer, fiz-me à estrada e cheguei à porta do mecânico eram oito da manhã. Fiquei a fazer tempo à espera que ele chegasse para depois seguir para o Chiado. Eis que começa a aventura!
Um carro da polícia manda-me parar e pede-me os documentos do carro. Como sou uma cabeça oca, esqueci-me que os documentos estavam com o mecânico, desde que ele ficou de fazer a inspecção ao moquinhas! Bonito, não tinha os documentos comigo e nada que me identificasse! Os policias que até aquele momento foram bastante compreensivos com a situação, não acharam muita piada quando ao olhar para o interior do carro, viram que este não tinha o canhão da ignição e tinha ligação directa. Tentei explicar que tinham assaltado o carro à umas semanas e que partiram o vidro e estragaram a ignição e que a ligação directa tinha sido feita pelo mecânico, visto eu na altura não poder pagar um canhão novo. Nada feito, para a esquadra até ser identificado e os documentos do carro aparecerem!
Ao chegar à esquadra pedi para fazer uns telefonemas. Primeiro liguei à Pipa a desmarcar o nosso encontro e depois telefonei ao Leonardo. Mas nada de atender o telefone! Vi-me numa situação hollywoodesca! Os policias não acreditavam na minha história e passaram o tempo todo a pressionar-me para confessar que tinha roubado o carro! Que filme! Lá irritado pedia para contactar o mecânico, mas o Leonardo não atendia, até que finalmente à enésima vez atenderam o telefone! Era o filho do Leonardo. Ele contou-me que o pai tinha sido internado no hospital na quinta-feira e que só devia sair na segundo ou terça! Expliquei-lhe a minha situação e o rapaz foi muito prestável e anuiu em ir à oficina buscar os meus documentos e do carro!
Na esquadra, passaram a tratar-me de outra maneira e lá me deixaram ir tomar o pequeno-almoço. Coisa que tinha pedido anteriormente mas que me tinha sido recusada! Naquelas mentes deturpadas, deviam pensar que eu de canadianas podia fugir facilmente a qualquer policia! Ridículo! Mas enfim é o que temos! Depois de ter conseguido saciar a fome, visto até aquela altura só ter um copo de leite no estômago, voltei para a esquadra à espera do filho do Leonardo. Já não tive de ir para a salinha de interrogatório, deixaram-me ficar na recepção sem ter qualquer vigilância! Por aqui se vê a inteligência da nossa policia! Então eu não podia ir acompanhado por um polica ao café comer algo mas já podia ficar sozinho, sem vigilância depois de dizer que iam trazer os documentos! Ainda nem tinha apresentado qualquer documento! Cretinos!
O filho do Leonardo lá chegou com os documentos e tudo se resolveu em cinco minutos! Não me consegui foi safar de vir embora com uma multa de sessenta euros, por conduzir sem documentos! Já os policias que me escoltaram até à esquadra eram cheios de sorrisos e desejos de boa viagem! Pudera! Depois de cinco horas enfiado na esquadra a ser interrogado, era bom que estivessem com sorrisos e amabilidades! Com esta brincadeira fiquei com o dia todo estragado e de bolsos vazios! Sem contar que a Pipa não achou muita piada ter dormido um par de horas para chegar a tempo ao nosso encontro e ter ficado apeada! Mas já me redimi! Vou compesar a minha falta com uma ida ao clube do Sushi!

A vida têm sido repleta de aventuras, de emoções e acontecimentos. Cada tempo têm o seu tempo mas Coimbra foi uma cidade que recheou-me a vida. Com ela aprendi bastante, tornei-me mais maduro e acima de todos os valores, conheci o verdadeiro significado da amizade. Como costumo dizer a quem é estudante - Só é estudante quem esteve em Coimbra, os outros resumiram-se a tirar um canudo.
Houve uma determinada altura em que dentro dos amigos, criou-se um grupo mais restrito, com maiores afinidades. Sem qualquer planeamento, naturalmente começámos a ir almoçar juntos a outros sitios menos habituais. Almoços que se prolongavam pela tarde dentro fazendo-nos esquecer as aulas e trabalhos práticos que nos aguardavam. Dois, três carros no máximo seguiam ruma às mais variadas paragens de Coimbra e arredores. Num desses repastos só parámos quando chegámos a Cantanhede! Pelo caminho iamos tirando fotografias uns aos outros, trocavámos a máquina em pleno andamento! Faziamos as maiores caretas e loucuras! Coisas do género de o primeiro carro a parar nos semáforos, aguardar que ficasse amarelo para arrancar deixando o colega de trás atrapalhado ou em faixas únicas conduzir a dez à hora, recebendo uma ovação de buzinadelas contínuas do parceiro! Era um grupo bem divertido, unido e muito especial. Hoje já todos somos adultos e com vidas preenchidas pelas responsabilidades inerentes à idade.
Não me recordo como despoletou-se estas tropelias. Do nada começámos a fazer malandrices aos carros uns dos outros. Só me lembro que começou-se por retirar pneus aos carros deixando-os sobre tijolos. Ao fim do dia era ver um grupo de pessoas, em plena risota, à volta do carro, enquanto o proprietário resignado com a brincadeira, voltava a colocar o pneu. As brincadeiras foram-se tornando mais intensas e complexas e ao fim do dia, era grande a expectativa entre os alunos para saber qual tinha sido a loucura do dia e quem era a vítima! Um dia a vítima foi o André, que possuia um Seat Marbella, um carro que se desmonta todo com uma simples chave de fendas! Retirámos os bancos da frente e o traseiro e trouxemos para dentro da ARCA, entrámos no bar e fizemos dos bancos do carros as nossas poltronas, enquanto jogávamos uma sueca! As matrículas foram afixadas no quadro de informação e o coitado do André, porque ninguém se descozia do paradeiro delas, perdeu cerca de uma hora até dar com elas!
É óbvio que eu sendo um dos galvanizadores destas situações, um dia também sofri na pele as consequências! Já andava desconfiado que o próximo alvo a abater seria um dos meus carros. Por uma questão de paixão maior pelo Crx, decidi preservá-lo às brincadeiras e deixei-o em Lisboa umas duas semanas. Andava com o Corsa, desconfiando sempre de todos e tendo muito cuidado com as chaves. Não foi suficiente! Um dia estava dentro do carro a ouvir música, à espera que acabasse a hora de almoço. Nesse dia estava um sol abrasador e achei melhor deixar uma brecha no tecto de abrir, para não encontrar o carro um forno quando acabasse as aulas. essa frecha não teria mais que dois centímetros de altura! Passei a tarde descansado e não desconfiei de nada!
O plano foi muito bem engendrado e acabei por dar os parabéns aos obreiros. Foi sem dúvida a melhor tropelice de todas! Como nós frequentávamos o curso de design gráfico, tinhamos uma relação estrita com o jornal de Coimbra. Os maquiavélicos dos meus colégas, aproveitaram-se disso e foram pedir as aparas do jornal desse dia. Passaram horas a enfiar aparas de papel para dentro do meu carro, através da brecha do tecto de abrir, até conseguirem encher totalmente o espaço interior do carro! Para que fosse ainda maior o meu espanto, forraram o carro todo com páginas de jornal de maneira a que eu não percebesse a surpresa que iria encontrar lá dentro. Quando terminaram as aulas e saio a porta principal percebi logo que tinha chegado o meu dia! Um grupo de alunos já rodeava o meu carro e esperava-me com altos risos. Abriram uma clareira e pude vislumbrar o Corsa todo repleto de jornal. Comecei logo a meter-me com os meus colegas com o seguinte comentário: - Sinceramente estou desiludido, estava à espera de qualquer coisa mais complexa! Eles expectantes pelas minhas reacções seguintes, alargavam os sorrisos e na altura não compreendi. Comecei a desembrulhar o carro e ao visionar o estado em que estava o interior do Corsa, fiz uma cara de espanto que despoletou a gargalhada geral!
Momentos de confraternidade, como estes nunca comprovei em qualque outra escola ou universidade do país. Um sentimento maior que a amizade. Que existiu e existe entre um grupo de pessoas que conviveram diariamente durante quatro anos. Tenho muito orgulho e digo-o em voz alta para que todos me oiçam. Eu fui um estudante de Coimbra!

Desde sempre tenho o gosto pelo automobilismo, muito por força do meu pai, que no seu tempo correu em ralis e sempre que podia, levava-me com ele para as corridas. Cresci a ver automóveis e a saber apreciar-los. Na adolescência cometi loucuras de escapulir-me pela noite dentro, com os carros dos meus pais, sem rumo, só para poder disfrutar da condução. Quando tirei a carta de condução, comecei a entrar em ralis e nas perícias. Ainda espantei muita gente com alguns brilharetes. Tive o prazer de conduzir belas máquinas e cheguei a ser proprietário de uns belos exemplares.
Tenho saudades de alguns mas hoje em dia, continuando a ser um apaixonado pelos bólides, tenho um grande apreço pelo moquinhas. Quem me tira o moquinhas tira-me tudo! O moquinhas é o carro mais velho que alguma vez tive, o menos potente e em pior estado. Adquiri o moquinhas à quase dois anos e desde sempre foi pedindo a minha atenção para a sua manutenção. O seu estado tem se detiorado mas nos momentos mais dificeis mantêm-se firme e cumpre o seu papel de fiel aliado.
Mesmo com todos os problemas que tem, já vivemos muitas aventuras juntos. Já possuímos um vasto rol de quilómetros e viagens. Não gosta de ser conduzido por outros e como qualquer um, com um personalidade muito própria tem os seus truques. Alguns tentaram conduzir-lo mas ele não arredou pé. Só depois de alguma conversa para apaziguar o seu espirito rebelde e de promessas de fidelidade é que volta ao seu estado normal.
Desde que nos conhecemos o moquinhas tem sido o meu melhor amigo, falo muito com ele e sabe todos os segredos da minha vida. Ainda bem que é mudo porque de certeza se um dia abrisse a boca, eu procuraria um buraco para me esconder! Grato pelo seu silêncio, já lhe prometi que agora que a minha vida está a melhorar, vou juntar umas coroas para fazer dele um carro orgulhoso do seu aspecto. Mesmo que um dia adquira outro veículo, vou manter o moquinhas ao meu lado, pois não se deve abdicar do nosso melhor amigo por umas curvas esbeltas.

Quando apareceram os Jogos da Cidade de Lisboa, eu era um miúdo que disfrutava do seu tempo a jogar à bola no colégio ou no jardim. Adorava o desporto, fiquei intusiasmado com a ideia de poder participar mas guardei quase até à última para ir à junta de freguesia inscrever-me. No dia anterior ao fecho das inscrições, fiz-me ao extenso caminho do jardim até à alameda! Entrei na junta e com a minha ingenuidade de criança patente, pedi para me inscreverem. Achava que seria colocado numa equipa! Recebi a notícia que teria de formar uma equipa de pelo menos dez jogadores!
Ao ouvir a minha conversa com a secretária da junta, um senhor que por lá laborava veio falar comigo. Disse-me que era presidente de um clube e que se até ao dia seguinte conseguisse arranjar os jogadores suficientes, oferecia-se para nos inscrever como jogadores do clube! Achei o máximo, podia jogar num clube, com direito a camisola, treinador e lanche no final dos jogos! Mas onde iria arranjar eu nove jogadores? Não ia desistir desta oportunidade única!
Fui para casa, contei à minha mãe o que se passara na junta e comecei a fazer uma lista dos amigos com jeito para a bola. Tal qual um prospector de talentos, comecei a fazer a minha lista. Consegui chegar à meia dúzia de unidades mas deparei-me com o problema da idade de dois deles. Eram mais novos! Estavam excluídos mas ainda dava para formar a equipa. Todos os elementos eram meus colegas do Colégio Académico, de diferentes anos e turmas com os quais estava habituado a jogar nos intervalos das aulas.
No dia seguinte de manhã, lá andava eu feito barata tonta! Aproveitava os dez minutos dos intervalos para desafiar e convencer os meus amigos a se inscreverem. A todos tive de explicar a história e com o poder de persuasão de um empresário, conseguia entusiasmar-los e com que assinassem a ficha de inscrição! Ao fim da tarde tinha as dez fichas completas! Saí disparado para a junta, encontrei-me com o senhor Carlos mas não tinha reparado num pormenor! Faltava a assinatura dos encarregados de educação, visto sermos todos menores.
Corri para casa, encontrei a minha mãe e contei-lhe o que se tinha passado. Ela começou a ligar para casa dos meus amigos para falar com as outras mães e depois de ter o seu consentimento, ia falsificando as assinaturas. Era uma falcatrua menor para tão grande causa. conseguimos completar as fichas e assim consegui inscrever a nossa equipa.
Os anos passaram e relembrei-me desta história depois de um dia, no trajecto para o emprego, ter passado por um restaurante do qual já não guardava memória, mas que automaticamente se avivou cristalino. Sorri para mim e revivi aquele dia. Foi no restaurante "Os pneus", propriedade do sogro do Paulo Almeida, nosso treinador, que fomos todos celebrar o final do torneio. Aquela equipa formada em cima do joelho teve direito a homenagens do clube pela conquista de um honroso quarto lugar!
Peço desculpa por não lembrar-me de todos os jogadores mas aos que ainda recordo: Luís Faria, Zé Fausto, Pedro, Nuno Magalhães, Bruno Evangelista, Carvalheira, Miguel, Godinho, Filipe, Bruno Reis, Veiga, Nuno Delgado... A todos o meu obrigado por terem feito do sonho realidade. Alguns anos depois fomos vice-campeões de Portugal e quem diria que a base desta equipa foi feita de um dia para o outro? De fazer roer de inveja Mourinhos e companhias.

A vida é repleta de alto e baixos, farta em emoções e sentimentos. Posso assegurar que a minha tem sido assim embora permaneça cego... Consigo distinguir coisas que parecem tão escondidas e secretas e não reparo no óbivo. Principalmente tenho falhado nos julgamentos que faço das pessoas.

A maneira frontal como sempre desbravei o meu caminho, fez com que deixasse de lado grandes figuras, pessoas que me enriqueceram, que mostraram o seu apoio estando presentes nos piores momentos desta minha vida. Nunca soube agradecer. Peço desculpa a eles.

Mais uma vez fiz um julgamento errado de alguém, falhei por quilómetros o meu juízo. Desta vez, vou por um ponto final nesta maneira de estar. Desde que a vida me deu uma nova oportunidade, dicidi apagar o passado recente. Os erros estão cometidos e tenho de saber lidar com eles, a vida está aí e não tem complacência, há que seguir em frente!

Tento compensar aqueles que perderam. Dedicar-me aos amigos que ficaram e à pouca família que ainda resta.

Não é ano novo mas tomei ressoluções e é assim que vou abordar as pessoas e a vida. Vou fechar-me no meu mundo provinciano e daqui não saio! A borracha que passei no passado, só não apaga o que ainda guardo para aqueles que falharam. Acabou-se o parvo e a passividade. Encaro tudo e todos de frente e alguns dos erros que cometi no passado vou tentar reparar-los, à minha maneira!

Estavamos em Abril e era chegada a altura de rumar à capital espanhola para a exposição da Arco. Na feira de Madrid podemos contemplar massivamente as obras de arte actuais, das galerias com maior projecção internacional. Um amplo espaço dividido por três edifícios. Um fim-de-semana que não chega para poder avaliar todas as peças de arte. Para mim, significava recolha de informação, ver outras perspectivas, assimilar novas ideias. Um recarregar da imaginação.
Desta vez não cometi o mesmo erro de fazer uma viagem longa mal amanhado num banco e comuniquei à direcção que não ia de autocarro. Peguei no meu Corsa e rumei direito de Lisboa para Madrid. Fiz a viagem pela madrugada. Era suposto estar lá às onze da manhã e saí de casa às cinco da manhã. Estava a fazer o caminho nas calmas quando atravessei a fronteira, sintonizei o rádio. Esqueci-me de um pormenor, a diferença horária! Estava uma hora atrasado! Paragem para um café e prego a fundo na estrada. Cheguei às onze e meia ao hotel e para meu espanto nada de autocarro e colegas. Pedi a chave do quarto na recepção e aterrei na cama. Entrou o Jorge pelo quarto a dentro às oito da noite! Tinha havido atrasos na partida de Coimbra e só tinham chegado naquela altura.
No dia seguinte, logo pela manhã fomos à exposição. Um turbilhão de ideias, de novas tendências, debates e mais debates sobre cada peça. Por fim os pés já não aguentavam mais e acabaram por pedir tempo para uma pausa, enquanto o estômago nos avivava a memória que estava na hora do almoço. Saí do edifício e dei com um calor abrasador para aquela altura do ano, tentei em vão procurar uma mesa resguardada pela sombra mas nada feito, todas ocupadas! Acabei por ficar com a Olga, a Bety e o Kent a comer umas sandes sentados no chão por baixo de uma palmeira. Decidimos tomar o café lá dentro, sempre estavamos acompanhado pelo valioso ar-condicionado. Ainda faltava visitar um edifício e as pernas não queriam mas a curiosidade foi mais forte! Acabei por visitar todos os pavilhões e galerias. Não escapou-me uma única peça de arte. Senti a cabeça repleta de informações e satisfeito por isso mas agora que retornava ao hotel o corpo começava a acusar o esforço e fui tirar umas horas de sono à cama antes de seguir para o jantar.
À noite ficámos pela zona do hotel. O dia tinha sido puxado e como havia um bar muito acolhedor nas redondezas, acabámos por não nos aventurar noutras paragens. Estava muito bem sentado a uma mesa a ter um momento agradável com um grupo de amigas, quando entra disparado pela porta o Chico Pato. Precisava de falar comigo à parte. Eu disse-lhe que podiamos conversar ali mesmo e ele com um certo desconforto de falar em frente às raparigas, contou-me que tinha descoberto um bar muito giro e que eu ia gostar muito do sitio. Tinha de lá ir com ele! Propus que fossemos todos, o Pato espantado e sem reacção seguiu os meus passos. Assim seguimos, Eu o Chico, o Jorge e o Kent, o professor de fotografia e o de cerâmica mais as miúdas. A Olga, a Susana, a Tucha e a Bety. ao chegar à porta dou de caras com um porteiro vestido de smoking e pensei que deveria se tratar de uma casa refinada. De certeza que seria difícil entrarmos todos. Cheguei-me à frente, por ser o único a falar castelhano e o porteiro com o maior sorriso do mundo abriu-nos a porta e não nos cobrou entrada. Senti-me o máximo! Um simples, buenas noches, fazia milagres!
Ao entrar fiquei abismado, de cara à banda! Por cima da minha cabeça existia uma jaula, com uma dançarina exótica! Agora entendia o desconforto do Chico Pato em falar à frente das miúdas! Estava num bar de striptease! As miúdas em vez de reprovarem a situação, pelo contrário adoraram a ideia de ficarmos por ali. Arranjáram-nos uma mesa perto do palco e as raparigas impoleiravam-se umas em cima das outras para ver quem conseguia ficar mais perto do palco. Entra então uma striper, para o último espectáculo da noite e começa a fazer a sua dança. Eu que já tinha assistido a alguns strips recostei-me a bebericar a minha cerveja enquanto as gatas assanhadas gladiavam por um local com maior visibilidade.
A striper já tinha retirado a totalidade da roupa e um assistente, chegando perto do palco, começou a recolher a roupa. Nada de anormal. De seguida, a striper fez algo com que eu não contava, acercou-se do assistente e retirou-lhe as calças, com um só movimento! Engasguei-me com a cerveja nesse preciso momento! Não acreditei no que estava a ver! O que estava a assistir, não era um espectáculo de strip mas sim de sexo ao vivo! Por aquela não esperava eu! Nem nenhum dos presentes! A coisa acabou e as miúdas e os professores retornaram ao bar onde estivemos. Eu e o Chico Pato, ainda ficámos encostados ao balcão a acabar as nossas bebidas enquanto o Jorge ia jogando numa slot-machine, nesse momento duas meninas, daquela profissão duvidosa, que ninguém dúvida, todas as pessoas sabem. Aproximaram-se de nós e convidam-nos para passarmos a noite com elas! Eu achei aquilo tão surreal que começei a entrar na conversa, pelo puro divertimento da situação, ia fazendo questões das mais variadas índoles. Disseram-me o preço e as acrobacias que podiam suceder durante a sua estadia connosco. O Chico não entendia patavina e tinha de estar sempre a traduzir a conversa. Agradou-lhe a ideia de poder passar a noite com aquelas meninas e nessa altura deixei de achar piada à conversa. Fui-me embora com o Jorge para o bar, deixando o Pato por sua própria conta e risco mas sem antes o avisar para ter cuidado.
Já se passara algum tempo desde que saira do clube de strip, estavamos todos a recarregar energias com um café e a forrar o estomago com umas sandes. Estava a preparar-me para ir acertar contas com os lençóis quando entra o Chico esbaforrido, lamentando-se pela perda da carteira como os documentos, dinheiro e o multibanco... Claro está, que todos percebemos o que aconteceu! Acabou por ser vigarizado e nem chegou a ter a companhia de qualquer das meninas da vida!

Em noventa e quatro apareceu um cd de tributo ao Zéca Afonso, vinte bandas portuguesas recompilaram os exitos deste músico. Por altura do verão, o sucesso do disco era supreendente, tendo surgido à posterior a ideia de juntar todas as bandas num mega concerto no velhinho estádio de Alvalade.
Eu ainda andava em recuperação do primeiro acidente e embora já conseguisse dar uns passos com as canadianas, não tinha equílibrio e maioritariamente percorria as distâncias em cadeira de rodas mas mesmo assim fiz questão de ir ao concerto! Programei de ir com o Ivo, o Bruno Reis e o meu irmão, a minha mãe ia nos levar e buscar e desde que eu me mantivesse num local mais resguardado, não deveria acontecer nada que colocasse em causa a minha integridade. O Ivo que andava excitadíssimo porque também ia lá estar a rapariga de quem ele gostava, não se calou o tempo todo a falar da miúda. Nós não a conheciamos mas já enjoava de tanta descrição!
Ao chegar ao estádio fiquei logo todo animado com aquela azáfama de gente, as roulottes e as barraquinhas de venda de merchandising. Mais radiante fiquei quando o segurança nos indicou o caminho de entrada pelo backstage, pois os portadores de deficiências entravam por aquele local! A perspectiva de poder privar de perto com todos aqueles músicos fazia subir a adrenalina e ganhava em mim maior vontade de assistir ao concerto! Fui bem para o fundo da relva, num local onde já se encontrava clareiras no meio da multidão. O Ivo foi à procura da amiga e eu, o Bruno Reis e o João fomos para perto de uma barraca de cerveja. Surpresa das surpresas, era o Carvalheira que estava a tomar conta do estaminé! Um ex-treinador de futebol, que tinha descoberto à pouco tempo que tinha um grave problema de saúde! Matámos as saudades e na esperança de melhores dias, fomos revivendo a nossa grande equipa e os feitos que alcançámos, intercalando com uma imperiais.
O Ivo voltou para perto de nós, vinha com ar amuado de quem os planos tinham caído em saco roto! A miúda não lhe prestara atenção e estava mais interessada em conviver com uns amigos. De repente do nada, aparece a Joana Santos com uma amiga, a Joana Steiglich, que nos foi prontamente apresentada. Entrou muda e saíu calada! Mas pelo meio ainda teve tempo de se enroscar no Bruno Reis! A Joana a certa altura pediu para sentar no meu colo e com o andar da carruagem e daconversa, voltei a beijar uma rapariga! Algo com que não contava e que há muito não fazia, muito menos no local onde foi! A Joana tinha combinado com uns amigos de se encontrarem perto do palco e como era óbvio eu não ia colocar-me no meio da multidão de cadeira de rodas, muito menos perto do palco! Disse-lhe para ela ir para perto dos amigos que eu ficava bem onde estava e assim foi.
Estava a apreciar o concerto, a bebericar mais uma imperial. Encostei-me ao murro para poder visualizar o palco, senti alguém a tocar-me no ombro e volto a cabeça para ver quem era. Era a Joana de Soure! Já não a via à alguns meses, desde o tempo do acidente! Pusemos a conversa em dia, a falar sobre a minha recuperação e as coscuvilhices da aldeia. A conversa puxou umas imperiais e das imperiais, para algo mais! Não sei explicar como tudo aconteceu! Mas lá estava eu a beijar uma rapariga, outra vez! Estava em grande! Os outros olhavam para mim com ar espantado! Como era possível? O Ivo, então! Coitado, depois da tampa da amiga!
Quase ao final do concerto, a Joana foi para perto dos amigos para não perder a boleia. Despedimo-nos com um beijo e promessas de o próximo encontro ser em Soure. Depois de algumas perguntas por parte dos meus amigos sobre como tinha se sucedido toda aquela situação e às quais não sabia responder, as vinte bandas juntaram-se em palco para cantar o "Grândola Vila Morena". Acerquei-me para perto do meu irmão, travei a cadeira de rodas e levantei-me, apoiando-me no João. De isqueiro na mão, os dois a curtir o momento juntando as nossas vozes em uníssono ao resto dos presentes, eis que nesse momento uma rapariga vem na nossa direcção. Cumprimenta o João com dois beijos e depois dirige-se para mim. Dá-me dois beijos onde os nossos lábios se roçaram. Espantado com aquela circunstância, por instinto saíu-me a seguinte frase - Para dares beijos assim mais vale dares logo na boca! - Não é que ela deu mesmo! Não contava nada com aquilo! O João tentando me equilibrar, ela agarrada a mim como se fosse o seu mais que tudo! E eu nem a conhecia! Melhor! O João também não!
Os momentos que se seguiram foram de um certo reboliço. As amigas dela vieram na nossa direcção para a levar. Ela não queria sair de perto de mim e foi uma carga de trabalhos convencer-la de que tinha que se ir embora! Ela não estava mesmo nas melhores condições! Pelo meio apareceu um rapaz que esteve na conversa com o João enquanto eu assistia a tudo aquilo, sentado na minha cadeira de rodas sem perceber patavina, o som das conversas era abafado pela música. Quando a poeira assentou, viemos embora e foi quando o João me explicou que o rapaz não era um amigo mas sim o marido! Eles tinham-se chateado durante o concerto e ela pôs-se a beber. Deu nisto!
depois de tempos tão complicados, foi assim que o meu ego e virilidade passaram a estar na mó de cima! Fiquei foi com pena do Ivo, tantas esperanças com a amiga e no fim ainda teve de assistir à minha performance de macho latino! Quem poderia imaginar que um rapaz numa cadeira de rodas faria tanto sucesso!

Chegou o bem-dito fim-de-semana! Acabaram-se as aulas, saí de Coimbra em direcção a Lisboa com o pensamento no merecido descanço. Ia em plena autoestrada, sem capota, a ouvir bem alto Andrea Bochelli e a sentir os últimos raios de sol que Outubro trazia. Toca o telemóvel, era o João! Estranhei, o que seria que o meu irmão queria, não era normal ligar-me. Activei o sistema de mão livres, do outro lado da linha, a voz do João:
- Estou Nuno, onde andas?
Respondi-lhe:
- Estou na auto-estrada a caminho de Lisboa. Porque? O que se passa?

- Queres ir a Salamanca passar o fim-de-semana?
- Johnny, tenho de ir a Lisboa buscar roupa lavada, não dá!
- Eu passo por casa do pai e levo-te, anda lá! Vou eu, o Luis Nuno e o Miguel!
Encontramos-nos a meio caminho da auto-estrada.

Fiquei tentado e acabei por aceder ao convite, parei na estação de Aveiras e aguardei por eles. Passada uma hora estavamos os quatro em direcção a Salamanca. Eu e o Miguel no meu carro, o João e o Luis Nuno seguiam no carro deste, atrás de nós! Como não sabiam o caminho ia eu à frente.
Chegámos a Salamanca ao fim da tarde, eu só rezava para que houvesse caixas multibanco que aceitassem o meu cartão. Como não fui preparado, não tinha pesetas comigo! fomos à procura de uma pensão que fosse barata e que tivesse as mínimas condições. À segunda ou terceira tentativa, lá achamos uma que nos convinha. Dois quartos, um para mim e para o Miguel, outro reservado ao meu irmão e ao Luis Nuno. Fui tomar um banho enquanto o João e o Luis Nuno trataram de fazer amizade com umas espanholas que estavam num quarto ao fundo do corredor.
O Luis Nuno e o meu irmão que tinham namoradas nessa altura, depois de conhecerem as espanholas, chegam ao nosso quarto com o seguinte discuso: - O que se passar neste fim-de-semana fica aqui! Pensei logo - Estes querem festa! - Respondi-lhes: - Eu vim para divertir-me, fazer umas noitadas e beber uns copos. Não vim com esse intuito para aqui! O Miguel com um aceno de cabeça, concordou comigo e saímos à procura de um sítio para jantar.
Lá encontrámos uma caixa multibanco que aceitava o meu cartão, levantei dinheiro e achámos um restaurante aberto. Durante o jantar só fizemos asneiras, o Luis Nuno a gozar com o empregado, a comida a voar pelo restaurante e não sei como não correram connosco! Vingaram-se na conta! Renitentes com o valor, lá pagámos a despesa e saímos em direcção ao centro! Já tinha ouvido falar que a vida nocturna de Salamanca era muito gira mas não se via viva alma, tudo fechado! Já começava a arrepender-me de ter vindo quando ao virar da esquina entramos numa rua cheia de bares e pessoas. - Assim, sim! Pensei eu para com os meus botões! Estivemos umas boas duas horas a saltar de bar em bar, até que chegamos à Plaza Maior. Ainda dei de caras com o Nuno Afonso, antigo jogador do Benfica que jogava no grémio da terra! Estivemos um bocado à conversa e depois entrámos num restaurante-bar chamado "Cervantes".
O local era muito acolhedor, sentámos os quatro numa mesa à janela com vista sobre a plaza e retemperámos energias. Estavamos em amena cavaqueira quando começamos a ouvir falar português numa outra mesa. O Luis Nuno e o João que por sinal, já estavam bem aquecidos, levantaram-se num ápice ao aperceberem-se que eram raparigas. Dirigiram-se à mesa, apresentaram-se e por lá ficaram. Eu e o Miguel deixámo-nos ficar na nossa mesa a saborear a cerveja. Passado um bom bocado as duas miúdas, disseram ao Luis Nuno para nos chamarem também para a mesa delas. Acabámos por ceder e juntámo-nos ao grupo.
Eram duas raparigas e um rapaz. Uma delas estava a estudar por aquelas paragens e os outros dois tinham ido lá visitar-la. A rapariga estudava artes e ao saber que eu também estava ligado às artes, começamos por ter tema de conversa. O Miguel estava-se a entender às mil maravilhas com a amiga e o meu irmão e o Luis Nuno ao sentirem que não iam levar nada, resolvem voltar as suas atenções para a cerveja! Os nossos novos amigos convidaram-nos a conhecer os melhores locais da noite e acedemos ao convite.
À saída do Cervantes, já a minha ligação com a minha nova amiga tinha levado uma reviravolta, com um beijo que me foi roubado! O Miguel, também se ia entendendo com a sua amiga. E o meu irmão que já estava mais para lá que para cá, decidiu catrapiscar umas americanas que estavam sentadas num banco da plaza! Assustadas com estado inebriante levou mais uma nega! Fizemo-nos ao caminho de um bar de "shopitos". Entrámos e sentámos nuns bancos altos, enquanto o meu irmão e o Luis Nuno que já tinham perdido o interesse nas nossas compatriotas, vislumbraram duas espanholas ao balcão e acometeram um novo assalto frustado. As raparigas intimidas com a investida esperaram que eles fossem à casa-de-banho para darem corda aos sapatos e fugirem dali o mais rápido possível! Já frustados com o insucesso, vieram ter connosco para irmos para outro sítio. Anuímos com a ideia e fomos para uma discoteca.
Não estive muito tempo por lá, a minha "amiga" queria que eu fizesse uma crítica ao trabalho artístico que ela tinha em casa. Acabámos por sair os cinco. Eu, o Miguel, as amigas e o amigo delas em direcção à casa da minha amiga. O João e o Luis Nuno, que por esta altura já se encontravam nas lonas, foram para a pensão. Entrei em casa das raparigas. O rapaz foi-se deitar, o Miguel e a amiga foram para a sala e eu fui ao quarto da minha amiga avaliar o seu trabalho artístico! Acabei por adormecer e só acordei com o Miguel a bater à porta pois já estava farto de levar recusas e de ver desenhos animados em espanhol! Fizemos o caminho todo a pé até à pensão, eu estava todo dorido, a rogar pragas ao fecho do trânsito na zona histórica de Salamanca! O Miguel bem me ia incentivando para continuar e quando começou a surgir a pensão no horizonte, fiz mais um esforço. Já raiava as primeiras luzes do dia!
Dormimos até tarde e ao fim do dia, depois de nos arranjarmos, seguimos para o Cervantes. Acabámos por ficar para jantar. E depois de uma deliciosa refeição regada a cervejas, seguimos o périplo dos bares. Ao princípio da noite de sábado, zarpámos em direcção a uma discoteca que as nossas amigas lusas nos tinham recomendado. À porta, finalmente o meu irmão e o Luis Nuno conseguiram, através do "portunhol" desencantar duas espanholas para os acompanharem na entrada. Eu de canadianas seguia atrás deles e ao passar por uma enchente de pessoas começei a entrar na conversa com um espanhol que também se fazia conduzir em canadianas. Apresentou-me aos seus amigos e acabei por perder o rasto ao resto do meu grupo. Deixei-me ficar na conversa com os espanhois, em particular uma castelhana. Eram umas boas quatro da manhã quando finalmente consegui desembaraçar-me da minha "amiga" espanhola e fui à procura dos meus comparsas. Dei uma volta pela discoteca e nem viva alma do paradeiro deles! fiz-me a caminho da pensão, voltando a rogar pragas ao corte do trânsito! Outra vez, o dia a amanhecer! Ainda tive tempo de passar pelas brasas antes de sairmos da pensão.
Estremunhado e depois de um café para acordar, ainda me sentia cansado mas
rumámos até Coimbra em velocidade de cruzeiro. Ao chegar à porta de minha casa, passei a mochila do Miguel para o carro do Luis Nuno e despedi-me deles. O João e o Luis Nuno comentavam os episódios sucedidos no fim-de-semana e ainda não entendiam como era possível, eu não ter feito a viagem com o mesmo intuíto que eles e ter tido tanta sorte! O Miguel sorria com toda aquela situação e à cabeça vinha-me aquele frase - Quando menos se espera...

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