Desde sempre oiço aquela máxima que a vida começa aos quarenta. Será que hoje, que aqui chego, nasci para o mundo? A entrada nos entas vem atormentando a minha existência há um ano. Senti o peso nos ombros com a proximidade desta data simbólica. Recordo-me de entrar na adolescência e ter a convicção que nunca chegaria a este marco, que a minha existência nunca teria tal longevidade. Agora que aqui cheguei, pergunto-me: Como é que o tempo passou tão rápido!?
Afinal, juro que sinto-me exactamente o mesmo. Não sei o que é a chamada crise da meia idade, continuo a padecer do síndroma de Peter Pan, com um feitio sui generis. Da mesma forma que não estou preocupado em desvendar o sentido da vida. Sou apenas quem sou, ou sou tudo o que sou... não é relevante. Eu sou eu, com todas as minhas virtudes e defeitos.
Foram quarenta anos recheados de emoções e de vivências. Repleto de marcos importantes. Passeei pelo mundo, vivi fora, conheci outros lugares e pessoas interessantes. Dei-me à escrita de músicas ou no pretensiosismo deste blog. Tive sonhos desfeitos e outros concretizados. Lutei pela minha sobrevivência e venci. Descobri novas aptidões e esqueci os sonhos que não realizei. Namorei, juntei-me, sofri por amor e aprendi a viver muito bem com a minha solidão. Tive um filho lindo e uma filha adoptada que encheram o meu coração. Reencontrei-me na minha família e nos amigos que fui colhendo pela estrada. Dei tudo de mim esperando sempre mais, mas tal como dizia John Lennon, a vida é o que acontece enquanto fazemos planos. Por isso não aceito essa máxima de que a vida começa aos quarenta, porque isso implica aceitar que tudo o que vivi nunca existiu. Não quero que a vida comece, quero que ela se prolongue e traga consigo sensações novas, sabedoria e coragem para aceitar o que vem aí.
Se me perguntassem aos vinte o que gostaria de receber, a resposta seria de certeza uma vivenda na praia com um porsche na garagem, dois filhos e uma mulher fantástica do meu lado. Uma vintena depois, levanto-me feliz para ir comprar um micro-ondas. A importância do dia-a-dia tem muito mais força do que algum sonho alguma vez sonharia.
Neste caminho fui aprendendo muita coisa... Aprendi que os bens materiais são insignificantes ao lado de pequenos gestos. Aprendi que ser frontal nem sempre é a melhor postura e que o silêncio é a melhor resposta. Aprendi a dar-me às pessoas, sem nunca esquecer em proteger-me da malícia alheia. Aprendi que falar é sempre fácil mas são as acções que contam, por isso não devo criar expectativas. Aprendi que não se morre de amor, mas algo morre sem ele. Aprendi que mereço ser feliz. E aprendi que ainda tenho muito para aprender.
A conclusão a que chego é que a vida não começa aos quarenta, mas também não acaba. Os sonhos é que se tornaram simples, existe menos tempo para recomeços. Aceitei que não seria um jogador de futebol, muito menos seria um grande músico. Que nunca serei o melhor no que faço mas o que faço, faço com dedicação e empenho. Que não ter criado a minha própria família não é um drama e viver sozinho tem o seu lado positivo. E no fundo, o que importa não é o que ficou para trás mas o que há de vir.
Portanto só pretendo continuar a seguir esta estrada, mesmo que os pneus estejam um pouco desgastados. A vida não começa aos quarenta, ela começa quando olho ao espelho e digo: eu sou eu, com todas as minhas virtudes e defeitos.