Entrando na época em que o mundo exalta os melhores sentimentos da humanidade, onde ao virar de cada esquina se encontra glorificações a valores nobres, como a família, a amizade e o amor, a mensagem vai-se propagando aos sete ventos, celebrando esses sentimentos como solução miraculosa para uma conduta de vida repleta de satisfação. E eu, no peso que arrasta a alma por estes dias, sinto arrepio na pele perante a constatação de um mundo frio, onde o calculismo se sobrepõem ao impulso da bondade.
Um mundo onde o amor já não é como nos filmes a preto e branco, a paixão e dedicação são irrelevantes perante uma estabilidade ou comodismo. Já não se escolhe um parceiro para a vida de forma sentimental, pondera-se benefícios. A falsa esperança não pesa na consciência, desde que o egoísmo seja o centro do universo.
Sinto-me traído pela própria alma, que sempre tomou decisões baseadas numa visão idílica, em sonhos e esperanças, terminando invariavelmente condenado ao insucesso. Cansado de remar contra a maré, cansado da solidão, cansado do vazio. Quando se aprende a deixar a esperança morrer?
Oiço mil vozes em acesa discussão deambulando na cabeça, a boca economiza palavras por estes dias, refugia-se no escuro. O corpo arrasta-se do sofá para a cama, da cama para o sofá, em busca de um vazio. A angústia de uma alma que finalmente compreende que nunca foi relevante na vida de ninguém, nem mesmo na vida do filho que se perdeu.
É hora de fazer extinguir fantasias, aceitar que as amarguras possuam o corpo, como o ar que se respira. É deixar os dias correrem para um final sem mágoas, esquecido no tempo, descartável e irrelevante. É hora de enterrar as dores atrás de um sorriso, tudo está bem, é Natal.
Para que um novo rumo tome forma, há que criar a coragem de partir. O empurrão que necessitava aconteceu, impulsionou a necessidade de redescobrir alento. Agora, prestes a embarcar na maior das aventuras, já não existe força na esperança, que segure o barco ancorado ao cais. Não há tentação de olhar para trás, pois atrás, nada há além de miragens e esperanças perdidas.
É como se voltasse a ser criança, um frenesim de excitação e receio do desconhecido mas com a certeza de que parte para criar novas memórias, viver sensações desconhecidas num mundo milenar com raízes portuguesas. Talvez seja no oriente que encontre a cura, para este enorme vazio dentro de si.
Metódico nos passos, agora arrisca-se, já nada tem a perder. Perdido o seu mundo, ousa cegamente em busca de um rumo. Uma prescrição dúbia que dê alento, talvez na novidade consiga esquecer de sentir. Vai ou racha. Tudo ou nada, daqui a uns dias logo se vê o que o guardião do destino dita. Lusitano ou emigrante convicto.
Ao embarcar na roleta do destino, fecha-se os olhos recordando no recanto da memória, a brisa de olhar cintilante, a família que sempre ansiou e que um dia ousou apelidar de sua. Porque a saudade dessa história será um sentimento eterno, tal como a lua sente a falta do sol no céu matinal. No horizonte a ilusão de encontrar a cura, da falta imensa que faz viver um sonho feliz e que já não é seu por direito.
Adeus meu Doce, até já Macau
A confirmação através daquela mensagem seca, foi apenas a assinatura de uma sentença de morte há muito sentida. Há dois meses soou o alarme, a intuição que te mostra a certeza daquilo que não consegues ver, sussurrou. O mundo terminou, capacita-te disso. Tens de aceitar. O mundo morreu e não há nada que possas fazer para alterar o seu fim.
Mas aquela fé estúpida, que te consome até à última gota do teu ser, dizia. Acredita, o amor um dia irá falar mais alto. Sentimento estúpido que fazes tanto sofrer, que escondo na minha profundeza e luto todos os dias por ignorar, com o único intuito de manter um norte equilibrado. Hoje deitaste-me por terra. Senti-o bem cedo, senti que algo não estava bem e à noite, ali estava. Bem em frente dos olhos, o recado que apenas tinha um destinatário.
Senti o chão fugir, um peso enorme dentro de mim, como se fosse explodir. Respira, respira, dizia uma voz no fundo da alma mas não sei, não sei como respirar, sussurrava em resposta. Cada palavra dilacerava mas era impossível parar de consumir cada uma daquelas frases, tentar compreender a emoção com que foi escrito aquele recado. Sinto que fui abalroado por um camião em excesso de velocidade deixando-me consciente, apenas para sentir na plenitude, a imensa agonia corroer o meu corpo.
Não foi inocente a maneira como o recado foi escrito, como aliás nada do que fazes é feito irracionalmente. Doeu horrores, destruíste em segundos, o pouco do que tinha conseguido reparar com muito esforço neste último ano mas também não posso deixar de agradecer. Afinal, compreendo acima de tudo, que fizeste o que sempre pedi. Não foi uma declaração ao teu novo amor, foi uma afirmação para mim. Já não te quero, amo outra pessoa. Estas são as palavras que não escreveste.
Reli e voltei a reler cada palavra, perdi a conta às vezes que procurei os significados e agora mesmo de rastos, a maior mágoa é a forma como tudo aquilo que sei que fiz-te sentir de bom, forças em relativizar por completo, como se nunca tivesse existido. Em parte estou feliz que estejas a viver um grande amor, também compreendo que é necessário deixar para trás o passado, para poder viver o presente mas desculpa dizer-te.
Esse carrossel de sentimentos, as tais borboletas que agora sentes e que afirmas não viver desde a adolescência, viveste-as todas intensamente comigo. Estão tatuadas para sempre em cada foto, em cada recado de amor, na caixa de memórias que construímos, eu, tu e a nossa princesa. No vídeo que guardo e revivo tanta vez, onde declaras o amor que sentes, não pelas palavras que saem da tua boca mas pelo brilho que trazes no olhar, no imenso sorriso estampado no teu rosto. Estas memórias podes tentar ocultar-las da tua vida, da mesma forma que apagas tudo que te possa recordar o que vivemos mas estarão para sempre presentes num lugar dentro de ti.
Não havia necessidade de teres sido cruel, eu recebi o recado de uma forma clara. Não era preciso proclamar em tão viva voz, que estás a viver o teu grande amor. O que foi vivido entre nós tão intensamente, irá para sempre perdurar, mesmo que não leve em si a mesma adrenalina desse teu novo amor. Os pequenos pormenores de mim, estarão para sempre escondidos sobre pequenos marcos teus, que só nós dois sabemos decifrar. A cifra csaid que tanto estimas e usas até profissionalmente, é apenas um dos muitos exemplos.
Como vês meu doce, não foi necessário esperar dez anos, para arranjares antídoto para o nosso amor. Apenas um bastou para encontrares a morada da casa branca e apagares-me por completo da tua existência.
Aceito não ter sido o teu grande amor, mas com certeza fui um dos amores da tua vida.
Sonho com alguém que não tenha conversas dúbias. Que não seja de meias verdades, de meias palavras. Que não releve os seus actos. Que não crie barreiras ao que deve ser fácil e natural. Sonho com alguém que sabe o que quer e que quer já.
Sonho com alguém que assume. Que caminha ao meu lado com orgulho. Sonho com alguém que não esconde-se, que não esconde-me. Que apresenta à família, aos amigos, aos colegas, à senhora do café.
Sonho com alguém que pára por um segundo na rua, só para dar um abraço apertado. Sonho com alguém que quando abraço, o mundo pára e deixa de ter significado para além desse abraço.
Sonho com alguém que não esteja mal resolvido. Alguém que saiba que para ser feliz, o passado fica atrás. Sonho com alguém que só está interessada no futuro e que o desejo desse futuro seja ao meu lado.
Sonho com alguém que solta aquela gargalhada estridente que há em mim. Que em momentos mais pesados, consegue demonstrar que a vida pode ser leve. Sonho com alguém que seja o meu porto de abrigo quando o mundo revolve em tempestades.
Sonho com alguém que dá mais convicções do que dúvidas. Sonho com alguém que é a solução para os problemas e não a causa. Sonho com alguém que não quer saber o que os outros pensam de mim.
Sonho com alguém que queira fazer planos a dois. Que veja um futuro a dois. Que veja não uma casa mas uma família. Sonho com alguém que apesar de ter consciência que consegue viver sem mim, opta por uma vida ao meu lado.
Sonho com alguém que faça com que olhe para trás e seja grato por não ter resultado com mais ninguém. Sonho com alguém que faça o que fala, e não passe o tempo só a debitar promessas.
Sonho com alguém que confia, que apoia, que não passa o tempo a criticar. Sonho com alguém que acredita em mim, que acredita em nós.
Sonho com alguém que não preciso de convencer do meu amor. Sonho com alguém que olha-me de cima a baixo e sem hesitar sabe, sabe que é ao meu lado que quer estar.
Sonho com alguém...
A felicidade não tem medida, nem poderá existir em toda a sua essência enquanto penosamente houver memórias de um passado abrupto e amargo. Ele resguarda-se perseverante de portas fechadas para novas possibilidades, ainda mais trancadas a sete chaves para um reinado de desolação.
No melhor e pior de si, não é difícil de ser lido. É mistério sem segredos. Não te percas ao entrar no infindável do seu mundo, porque traição, promessas vazias e menosprezo de carinho, são impulsionadores de desterro.
Na minha praia, mandei ao mar a última peça oferecida por alguém que me fez tão mal, mas tão mal que não deixa qualquer pena ou memória que faça sorrir. Foi tão natural, tão libertador, tão prazeiroso... Perguntaram-me se ia pedir um desejo e naturalmente pedi ao mar: por favor leva-o e mantêm-o bem longe de mim.
Incrível como ainda consegue deixar-se surpreender pelo poder da mágoa. Convicto de ver o lado optimista em todas as situações. As palavras tornam-se um excelente repelente, um condutor afrodisíaco de silêncio e distância que salvaguarda a imensidão de más vibrações.
Chegou o sol, caracóis e imperiais, regados de convívios e risos. Pôr-do-sol em amizade, sensação de equilíbrio no horizonte do mar e uma determinação... à merda com o teu reinado :)
Virado do avesso, a avidez da pele transparece a preocupação. A revolta de um grito mudo vinca as expressões faciais. Silêncio, silêncio que impera a injustiça e impotente se faz o bom senso.
O futuro a Deus pertence e o que sobra, é enfrentar nova batalha concentrado em sobreviver. São 2400 horas surripiadas de uma existência, uma marca que prevalecerá na memória para o resto dos dias. Não é o tempo que repugna, é a tela de um futuro vazio, tentando alcançar paz interior para ver o mundo desabar. E onde encontrar forças para aceitar recomeçar do zero?
A espera, essa maldita que corrói as entranhas, que empurra o pensamento, na penumbra da noite, a correr uma maratona até se fazer dia. O que se quer é uma decisão. Sim ou Não, uma roleta desenfreada, onde as probabilidades não são favoráveis ao jogador. Solto ou encarcerado, decidam! Caso contrário, receio que seja a espera a definhar a existência.
Sinto que em cada passo estás ao meu lado, que quando a dúvida persiste és tu que iluminas o meu caminho. Perco a conta no número de vezes que falo contigo no nosso silêncio, quando fecho os olhos e o teu olhar doce toma conta do meu imaginário, trazendo nesse semblante a esperança e força para encarar a vida.
Foste tu que ensinaste-me a nunca perder a sede do conhecimento, a querer sempre saber mais. Que saudade das horas intermináveis no café, onde abrias o livro da tua sabedoria e deixavas-me folhear cada palavra, embebida num gesto de ternura e alimentado por um suspiro cor-de-rosa.
Este riso contínuo, marca registada da minha personalidade, de alguém que aprendeu a não duvidar do seu potencial, que dá alento a uma força interior para nunca desistir, foste tu que alimentaste e fizeste florescer. Foste sempre o apoio e os braços para onde corria, o meu retiro seguro. Que saudades dos teus beijos na minha testa, enquanto tentavas encaracolar o meu cabelo. Sinto falta desse calor humano, de um ser extraordinário que partiu cedo demais. Fazes-me falta Querida.
Obrigado meu anjo da guarda por teres ensinado a levantar a cabeça e apreciar o arco-íris neste trilho que é a vida. O teu corpo deixou-nos há 20 anos mas a tua alma tem sido a melhor das companhias. Amo-te muito minha Querida Avó. Parabéns pelos teus 86 anos
Desde sempre oiço aquela máxima que a vida começa aos quarenta. Será que hoje, que aqui chego, nasci para o mundo? A entrada nos entas vem atormentando a minha existência há um ano. Senti o peso nos ombros com a proximidade desta data simbólica. Recordo-me de entrar na adolescência e ter a convicção que nunca chegaria a este marco, que a minha existência nunca teria tal longevidade. Agora que aqui cheguei, pergunto-me: Como é que o tempo passou tão rápido!?
Afinal, juro que sinto-me exactamente o mesmo. Não sei o que é a chamada crise da meia idade, continuo a padecer do síndroma de Peter Pan, com um feitio sui generis. Da mesma forma que não estou preocupado em desvendar o sentido da vida. Sou apenas quem sou, ou sou tudo o que sou... não é relevante. Eu sou eu, com todas as minhas virtudes e defeitos.
Foram quarenta anos recheados de emoções e de vivências. Repleto de marcos importantes. Passeei pelo mundo, vivi fora, conheci outros lugares e pessoas interessantes. Dei-me à escrita de músicas ou no pretensiosismo deste blog. Tive sonhos desfeitos e outros concretizados. Lutei pela minha sobrevivência e venci. Descobri novas aptidões e esqueci os sonhos que não realizei. Namorei, juntei-me, sofri por amor e aprendi a viver muito bem com a minha solidão. Tive um filho lindo e uma filha adoptada que encheram o meu coração. Reencontrei-me na minha família e nos amigos que fui colhendo pela estrada. Dei tudo de mim esperando sempre mais, mas tal como dizia John Lennon, a vida é o que acontece enquanto fazemos planos. Por isso não aceito essa máxima de que a vida começa aos quarenta, porque isso implica aceitar que tudo o que vivi nunca existiu. Não quero que a vida comece, quero que ela se prolongue e traga consigo sensações novas, sabedoria e coragem para aceitar o que vem aí.
Se me perguntassem aos vinte o que gostaria de receber, a resposta seria de certeza uma vivenda na praia com um porsche na garagem, dois filhos e uma mulher fantástica do meu lado. Uma vintena depois, levanto-me feliz para ir comprar um micro-ondas. A importância do dia-a-dia tem muito mais força do que algum sonho alguma vez sonharia.
Neste caminho fui aprendendo muita coisa... Aprendi que os bens materiais são insignificantes ao lado de pequenos gestos. Aprendi que ser frontal nem sempre é a melhor postura e que o silêncio é a melhor resposta. Aprendi a dar-me às pessoas, sem nunca esquecer em proteger-me da malícia alheia. Aprendi que falar é sempre fácil mas são as acções que contam, por isso não devo criar expectativas. Aprendi que não se morre de amor, mas algo morre sem ele. Aprendi que mereço ser feliz. E aprendi que ainda tenho muito para aprender.
A conclusão a que chego é que a vida não começa aos quarenta, mas também não acaba. Os sonhos é que se tornaram simples, existe menos tempo para recomeços. Aceitei que não seria um jogador de futebol, muito menos seria um grande músico. Que nunca serei o melhor no que faço mas o que faço, faço com dedicação e empenho. Que não ter criado a minha própria família não é um drama e viver sozinho tem o seu lado positivo. E no fundo, o que importa não é o que ficou para trás mas o que há de vir.
Portanto só pretendo continuar a seguir esta estrada, mesmo que os pneus estejam um pouco desgastados. A vida não começa aos quarenta, ela começa quando olho ao espelho e digo: eu sou eu, com todas as minhas virtudes e defeitos.



