The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida

Leva o destino à curiosidade de acasos. Juntos por um breve instante, não se celebrou o que hoje sempre seriam quatro. Não se comentou, talvez pensou-se. Seria irónico ou talvez angustioso demais, ser proferido a casualidade de datas neste reencontro.
Na razoabilidade de convivência aborda-se o fútil e as novas que não remexem com sentimentos. Talvez assim seja saudável, talvez seja num reencontro contínuo desta naturalidade, que encontrarei um amanhã onde já não existirá o sonho que vagueia em brisas quentes.
Terão passado duas semanas ou anos? Perdi-me na noção do tempo que dispara à velocidade de uma bala. Quando vislumbrei a silhueta familiar, retive-me num segundo em sensações tão longínquas, como doces no seu tempo e espaço, antes de retornar ao que hoje é a minha realidade.
Ontem, uma amiga através de um email, ofereceu-me a seguinte comparação entre sexos: - Vocês homens bebem para esquecer e nós comemos chocolate! Achei simplesmente fabuloso.
Hoje, entre máscaras de risos, num convívio momentâneo e a não descansar até descobrir o fundo do copo, certamente pararei um momento encostado a um balcão qualquer, para esquecer o que para mim, hoje sempre seriam quatro.

À sobra de uma flor cresci. E o meu futuro e o teu futuro, já mais viverão no mesmo trilho. As palavras matam uma relação e quando já não controlas certos sons que fogem do pensamento para a boca, sem terem o significado pretendido, percebes que chegou o final. A mágoa toma o lugar da razão e define a morte do caminho.
Talvez um dia irei notar que muita falta vai fazer a mão que já não guiará o caminho, naquela sensação de que o destino é guiado por um divino que não controlas. A flor que murchou ao fim de um dia, tal qual o amor efémero que em ti viveu, teve o mesmo final. Era assim que estava escrito esse malfadado destino, destino que nunca foi meu, nunca foi nosso e tentei modificar.
Em dias cai na ilusão que a tudo podia desafiar, o mundo parecia fácil de conquistar, com a certeza que o tal destino à sombra de uma flor podia ser modificado e nessa mesma sombra que a flor brotava, existia o abrigo onde encontrava sempre a tua intimidade, oferecendo energia para continuar a batalha que afinal foi só minha e nunca nossa. Em tempos de certezas de viver com um sentido de pleno bem estar, deixei por fim fugir o teu nome a esvoaçar no vento, quando compreendi que esta guerra travava sozinho. Os fantasmas do passado, não possibilitaram viver esse amor a dois, que nunca chegou a ser. Os teus e os meus, fortes e pesados. Fardo contínuo, que sempre presente, atrapalhou o sorriso que à sombra de uma flor foi sempre tímido mas genuíno de ambas as partes. Quis a mágoa tomar as rédeas e nunca soube apreciar o pouco que de ti foi oferecido.
Quis tudo, acabei por ter nada. Talvez ainda fresco, ache que iludi-me por acreditar que alguma vez tive algo de ti. Talvez não seja ilusão mas o fado do meu caminho. A dedicação, o carrinho, o sorriso, a vontade de querer que o sentimento fosse algo mais, permanecerão vivos durante bastante tempo, embora sejam abafados neste momento pelos maus sentimentos que agora a mágoa faz reviver na lembrança do momento. Com o tempo, a lágrima do adeus dará lugar às boas sensações vividas, à saudade do que foi vivido e na consequente sensação de perda. Com o tempo que tudo sabe, talvez volte a querer caminhar mas por agora aqui fico, aqui estou e daqui não quero sair.
Estou de luto por algo que afinal foi só meu e acabo por ver-me a estas horas da madrugada a desejar para um dia acordar, sem ter nada para contar, esquecer o teu nome e pensar que nós somos uma história antiga, que se encontra num lugar longínquo e baço o suficiente para não ser relatado, nem revivido com exactidão. Dito pelo maior dos sonhadores, sonhar faz mal, mesmo quando à sombra de uma flor eles são vividos intensamente, numa privacidade que será sempre só minha, só tua, só nossa.



Tirem-me a vista.
Tirem-me para sempre a luz de Lisboa, tirem-me as encostas do Douro, o Tejo e o Alentejo, tirem-me a calçada dos passeios e os azulejos de parede.
Tirem-me o ouvido.
Tirem-me para sempre o choro da guitarra e o pranto do fadista, tirem-me os pregões das mulheres do bulhão e a pronúncia de norte a sul, tirem-me a fúria de espuma das ondas e o grito do golo.
Tirem-me o tacto.
Tirem-me para sempre o sol de Inverno a bater na cara, tirem-me o barro a ganhar forma entre os dedos, tirem-me o rosto queimado da minha mãe e a mão áspera do meu pai.
Tirem-me tudo isto, mas não me tirem o gosto.

Adoro este anúncio. Acho que é das melhores coisas feitas em Portugal na minha área. É esse o espírito. Ter orgulho em nós, independentemente do que te chamem. Orgulha-te do que és e de quem és. Pobres daqueles que no seu percurso nunca tiveram de alcançar o sentido de existência. A vida é uma luta constante e parar é morrer. Não interessa quantos socos levas mas quanto consegues caminhar enquanto a vida te bate, pois essa é uma constante da equação.
Assim fui, assim serei, tirem-me tudo isto, mas não me tirem o gosto de viver

Os primeiros anos da minha vida, são recordados com o maior carinho possível. Foram vividos na terra onde ordem e progresso estampam o mote da bandeira. Em que o povo cheio de calor humano, embala o tempo com alegria de viver numa terra banhada pelo calor de paisagens maravilhosas. Há desse tempo imagens, cheiros, sons e emoções que ficaram gravados para sempre dentro de mim.
Recordações dos primeiros passos e da manta que ia comigo para todo o lado, tal qual Linus da banda desenhada do Snoopy. Aquela camisola de os belenenses e a primeira bola, prenda do avô distante na pátria onde nasci mas que me era estranho. A teimosia de chuchar no dedo até tarde, sempre, sempre, a ver na televisão o sítio do pica-pau amarelo. O país que parou literalmente para ver Sócrates e Falcão no mundial e criarem em mim a paixão pelo jogo. O violão tocado todos os sábados, em convívio de brasileiros e portugueses, naquele espaço que era muito mais do que um pátio alfacinha. Uma segunda casa.
Ao reviver essa altura da vida, chego à conclusão que os anos que lá vivi, embora já se encontrem longínquos, ajudaram em parte a moldar a pessoa que hoje sou. Sinto que um pedaço de mim trás muito do espírito baiano, onde existe alegria de viver, de não viver para sobreviver e olhar para o que de bom nós dá o tempo. Onde tudo são emoções quentes e se vive para os prazeres da vida. Como diz muito bem a música, pegando nas palavras do rei...

Sei tudo que o amor
É capaz de me dar
Eu sei já sofri
Mas não deixo de amar
Se chorei ou se sorri
O importante
É que emoções eu vivi...

O importante é viver. E é já com carinho que olho para trás, por ter tido a felicidade de viver o amor mais amigo e das lembranças que levarei da vida, tu serás sempre a saudade, que voltarei sempre a recordar, para sentir outra vez a tua presença a meu lado. Obrigado pelo sonho...

Existe um momento, um breve segundo, em que tudo muda, tudo passa a fazer sentido e o que somos deixa de estar presente. A existência é efémera e o ser o humano tende sempre a ignorar esse facto. Num instante estamos cá e no seguinte poderemos não estar.
Pensava já ter tido os meus momentos de fio de navalha, onde fui lutando pela continuação da minha existência. Hoje, continuo por cá mas não foi por ter batalhado para que assim acontecesse. Foi um momento de inspiração, de acaso ou de sorte, ou talvez até de um abraço de anjo da guarda. Como disse-me a minha mãe: - Hoje, não te esqueças de agradecer. Sim, é isso que estou a fazer.
O dia parecia ser igual a tantos outros, fui almoçar e ao retornar a casa, coloco a chave na porta trancada. Rodo a chave e em vez de ligar a luz, como sempre o faço, deixei-me estar na entrada tentando perceber de onde vinha aquele som estranho. Fui-me aproximando da cozinha e o ruído cada vez mais perceptível, envolvido num odor peculiar. Abri a porta da cozinha e de repente percebi. Havia uma fuga de gás!
Fui ao telefone, liguei para a minha mãe, que dizia-me ser impossível, pois não há contador de gás ligado aqui. Eu replicava que o cheiro era intenso, o som da fuga de gás era audível até do outro lado da casa. Desliguei, liguei para os bombeiros que em cinco minutos estavam aqui à porta. Parecia estar a presenciar uma cena de filme. Dois carros dos bombeiros, uma dezena de homens fardados com máscaras de oxigénio, grande ventiladores por todos os lados, um verdadeiro aparato.
Sim, realmente era uma fuga de gás, derivado de um daqueles canalizadores que não percebem nada do assunto, que adoram experimentar e mexer em tudo. Ele está a fazer umas obras na cave e para fechar a conduta da água, mexeu em todas as válvulas, deixando ficar aberta a conduta do gás do prédio. A minha mãe também estava correcta. Não existe contador do gás aqui, mas existe o tubo de ligação e como este não estava bem vedado, todo o gás do prédio foi canalizado para esse tubo.
O Chefe dos bombeiros dizia-me depois de resolvida a situação e serenado os ânimos, que tinha sido uma sorte eu não ter ligado o interruptor da luz. O piquete da companhia do gás, colaborou a ideia. Se assim fosse, o mais certo seria ser capa do jornal de amanhã, como parte do novo papel de parede, isto se ficasse parede para contar a história.
Fiquei nauseado, tonto e com dores de cabeça, pois ainda inalei bastante gás mas antes de me ir deitar, precisava fazer o que a minha mãe me disse ao fim da tarde. Não sei a quem devo-o fazer mas quero agradecer-te por teres zelado por mim. Obrigado.

Contagem Ao Segundo