The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida

Só eu sei quem tu és, que me visita diariamente, que convives no imaginário do meu pensamento antes de deitar. Mulher, menina e moça. Só eu sei, o que significou cada dia da nossa existência conjunta. Fui mais do que o actor, vesti a minha pele e pude ser eu sem capas, nem desgraças. Só eu sei a memória do cheiro da tua pele, quando os teus cabelos pousaram no meu ombro ou quando os teus lábios tocavam os meus.
Só eu te conheço realmente, porque entendo as tuas inseguranças, façanhas e defeitos. Entendo na plenitude de aceitar quem és, sem questionar porquês e querendo-te com o mesmo desejo do primeiro olhar, do primeiro sorriso, do beijo nervoso ou do momento em que as mãos se entrelaçavam nervosas pela primeira vez. Só eu sei a entrega que existiu nas horas infindáveis dentro do carro, beijando-te ternamente como vício de mim que não quer partir.
Só eu sei, que a nossa cumplicidade vai além do papel natural que há em nós, da dedicação mútua e esforço conjunto que cada um de nós empregou nesta existência a dois. Só eu sei, como os teus olhos falam palavras de carinho e apreço, que o teu sorriso esboça o teu sentir e como cada gesto de expressão do teu corpo, é produto de um sentimento que só eu consigo descortinar. Mulher felina de garras afiadas na protecção, dócil e terna quando no aconchego da segurança. Só eu sei, que atrás da personagem batalhadora, realista, independente, jóia rara do universo, se encontra a menina generosa, de maneiras delicadas e suave.
Só eu sei, a saudade que me ocorre, quando vejo os verdes campos do outro lado do vidro ou quanto custa relembrar momentos de viagem e estar apartado da tua presença, com a consciência plena que é necessário serenidade, para viver certos momentos, pois não sou dono do destino para alterar-lo. Só eu sei, como estamos tão perto e tão distantes. Até quando não sei mas só eu sei, como custa esta distância.

Na minha vida fui sempre um outro qualquer
Era tão fácil, bastava apenas escolher
Escolher-me a mim, pensei que isso era vaidade
Mas já passou, não sou melhor mas sou verdade
Não ando cá para sofrer mas para viver
E o meu futuro há-de ser o que eu quiser

Fernando Tordo - Adeus tristeza

A semente enraíza no terreno molhado, cria fundações com expectativa de um futuro longínquo e sólido. Os seus tentáculos tentam prever a imensidão que será o seu tamanho, tendo por fé suportar todas as intempéries que se atravessaram no tempo. Por vezes essa base, torna-se frágil para a grandiosidade das adversidades, pode também encontrar desanimo e secar por não vislumbrar o crescimento desejado, tantas são as possibilidades de insucesso mas quando a semente consegue alicerçar o seu crescimento de forma sustentada, encontramos uma árvore, uma árvore repleta de folhas verdejantes, que dançam harmoniosamente no embalo do vento, com as suas flores de cores vibrantes ofuscando os olhos que a contemplam, perante tal graciosidade e beleza. Assim, também se pode descrever uma relação.
Já plantei algumas sementes, sem o resultado desejado, mal solidificadas, algumas por falta de fé, outras por raízes pouco tonificadas mas no final do dia, que será o meu despedir desta existência, espero ter conseguido plantar uma semente que perdure para além da minha existência, que simbolize o esplendor da beleza, que é uma vivência compartilhada a dois. Quero que o meu futuro represente uma árvore esbelta, onde as rugas do seu tronco contem a história de um vida repleta de aventuras, sorrisos e bem-estar. Quero uma árvore, que se denote no seio de uma clareira, pela sua imponência sólida de tantos anos de existência. Almejo pelo dia que a minha árvore, possa contar a sua bela história de vida.

Por vezes o orgulho não faz sentido, ausências sem sentido, síndromes de solidões representadas em teatros sobre cacos de vidro. Uma máscara em palco, que esconde o que no escuro do quarto enfeita o vazio. São viagens ao passado que buscam "De Mim para Ti", num espectro nostálgico ou de simples consciencialização da saudade.
Olhos que na noite procuram subtilmente o que já não aquece numa estrada que não logrei vencer mas quis um dia percorrer infinitamente. Que o amanhã te dê a sabedoria para perceber que por vezes os bastidores são o palco principal e é nele que se desenrola a parte mais vital da história. Não é o palco que sustenta o artista, é o que vive por trás da encenação, o sentimento que absorve-o no escuro do camarim quando retira a maquiagem.
Sábado tive o prazer de assistir um amigo transformar-se, durante hora e meia, noutra personagem. Uma viagem a solo no palco do Chapitô, numa actuação impregnada de coragem para abstrair-se de um sala cheia de espectadores. Uma performance quase imaculada de uma vivência que não é a sua, de narrar uma história aventureira, na primeira pessoa. Sorriu, excitou, chorou, desesperou e por fim morreu. Foi quando desceu do palco e entrou nos bastidores da sua vida, entre amigos, que realmente desfrutou do prazer da sua actuação, porque no final o importante é saborear a satisfação daqueles que ao nosso lado vivem as nossas vidas.
Não viverei para sempre, viverei para viver quem comigo quer partilhar a sua existência. Não viverei dum mar azul turquesa intemporal, este mar não tem cura e este céu asfixiou com a ausência de ar. Um regaço frio, frio contagiado pela longa ausência e é com olhos baços que recebem aqueles que no palco brilham à procura do seu espectador. Houve percepção da busca, do nervoso miúdo, da ausência de aplausos mas a verdadeira peça é outra e chama-se vida presente.
É como a canção que se ama e se deixa para trás, por não ser apropriada à ocasião. A melodia pode não ser apropriada mas se é nela que realmente se sente felicidade, então que a canção nunca pare de tocar, indiferente a quem atravessa a estrada. Pensar no conveniente seca o sangue que palpita, perde a força que se alimenta do sentimento. O sentir gera vivência, afasta solidões e é nessa semente agreste, rebelde, inconformada, alegre, fiel, amiga, que viverei para viver.

Contagem Ao Segundo