Por vezes o orgulho não faz sentido, ausências sem sentido, síndromes de solidões representadas em teatros sobre cacos de vidro. Uma máscara em palco, que esconde o que no escuro do quarto enfeita o vazio. São viagens ao passado que buscam "De Mim para Ti", num espectro nostálgico ou de simples consciencialização da saudade.
Olhos que na noite procuram subtilmente o que já não aquece numa estrada que não logrei vencer mas quis um dia percorrer infinitamente. Que o amanhã te dê a sabedoria para perceber que por vezes os bastidores são o palco principal e é nele que se desenrola a parte mais vital da história. Não é o palco que sustenta o artista, é o que vive por trás da encenação, o sentimento que absorve-o no escuro do camarim quando retira a maquiagem.
Sábado tive o prazer de assistir um amigo transformar-se, durante hora e meia, noutra personagem. Uma viagem a solo no palco do Chapitô, numa actuação impregnada de coragem para abstrair-se de um sala cheia de espectadores. Uma performance quase imaculada de uma vivência que não é a sua, de narrar uma história aventureira, na primeira pessoa. Sorriu, excitou, chorou, desesperou e por fim morreu. Foi quando desceu do palco e entrou nos bastidores da sua vida, entre amigos, que realmente desfrutou do prazer da sua actuação, porque no final o importante é saborear a satisfação daqueles que ao nosso lado vivem as nossas vidas.
Não viverei para sempre, viverei para viver quem comigo quer partilhar a sua existência. Não viverei dum mar azul turquesa intemporal, este mar não tem cura e este céu asfixiou com a ausência de ar. Um regaço frio, frio contagiado pela longa ausência e é com olhos baços que recebem aqueles que no palco brilham à procura do seu espectador. Houve percepção da busca, do nervoso miúdo, da ausência de aplausos mas a verdadeira peça é outra e chama-se vida presente.
É como a canção que se ama e se deixa para trás, por não ser apropriada à ocasião. A melodia pode não ser apropriada mas se é nela que realmente se sente felicidade, então que a canção nunca pare de tocar, indiferente a quem atravessa a estrada. Pensar no conveniente seca o sangue que palpita, perde a força que se alimenta do sentimento. O sentir gera vivência, afasta solidões e é nessa semente agreste, rebelde, inconformada, alegre, fiel, amiga, que viverei para viver.

0 comments:
Enviar um comentário