The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida

Gosto da chuva, sempre gostei. Gosto de sentir a força da natureza, a relembrar que mais não somos do que meros peões. Hoje chovia a potes, ainda chove e das sensações que mais prazer me dá, é parar no meio da rua e sentir cada gota de água a escorrer na cara. Fico com a sensação que Deus lava-me a alma, com se esta estivesse encardida a necessitar urgentemente de um novo visual.
Hoje à tarde, foi o que fiz. Parei em plena rua, acendi um cigarro e fiquei estático no meio da rua a desfrutar dessa lavagem. A chuva é mística, encerra em si o crescimento do ser, tal como uma planta que brota da terra, assim renasci eu para o mundo. Sinto que tenho um novo visual, sinto-me revigorado e cheio de energia. Bem que ando a necessitar desse vigor pois o presente é simpático, o futuro risonho e o passado mais do que palavras.
Falta-me tempo para o tempo que preciso e vou vendo mais do que desejo, sabendo mais do que quero e compreendendo que a euforia não é mais do que uma fuga à realidade. Ainda não cai em mim mas enquanto isso não acontece, vou deixando Deus lavar-me a alma, para que a concretização do futuro seja completa. Let it rain.

Sentia o cheiro do alcatrão ardente entranhado nos pés descalços. Tornava-se difícil caminhar, o sol abrasador destilava toda a água do corpo. O ar pesado dificultava a respiração, como se todo o oxigénio tivesse evaporado por magia. Caiu de joelhos, prostrado sem forças, olhando um horizonte infinito. Fechou os olhos e deixou-se estar à espera de um final anunciado.
Leve, leve como um punhado de brisa, apareceu uma oferenda da vida, do ser, do momento. Do vazio apareceu um anjo invisível pairando sobre o seu corpo, restituindo as energias que o tempo e as pessoas sugaram no caminho. Molhou os seus lábios com um néctar doce, suculento, recheado de esperança e convicções. Revitalizou-lhe a alma, a vontade e de repente o seu corpo ergueu-se do solo, em busca de uma lufada de ar, como se de um recém-nascido se tratasse. Olhou ao redor, começou a sentir crescer dentro de si um sentimento. Ao princípio estranhou mas com o passar dos ponteiros, recordou-se daquela sensação há muito perdida. Era o sangue, sangue que lhe corria nas veias, pulsando freneticamente.
Relançou o olhar consciente para o horizonte, das cinzas renascendo o querer de uma fénix, as prioridades foram traçadas mas sem nunca descurar as lições do passado, onde uma entrega total pode ser o primeiro passo para o abismo. É bom sentir que é por aqui, é agradável saber que existe algo do outro lado da porta, a certeza de que há algo à espera. Vamos recomeçar a caminhada

Na minha vida, não vale a pena perder tempo a planear nada, tudo se transforma num ápice, tudo muda ao nascer de um novo dia. Por esta altura do ano passado, toda a minha vida desenrolava-se numa direcção, parecia que em todas as vertentes tinha encontrado uma certa estabilidade, que os projectos e metas propostos iriam realizar-se a breve trecho. Alguns capítulos assemelhavam-se a uma realidade quase completa, outros nem tanto mas para lá caminhavam.
Um ano se passou e pelo meio tudo se transformou. Nem os argumentistas da minha série preferida (Prison Break), seriam capazes de criar uma transformação no enredo desta magnitude. Ao entrar nos 34 fiquei convicto. Fiquei convicto que verdades absolutas não existem, sejam elas do foro profissional ou emocional. O que hoje é verdade, amanhã poderá ser a maior das falsidades.
Tão baças e longínquas vão as noites no Arriba, os cafés em Telheiras, 8 horas de camioneta ou a viagem diária para o Marquês. A constante absoluta de um vai e vem a São José, a convicção ardente de que com o tempo seria a relação perfeita, que os verdadeiros amigos eram os que estavam próximos ou que estava estabilizado profissionalmente. Fez um ano que jantava no Matos e tanta coisa mudou desde então. Já não oiço o mar faz tempo, Telheiras é local por onde já não passeio, São José mudou-se para um centro de saúde ao qual faço visitas extemporâneas. O Marquês deixou de ser um lugar rotineiro para ser um local de passagem e os amigos? Alguns ainda cá estão, sempre cá estiveram. Talvez a maior prova da sua fidelidade, outros já são só memórias vagas. Os sentimentos que pareciam ser imortais, hoje não existem, tornaram-se em compaixão e redireccionaram-se para outro destino mais recente que talvez menos cabimento tenha para existir.
No espaço temporal de um ano, tive de tudo. Perdi uma pessoa que era uma das minhas bases, tive desgostos amorosos, traições profissionais e de supostos amigos, muita hipocrisia, chorei, senti-me sozinho, senti-me por momentos perdido mas também encontrei amigos, reencontrei outros, tive momentos de folia, outros de ternura que guardarei para sempre, cumplicidades e sucessos profissionais.
Ao finalizar o ano, parei para reflectir e fiz umas quantas promessas. Acima de tudo queria provar que sou capaz, que ainda sou válido. Terminei o ano com uma vontade férrea, com objectivos concretos mas tal como recordo a minha vida à um ano, assim posso olhar para Dezembro. Tudo muda, tudo se transforma num ápice. Parece incrível a reviravolta. Como diz uma grande amiga: - Contigo a aventura é sempre uma garantia! Vou começar um novo ciclo, quando todas as baterias apontavam para outras direcções e destinos. Outros desafios batem à porta, outras pessoas, outros momentos e lugares esperam por mim. Afinal tenho de dar a mão à palmatória. Tinhas razão amiga Maya, tenho que passar a acreditar nos números, é mesmo um ano de realizações.

Já não há mais registos do passado, só memórias e essas, com o passar do tempo, vão-se tornar vagas ou como tão bem mencionou uma amiga há uns tempos, sugestivas. A memória sugere aquilo que queremos recordar, não guarda mágoa ou momentos menos felizes. Será dessa maneira que o passado será recordado. Difuso, longínquo e feito de bons momentos.
Hoje compreendi a ilusão que sempre foi a presença de um papel amarelo na carteira. Não significa esperança, não significa uma verdade. Significa que enganou-se no destinatário e veio fora de validade. Todas as demonstrações de um sentir inocente e puro, foram apagadas sem apelo nem agravo. Essas, a serem importantes, seriam mantidas com carinho e respeito pelo que se viveu mas ao invés morreram queimadas, como morrem girassóis a olhar para um sol abrasador e impiedoso. De igual forma tomei a liberdade de anúnciar a morte do papel amarelo e todas as outras recordações que ainda mantinha. Não teria nexo manter vivo o que nunca foi real e talvez o último passo do passado, seja o rasgar de um retrato que concerteza já não mora na sala, que qualifico como o seio de uma felicidade utópica.
É bom descobrir assim, cru e muito frio como os dias que hoje vivemos. Morre a esperança na praia, clarifica-se muito bem posições, aceita-se que ilusões não enchem um coração. Está na hora de seguir caminho e passarei a fazer o percurso de todos os dias, sem voltar a olhar para a mesma paragem, sem ansiar vislumbrar o vulto do passado. Amanhã, não irei sentar à janela, fecharei os olhos a ouvir a música do presente. Talvez desta forma a cicatriz feche para sempre. Quem sabe, talvez até deixe de ser um cicatriz e dilua-se com o tempo.
Vou fechar os olhos com a sensação que não sei dar mais, que sempre fui verdadeiro e leal. Ofereci tudo, fui o melhor amigo, companheiro e amante mas as vozes de fundo dos velhos do Restelo estiveram sempre a fazer ressonância e serão sempre defendidas como a entrega total nunca foi. O passado estava certo quando lembrava que magoamos quem mais gosta de nós e aí também eu tenho culpa no cartório, porque magoei deliberadamente o passado, quando este fez-me sofrer. Não soube ser maior, não soube ser benevolente, ataquei como forma de defesa e por isso peço perdão. Ninguém é perfeito, eu muito longe encontro-me disso mas talvez um dia o passado consiga perdoar os meus erros, assim como eu já relevei a dor que senti.
Desejo o melhor para o passado. Que consiga em dobro realizar o que acalento para mim mas acima de tudo, desejo que tenha mesmo a tal força aclamada aos quatro ventos para seguir em frente, da mesma forma como eu hoje encontrei ainda mais perseverança para atingir as minhas promessas ao vislumbrar que a minha existência, o meu sentir já se transformaram em cinzas. A primeira promessa está cumprida, a segunda e a terceira à porta batem. Outras promessas serão realizadas, outras palavras ditas mas para outro tempo e espaço, como diz o provérbio chinês: Há três coisas que jamais voltam. A flecha lançada, a palavra dita e a oportunidade perdida.
Não há rancor, não há mágoa, já não há nada, apenas a aceitação da verdade incondicional. Esperança nunca teve razão de existir, palavras de momentos não devem ser tomadas como verdades absolutas, os sonhos foram ilusões da minha responsabilidade e o presente que chama por mim, merece que lhe dê uma hipótese.

Contagem Ao Segundo