The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida

Ora já está! Oficializou-se mais um Bucelense. Com toda a pompa e circustância, o príncipe foi recepcionado pelos habitantes. Já se encontra imiscuído no meio da população, criou amizades e já é reconhecido quando passeia pela vila. As pessoas na sua amistosidade, vão soltando cumprimentos e jogando conversa sobre os sítios a frequentar, as virtudes e desvirtudes da vila. Esta pacatez do campo inspira o príncipe, eleva-lhe a alma e dá-lhe uma sensação de concretização e bem-estar.
O seu Chateau encontra-se no coração da povoação, com vistas frontais para a serra, onde na sacada respira-se o cheiro do orvalho pela madrugada. O Salão, banhado pelo sol matinal reflectido nas paredes, apresenta uma cromática de cores que espera ansiosamente pelas recepções e jantaradas que o tempo lhe apresenta. O quarto incubído no resguardo da privacidade apresenta cores alegres e intimistas que num redomar de acolhimento aconchegador, convida-nos a disfrutar do seu espaço. O Spot perfeito para uma vida perfeita.
O Chateau é hoje inaugurado, o príncipe encontra-se orgulhoso. Cheio que nem um sapo, recorda o caminho para aqui chegar. Longo, tortuoso, mas com um final saboroso, como quando encontramos aquela cereja no fim do bolo, de que não estamos à espera! Está aí para quem o quiser vislumbrar! Venham a Bucelas encontrar a rota dos vinhos, o calor e a simplicidade das pessoas, os cheiros do campo e do verde, o Chateau du Prince de Bucelas, onde serão sempre acolhidos aqueles que queiram disfrutar de bons momento de convívio!

Convergi em vários sentimentos este sábado. Tinha-me mentalizado para o que me iria deparar mas nunca se está realmente preparado. Quando cheguei à igreja fui conversar com a minha Querida. Embora não pratique qualquer religião, é nesta igreja que consigo manter um diálogo com a minha avó. Talvez por todo o simbolismo que este sítio teve na vida dos Moser. Foi aqui que presenciámos os batizados, os casamentos e onde velámos os nossos.
Quando me despedi da minha querida, sentei-me para o início da cerimónia. Ocupei um lugar mais resguardado, equivalente à minha ligação ao seio desta família. Fui revendo os rostos à muito longe do meu dia-a-dia, ao mesmo tempo que olhava com orgulho para o Pemy. Uma opção de vida, um querer e firmeza para levar por diante essa mesma opção. Senti-me orgulhoso ao mesmo tempo que mentalmente ia vislumbrando filmes de tempos idos. Tempos de rara felicidade e beleza, momentos onde as intempéries não existiam. Ao acordar para a realidade, olhei com carinho para as minhas primas e tive consciência de como o tempo voa. Estando ali naquele momento, começava a fazer sentido de manhã ter ficado espantado ao olhar para o meu cabelo, onde já são bem visíveis uns quantos cabelos brancos.
No fim da cerimónia, segui sozinho para o copo d'àgua, onde estive à conversa com a madrinha Margarida. Por ela é que o tempo não passa, nem deixa marcas. Gostei muito de a rever. É extraordinaria a sua sensatez e postura. Depois dos aperitivos, regados com Martini, fiquei colocado na mesa da duvideo. E a entrada dos noivos, foi feita ao som do Star War's. Indicada para o meu primo. O jantar correu bastante bem e estive sempre na conversa com os meus companheiros de mesa. Já de barriga cheia fiquei tentado a atacar a mesa de queijos e assim o fiz. Quando se começou a ouvir os primeiros sons do dj, fui sentar-me mais à frente.
Estive o tempo todo, perto da mesa das bebidas, junto a um pequeno grupo de amigos. Uns recentes outros de longa data, sempre em amena cavaqueira. Fomos os últimos resistentes a abandonar a festa e enquanto seguia o caminho para casa, enchi-me de pensamentos. quando tinha a idade deles optei pelos caminhos mais sinuosos. A vida dá muitas voltas e hoje estabilizaste. Agora é o tempo deles, esta-se a apróximar a altura dos grandes desafios da vida, das grandes decisões e sinto confiança neles. Sei que tudo irá correr pelo melhor.
E assim chegamos à conclusão de mais uma etapa da vida.






















Este fim-de-semana estive na festa do Vinho e das Vindimas. A festa tradicional de Bucelas. Nunca tinha ouvido falar de tal festa e estava curioso em saber como se processava. Durante a semana, fui sabendo mais pormenores, através dos meus conhecidos do núcleo sportingista de Bucelas. Sim do sporting! Ouviram bem! É uma águia na toca do leão! Querem o que? Não existe mais nada por aqui, onde se possa estar à noite! O Luís lá me foi explicando como se iria processar a festa, enquanto o Vasco me dizia o melhor sítio para ver o cortejo.

A praça central de Bucelas é contemplada, com um palco, uma zona de dança, outra de comes e bebes, uma banca de rifas, um espaço da padaria, com pão a sair na hora e uma outra em representação da junta. Ao longo da estrada podemos encontrar barraquinhas com artesanato local. O habitual nestas romarias mas o que realmente diferencia esta festa, das outras vilas, é o cortejo. Este é no domingo à tarde e apresenta vários carros alegóricos com as variadas fazes da criação do vinho.

Sexta-feira, saí do trabalho eram umas sete da tarde e fui directo para a praça, a festa já tinha começado e queria vislumbrar o que se passava. Misturei-me com a multidão que já preenchia a praça. Percorri todos os espaços e bancas. Na banca dos vinhos, para meu espanto, as Caves Velhas, só estavam representadas com o vinho branco de Bucelas. Depois fui à barraca da padaria exprimentar um pão com chouriço, feito em forno de lenha. De bramar aos céus! Percorri a zona do artesanato e segui caminho para o núcleo para ver o jogo do Beira-mar contra o Braga. Ainda o jogo não tinha terminado e já estava a ser aliciado para uma jogatana de snooker, com uns miúdos cá da terra. Depois de levarem três séries a seco, deram por finalizado o jogo! Este também era o dia da abertura do bar laranjinha que fica mesmo por baixo do núcleo e aproveitei para ir dar uma vista de olhos ao espaço. Depois do que vi, não ponho muita fé na longividade do bar. Os donos são simpáticos mas sem qualquer experiência e durante a hora que lá permaneci, vi de tudo um pouco. Bebedeiras, rixas e caloteiros a sairem sem pagar a despesa. Tenho pena, porque o espaço se fosse bem aproveitado, teria condições excelentes. Comecei a ouvir a música do bailarico e decidi, rumar para lá.

Encontrei o Luis perto dos comes e bebes, a dar o seu passo de dança. Convidou-me para juntar-me ao grupo e bem regado como já estava, aceitei o convite. O tempo foi passando com muitas rodadas de cerveja, coscuvelhices sobre as miúdas presentes. Aquela era isto e aquilo, a outra namorava com este mas já tinha estado com fulano e cicrano.... Eu no meio da conversa, sem conhecimento de causa lá ia dando o meu parecer sobre as belezas! Com a brincadeira já eram três da manhã e cheio de cerveja até à cabeça, foi com um enorme esforço que consegui despedir-me e conseguir ir embora para casa.

Sábado de manhã, pelas dez e meia, já estava de pé e fui para a vila, tomar o pequeno-almoço. Como é meu hábito, fui comprar o jornal e segui para o café. Bebi dois leites com chocolate, para ajudar a limpar o organismo e duas merendas para forrar o estômago. Depois de pôr a leitura em dia e ter feito as palavras-cruzadas, dirigi-me para a praça. Estava na hora de almoço e a barriga continuava a pedir atenção. Fiz a asneira de pedir uma fritada! Tanta gordura meu Deus! Tive de voltar a regar o estômago. Nesta vila quando se começa a beber, aparece sempre alguém para fazer companhia! O mais dificil é ir recusando mas tentei preservar-me, porque não ia ficar para a festa dessa noite, tinha outra mais siginificativa que obrigava-me a pegar no carro. Tinha de ir a Lisboa para a festa de despedida de solteiro do meu primo! Mesmo assim foi um martírio conseguir-me safar às solicitações.

Cheguei ao restaurante eram oito e meia. Não vi viva alma e indaguei o empregado sobre se seria mesmo ali o jantar da festa. tinha a ideia que era esta a hora combinada mas estava errado. A mesa estava marcada para as nove e meia. Fiquei a bebericar umas caipiroscas acompanhadas por mini-chamuças enquanto ia vislumbrando o jogo do Porto. Os primeiros a chegar foram o padrinho do noivo e um amigo. O meu primo chegou para lá da hora combinada.

O Pedro, recusou-se logo a beber, com a desculpa que não apreciava a sangria, nem as caipirinhas. Manteve-se na coca-cola mas comentou que a sua bebida predilecta é o whisky Jameson. Quando se aproximava o final do jantar, o noivo, continuava sóbrio e Eu, O Miguel e o Tiago, combinámos de pedir um Jameson para o Pedro e que o Miguel faria um discurso, obrigando-o a beber aquando do brinde! A brincadeira pegou, e o miúdo deve ter bebido uns bons quatro baldes de whisky de penalti! Tal foi a onda de discursos!

O Pedro que ao início da noite se tinha mostrado relutante a uma ida a casa de strip, como é usual neste momentos! À saída já nem sabia bem o que queria e lá o conseguimos colocar dentro do moquinhas com rumo ao strip. Pelo caminho tive de parar o carro. O Pedro precisava de vomitar e só o parou de fazer à porta da casa de strip. Ainda fui pedir umas garrafas de àgua com gás para tentar recompor-lo mas o rapaz não se aguentava em pé e só pedia para o levarem a casa! Como só tinhamos levado dois carros. Fiquei sozinho enquanto os restantes levaram o Pedro para casa. Como àquela hora já não iria a tempo de voltar para a festa em Bucelas, acabei por entrar e beber mais um copo antes de ir para casa.

Domingo, fui para a praça era meio-dia e dei de encontro com a Paula, minha colega na empresa e que estava de serviço na Enoteca. Tinha vindo cedo de mais e andava a conhecer a vila. Fomos comprar jornais. Eu, o correio da manhã, ela o público e sentámos na praça a ler-los. Pedimos uma sopa para cada um para servir de almoço. Ficámos por lá a ouvir a banda e a fazer tempo para a enoteca abrir. Estava a contar com uma prova de vinhos antes de ir ver o cortejo!

Às duas horas seguimos o percurso a pé até à Enoteca. Pelo caminho ia cumprimentando as pessoas e a Paula ia comentando como eu já estava integrado na vila. Levei logo um balde de àgua fria quando chegámos ao nosso destino. Estava lá a Dr. Maria José, não ia haver provas de vinho para ninguém! Os planos estavam desfeitos e decidi ficar por ali a ajudar e ainda aproveitei para fazer uma visita às caves, que não conhecia.

O cortejo é giro de se ver. É diferente dos cortejos que já vislumbrei. Os participantes trajados com vestes antigas, vão em cima de carros puxados a tractores, retratando cada fase da produção do vinho. Outros seguem atrás dos carros cantando, cantigas de outros tempo. Mas o meu maior espanto foi ver que no final do cortejo, as pessoas que participam sentam-se no chão ao longo das ruas, a merendar. A invocar os tempos antigos em que as pessoas se juntavam todas a seguir à vindima. Quem está presente a assistir ao costejo é convidado a juntar-se à festa, sentando-se no chão a comer sardinhas, uvas e pão e a beber vinho tirado da pipa! Muito giro e muito penoso para o estômago! Juntei-me ao senhor Júlio, perto do carro que trazia a pipa, em amena cavaqueira, sempre de copo cheio!

Quando terminou a merenda, desloquei-me para o café da praça onde me aguardava o Luis. Tinha-lhe prometido que passava por lá para provar a ginginha e comer um pão com torresmo. E foi então que fiz a maior descoberta do fim-de-semana! Então não é que os cafés oferecem àgua-pé à discrição durante o fim-de-semana!? Podiam ter-me avisado com antecedência! Escusava de ter gasto dinheiro em bebida! Bem, fiquei por ali abancado a beber a minha àgua-pé até à hora do jogo do sporting. Ainda me aguardava um lanche ajantarado no núcleo!

Cheguei ao núcleo pelas oito da noite, levei uma garrafa do nosso Bucelas para juntar à festa. Fiquei a ver o jogo do Sporting à conversa com o Bicho, um dos dirigentes do núcleo. Ele ainda ofereceu-me uma cerveja, mas já não conseguia beber mais nada! Não cheguei a participar do lanche ajantarado. Ganhei tino e achei que tinha chegado a hora de rumar à cama e fiz-me a casa! Afinal hoje é dia de trabalho!

O Rali Rainha Santa disputa-se todos os anos no fim-de-semana mais perto do dia da celebração do falecimento da Rainha Santa Isabel. Dia oito de Julho. Antigamente estava incluído no calendário nacional de ralis mas com o vinte cinco de Abril deixou de ser disputado sendo retomado nos anos oitenta, como rali de segunda categoria. Foram convidados os antigos concorrente a participar e entre eles o meu pai, por isso desde novo que acompanhava o meu pai nesse fim-de-semana. Com o passar do tempo o rali foi aberto a novos concorrentes e um dos sonhos que o meu pai sempre quis realizar, era o de conseguir juntar toda a familia como concorrentes. Ele, eu e o meu irmão.
Em noventa e cinco o meu irmão tinha acabado de tirar a carta e eu tinha saído do hospital em Abril. Foi-me dada alta com a perna esquerda engessada, com previsão de um ano até ser removido. Na minha mente, só ponderava participar no rali desse ano como co-piloto do João ou do meu pai, e mesmo assim só o faria para agrado do meu pai. Na cabeça do meu pai, ele achava que era bom eu participar, mesmo que não forçasse o andamento, o que importava era participar. Fui-me recusando a pilotar no rali. Não estava em condições fisicas para conduzir depressa e tinha medo de poder prejudicar-me. Acabei por ceder às pretensões do meu pai e deixei-o inscrever-me.
Durante um mês o meu pai, não falava de outra coisa. todas as conversas desembocavam no rali e como pela primeira vez ia participar o "clã" Manique. Para não dar mais ideias ao meu pai, eu recusei-me a levar o Crx. Participava sim, mas com o Corsa. Assim não lhe dava uma desculpa para pedir-me para disputar o rali para vencer. Tendo-me recusado a levar o Crx era preciso arranjar um carro para o João e foi reservado um Twingo para aluguar em Coimbra.
No dia de arranque para Coimbra, o meu pai saiu à frente com a Elsa Steglich, sua namorada da altura e co-piloto, enquanto eu ia buscar o Ivo e o meu irmão. Tinha combinado com eles em Alvalade num café por baixo da casa do Ivo. Iriamos os três no meu carro para cima. Ao chegar a Alvalade, à hora combinada o Ivo estava atrasado como sempre e comecei a ligar ao meu irmão. O telefone tocava e nada! O Ivo desceu e fomos tomar café. Passei as duas horas seguintes a ligar para casa da minha mãe e nada de resposta. Já fartos de esperar, comecei a ponderar passar em casa da minha mãe. Voltei a fazer uma última tentativa. Atende-me o João com voz de sono, tinha-se deitado tarde e não ouvira o telefone. Disse-lhe para se despachar rapidamente e para ir ter ao café, estavamos mais do que atrasados. Passou-se mais uma hora e nada do João aparecer! Entretanto, recebo um telefonema do meu pai preocupado conosco, contei-lhe o que se sucedia e ele disse-me para me vir embora. Respondi que ia dar ao João mais meia hora depois disso seguia viagem.
Quando estava prestes a vir-me embora o João chegou, com a maior cara de paú. Dei-lhe uma descompostura e preparava-me para ir-me embora, quando ele me comunica que ainda teria de voltar a casa para fazer a mala. Perdi as estribeiras e disse-lhe para ele fazer a viagem como quissese pois de certeza que comigo não a faria, pois recusava-me a esperar mais um minuto por ele! Já se tinham passado três horas desde a hora combinada! Sua excelência, saí-se com o seguinte comentário: - Por mim nem vou. Eu até nem queria ir! Foi a gota-de-àgua! Vim-me embora e liguei logo ao meu pai a contar a história.
A minha participação no rali estava a ser de uma postura de passeio e tinha dito em alto e bom som, para toda a gente ouvir-me, que iria fazer a prova de perícia devagar. Esta é a última fase do rali e na qual se encontram os resultados. Todo o resto da prova é de uma postura de convívio e todos cumprem o mesmo tempo. Quando chegou a minha altura de entrar para a perícia, olhei para o meu pai e vi uma certa amargura por não se cumprir o seu sonho. Tomei uma decisão e pensei bem na asneira que ia fazer. Não disse-lhe nada.
Mesmo antes do Ivo sair do carro, para eu começar a minha participação. Virei-me para ele e disse-lhe só isto: - Vou dar tudo por tudo, pelo menos a ver se o meu pai ficar contente. Ele respondeu-me: - Achas que é boa ideia, estando tu nesse estado? Só tive tempo para dizer: - Não! Mas tem de ser.
Foi o minuto e quarenta e nove segundos, mais longo da minha vida. Acabei a participação e não tinha forças para sair do carro, todo eu pingava do suor. Fiquei sentado no carro uns bons dez minutos a tentar recuperar forças. A primeira pessoa a vir ter comigo foi o Ivo. Pergunto-me se estava bem, fiz sinal de mais ou menos. Ele sorriu e disse-me: - Tens o melhor tempo e só faltam mais cinco concorrentes! Não quis acreditar, tinha a sensação que tinha corrido bem, mas nunca imaginei ser possível bater os tempos dos Coopers. Esta notícia deu-me animo e sai do carro para ir ter com o meu pai que estava sentado ao lado do Ni. Quando me acercei deles, não me disseram nada. Nem um, nem outro. Sentei-me ao lado deles a apreciar as outras participações que faltavam, mas eu bem que vi a troca de olhares entre eles e pensei: - Pronto, o meu papel está feito. Fizeste bem!
A espera pelos fim das restantes participações parecia-me uma eternidade. Fui-me embora sem saber os resultados finais, precisava de descansar. Eram umas cinco da tarde e tinha de estar pronto às nove para o jantar de entrega de prémios. Cheguei ao hotel e caí que nem uma pedra na cama. Não me dei, sequer ao trabalho de tirar a roupa. Não tinha forças. O Ivo acordou-me, faltava um quarto de hora para as nove. Não teve coragem para acordar-me antes, passei o tempo que estive a dormir a gemer com dores e ele simplesmente percebeu que eu necessitava de descansar e teve pena de me acordar antes.
É com muito gosto que recordo o momento em que recebi o meu troféu. Foi das mãos do meu pai que o recebi. Foi um abraço muito sentido, de ambas as partes. O mais caricato da situação foi ver a cara de muita boa gente, quando subi ao palanque em canadianas. Pensavam que o Ivo é que ia a conduzir e eu seria o co-piloto! Passei uma boa hora a tentar explicar a muita gente que afinal era eu o condutor!

É incrível o ciclo de altos e baixos que existe numa vida. O que queremos hoje, pode ser o oposto do que tanto ansiámos no passado... Vá-se lá entender a vontade do ser humano!
Quando miúdo, fui um previlegiado por ter acesso a tudo e consequentemente isso era-me atirado à cara sempre que despoletava uma discussão com o meu pai. Essas discussões acabavam sempre com o mesmo final. A refugiar-me no fundo da minha cama, sonhando, em como de bom grado, trocava tudo o que possuia para poder usufruir de um pai presente. Alguém com quem podia contar no apoio das decisões. Que fosse comigo à bola ou que estivesse presente nas minhas pequenas glórias. Tal nunca sucedeu e a infância e adolescência, passei-a sem a figura paternal que tanto ansiava.
Depois do divórcio dos meus pais, passei a usufruir de uma relação muito estreita com o meu pai. Aquilo que tanto almejei chegou de uma maneira deturpada. Talvez por necessitar de um ponto de referência familiar onde se abrigar, o meu pai apoiou-se muito na nossa relação, tornando-se a mesma algo extravagante, muitas das vezes os papeis foram trocados. Tive que tomar as rédeas da nossa relação para poder preservar o seu bem estar e muitas foram as noites passadas em claro dando sermões sobre excessos e comportamentos menos próprios.
A adolescência percorri-a repleta de namoricos, nunca me entreguei por inteiro e descontraidamente ia coleccionando relações sem futuro. Fugia sempre que encontrava alguém com vontade de se entregar por inteiro e com isso, ainda parti alguns corações. Quando entrei na idade adulta passei a olhar com ternura e inveja as relações duradouras e desejava muito, quando miúdo, ter tido a sabedoria de cultivar uma relação. Vivia a sonhar com a "minha" família e como trocava num ápice toda a vida noctívaga e de luxo, por um ambiente aconchegante de um lar nosso.
Um dia esse momento chegou, um pouco forçado pelo meu sonho de ser pai e pela vontade de alguém de ser independente dos progenitores. Foi uma altura repleta de dificuldades, onde vivia com o único objectivo de ser melhor pai, que o meu tinha sido para mim. Esqueci-me, ou melhor, a vida não me tinha ensinado que era preciso existir amor entre duas pessoas para que as coisas resultassem. As privações foram várias e com elas vieram ao de cima conflitos. Inevitável entre duas pessoas de classes sociais diferentes e com maneiras de estar na vida tão opostas. Eu conhecia o lado luxuoso da vida e não sentia falta dele, o outro lado desejava ardentemente por essa face supérflua que eu não conseguia proporcionar naquela altura. Abrutamente tudo terminou e que com isso quem mais sofria era quem eu mais tentara proteger.
A seguir, vi-me isolado durante muito tempo da lucidez necessária do querer. De objectivos para existir, vagueava pelos caminhos da vida à espera de algo que me fulminasse a ter vontades. Conformei-me com o que recebia da vida e dos outros. Fosse muito ou pouco. Não tinha projectos e não pretendia criar um futuro. Aceitava os impropérios, a castração e as criticas com indiferença. Nessa altura indagava-me sobre o que falhara no campo profissional e no campo sentimental, embora não desse relevância ao que o destino poderia guardar-me.
Foi num dia sem planos, que deixei-me impressionar por alguém que viu em mim capacidades que nem eu mesmo já era capaz de rever. Fez-me acreditar novamente, ganhei uma lufada de força interior e julguei que seria possível ser feliz sentimentalmente. Mais uma vez errei. Voltei a sonhar que o materialismo dos nossos dias não afectava os demais. A verdade é que quem nunca teve não sabe apreciar o que é o não ter e o gozo que dá a luta a percorrer para ter. As dificuldades fazem parte desse caminho e fazem com que o sucesso tenha um sabor ainda mais especial. Será tão complicado entender isso?
Nas primeiras dificuldades o timoneiro ficou sem a tripulação e revelaram-se as reais posturas de vida de outros. O barco foi apanhado numa tempestade sem ver um porto de abrigo. Mas a vida tem destas coisas, a experiência é um factor extremamente importante. O saber e o querer, ganharam mais força e não podiam dar razão às críticas e depreciações que se conjugavam à sua volta. Prometi a mim mesmo que embora a fé nas minhas capacidades tivesse desaparecido da face dos outros, um dia todas as críticas de desperdício de talento e de sucessivos insucessos seriam bem refutadas. O tempo amainou, e o barco chegou a bom porto profissional. Agora há que consolidar alicerces e recuperar o tempo perdido. Vamos dar tempo ao tempo e focar um aspecto da vida de cada vez.
Continuo a sonhar... Talvez seja possível, um dia conciliar os dois campos com sucesso mas nesta fase da vida aprendi a não voltar a abdicar do que conquistei. Custou muito voltar a estar no topo e hoje já não faço qualquer troca radical.
O calo da vida lembra-me, que o meu sucesso profissional é uma grande orgulho para todas as privações passadas e que se a vida não me bafejar noutros campos posso sempre dar-me por satisfeito por ter chegado aqui.

Contagem Ao Segundo