The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida


Hoje fecha-se um ciclo. Ficou muito por dizer, acho que ficará sempre. Nem sempre foi fácil, não sabias ser pai e eu não sabia ser filho, os feitios similares também não ajudaram à comunicação. Não soubeste lidar com o meu feitio, muito menos com a minha deficiência mas ai de quem ousasse dizer que eu não era capaz de algo. Atiravas-me às feras e por isso sou muito grato. Hoje se acredito que não existem impossíveis, devo a ti. 

Impulsionaste as minhas maiores loucuras. Contigo calcorreei Éfeso numa cadeira de rodas, de perna engessada fui a uma das maiores cataratas do mundo, de canadianas fui à pesca de piranhas no meio da Amazónia e por ti fui buscar forças e ganhei um rali, o teu Rainha Santa.

Na infância e adolescência recordo, que mesmo quando chateados, sentávamos silenciosamente a ver as corridas de fórmula 1. Era o ritual que nos unia. Fosse a que horas fosse, lá estávamos nós. Tu a torcer pelo Senna, eu pelo Prost. Aprendi a história da F1 para te impressionar. Desde que deixei de viver contigo, nunca mais vi uma corrida. Este fim-de-semana, 24 anos depois, a F1 volta a Portugal. Acho que vou sentar-me em frente à TV, vou ficar em silêncio como fazíamos há muitos anos, fazer de conta que estás ali sentado ao meu lado. Vou ver a corrida e que onde quer que estejas, vou torcer para que sejas tu o campeão. 

Até um dia destes Pai.Hoje fecha-se um ciclo. Ficou muito por dizer, acho que ficará sempre. Nem sempre foi fácil, não sabias ser pai e eu não sabia ser filho, os feitios similares também não ajudaram à comunicação. Não soubeste lidar com o meu feitio, muito menos com a minha deficiência mas ai de quem ousasse dizer que eu não era capaz de algo. Atiravas-me às feras e por isso sou muito grato. Hoje se acredito que não existem impossíveis, devo a ti. 

Impulsionaste as minhas maiores loucuras. Contigo calcorreei Éfeso numa cadeira de rodas, de perna engessada fui a uma das maiores cataratas do mundo, de canadianas fui à pesca de piranhas no meio da Amazónia e por ti fui buscar forças e ganhei um rali, o teu Rainha Santa.

Na infância e adolescência recordo, que mesmo quando chateados, sentávamos silenciosamente a ver as corridas de fórmula 1. Era o ritual que nos unia. Fosse a que horas fosse, lá estávamos nós. Tu a torcer pelo Senna, eu pelo Prost. Aprendi a história da F1 para te impressionar. Desde que deixei de viver contigo, nunca mais vi uma corrida. Este fim-de-semana, 24 anos depois, a F1 volta a Portugal. Acho que vou sentar-me em frente à TV, vou ficar em silêncio como fazíamos há muitos anos, fazer de conta que estás ali sentado ao meu lado. Vou ver a corrida e que onde quer que estejas, vou torcer para que sejas tu o campeão. 

Até um dia destes Pai.

O glamour entra de rompante num passo seguro, de forma serena e confiante, com se aguardasse a contemplação que é sua por direito. Uma ar leve, sem ser leviano, apenas equilibrada e cheia de esperança. Fazes ver que és apenas uma miúda simples que deseja amor e dedicação. Eu recuo, porque a vida foi madrasta e ensinou a ficar à defesa, ainda mais quando a areia é demasiada para a camioneta. Vives no mundo do luxo. Eu, eu sou o jagunço da tasca. Não faz sentido e fazes sentir todo o sentido.
Confesso todos os pecados de uma forma simples, sem receio de julgamentos. Talvez, porque continue a achar ser impossível mais que uma boa amizade, portanto, nada a esconder ou recear. Abro o jogo. Recebo de volta um sorriso brilhante, com as palavras, adoro-te. Desarmado, fico sem palavras, fico sem ar... não é habitual. Já pouco me surpreende na vida. Sabes, já vi muito e vivi ainda mais.
Sabes o que gosto de mim em ti? É que para além de todo esse glamour, não há criticas, não há cobranças, apenas elevas o bom e relevas o mal. Falas que mereço coisas boas e eu estranho. Há frases tuas, que entranham em mim. Por mais que queiras esconder, és um cavalheiro. Será mesmo assim? Não sei, sei que gosto de tratar-te bem, da mesma forma que me tratas. Gosto da cumplicidade, do carinho, do afecto, do riso, da força e acima de tudo, do respeito e confiança.
És uma pessoa fantástica, sexy, com sentido de humor e entendemos-nos muito bem. Gostas de mim do jeito que sou. Nem eu gosto de mim do jeito que sou. Está tudo a ser incrível, mas devo confessar... Estou a experimentar um sentimento muito estranho. Acho que se chama felicidade.
No meu caminho de vida, encontrei pessoas com quem adoro conversar porque admiro a sua forma de pensar, outras com quem sinto uma enorme cumplicidade e consigo perder a noção do tempo num silêncio eterno. Há aquelas que subsistem em fazer-me rir até chorar, ou outras com quem estou, quando apenas procuro diversão. Houve poucas por quem perdi-me de amor. Pelos dedos se contam, aqueles que considero família de coração e estarão lá sempre para apoiar e motivar. Tu? Bem, tu és especial, porque és todas elas e mais algumas que ainda quero descobrir.
Obrigado, por fazeres-me acreditar que ainda é possível amar, em plena terceira idade.

Não vou guardar saudades tuas mas não esquecerei os momentos que vivemos. Foi intenso, cruel, repleto de dúvidas, de mágoas e até mesmo desesperante mas obrigado. Obrigado por mostrares o que é a reclusão, a realidade da sobrevivência num mundo selvagem recheado de violencia. Obrigado por recordares, que devemos sempre ser gratos pelas pequenas coisas, que no dia-a-dia damos como garantidas. Como tomar um banho de água quente ou apenas passar uma noite sem frio.
Obrigado por lembrares que podemos ir sempre um pouco mais fundo no fundo do poço. Onde as coisas boas são raras e espontâneas e as más notícias fluem incessantemente. Obrigado por colocares à prova o optimismo, a esperança e a força interior para superar todas as privações.
Obrigado por me fazeres mais forte, mesmo quando estive à beira do precipício da insanidade e físicamente ofereceste uma doença crónica para acompanhar-me no resto da minha existência. Já tinha poucos problemas de saúde, não era?
Obrigado por um ano de nadas e de tudo. De nada ter e de tudo mudar para pior. De muita perda e resiliência. Perda de orgulho, privacidade, dignidade. Resiliência em sobreviver, continuar a lutar e a acreditar num futuro melhor.
Obrigado pela saudade, daqueles a quem fechaste a luz, dos que partem ou apenas apartam. Obrigado pela solidão, o marasmo e a rotina de inadaptado. Obrigado por recordares, que não sou escolha, apenas fardo.
O que teria sido de mim, se tu não tivesses existido? Vai, vai rápido, que já vais tarde, e apenas desejo, que ao ano que cedes lugar, seja o oposto de ti.
Adeus 2016

Demorei a exprimir esta memória, talvez à espera do equilíbrio de absorção necessária para relatar com frieza um episódio que transforma a nossa essência. Passaram-se cinco meses desde que terminou o pesadelo, poderiam ser cinco anos, que as imagens continuariam frescas na memória.
Era terça-feira de carnaval, nove da manhã, um acordar lento. A humidade do inverno enchia os pulmões, enquanto caminhava para o banho. Meia-hora depois, estava pronto para sair, não havia nada em casa para o pequeno-almoço. Abro a porta de entrada e um frio apodera-se de mim, sentindo-me encurralado, sabia que não havia solução. Dois guardas nacionais, estavam a abrir o portão e a encarar-me de frente: - Sabe porque estamos aqui? Sim, sei - respondi. Era inevitável e assim fui conduzido ao posto.
Enquanto tratavam da papelada burocrática, com argumentos solidários, que não fazendo sentido a sentença, eram obrigados a cumprir o mandato de captura. Deixaram-me avisar a minha mãe e amiga/advogada, do que se passava. Ambas vieram em meu auxilio. A minha mãe trouxe cigarros e um pão, para poder matar a fome que entretanto tinha-se desvanecido. Tentei manter a frieza necessária para delegar os recados urgentes e ao mesmo não transparecer o pavor que se apoderava de mim. Ia passar os próximos cinco meses da minha vida numa prisão.
Foi num abraço apertado que me despedi da minha mãe, reconfortando-a: - Eu consigo sobreviver a isto, não se preocupe. Entrei no carro da patrulha, sem olhar para trás, para quê verem o desespero que tomava conta de mim? A viagem foi feita numa marcha lenta interminável, contemplando o vazio, absorvido pelo sentimento de culpa e de perda.
À entrada no estabelecimento prisional , um declive escondido do resto do mundo, sou encaminhado para a secretaria, onde despi a alma e o corpo para uma inspecção. Encostado a uma parede, a foto de perfil para reconhecimento e a perda de identidade. A partir de agora, sou o 307, é esse o meu nome aqui. Um número, apenas mais um no meio de 800 e poucos. Terminado o exame corporal, um guarda conduz-me à ala. Abre-se a porta do inferno. Uma secretária em madeira solitária ao centro do espaço, sentado indiferente à minha chegada, jaze um guarda prisional na cadeira. Ao redor um gradão, onde se empoleiram um amontoado de caras de poucos amigos. O guarda levanta-se, enfia a chave no ferrolho e sou literalmente engolido por uma multidão com perguntas: de onde vens? o que fizeste? quanto tempo apanhaste? Dá-me um cigarro, dá-me já um cigarro! Os guardas, a dois passos, assistem à cena indiferentes, é um filme visto e revisto e para o qual já não têm interesse. - Dirija-se ao chefe de ala! Grita a voz de ordem. - Ali, vai ali, dizem os outros reclusos. Entro numa pequena sala, empurrado por uns quantos. Boa tarde - digo eu. Sem nunca levantar os olhos do papel, diz o chefe de ala, pegue o saco, tem aí a roupa. Não perca... já o encaminham para a sua cela. Arrasto o saco de plástico, juntamente com a minha dignidade, para fora da sala. Continuo a sentir empurrões, perguntas mil, ameaças, mas a minha alma não está ali. Balbucio palavras, que nem consigo reconhecer. O barulho agressivo é ensurdecedor.

Percorro o corredor forrado de azulejos desprovido de cor, um azul água ou verde pastel. Não sei, talvez seja apenas a sujidade que esbate a cor. Ladeado por portas com duas trancas, que abrem a marcha até ao meu destino final. Senti a porta de ferro fechar-se estridentemente nas minhas costas, enquanto o restolho dá duas voltas e as trancas anunciam a reclusão, como se fosse este o sinal do fim de uma vida.
Deparo com a degradação que será o meu espaço nos próximos 150 dias. Um cubículo 3x2m, paredes cobertas com resquícios de sangue, uma pequena mesa encostada a uma das paredes laterais. Do lado oposto, uma cama singular de ferro, pintada a tinta acrílica vermelho rubro, descascada do tempo e do uso, deixando transparecer a ferrugem da idade. Um contraplacado a fazer de estrado e um colchão de espuma com 5cm de altura, prenúncio de que dormir uma noite relaxada será um luxo inalcançável. À cabeceira, uma meia parede a servir de divisória para a casa-de-banho, onde mora uma sanita em inox sem tampo, respingada de urina seca, proclamando que nunca fora propriamente limpa. Um lavatório, também em inox, povoado de calcário e por cima um espelho, embutido na parede de azulejos, desfeito em cacos. O meu rosto reflectido no recorte dos cacos, apresenta as linhas de uma cara sem alma, onde o futuro deixou de existir, apavorado com o sentido de estar a pagar todos os erros de uma vida. De frente para a sanita, um espaço para duche quadrangular, com cerca de 50cm. Onde sobressaía o chuveiro partido, remendado com uma garrafa de plástico cortada, para ajudar o fluxo da água. Três barras na janela, de vidros partidos, não deixam esquecer que não se trata de um quarto mas de uma cela de prisão, onde terei de aprender a sobreviver como nunca antes tinha sido necessário.
Respirei fundo, engolindo todo o pavor em busca de uma réstia de coragem no fundo do saco de plástico. Retirei os lençóis, fronha, almofada e os dois cobertores. Fiz a cama, com toda a calma, pois o tempo era algo que não faltava e qualquer distracção servia para abstrair do barulho agressivo e ensurdecedor que se fazia sentir no corredor,  esmagava estridentemente o meu espaço. O vento entrava violentamente pelos vidros partidos, sem pudor de não ter sido convidado, enregelando corpo e alma. Tiro os sapatos, enfiando o corpo na cama, com a mesma roupa com que entrara neste pesadelo. Em busca de um abrigo contra o frio e do medo impregnado na pele, o corpo treme. Fecho os olhos, numa réstia de esperança que ao reabrir os olhos, esta opressão termine e não passe de uma alucinação.
O barulho constante não permite que o sono tome conta de mim, tapo a cabeça com o cobertor. O corpo continua a tremer insistentemente com o gelo do meu abrigo e o vazio da alma. Como foi que cheguei aqui? A tinta do tecto descascado, assemelha-se a um monstro, o monstro que observa e ameaça engolir-me. Falo com Deus, falo com o meu anjo da guarda, penitencio-me, divago sobre o que preciso pedir ao exterior, sinto a mente a perder-se, agora entendo o significado de alucinações.
Não sei quantas horas passaram. Levanto, calço os ténis e arrisco olhar pelos vidros partidos da janela. O pátio está escuro, o chão repleto de carcaças e sacos de plástico, revolto ao vento. Do outro lado outras janelas, luzes, barulho, som de televisões. Volto a olhar-me ao espelho partido. Sim, ainda parece que sou eu que estou no reflexo.
Oiço as trancas abrirem, o restolho roda estridente ao virar da chave. Um guarda aparece e um recluso empurra uma marmita para dentro da cela. É o suposto jantar. Uma sopa, que assemelha-se a óleo sujo, que nem atrevo a tocar, uma maçã e uma massa com restos de carne. Pego nos meus talheres, que vinham no saco de plástico da roupa de cama, provo o jantar. Insonso, a massa revolve na boca com um sabor intragável. Não consigo, limito-me a comer a maçã. Fecho os tupperware, encosto ao canto, perto da porta e volto a deitar-me. Continuo a tremer, está muito, muito frio. Hora de voltar a esconder-me debaixo dos cobertores. O pensamento vai, o pensamento vem e o tempo passa, embalado pelo barulho abrupto que teima em não desaparecer. Pancadas nas portas vizinhas, fazem sobressaltar até ao raiar do dia.
Foi apenas o primeiro dia, de 150. Já só faltam 149.

Olá meu amor. Eu sei que não sou fácil, que sou teimoso, orgulhoso, de temperamento volátil mas também sei, que fui eu para ti, sem segredos, sem máscaras, simplesmente eu. Nem sempre bonito, nem sempre elegante ou atractivo mas sempre, sempre teu, com todos os defeitos que me assistem. Não é fácil lidar comigo, não admira que ande aos caídos há tantos anos, não é? Mas investi tudo em ti, em nós. De corpo e alma, e infelizmente sempre com muito medo que o sonho acabasse. Camada, a camada foste descobrindo o meu ser. Aquele que escondo do mundo inteiro, aquele que não se acha digno de nada, nem ninguém. Aqui esteve para ti. Como nunca, como nunca se mostrou a ninguém.
Temos uma história tão rica, para o bem e para o mal. Também acho que nunca a escreveria de outra forma. Sempre intensa, sempre viva, sempre cheia de tudo. Se calhar foi esse o nosso mal, se calhar foi o sentimento ser tão grande. O meu, foi arrebatador. O teu, foi crescendo com o tempo. Nunca quisemos as mesmas coisas, ou se calhar quisemos mas de formas diferentes. Lutámos um contra o outro, lutámos cada um à sua maneira, cada um contra o seu mundo mas nunca juntos. Tentámos, sofremos, magoámos, desolámos... mas continuamos cá, isso é que importa.
Foste tão, tão, minha amiga. Posso não concordar com tudo o que fizeste mas agradeço, a forma como te empenhaste. Não há palavras, não há sentimento ou gesto, para demonstrar a gratidão mas meu amor, rainha do meu coração, mulher da minha vida, senhora do meu ser. Não dá. Somos aquele amor impossível. Falta só aquele bocadinho, que faz toda a diferença, para que as peças encaixem. Não poderei nunca ser completamente feliz, se não for contigo que partilho a minha vida mas também, não consigo aceitar que depois de tudo, de realmente tudo, possas duvidar do quão importante és para mim.
Eu acredito em grandes amores, porque tu foste o meu. Aquele amor que tudo consome. Aquele amor que entra impetuosamente como uma chama descontrolada e que com os anos torna-se numa labareda constante, que queima em silêncio. O nosso amor é daqueles amores, que serve de inspiração para criar romances e músicas. O género de amor que ensinou-me mais do que imaginava sequer viver um dia, e que retribuiu numa compensação infinitamente desproporcional.
Não sei de ti faz tempo, não procuro, não quero saber, evito até. Mas quando respiro, parece que não consigo inalar todo o ar, porque esse resto que falta, é teu, és tu que me dás, és a parte de mim, que me faz sentir completo.
Não entendes que o bom que me dás, também sofoca-me. Preciso de espaço, de confiança, de saber apenas que estás ali. De sentir que não sou segunda escolha, que me assumes, sem ter de estar algemado a ti. Não gosto, nem sei lidar com a tua disponibilidade para os outros, da mesma forma que tu não sabes compreender a minha fidelidade. Acho que funcionamos em frequências diferentes, emitindo a mesma canção.
Amor da minha vida, eu estive preso, Lembras-te? Eu sei e vou sempre recordar o teu olhar quando olhaste para mim naquela primeira visita. Era o dia dos namorados, tentaste segurar as lágrimas, eu tentei ser racional, não merecias estar ali. Beijaste-me e disseste: hoje é o nosso dia, é dia dos namorados. Mas o que tu não entendeste, é que essa prisão não terminou, quando sai cá para fora. Ainda estou preso dentro de mim. E no momento que mais necessitei da tua compreensão, foi quando tu falhaste. Eu sei, não tens culpa, andamos sempre desencontrados. Mas não faças filmes, não me dou a ninguém e nunca serei de ninguém, porque se é para ser, então desculpem, mas aquela teimosa, que só quer tudo à maneira dela, é dona e senhora do meu coração há muito tempo. São seis anos de amor.
Seria tão diferente se fossem vinte. Já te passou isso pela cabeça? Oh como eu gostava que tivesse sido assim. Seriam vinte anos de cumplicidade, seria uma história ainda mais rica. Seria o pai da nossa princesa. Que orgulho. Mas não é essa a nossa história, não crescemos juntos, embora tenhamos desabrochado na mesma altura. Foi apenas um desencontro, seguido de um encontro fora de horas, recalcado por várias experiências, que acabaram por influenciar o nosso futuro.
Fui bafejado pela sorte por poder viver o amor da minha vida. Aprendi contigo, dei o que tinha e não tinha e moldaste-me à imagem do que esperavas de mim. Sem questionar a forma de estar, vestir ou de conviver com terceiros. Foi uma experiência única, singular, mas que não se perpetuará no tempo.
O amor só por si, não conquista tudo. Não resolve os erros irreparáveis do passado, não vence a mágoa, a desconfiança ou supera a falta de respeito. Por isso, acho que a maior prova de amor que posso oferecer, é simplesmente deixar-te ir. Não viver o resto da minha vida ao teu lado, não retira uma vírgula ao significado que foram estes seis anos mas é hora de partir.
É tão bom sentir-te feliz, é tão bom sentir que estás bem. A minha gratidão impede que qualquer sentimento de dor tome posse. Eu sei que não entendes isto, sei que não me compreendes, nunca conseguiste completamente entender-me, não é? Mas acredita, ao menos por palavras. Acredita. É bom saber que estás bem. Irei sempre sentir-te, irei sempre sofrer por ti e estarei aqui no dia que chamares por mim. Afinal és a minha mulher. És o amor da minha vida, a metade da minha existência e apenas quis deixar o meu agradecimento.
Agradecer por tudo o que fizeste por mim, por tudo o que vivemos, por tudo o que partilhaste. Obrigado Rainha, por todo o apoio e sempre, sempre, estarei aqui para ti, se assim desejares.

Beijinhos CSaid

Hoje estive à tua porta a ouvir isto :) Acho que agora encontrei a minha paz,



Aos 41, ainda procuro por quem complete a outra metade de mim, este reboliço de sentir-me incompleto, que não dá descanso. Nunca é tarde para viver mas já se esvai o tempo e a esperança no cansaço da procura.

Não vou oferecer a alma e coração, a alguém que não é digno da pureza de sentimentos. A ser, que seja singular em toda a sua forma de esplendor, onde as memórias criadas são para sempre únicas e irrepetíveis. Não irei ceder à comodidade da companhia, por receio do silêncio da solidão.

Quero a paz que advém do respeito, da partilha a dois, sem julgamentos, sem segundas intenções, repleta de dedicação, sem nunca colocar em causa o que nos une ou a nossa identidade. Uma energia positiva de partilha, ao invés de consumida em egoísmo.

Quando tomo o rumo em direcção de quem gosto, faço-o da única forma que sei. Por inteiro, sem receios de mágoa do passado ou comparações. Faço-me à estrada a todo o gás, sem nunca olhar para trás mas não tolero chegar a meio do caminho para compreender que os braços do destino não estão abertos para receber. Se seduzem para percorrer um caminho, então o mínimo, é terem a certeza que querem o hoje, o amanhã, o sempre.

Começo um novo ciclo de vida com a convicção de querer abandonar rotinas, abraçando um novo mundo, uma nova realidade. Para trás fica a monotonia sem sentido, de esperanças vãs e promessas levadas ao vento, que prenderam amarras até ao abandono. Hoje sou mais amor próprio, hoje sou oriente, hoje acalento em mim todos os sonhos de uma vida estável.

Entrando na época em que o mundo exalta os melhores sentimentos da humanidade, onde ao virar de cada esquina se encontra glorificações a valores nobres, como a família, a amizade e o amor, a mensagem vai-se propagando aos sete ventos, celebrando esses sentimentos como solução miraculosa para uma conduta de vida repleta de satisfação. E eu, no peso que arrasta a alma por estes dias, sinto arrepio na pele perante a constatação de um mundo frio, onde o calculismo se sobrepõem ao impulso da bondade.
 Um mundo onde o amor já não é como nos filmes a preto e branco, a paixão e dedicação são irrelevantes perante uma estabilidade ou comodismo. Já não se escolhe um parceiro para a vida de forma sentimental, pondera-se benefícios. A falsa esperança não pesa na consciência, desde que o egoísmo seja o centro do universo.
Sinto-me traído pela própria alma, que sempre tomou decisões baseadas numa visão idílica, em sonhos e esperanças, terminando invariavelmente condenado ao insucesso. Cansado de remar contra a maré, cansado da solidão, cansado do vazio. Quando se aprende a deixar a esperança morrer?
Oiço mil vozes em acesa discussão deambulando na cabeça, a boca economiza palavras por estes dias, refugia-se no escuro. O corpo arrasta-se do sofá para a cama, da cama para o sofá, em busca de um vazio. A angústia de uma alma que finalmente compreende que nunca foi relevante na vida de ninguém, nem mesmo na vida do filho que se perdeu.
É hora de fazer extinguir fantasias, aceitar que as amarguras possuam o corpo, como o ar que se respira. É deixar os dias correrem para um final sem mágoas, esquecido no tempo, descartável e irrelevante. É hora de enterrar as dores atrás de um sorriso, tudo está bem, é Natal.

Para que um novo rumo tome forma, há que criar a coragem de partir. O empurrão que necessitava aconteceu, impulsionou a necessidade de redescobrir alento. Agora, prestes a embarcar na maior das aventuras, já não existe força na esperança, que segure o barco ancorado ao cais. Não há tentação de olhar para trás, pois atrás, nada há além de miragens e esperanças perdidas.

É como se voltasse a ser criança, um frenesim de excitação e receio do desconhecido mas com a certeza de que parte para criar novas memórias, viver sensações desconhecidas num mundo milenar com raízes portuguesas. Talvez seja no oriente que encontre a cura, para este enorme vazio dentro de si.

Metódico nos passos, agora arrisca-se, já nada tem a perder. Perdido o seu mundo, ousa cegamente em busca de um rumo. Uma prescrição dúbia que dê alento, talvez na novidade consiga esquecer de sentir. Vai ou racha. Tudo ou nada, daqui a uns dias logo se vê o que o guardião do destino dita. Lusitano ou emigrante convicto.

Ao embarcar na roleta do destino, fecha-se os olhos recordando no recanto da memória, a brisa de olhar cintilante, a família que sempre ansiou e que um dia ousou apelidar de sua. Porque a saudade dessa história será um sentimento eterno, tal como a lua sente a falta do sol no céu matinal. No horizonte a ilusão de encontrar a cura, da falta imensa que faz viver um sonho feliz e que já não é seu por direito.

Adeus meu Doce, até já Macau