The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida

Anjo da guarda envolve-me nas tuas asas, abriga-me deste mundo. Vamos levantar voo, leva-me para o outro lado da lua porque hoje já nem as estrelas querem brilhar. As nuvens encobrem o seu brilho, tal como as palavras que uso não chegam ao seu destino. Anjo da guarda, sábio do tempo, abriga-me no teu manto acolhedor de penas, necessito tanto de descansar um momento. Vou fechar os olhos por breves segundos, talvez quando voltar a abrir-los, esteja novamente revitalizado e encontre o luar a banhar a estrada e talvez... talvez as palavras já façam sentido na outra margem.
Anjo da guarda, anjo ponderado, faz-me compreender porque é que o som do meu coração não ecoou audível. Estarei a declamar correctamente ou as barreiras deturpam a melodia? Não sei ser diferente e não sei se conseguirei fazer-me entender um dia, quero manter essa esperança mas parece que o que falo só é perceptível momentaneamente. Anjo da guarda, ilumina o caminho a estas palavras que merecem chegar ao seu destino. Mostra que a pureza do seu timbre é genuína. Por enquanto, deixa-me repousar no teu colo, a beber da tua sabedoria para encontrar o tom correcto.
Mas acima de tudo anjo da guarda, depois do meu descanso, peço-te desculpa mas até ao infinito da minha existência empresta-me as tuas asas, para com elas oferecer abrigo a quem mais quero bem e necessita de sentir-se segura.

Hoje soube que o último dos Moicanos está de partida. Como há catorze anos, também me foi comunicado que a tua cara-metade estava de partida. Até à data do meu nascimento sei poucas coisas da tua vida, hoje tenho a percepção que é muito pouco, que sabe-me a pouco, queria saber mais sobre ti e já não vou a tempo.
Todas as histórias que sei, enchem de orgulho e fazem voar o imaginário, daquele que te admira desde menino. Sei que tenho sido um desapontamento, que merecias que tivesse sido muito mais para ti, quando durante muitos anos foste muito mais do que o meu padrinho, foste o meu pai. Desculpa ser quem sou, se de alguma forma isto servir para atenuar a tristeza e a desilusão que te posso ter causado.
Viveste histórias maravilhosas, talvez algumas já vieram deturpadas com o tempo quando chegaram ao meu conhecimento, mas não deixam de ser míticas. Nasceste numa família burguesa da Beira-Centro, vivias numa quinta ancestral muito bonita, onde a porta da casa ainda guardava a marca da espada dos Visigodos, como eu me lembro tão bem de lá ir em miúdo contigo e com a Querida. Adorava as nossas viagens, essa em particular ficou-me na memória, onde tive o prazer de conhecer o lugar onde cresceste, vi o olival de onde trazias aquele azeite caseiro que ainda hoje trago no paladar sempre que molho o pão no azeite. De deliciar-me a ver o castelo que o teu pai construiu para ti quando eras miúdo, hoje um restaurante conhecido nas redondezas. Lembro-me de ter pensado que devias ser um rei, só por teres um castelo. Mal sabia eu que eras um rei mas por motivos bem mais nobres.
Foste estudar em Coimbra para seres médico e orgulho-me tanto de poder partilhar contigo essa sensação que é muito peculiar e só pertence a quem lá estudou. Formaste-te em pediatria mas para ti ainda não era suficiente o pequeno salto de Nelas para Coimbra e partiste à aventura para Londres à procura de conquistar o mundo. Assim o fizeste, porque só mesmo tu poderias conseguir tal feito. De Inglaterra guardo a história de quererem que saísses da carruagem devido à tua tez escura e confundirem-te com um indiano. As aventuras ainda não te preenchiam e foste atrás do teu sonho. Acabaste no Congo Belga num lugar onde nunca tinham visto um branco, onde a civilização moderna estava a uns distantes, quinze mil quilómetros. Lembro-me de contares, já trôpego pelo álcool num dos meus aniversários, que tinhas casado com uma indígena nos rituais da tribo mas que quando acabou a tua campanha vieste sozinho. Voltaste para Portugal, talvez porque sabias que ainda não tinhas encontrado o que tanto procuravas.
Não sei exactamente como encontraste, como se conheceram mas sei que esperaste trinta anos para casar com o teu sonho e só por isso mereces o meu respeito e admiração. Tu que palmilhaste o mundo, que conheces todos os seus recantos, abdicaste de tudo, abdicaste de todas as aventuras que a vida ainda tinha para te oferecer, porque acreditavas no amor.
Em Lisboa, assentaste arraiais, sobre uma vista magnifica sobre o Tejo, que tantas vezes me deliciou a tomar o pequeno almoço, que a nossa Querida, nos oferecia. Tão bom é recordar o carinho que vocês me ofereceram, tão bom é recordar os nossos fins-de-semana em que tu ias dormir para o sofá, para eu dormir na cama com a nossa Querida. Em que tu, apegado ao dinheiro, como sempre foste, percorrias quinhentas tasquinhas antes de te decidires em qual almoçávamos, mas sempre, sempre. Uma dose para mim, outra a dividir entre ti e a Querida.
Tu não és só o meu padrinho, és o meu avô, o meu pai. Amo-te muito muito e só agradeço ter esta possibilidade de poder despedir-me antes do teu último adeus. Obrigado por tudo Padrinho. Vai-se o último dos Moicanos mas no fundo acredito que vais voltar a reencontrar o amor da tua vida, que perdemos à quatorze anos e tanta falta nos tem feito. Quando lá chegares, dá-lhe um beijo meu e diz-lhe que sinto muitas saudades dos nossos fins-de-semana.

Era uma vez um menino que sonhava com o mais puros dos sonhos. Era imensamente feliz, sem nunca notar que essa constante da sua vida, poderia um dia ter término. A sua pureza era imensa, levou-o a acreditar até ao início da sua adolescência, que as visitas do Pai Natal à sua casa eram reais, que as pessoas eram todas boas e a maldade só existia nos vilões da banda desenhada.
Era um menino simples, que vivia das coisas simples. Adorava os passeios de fim-de-semana com os seus pais, sempre com paragem para um bom almoço ou jantar. Adorava passar horas a jogar à bola ou às escondidas com os amiguinhos. Não tinha qualquer percepção geográfica, de como as suas raízes viviam a quilómetros de distância e não compreendia porque teimavam os outros meninos em dizer-lhe que era um forasteiro, quando as suas mais recônditas memórias o colocavam sempre no mesmo lugar. Adorava estar na escola, onde vivia as suas pequenas aventuras, entretinha-se com contas de somar e nem imaginava o que eram palavrões. Sentia-se deliciado com aqueles convívios de sábado, onde os pais e os amigos cantarolavam músicas acompanhados do violão, a criar peças de teatro ou somente a passar tempo em conversas banais.
O menino passava horas infindáveis a construir os seus legos, casas de madeira e a desmontar engenhocas, com a curiosidade infinita de perceber como funcionavam as coisas e com uma vontade férrea de ver algo criado por si. Adorava desenhar, era algo que lhe dava muito prazer e para o qual tinha muito jeito. Ria com um riso contagiante todas as brincadeiras e jogos, riso daqueles que dá satisfação de ouvir, pela pureza e satisfação emanadas. Era querido por todos e todos auguravam-lhe um futuro brilhante. Talvez, por viver numa terra de ambiente sempre ameno, detestava andar calçado e era uma carga de trabalhos para calçarem-lhe os sapatos que tanta liberdade roubavam. Um dia, como em tudo na vida, a sua rotina teve um final. Mudaram-lhe a vida, os hábitos, deixou os colegas para trás e voltou para a terra dos seus pais, a qual diziam-lhe também ser a sua.
Perdeu rapidamente a inocência e pureza, que o tornavam especial. A sua nova casa era fria, tal como o país. As pessoas falavam com um sotaque diferente, igual ao do seu pai. Embora fosse a terra onde tinha nascido, continuava a ser tratado como um forasteiro. Diziam agora que era pela sua maneira diferente de falar. Passou a conviver com os seus avós diariamente e essa era uma das coisas boas desta mudança. Foi parar ao liceu, com outro género de meninos dos que estava habituado a conviver, aprendeu a lidar com coisas que nunca tinha visto. Palavrões, malícia ou rejeição. Por momentos detestou a mudança mas foi aprendendo a lidar com as cicatrizes que o tempo nos guarda.
Os anos foram passando e o menino tornou-se homem. Os seus sonhos foram ficando pelo caminho sem se realizarem. O homem, já sem a inocência de menino, talvez com alguma maldade e rancor à mistura, devido ao presente não ser o futuro que acreditaram ser o da criança, defende-se do mundo e das pessoas, não possuindo a fé convicta na bondade dos outros, em que acreditava quando era inocente. A vida, foi-lhe apresentando bastantes amarguras e decepções, embora haja ainda vontade e esperança num futuro melhor, a verdade é que o presente não se apresenta bonito, não mostra estabilidade, nem mesmo algo construído para vislumbrar. Só mesmo uma vontade, mescla de coragem e casmurrice, para continuar a tentar ser feliz.
Um dia o homem, quis voltar às suas raízes, às suas lembranças. Assim teve possibilidade de o fazer. Rumou ao lar do menino que fora e por onde quer que passasse, havia sempre algo que vinha-lhe à memória. Recordações de meninice, coisas bonitas que aqueciam-lhe a alma, ao recordar momentos felizes. Surgiu a possibilidade, nessa altura de por lá ficar, de recomeçar a vida onde ela tinha parado. Por vários motivos o homem, teve receio. Teve receio de não encontrar a pureza que perdera, de voltar a sentir-se um forasteiro, de sentir-se acima de tudo sozinho. Foi um erro não ter tomado essa opção, agora o homem tem a percepção que deveria ter dado esse passo. Pouparia-se a mais amarguras que o destino reservou-lhe mas talvez ainda vá a tempo de mudar tudo isso, pois nunca é tarde para tomar a opção correcta. Hoje, sem realmente visualizar grande hipóteses de conquistar os seus sonhos, talvez seja na opção que não tomou à dez anos, que encontre a resposta para o seu futuro. Talvez o homem reencontre o menino, em toda a sua essência, se ao menos for audaz para abandonar a ficção e dar esse passo.

Contagem Ao Segundo