The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida

Num canto meu, tentando manter-me virado para o oeste, vou pintando as primeiras linhas do meu lar. Foi um semana árdua a que passou, onde o tempo correu sempre mais rápido que a minha vontade. Percalços, contrariedades, atrasos, compras, mais compras, montagens, carregamentos, trabalho, muito trabalho e mesmo assim, ainda não consegui ter tudo funcional na Johnny's House. No entanto, já vou desfrutando do aconchego da minha sala, vendo as minhas séries, a bebericar uma cerveja ou um leite, dependendo da disposição. O quarto ainda encontra-se por finalizar mas o cansaço, aliado ao prazo apertado para a entrega de um trabalho, retiram qualquer coragem de entrar naquele espaço.
Na semana passada, tive que encostar a vida social a um canto e a possibilidade de encher os pulmões de ar fresco, só foi privilegiada aquando de um almoço impossível de fugir. Já havia comprometido-me, à cerca de um mês atrás, para o almoço dos antigos alunos do Valsassina. A vontade não era muita, por várias razões: Não foi colégio que frequentei por muito tempo, estava muito cansado, por causa das mudanças, tinha trabalho para finalizar e da lista de participantes, poucos eram os que recordava-me. Um colega, fez questão de às 11 horas vir buscar-me e não tive maneira de recusar. Uma tarde, que parecia algo despropositada, tornou-se num momento agradável, quando revi caras que sentavam-se ao meu lado na carteira ou na esplanada da gata, a beber umas cervejas em quanto o tempo corria para a idade adulta. Acabou por ser um momento retemperador, para uma semana caótica.
Esta será um semana, de recarregamento de energias e focar-me em finalizar as funcionalidades da mansão, terminar um trabalho e agarrar outros dois que estão pendentes, por falta de tempo. Assim se mantenha a vida, para sentir-me, pelo menos, bem comigo e com o mundo, já que a canção não habita um sexto andar.

Em dia de cumprir a segunda promessa, a alvorada deu-se bastante cedo para um domingo. Eram sete e meia da manhã, quando os olhos deixaram entrar a claridade densa que incidia pela janela mal fechada. Com calma o banho, o desejado pequeno-almoço apresentou-se de seguida e após amainar os protestos do estômago, pus-me em marcha dirigida ao escritório, havia que colocar o trabalho em dia.
São nove e meia em ponto e os amigos escuteiros aí estavam para a excursão ao Ikea. A demanda que parecia ficar resolvida por volta das onze e meia, terminou com duas horas de atraso, já não havendo tempo para passar no escritório e trazer os restantes pertences. Ficou agendado para terça-feira. A energia, também já escasseava. Branco, dizia-me o meu amigo. Branco como a cal, é como estás. Sim tens razão, a cara já não consegue disfarçar as dores insuportáveis, após tanto esforço físico mas a alma, essa sim, está bem e recomenda-se. Ainda há muito trabalho pela frente. Montar, arrumar e adquirir mais alguns pertences mas por fim já se vislumbra o calor do aconchego do novo lar e isso só por si, acalenta o espírito inquieto.
Se antes já era rotulado como um beto rebelde, expressão utilizada por uma amiga o fim-de-semana passado e que tanto fez-me rir, agora então é que não consigo livrar-me mais do rótulo. O novo estaminé do Johnny Bravo está instalado paredes meias com a avenida mais in da capital. Num sossego adocicado por este domingo nublado, que ainda guarda umas quantas horas de bricolage, sinto uma satisfação gratificante, por cumprir mais uma das minhas promessas. Fica só a faltar a terceira e última. O Licas mas só irei dedicar-me a essa promessa, após terminar as mudanças. Convites para jantares já tenho dois por cumprir. Um dedicado à ajuda preciosa dos meus camaradas escuteiros e outro com a noiva mais espanhola e o nosso elo de ligação, a amiga nostálgica.
Bem a agora é hora de terminar o intervalo, tão retemperador e marchar à Oscar Tower, para a bricolage e às instruções do Ikea. O próximo post, já será escrito na secretária de um sexto andar, virado para o primeiro passo onde incide a luz do futuro. Até lá, aquele abraço.

A partir do momento que as luzes se foram, nada mais brota aqui e é chegada a hora de deixar para trás tudo aquilo que se conheceu. Reinventar um ponto de partida para o futuro, baseado na realidade que não se compreende mas que se aceita, na ínfima proporção de aceitar que só conseguimos alterar o que é nosso e não o de outros.
Estive em baixo, cansado demais para articular uma palavra, a desejar fervorosamente o que não era possível alcançar, depois abanei, acordei para a realidade e na minha cabeça já vou a passo de corrida ao encontro do que é meu por direito. A moeda atirada ao poço dos desejos impregnada de uma única vontade. Não voltar a olhar para trás tão cedo.
Falta o primeiro passo físico, sem olhar para o passado. É inegável a inexistência de um futuro e que o passado deve ser remetido ao seu lugar. O presente é mesmo essa luz revitalizada num arco-íris livre de um compromisso exacto, que tento adiar continuamente mas que que fique explicito. As cinzas do sonho, estarão sempre guardadas naquela caixa de memórias, como um dos momentos idílicos da minha existência e que de quando em vez irei visitar com carinho.
Hoje, comprometido, palavra de importância relevante, agarro-me ao mundo, recebo o que é meu, viajando sem mover-me numa harmonia constante. Não é de um dia para o outro mas é na noção que vai chegar o momento singular em que vou voltar a voar em direcção a algo. Estou bem, estou preparado, comprometido comigo e com o futuro.

Queria saber fechar os olhos para não ver a verdade que não deveria existir. A luz que se esfuma numa lenta cadência, trás sabor irónico impregnado de masoquismo, ao invés de deixar a escuridão apoderar-se num eclipsar de segundo. Se a ausência de luz chegasse num ápice talvez o desconforto daquela contínua e ínfima esperança se desintegrasse finalmente.
O sal cobre a pele, pele seca, pele que já não brilha. É árida, rígida, montra do trilho bravio que percorreu nesta vivência pintada com laivos de eternidade. Fugir, é o conceito que mais banha a alma mas fugir do que, se já não existe nada do que fugir? É numa ilha deserta, recheada de areia movediça, que o sufoco das palavras deparam-se com a ausência de destinatário e ai, chega a altura de voltar ao silêncio, voltar para a sombra e não mais ouvir o eco das palavras que já não possuem razão de existir.
Deixei para trás o que juntou um elo tão improvável de existir, deixei para trás todos os sonho de querer, deixei de querer algo que a vida teima em não oferecer, deixo-me ir na vaga diária da maré, preferindo ficar distante da verdade, amainando a ventania que vai cá dentro, em paz comigo e em hora de reinventar um futuro, seja ele qual for. É tempo de num pensamento meu, brotar o ideal de uma vida como se fosse sopro, asa, ar, água fluída, como pele que mantém-se para sempre.



P.S.: Tenho curiosidade de saber, quem é o leitor de terras de sua majestade, que quase diariamente passa por aqui. Tem sido agradável ver assiduamente que o que escrevo, é lido em Inglaterra.

Vi um documentário à dias, onde a base do programa consistia em fazer uma única pergunta a todos intervenientes, sendo que cada uma das pessoas, era dos lugares mais dispares do mundo. A pergunta era para definirem o que é o amor.
De Itália, dizia uma senhora na casa dos sessenta e muitos, que o amor era sexo mas também não acordar o marido quando levantava-se de manhã. Um japonês, expressava que embora já não andasse de mão dada na rua com a mulher, amava-a ainda mais. Um senhor Neozelandês, comentava que não era de afectos e que embora fosse casado à 42 anos, o que mais prezava era o respeito. Do Mali, chegou a resposta de uma senhora, para quem o amor, era a dedicação que tinha para com o marido, quando este chegava a casa do trabalho, preparando-lhe o banho e fazendo a refeição, mas a melhor explicação, veio da Indonésia. Dizia a rapariga que o amor é como um ovo. Se apertarmos o ovo com força, ele desfaz-se nas nossas mãos. Se apertarmos ao de leve, ele cairá ao chão e irá partir-se mas se soubermos segurar-lo com a força exacta ele durará para sempre.
Esta é das melhores definições sobre o amor, que alguma vez ouvi... O amor é como um ovo.

Sei o que procuro, sei o que quero mas não consigo descortinar no ambiente baço da vida, o que desejo. Ter a noção perfeita que está a um passo de alcançar e preso por amarras que impedem esse passo. Vivo na contradição de uma encruzilhada, onde chego sempre tarde e a más horas, para ter a lucidez de acertar na escolha. Opto por não complicar e aceito a rede de segurança de não decidir.
Tenho satisfação com a segurança de não mergulhar nos sentimentos e o desconforto de não viver-los. O tempo flui e com ele leva a emoção do gostar de arriscar. Vivo resignado à não opção de decidir, vivo com a consciência que optar pode magoar a mim e a outros. Que a sede insaciável de sentir os sentimentos, deve arranjar consolo na pequena troca de olhares, da carícia e do beijo dado ao de leve polvilhado com sensação platónica, que encontro em outras silhuetas. Sei que perco por não optar mas também sei que ganho muito por não optar. É a racionalidade das defesas do ser, a vir ao de cima mostrar que embora não sorva sentimentos, posso muito bem contemplar o sabor da existência, com uma suficiente vivência que outras silhuetas oferecem-me através de pequenos momentos de prazer.
Há novas que trás o vento, que dão à razão de uma decisão difícil mas lógica, a razão que a razão procurava. Não há dois sentires iguais, não há duas posturas iguais e não há duas dores iguais. Há um singular e único sentimento que podemos viver-lo nas trevas ou com a noção de foi uma etapa do caminho e com que devemos aprender a conviver. Assim optei, optei por não decidir, pois decidir implica sentir e eu não quero sentir, porque não quero sofrer.

Contagem Ao Segundo