The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida

Os meus primeiros anos de liceu foram percorridos no Colégio Académico. Na altura não dei conta, mas os estudos não requeriam muita atenção, para conseguir notas apreciáveis. Por isso mesmo, fiz o meu percurso até ao nono ano do liceu, com notas agradáveis dispondo sempre de tempo, para as amizades, o futebol e os namoricos. Ao concluir os exames globais, queria enveredar pela área das artes, área que não se encontrava disponível no colégio. Para ajudar à novela, fui “convidado” a sair. O lado negativo da arte de bem desenhar é que o nosso traço é inconfundível e devido a esse meu dote para o desenho, não foi difícil à direcção do colégio perceber, quem era o artista que tinha exposto uma exibição, nas paredes da sala de ping-pong, de carácter pornográfico!
Para bem da minha integridade física, a minha mãe achou por bem não comunicar ao meu pai, o convite que me foi endereçado pela direcção do colégio. Abordando o tema da necessidade de mudança de escola, sobre o pretexto de não haver àrea de desenho no colégio. O meu pai, deliciou-se com a possibilidade de eu poder ingressar no Colégio Valsassina, local onde ele tinha feito todo o seu percurso académico. Puxou de alguns conhecimentos e tanto eu como o meu irmão ingressámos no Valsassina.
Não posso dizer que tenha sido um local onde me sentisse bem ou do qual tenha boas memórias. Como em tudo na vida, o mais selecto esconde sempre muita podridão. Meninos bem, com código de vestimenta e atitudes, que se sobrepunham a toda e qualquer qualidade ou virtude. Círculos restritos onde o ser popular era sinónimo de possuir um nome de família nobre ou um progenitor abastado. No meio deste ambiente de cortar à faca, onde era julgado constantemente, há que salientar a existência de alguns irreverentes que se desmarcavam do círculo.
E o que trago de positivo, por esse tempo, foram as amizades criadas. Os excluídos do círculo ou que se desmarcavam dele, produziram laços de amizade. Amizades sinceras e puras. Estes desalinhados eram olhados com desdém e inveja pelos membros do círculo. Sentimento causado por sermos irreverentes, revoltar-nos contra as normas impostas e que acreditavámos estarem erradas.
No seio dos desalinhados, começei uma união com outras três individualidades:
Brito, rapaz que na infância era o gordo com o qual todos faziam troça. Na adolescência emagreceu e revoltou-se contra o passado. Adoptou uma imagem e postura controversa. Fã incondicional da era dos anos 50 americanos, apresentava-se como se pertence-se a essa época. De barba cerrada, nariz pronunciado, olhos vivos e sorriso nervoso. A vestimenta era uma mistura de James Dean com motard chopper. Casaco de napa a imitar cabedal, brinco na orelha, t-shirt branca, calças de ganga, botas à cowboy e os mais variados acessórios com simbolismo americano. No seu todo aquela postura acabava por fazer sentido e tornou-se a sua imagem de marca.
Luis Nuno, iludia a sua insegurança com uma máscara de confiança, assumia uma imagem mais conservadora, mais condizente com a conduta requerida pelo círculo, consequência própria de quem tem medo de cometer um erro social. Estes receios provinham de uma infância carente de apoio maternal. Desde tenra idade, o seu mundo particular, apresentou-se solitário. Era o único adolescente que conhecia naquela altura, que almoçava e jantava sozinho em restaurantes. Estas vicitudes da infância apuraram o seu sentido de critica e sarcásmo.
E como um grupo nunca está completo sem a sua mascote, foi incluída uma quarta personagem. O Ivo.
Era o único que não estudava no Valsassina. Apareceu no grupo através do Luís Nuno, era filho de uma amiga de infância da mãe. Veio um dia almoçar connosco e acabou por ficar. A sua aparência dizia tudo e ao mesmo tempo nada. Com quase dois metros de estatura, escanzelado até ao osso e com ar de rato de biblioteca, aparentava uma insegurança irrealista. Reservado e inteligente, soltou-se e começou a ver o mundo com outros olhos. Era o alvo predilecto das brincadeira e ao mesmo tempo o nosso protegido.
Foi assim que nasceram os quatro magníficos. Um grupo de miúdos de personalidades distintas que foram à descoberta do mundo. Do bom e do mau, viveram todas as experiências da juventude sempre unidos, sempre presentes. Estavam a toda a hora disponíveis para uma nova aventura, onde estava um, estavam os outros três. Fizeram o possível e quando já tinham feito tudo, fizeram o impossível. Foram as personagem de uma novela que durou vários anos, mas acima de tudo, o que sobressaía era a amizade que os unia.

Contagem Ao Segundo