Quando conheci o Ivo e o René. Criou-se um grupo de amigos, que mantivemos durante vários anos. Colegas que frequentavam a mesma escola do Ivo. Com o passar dos tempos mais pessoas entraram para o nosso círculo, outros saíram mas estes três mais a Vera estavam sempre presentes.
O Ivo e o Brito tinham casas na Ericeira e era muito frequente irmos passar fins-de-semana ou férias escolares para este vila plantada em frente ao mar. O Brito possuia uma vivenda que situava-se em São Julião a poucos quilómetros da Ericeira e o Ivo em pleno centro tinha o apartamento da avó.
Certo ano, já eu estudava em Coimbra, combinámos passar outro passagem-de-ano na Ericeira. Eu e o René iamos no meu carro. O Ivo e a Sandra seguiam no carro da Vera e por fim o Gonçalo e o Rui no carro deste. Ponto de encontro, o café perto de casa da Sandra. Fomos ao supermercado comprar mantimentos e o René como sempre quis adquirir muitas grades de cerveja! Isso é que não podia faltar!
O Rui, era o rapaz que esteve internado comigo em S. José. Começara a namorar a Maura, outra amiga nossa que não podia ir connosco mas que veio despedir-se de nós. Fez-me um aviso: - Olha que ele não bebe nem fuma! Vê-lá como o trazes de volta! Ao que respondi: - Ele é maior de idade! Eu não sou pai dele para andar no controle! Ela deitou-me aqueles olhos de reprovação e eu reparei que o rapaz estava excitadíssimo. Com o começo daquela chuva miúda avisei-o que era para ter cuidado na estrada, não queria aventura, tinhamos tempo e o caminho quase a chegar à Ericeira era traiçoeiro quando estava molhado!
Quase a chegar ao nosso destino apanhei um daqueles azelhas, que a carta saíu de certeza em qualquer promoção! Duas faixas de rodagem não chegavam para o condutor! Andei uns bons cinco quilómetro atrás do tipo até que me fartei e coloquei uma abaixo e ultrapassei aquele perigo. A Vera seguiu os meus passos e o Rui ficou estancado atrás do azelha! Perdi o Rui de vista e segui a minha viagem. Chegámos à Ericeira e começei a retirar as malas e os mantimentos da bagageira. Já tinhamos arrumado tudo e o Rui nada de aparecer! Ele não sabia onde era a casa mas o Gonçalo sabia! Mas que raio! Onde andavam? Já farto de esperar, entro no carro e com o René começamos a fazer o caminho inverso, dois quilómetros mais à frente dou de caras com o espectáculo!
Com a ansia de nos alcançar o Rui tinha batido num carro que vinha em direcção contrária e despistou-se, só parando na beira da ribanceira! Alguns metros mais e tinha sido o belo e o bonito! O Rui uma pilha de nervos! Tentei acalmar-lo e mandei os outros seguirem no meu carro enquanto eu tratava da declaração amigável e ficava à espera do reboque! A preocupação do René foi as duas grades de cerveja que se tinham partido! Não ia chegar! A cerveja não ia chegar! Tratei de tudo e enquanto esperava pelo reboque, chegaram os pais do Rui. Serenei os animos e depois de nos despedirmos, seguimos para a Ericeira.
Nesse dia à noite, depois de ter jurado que a Vera nunca mais cozinhava para mim, por me servir uns bifes com sabor a caracol! Fomos ao Cadillac. Era um bar que frequentava muito quando estava naquelas paragens. Possuí-a um ambiente que se notava cuidado com a decoração algo que não imperava nos restantes bares e cafés. Eu e o René pedimos cervejas Amesterdam e o Rui pediu um cocktail! Logo fiquei espantado! Avisei-o que aquilo tinha álcool! Ao que ele respondeu: - Oh! A Maura não está cá para controlar-me! Simplesmente encolhi os ombros! O espectáculo estava guardado para depois...
Retornámos a casa e ficámos a beber umas cervejas na sala enquanto o Rui chateava a Sandra para dar-lhe um cigarro! Estávamos todos a rir despregadamente com as figuras do Rui e o Gonçalo, que tinha preferido ficar por casa, perguntou-me: - O que ele bebeu? Um cocktail !- Respondeu a Vera. Ainda mais risos! Como era possível alguém ficar naquele estado com um cocktail! Um! Só um! As atracções ainda não tinham terminado. A certo ponto vindo do nada, o Rui começou a dizer que o rabo dele era limpinho! E nós todos a dizer-lhe que sim! - Claro Rui! nós sabemos que é - Respondi eu, a ver se ele se calava. Ele não foi de modas! Virou-se de costas para nós, enclinou-se para a frente e baixou as calças e saísse com esta frase: - Eu não estava a mentir! É limpo! Vês como é limpo! Foi um fartote!
O resto dos dias até ao fim-de-ano foram passados calmamente. Eu e o René faziamos a nossa rotina. Levantar cedo e ir para o café central ler o jornal. Eu com o meu jornal desportivo, o René a pedir-me traduções para as palavras que não entendia no Público. Da parte da tarde iamos dar uma volta de carro pela região e à noite, a seguir ao jantar, sair até às tantas! O resto dos nossos colegas de férias dividiam o seu tempo por uma permanência constante em casa e uma ou outra vez, lá para o fim da tarde, aventuravam-se a sair para tomar o café!
No dia da passagem-de-ano, combinámos fazer um belo jantar em casa e de passar a meia-noite no Cadillac. Aprumámo-nos para aquela noite. E depois de alguma insistência por parte da Vera, acedemos a que ela ajudasse na preparação da refeição. Correu tudo sobre rodas e depois de umas quantas cervejas, seguimos para o bar. Estranhei bastante as ruas estarem vazias. Nem parecia a Ericeira, quase não se via viva alma. Entrámos e o Zé, dono do Cadillac, recebeu-nos com um sorriso rasgado na cara. Até às doze badaladas, o ambiente, entre nós foi se intensificando de folia. Atingindo o seu clímax na passagem de ano com o despejar de uma garrafa inteira de champanhe por cima da minha cabeça! O Rui bebia de tudo. Champagnhe e cerveja. Comprara um maço de tabaco e parecia uma chaminé! Por esta altura saí do bar para ligar ao meu pai a desejar bom ano e dou com o centro da Ericeira apinhado de pessoas! A noite e a folia continuaram até ao primeiros raios de sol!
No dia seguinte ao regresso. Encontrei-me no café com a Maura, Gonçalo e Sandra, Ivo e Vera. Estavamos em amena cavaqueira quando a Maura vê o Rui chegar com um cigarro na mão! Fulminou-me com os olhos e perguntou: - O que aconteceu na Ericeira? - Fez-se homem - Respondi eu!
3 comments:
Estou a ler o teu blog de trás para a frente... ou seja do fim para o início. Lembro-me de te ter desejado as melhoras, mas jamais me poderia passar pela cabeça que já estiveste numa situação de paraplegia... és aquilo a que chamam força da natureza. Não sei se teria a tua força, se bem que já me surpreendi várias vezes comigo mesma. Bem, estou sem palavras! :)
Todos nós somos capazes de tudo, Quando te propões a algo, uma ideia fixa, não largas até conseguires! Foi isso que eu fiz! Eu não queria ficar naquele estado, na minha cabeça não era concebível o que diziam e lutei naturalmente para ser o que sou hoje. Foi algo natural, algo que não acho relevante.
Quando te encontras em situações extremas o teu instinto de sobrevivência vem ao de cima.
o cadilac ja nao existe á muito ... mas ha diversas razoes para se continuar a amar a Ericeira... ;)
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