Para a semana, voltamos à carga e à mesa de operações para receber implante ósseo. A ver vamos como corre, mas garanto-vos que depois de uma excelente primeira parte, a fasquia aumentou e esperamos que o vaso abra o livro e finalize o segundo tempo com vantagem no marcador.
Próximo relato para a semana que vem... até lá saudações benfiquistas!!!
Mais uma para a colecção. Até hoje foi parecendo que não existia, ou que era algo que estava longe ainda de acontecer. Mas no fundo sabia que se aproximava o momento. É algo necessário. Não estou muito convicto que resulte, mas também nunca fui de virar a cara ao desafio. Como diz a minha mãe: - "Eu nem com o corpo aprendo!"Desta vez também tem o seu perigo, ou não fosse hábito da minha vida andar sempre no limite da linha. Já devo alguns anos à cova e sempre fui conseguindo enganar o Barqueiro, com esta postura meio destemida, meio de louco, confiando na sorte e no querer. Mas os anos passam, já não sou um miúdo por muito que me custe notar isso, o corpo já não é o mesmo e não sei até que ponto consegue aguentar. O êxito da operação, não é algo garantido, nem que vá resolver a situação mas há que manter sempre a esperança e nem que seja pelo gozo de ser carne para canhão.
Vou por uma teoria em prática. Diz o ditado "Tanto vai o cântaro à fonte, que um dia vem quebrado"... mas também existe aquele que diz "Vaso ruim não quebra". Vamos tentar comprovar a qualidade do vaso e ver se ele é mesmo ruim... Durante uns tempos não vou poder escrever, mas gostava de poder continuar a contar-vos as histórias do The Real Johnny Bravo, porque ainda muitas estão guardadas no baú das recordações e merecem ficar na história.
Existem momentos nesta vida, sensações e imagens que não se explicam. Não existe lógica nos acontecimentos, nas ideias mas sabemos que eles existem. É como um católico praticante acreditar piamente na existência de Deus, sem nunca o ter visto.
Se eu pudesse voltar a página da vida àquele dia, voltaria sempre ao mesmo momento. Àquela fracção de segundo antes de tu apareceres para o mundo. Porque aquela sensação ninguém me rouba, ninguém apaga. Vai sempre estar comigo. Tenho dado por mim ultimamente a sonhar de olhos bem abertos, revivendo aquele segundo. Lembro-me como se fosse hoje, do calor que senti, do aperto que me causaste no peito, das lágrimas que jorrei. Toda a emoção de te saber.
Tenho passado muito tempo a pensar em ti e no teu dia, se calhar porque ele também se aproxima e mais uma vez não vou poder estar contigo. Desta vez por motivos bem mais alheios à minha vontade, mas a promessa que te fiz mantém-se e é para cumprir. Acredita que se me deixarem vou fazer por cumprir-la.
Fará oito anos em Agosto. Andava cansado, sem dormir. Estava no carro, com o teu avô. Pedi-lhe para me acordar assim que houvesse alguma novidade. A tua mãe estava lá dentro, tu não querias nascer por nada, só te aguardavam para o princípio da manhã e eu não podia entrar para estar perto de vocês os dois. Achei que poderia dormitar um pouco e pôr o sono em dia, porque nos dias anteriores nada tinha descansado, por passar o tempo sempre preocupado contigo e com a tua mãe. Dormi umas duas horas e acordei sozinho no carro. Fiquei bastante preocupado, como se já estivesses por cá e ninguém me tivesse chamado. Encontrei a tua avó, na entrada, que me disse para subir e dar um beijo à tua mãe, pois estavam a preparar-se para ti. Subi o elevador e sentei-me sozinho num dos bancos a aguardar por vocês. Em frente estavam duas senhoras que também esperavam. Enquanto elas iam falando eu olhava ansiosamente para a porta do elevador à espera de ver a tua mãe passar. Foi aí. Foi nessa altura. Tenho a certeza que esperaste por mim, como se toda a complicação que criaste, tivesse por razão a minha presença, naquele momento.
Senti um aperto no coração, algo se passava e eu não estava a perceber, aquelas coisas que o pai tem e que por norma se chama instinto. Chama-lhe o que quiseres, foi algo diferente do que alguma vez sentira. Forte, muito presente, uma certeza uma sensação que no segundo seguinte se clareou na minha cabeça. Um choro veio lá de dentro, as senhoras comentaram: - Mais um que nasceu! E eu soube imediatamente que eras tu! Não tinha lógica! A tua mãe deveria estar a subir no elevador, mas ninguém me conseguiu tirar da ideia que eras tu. Estava sozinho, vivi esses momento sozinho, vivi-o contigo, só os dois o sabemos.
Tinha um sorriso na cara e lágrimas nos olhos mas tentava encontrar uma explicação para aquele momento, uma lógica porque teimava eu que eras tu. Não era possível, a tua mãe ainda não tinha entrado! Estava nesta divagação e sai de rompante do bloco a tua avó, a pedir-me para ir ao carro depressa buscar a máquina fotográfica. Descemos os dois e só a meio caminho é que ela confirmou-me. Tu já tinhas nascido! Eu senti-te, não sei-o explicar ou dar uma razão mas a verdade é que eras tu. É um elo só nosso, que por mais que queiram não vão conseguir destruir. O sangue é mais forte que tudo e este elo será sempre eterno, meu filho.
Saí da reunião e seguia em direcção a casa, quando sou abordado pelo Nélson. Já não o via a uma semana e queria colocar a conversa em dia. Toca de ir para a sede. O senhor Cardoso, ao ver-nos entrar, sacou logo de duas médias e não tive coragem para dizer que não. Como a primeira caiu bem, acabei por juntar mais duas à colecção antes de seguir viagem para Lisboa. O Nélson, dispôs-se a dar-me boleia e ainda acabámos por fazer mais uma paragem pelo caminho.

Cheguei ao Super-Chef atrasado quarenta e cinco minutos, o Hugo e a Carla já estavam sentados. O intuito do almoço era combinar com o gerente do restaurante, o almoço dos antigos alunos do Académico. Azar dos azares, o gerente tinha acabado de sair e nem por telefone era possível falar com ele, pois tinha o telefone desligado! Bem acabámos por almoçar e como os planos do Hugo e da Carla tinham também levado um revés, ela acabou por estar disponível para acompanhar-me para a visita ao Museu Berardo, no CCB. O Hugo deu-nos boleia e combinámos de nos encontrar ao fim da tarde nos pasteis de Belém.
Eu tinha reservado um lugar na conferência com o Joe Berardo, mas já chegámos atrasados uma hora. Com muita cara-de-pau, algo que está-me no sangue. Passei ao lado da imensa fila de espera e acerquei-me do balcão e disse para o recepcionista: - "Boa tarde, eu venho para a conferência com o Comendador Berardo, às 16 horas." Claro está que eu sabia que a conferência tinha sido mudada para as duas e meia, mas fiz-me de ingénuo! Pediram-me muitas desculpas por não me terem contactado! E o rapaz encaminhou-nos para o resto da sessão! A Carla, ficou a perceber, qual é a minha lata para estas situações! Não pagámos pevas e ainda fomos acompanhados pelo recepcionista! Nesta coisa da sem vergonha sou um verdadeiro artista!
Ainda assim, tive tempo para fazer uma pergunta ao Joe Berardo, à qual soube fugir com muita diplomacia, o que já seria de esperar! Levei para casa uma brochura assinada e um bacalhau com a desculpa da resposta não ter sido a mais esperada! Percorri a colecção de lés-a-lés e embora tivesse esperado mais do período fim século XVIIII, início de XIX, consegui ficar bastante agradado com o período Americano. os dois quadros de Picasso passa-se por eles sem se perceber que o são. Do Dali só uma peça. Dos tugas, tirando a Paula Rego, que adorei os simbolismos, fiquei bastante frustrado... Há tipos que fazem uma chamada arte, que eu não consigo conceber que assim seja chamada! Mas pronto, à sempre uma alminha, que acha os tipos geniais!
Encontrámos-nos com o Hugo nos pasteis, vinha acompanhado da Marta e se não fosse pelo calor que se fazia sentir teríamos obviamente permanecido mais uma hora na cavaqueira! Mas o abafado no interior só nos convidava a dar corda ao sapatos! Ainda ficámos uma boa meia-hora no exterior, na conversa enquanto o amigo da Marta não chegava para lhe dar boleia para o concerto do Ricky Martin. Epá!!! Eu pelo meu lado, ainda tinha tempo até o concerto do Represas e estava a gostar da conversa.Fez-se as despedias, após alguma conversa com o amigo da Marta, sobre a exposição, ao qual o Hugo e a Marta olhavam com um ar entediado e seguimos para o Campo Grande. Fiz-me ao metro até ao Rossio. Fui subindo até ao Castelo, apreciando a paisagem e pensando como esta cidade é bonita e tão pouco revisitada pelos seus habitantes. Gosto do pitoresco das vielas e dos cafés desta zona da cidade. Subi as escadas e cheguei ao Memórias. Parei para beber um imperial e após alguma conversa com o dono do bar que é meu conhecido, segui o meu caminho passando pelo Chapitô e finalizando na entrada para o Castelo. Fui levantar o meu bilhete e sentei-me na esplanada a desfrutar dos últimos raios de sol sobre o Tejo.

Entrei já passava das dez. Sentei-me a meio, a fumar um cigarro. A quatro, cinco cadeiras ao lado tinha por companhia, o António Costa. Só famosos! Eu e ele!!! (modestia à parte!). Entra o António Zambujo para a primeira parte. Artista que não conhecia mas que fez com que ficasse com vontade de conhecer mais do seu trabalho. Fadista que fisicamente e vocalmente, se compara muito com o André Sardet. Gostei do repertório, fados antigos mas eruditos, nada dos chavões habituais. A seguir veio o Represa e puxou dos galões. Os grandes êxitos: Acontece, Da Próxima Vez, Mariana, Colibri (Pureza e Desejo), Fora do Tempo, Memórias de um beijo (a minhas preferida). Coroados com o Feiticeira, no encore em dueto com o António Zambujo. Cada música trouxe-me à memória sempre a mesma pessoa, mais parecia que tinha sido de propósito! Finalizaram o serão com a noite do Max. Gostei bastante mas soube-me a pouco, uma hora e quarenta e cinco que pareceram passar-se num ápice. É sempre assim quando estamos a fazer algo que gostamos.
Quando olhei para o relógio fiquei alarmado! Quase meia-noite e a última camioneta para Bucelas a partir daí a uma hora. Desci até ao Rossio num instante. A descer todos os santos ajudam! Consegui chegar mesmo em cima da hora à paragem, por sorte a camioneta estava atrasada. Contou-me o motorista que tinha sido por causa do concerto do Tony Camionetas em Loures. Eu com um dia excelente e o Tony Carreira é que enche! Não entendo este povo!
E amarrou o barco ao cais
Quem foi, que matou o desejo
E arrancou o lábio ao beijo
E amainou os vendavais...
Aturámos muito um do outro, sempre compreensivos aos problemas do outro, sempre presentes. Eu não sou de fácil trato e ela sendo alguém que era impossível de não gostar-se, tal era a sua doçura, também tinha as suas manhas e desvarios. Muita loucura fizemos e passámos os dois. Hoje em dia sinto falta das nossas conversas, de estar horas no café a falar de trivialidades ou simplesmente estar perto dela. Porque cada um no seu jeito entendia perfeitamente o outro por mais grave ou descabido que fosse a situação.
Pouco depois de voltarmos de Brighton, aliámos a data de aniversário do meu irmão e de uma colega de viagem, para ao mesmo tempo fazermos um jantar do grupo. Entre os convidados estava um amigo meu de infância que apresentei à Joaninha. A paixão foi mútua e começaram logo a namorar nesse mesmo dia. Essa relação durou precisamente um ano mas a Joaninha durante anos só via o Zé, podia namoriscar com este e aquele mas o Zé chamava e ela ia a correr.
Ela aprontou-me muitas, mas talvez a maior das loucuras que esta miúda fez-me, foi quando em plena altura da Queima das Fitas, quando estava eu na decoração do Baile da Queima, lembrou-se de fazer-se ao comboio mais a Joana Steglich e virem ter comigo a Coimbra, porque o Zé também estava em Soure! Aqui não está o bizarro da situação. O bizarro está em que ela não me disse que vinha, nem fazia a mínima ideia onde eu vivia! Ainda hoje não percebo como aquelas duas aves raras chegaram à porta da minha casa! Estou a ver o filme! Foi por acaso, deu-me para ir a casa, tomar um banho rápido antes de ir para a Queima com uns amigos. Estou a chegar à garagem e vejo aquelas duas almas plantadas à porta do prédio, à espera que eu chegasse!!! Foi uma sorte eu ter decidido ir tomar banho, porque senão teriam ficado pregadas naquela porta pelo menos até às seis da manhã!!!
Lembro-me de uma história que ela fez com a mãe excelente. Estava chumbadissima por faltas e pediu à mãe autorização e dinheiro para ir numa excursão geológica. Claro está que não eram esses os planos dela! Foi com o namorado passar o fim-de-semana fora! A mãe dela, pouco depois desta situação, recebeu a informação que ela não tinha ido à viagem como afirmara e desabafou com a minha. Veja lá que ela deu-se ao trabalho, quando chegou de me contar pormenores da viagem, das pedras e das caminhadas! Onde vai ela buscar estas histórias!? Mas era impossível alguém ficar chateado com ela! Porque ela fazia aquela cara, que só ela sabe e todos perdoavam-na! Porque não era com más intenções, era assim, porque era a Joaninha.
Esteve sempre comigo quando do meu acidente da coluna. Acompanhou-me desde o principio, indo ver-me a Coimbra e quando vim para Lisboa, apoio-me como poucos o fizeram. Acreditou sempre que eu iria recuperar, quando muitos não acreditavam e foi sempre um amor durante o meu processo de recuperação. Também preguei-lhe um susto quando tive o acidente da perna, porque ela também era um dos ocupantes do carro. Por isto nunca me vou conseguir desculpar, porque não há desculpas. Coloquei a minha amiga em risco de vida e é das coisas que não me perdoo.
Mas a vida segue, seguiu caminhos diferentes... A última vez que a vi, foi numa casualidade do trânsito. Eu ia a atravessar a rua e ela ia a passar de carro. Olhámos um para o outro e o sorriso apareceu em ambas as caras. Não houve tempo para troca de contactos, apenas um breve olá e tanto por falar, tanto por dizer! Joaninha voa, voa... à quantos anos não te vejo minha amiga?
O Sérginho era o único do grupo que vinha de uma família com dificuldades financeiras, pois o pai andava sempre de baixa e o que recebia era maioritariamente gasto em equipamento de som para os concertos de música pimba que ia dando em casórios e festas! Rapaz com dificuldades de aprendizagem mas muito educado, pois a mãe assim o era opondo-se ao pai que era uma verdadeira ave rara! Capaz de incutir no rapaz as maiores barbaridades sobre todos os assuntos! O Sérginho, como qualquer miúdo, bebia da sabedoria do pai. Lembro-me de uma ou duas tiradas do pai excelentes, que ele afirmava com a maior das convicções. Do género: Quando arrebentou a Guerra no Golfo, o pai diziam que o Saddam iria ganhar a guerra contra os Estados Unidos e o Sérginho vinha para a praceta bramar a quem quisesse ouvir tamanho disparate! O Sérginho nos estudos era rapaz previsível. Se passava um ano, era certo que no próximo iria chumbar! Assim foi acontecendo desde a terceira classe, até que por fim desistiu dos estudos e dedicou-se à música! Começou por andar a acartar o material de som do pai e com a prática lá foi aprendendo a tocar viola e órgão. Hoje faz disso vida!

Das partidas que mais vontade dá para me rir, sempre que me lembro desses tempos, era quando jogávamos às escondidas e já chegando a hora de voltar para casa, fazíamos sempre a mesma coisa! Combinávamos entre nós de deixar o Sérginho ser o primeiro a ser apanhado quando jogássemos a última vez. Quando ele começava a contar íamos todos para casa e era ver da janelas o Sérginho a deambular durante uma hora ou mais, à nossa procura! A graça da piada estava, em que sempre que combinávamos isto era certo que ele caia!
Houve outra vez que o Sopinha de massa, lembrou-se de saltar para cima de um galinheiro nas traseiras do doze e esqueceu-se que pesava oitenta e cinco quilos e media um metro e oitenta! Resultado? Partiu o tecto do galinheiro e rasgou as costas tendo de ir para o pronto-socorro. O Sérginho, sempre amigo do seu amigo, dispôs-se a acompanhar o Carlinhos e era ver-lo a colar macacos na parede do consultório enquanto o médico cozia o Carlos, sopinha de massa!
Mas verdade seja dita! O Sérginho era rapaz esforçado. Estava sempre disponível para levar os sacos de compras das velhotas, na expectativa de receber uns trocos. Foi também à custa do miserável dinheiro que o pai lhe pagava por andar a acartar o equipamento de som, que conseguiu juntar dinheiro para ir tirar a carta! Lembro-me que quando começou a aprender a tocar viola, vinha muitas vezes ter comigo para ensinar-lhe acordes, que depois com muita perseverança ia treinar para casa!
Num verão, com horário mais alargado para permanecer no jardim, por estarmos nas férias da escola. Não tínhamos nada para fazer e já não sei como começou esta partida, mas começámos a mandar parar táxis. Ao princípio mandávamos para e depois fugíamos, mas rapidamente cansámos-nos e tivemos de elaborar um plano mais astuto! Era verem-nos a atirar ovos, abrir as portas todas e até uma vez atirámos lá para dentro uma carpete cheia de bichos que encontrámos no lixo! Depois era desatar a correr para as garagens e refugiar nos nos muros, que tão bem conhecíamos! Muitas vezes os taxistas saiam dos carros e corriam atrás de nós mas não tinham muita sorte, pois nós conhecíamos aquelas paragens como ninguém! Tendo havido uma certa vez, que a coisa deu para o torto...
O meu irmão, quando pequeno era para o gordito e uma lesma a correr. numa dessas fugas foi apanhado pelo taxista que o levou ao panda bingo, onde se encontrava sempre presente um guarda da psp. Quando saí do meu esconderijo, contaram-me o que se sucedera e lesto, agarrei duas pedras da calçada e desatei a correr em direcção ao bingo. O taxista pelo caminho tinha dado uns tabefes no João, o que para mim era inadmissível! Foi uma carga dos trabalhos, afastar-me do taxista, nem mesmo o policia teve coragem para agarrar-me não fosse também apanhar por tabela! Valeu na altura o meu vizinho que ao sair do bingo deparou-se com a situação e apaziguou-me. Indo o taxista embora, sem apresentar queixa mas com umas mazelas como presente!
No Verão, andávamos sempre de bicicleta e um dia tivemos a brilhante ideia de montar uma rampa no meio do jardim, para podermos fazer uns saltos! O Patrick, tinha comprado uns punhos todos xpto e para os colocar no guiador, lembrou-se de passar-los por água e sabão para encaixarem mais facilmente! Parece que estou a ver a fotografia! Quando ele foi saltar, em pleno voo, os punhos escorregaram e saíram do guiador! Pareceu que tudo se desenrolava em câmara lenta! O Patrick com os punhos em cada mão em pleno ar, fora do guiador, a olhar para uma e outra mão, a fazer um trejeito de cara, como quem sabe o fim da história, até se estatelar no meio do alcatrão! Aquilo é que foi rir!
Na praceta havia rituais e normas. Quem fosse de fora, sofria praxes para ser do grupo! As passagens dos muros das garagens eram nossas e não era permitida a passagem a mais ninguém! Quantos alunos do Camões não ficaram nus amarrados aos postes por ousarem atravessar os muros? Lembro-me de uma história que ia dando para o torto. Nós tínhamos por norma, ir para o portão do Camões atazanar a miudagem. Ovos, belas, caldos, etc! Até que um dia os miúdos revoltaram-se! Por sorte apercebemos-nos a tempo! Tinham chamado os irmãos mais velhos e eram para mais de cinquenta! Nós não chegávamos a dez mas tivemos a ajuda preciosa dos grandes! Os grandes, assim eram chamados, eram a rapaziada da praceta mais velha, já na casa dos vinte. Faziam-nos as maiores maldades, mas não deixavam que ninguém nos tocasse! Foi assim com a ajuda, do Romeu, do Zé cara-de-homem, do Peixoto e de mais uns quantos, que fomos esperar os revoltados nos muros do nove. Os grandes encolheram-se, para parecerem da mesma altura do que nós. Quando os miúdos do Camões acercaram-se do muro, cheios de coragem, os grandes levantaram-se e foi ver aquelas alminhas a ficarem brancas como a cal! O Zé cara-de-homem, ainda teve de dar uns tabefes no líder da pandilha! Foi remédio santo! Nunca mais houve revoltas e assim continuámos a poder fazer as nossas esperas ao portão do Camões!
Existem muitas mais histórias sobre a praceta, mas ficam para um próximo post...
Embora tenha havido desilusões na viagem a Brighton, pois nenhuma das informações que nos foi fornecida antes da viagem fossem a verdadeira realidade com que depará-mos. A verdade é que as dificuldades, fez com que o grupo se tornasse muito unido, criando-se um laço de camaradagem que ainda hoje, sempre que casualmente nos encontramos falamos entusiasticamente desses momentos. Foi uma aventura muito gira e enriquecedora, a todos os níveis.Ao fim da primeira semana, as minhas caminhadas para casa, já não eram feitas solitariamente. Tinha a companhia de um grupo de colegas que moravam todos na mesma zona do que eu e que optaram por acompanhar-me. Essas caminhadas eram repletas de animadas conversas e como a fome estava sempre presente, era ver-nos a surripiar o leite que o leiteiro deixava às portas das casas! Houve uma vez, numa dessas caminhadas, que duas raparigas do Porto, (uma delas vim a reencontrar, quando fui estudar para Coimbra) que tinham trazido uma garrafa do Porto de sessenta e troca o passo, para oferecer à senhoria, decidiram não a oferecer pelos maus modos como tinham sido recebidas e decidiram partilhar-la comigo e com o Hugo. Eu que já tinha experimentado vinho do Porto mas do novo, quando dei o primeiro golo, quase saltaram-me os olhos das órbitas! O Hugo com dois golos ficou logo a sentir os efeitos e era ver-lo a correr pelo jardim aos pulos e a gritar que aquela terra era uma treta, às tantas da manhã! Sabendo como são os ingleses, nunca entendi como não fomos presos!
Numa outra caminhada, quando já estava perto de casa, já estando a percorrer os últimos metros sozinho e de repente do nada quase dou um tombo, ao ser albaroado por um cão! Pensei eu que era um cão! Quando começo a olhar com mais atenção percebo que não era um cão mas sim uma raposa! Uma raposa!? Pois é! Eu morava a poucos metros da floresta e o bicharoco levava a sua ceia na boca!
Na segunda semana, decidi não ir às aulas. Tinha que estar às oito da manhã na outra ponta da cidade e para isso era necessário levantar-me todos os dias às seis! Eu estava de férias, não estava em trabalhos forçados! Os meus colegas que viviam perto de mim, aderiram à balda e no fim dessa semana fomos chamados para uma reunião com a directora da viagem, que nos quis amedrontar, dizendo que ao fim de quatro faltas, ela mandava-nos de volta para Portugal. Os outros baixaram a cabeça e eu que não sou de me ficar retorqui! Disse-lhe que se enviava-nos de volta tinha de nos reembolsar e que ainda colocaria um processo em cima por mentir-nos descaradamente sobre as condições e actividades que íamos ter! Foi remédio santo! Nunca mais vi tal personagem e as nossas faltas às aulas da manhã foram sempre negligenciadas!
ao fim de duas semanas eu e o João, já não tínhamos dinheiro, tal como a maioria dos meus colegas, pois o dinheiro que tínhamos levado era para compras e não contava-mos despender dinheiro em comidas e roupas! Era ver toda a malta, a contar trocos e a pedir dinheiro emprestado aos que ainda tinham algum! Como os meus pais não estavam em Portugal, liguei para a minha avó, que através dos contactos do meu tio ao Lloyds Bank, conseguiu fazer uma transferência para Brighton! Foi o que me safou a mim, ao meu irmão e ainda deu para ajudar uns companheiros!

Foi também em Brighton, que conheci a minha primeira paixão. Uma morena de olho verde, de sorriso dócil, com um coração enorme, ingénua e cheia de sonhos. Foram muitas as tardes a passear ou sentados o dia inteiro num café a falarmos do que éramos, do que tínhamos vivido e do que queríamos para o futuro. Mas como em tudo na vida, há um princípio, meio e fim e todo o amor de verão termina quando começam a cair as primeiras folhas de Outubro e se aproxima o frio... Foi do que melhor encontrei nessa viagem e hoje relembro essa paixão com carinho e ternura
chegada dos pais adoptivos. Conforme iam chegando, ia fazendo gozo, mais uns colegas, do que aguardava para cada um de nós! Às tantas, chega uma pandeireta a deitar fumo por todos os lados e saí lá de dentro duas matronas e começo eu com a minha grande boca, a fazer pouco do desgraçado que teria a sorte de viajar naquela aventura. Depressa o sorriso desapareceu-me do rosto, quando ouvi chamarem pelo meu nome!!!Foi das melhores partidas em que participei na minha vida! Só tenho pena de não ter ficado com uma cópia do vídeo do Chang.... Talvez um dia destes dê de caras com esse vídeo no You Tube!
E foi assim sem mais nem menos que em 1991 entrei no Coliseu, com um bilhete oferecido à última hora para ver o último concerto dos Trovante. Não tinha a verdadeira percepção da sua biografia e do legado musical que iria influenciar-me. Já se passaram mais de quinze anos mas no dia 30 entrarei pelos portões do coração da cidade assobiando
Du-ru du-ru-ru-ru Du-ru-ru-du-ru Du-ru-ru
Scars are souvenirs you never lose
The past is never far
Did you lose yourself somewhere out there
Did you get to be a star
And don't it make you sad to know that life
Is more than who we are
Houve um ano que a Arca se lembrou de concorrer para a realização da decoração do Baile de Gala da Queima das Fitas. O tema proposto foi Conimbriga e a ocupação romana e com a qualidade apresentada acabámos por ganhar o concurso. Todos os alunos participavam na concepção e montagem das peças para a decoração, pois contava para melhoramento das notas. A maioria das peças foram criadas em poliuretano, uma espuma parecida com esferovite mas rígida. Uma fonte, cachos de uvas gigantes, colunas enormes de cinco metros finalizadas com capitel.Lembro-me da azáfama que foram esses dias! O tempo para criar as peças era pouco e trabalhava-se quase vinte e quatro horas seguidas! Depois veio as montagens e aí sim, foi mesmo complicado. Tivemos de montar uma estrutura de andaimes à volta da sala para poder-se montar as colunas. Lembro que havia colegas meus que dormiam em colchões do ginásio para não perderem tempo a ir a casa! Eu como sempre, perco um pouco a noção da minha incapacidade e era verem-me no topo dos andaimes a colar as colunas, porque a maioria dos meus colegas tinha medo de cair! Francamente eram só cinco metros de altura! Foram dias esgotantes e só acabámos a decoração a três horas de começarem a entrar as pessoas!
Durante o tempo que vivi em Coimbra, nunca fui a um Baile de Gala. Apanhei um enjoo tal com a decoração que nunca lá fui! Acabei por ir uma única vez quando já não era aluno. Foi no ano que nasceu o Gui e a mãe dele, como se encontrava grávida queria ir também mas opus-me pois não era seguro para ela e para o Gui estarem na Queima, fizemos então um acordo, que contemplava deixar-lhe o carro. E assim fui para a Queima.
Não tinha planeado ir ao Baile, mas acabou por se proporcionar e com um fato emprestado por um amigo do Zé Miguel, acabei por ir. Foi a primeira vez que senti-me deslocado em Coimbra! Todos de smoking e vestidos de gala e aqui o enjorcado de fato! Acabei por ficar sentado na mesa com antigos colegas e professores e com a descontracção que o tempo foi instalando, acabou por ser a galhofa total! Comi muito, bebi muito e às tantas os meus colegas apresentaram-me uma rapariga.
Estivemos na conversa uma boas duas horas e comecei a sentir que o intuito dela estava virado para outro lado, que não o da amizade. fui indo na onda até que chegou-se a um ponto da conversa que ela acabou por ser bastante atrevida, de maneira que colocou-me entre a espada e a parede. Saí graciosamente da situação com a desculpa que a minha namorada estava grávida e que prezava muito a fidelidade na nossa relação. Ela sorriu e pareceu satisfeita com o meu esclarecimento. A conversa ainda se prolongou por mais uma meia-hora até que chegou-se perto de mim um colega que pediu para falar comigo em privado. "Olha lá, mas tu não bates bem!? Essa é a filha do reitor e ele está a olhar para vocês!" Olhei de soslaio para o professor Freire disfarçadamente e bem vi a sua cara! Expliquei ao meu colega que não se passava nada, mas que tinha recebido uma proposta bem tentadora! Nesse momento agradeci aos céus por ser comprometido, porque se assim não fosse, até teria aceitado o convite! Não sou é suicida, ao ponto de ter uma aventura com a filha do Reitor!!!
Quando por lá passeei os livros, de tudo vi um pouco, era uma semana de fazer arrepiar Woodstock. Excessos na bebida eram mais que muitos, libertinagem em extremos e muitos, mas mesmos muitos episódios caricatos. Imbuído neste espírito, também ia na onda e cometi os meus excessos. Existem memórias claras, outras vagas, sorrisos contidos ao recordar, aventuras amorosas e loucuras.
O álcool tem um efeito caricato, por mais que se tente explicar ao estudante de Coimbra que beber em demasia, não é sinónimo do corpo conseguir boiar, há quem não acredite. Nos longos anos que leva a Queima, quantos não tentaram por em causa essa teoria, quando iam ao rio fazer as suas necessidades? O resultado era sempre o mesmo, mais um morcego ensopado!
Quem diz que levar uma loira para casa é garantia de a encontrar na cama na manhã seguinte, está errado. O susto é grande quando se acorda e encontra-se uma morena de feições bem diferentes! Nada como sair para o pequeno-almoço de surra, deixando um bilhete a agradecer pela noite e recomendações para fechar bem a porta ao sair. Para tudo à solução.
As manhã na Ferreira Borges, têm um ar pitoresco, quando vistas de um ponto de vista sóbrio, com capas e batinas a servirem de cama a muitos. É ver os para-médicos a fazerem as recolhas matinais ao hospital. Pelos cafés, já se cantam Baladas de Coimbra, por entre um copo de vinho, Moscatel ou Favaios. O que interessa é que tenha álcool! O engraçado é como a população acha todos estes excessos salutares e por muitas vezes junta-se aos estudantes.

Das memórias que guardo da Queima, a que mais aprecio é a história da Rotunda. Estávamos em 1996 e por toda a Lisboa se viam bonecos gigantes do Gil, a fazerem propaganda à Expo 98. Acordei tarde e dirigi-me de carro para uma reunião de café com o bando do costume. Na praça da República já havia bastante movimento, comecei a subir para a universidade e qual não é o meu espanto quando ao passar pela rotunda onde se encontra a estátua do Papa João Paulo II, este não estava sozinho. Tinha por companhia um boneco do Gil, decorado com uma capa estudantil e um t-shirt com o seguinte dizer: O Gil também é um dos nosso! Desatei em gargalhada contínua, que quase provocou um acidente, na rotunda!
A vida é uma caixa de surpresas onde de tudo se encontra a cada esquina. Costumo dizer que não me arrependo do que fiz no passado. Mas cada vez mais, o tempo me mostra que estou errado em pensar assim. Começo a clariar as vistas e a ponderar em escolhas tão simples que se tomaram no passado. É irónico como um sim, ou um não podem mudificar uma vida. O irónico é que uma atitude imponderada, sem reflexão leva o tempo a revelar, tal um furacão, o erro de não se ter parado para pensar. Isto não implica que não continue a decidir muitas da minhas opções de vida, no instinto e no intuito.
Talvez a idade, não diria bem a idade, o tempo.. Sim, o tempo é o termo correcto. O tempo, já revelou-me que não ter seguido por um sim em vez de um não, teria sido bem mais proveitoso, bem melhor, mais feliz, mais tudo. Mas orgulho-me do que tenho, ou do que não tenho, porque foi essa a opção e no fundo vivo bem com ela. Será que isso já não é bom? Sim é verdade, que o tempo encarregou-se de mostrar que poderia ter sido melhor. Mas o que há, não é mal e a lição é saber viver com isso, e acima de tudo respeitar.
Respeitar o que a vida nos dá, o que a vida nos tira e as opções que tomamos. Há que saber viver como o que nos circunda, porque aí vamos encontrar a paz de espírito que necessitamos. Não tentem mudar o passado, pois esse já lá vai e o que foi não volta a ser.
If I could wish for something in this moment, I would wish for a white rose kiss
Um mal que advém de ter tido várias operações cirúrgicas, é que as anestesias fazem com que percamos memórias. Ultimamente, graças ao reencontro com velhos amigos, aviva-se a memória em conversas electrónicas. Soltam-se desbravadas gargalhadas ao ler certas conversas.
Ontem recebi este texto, foi rir até virem as lágrimas aos olhos!
"Sim lembro-me perfeitamente do Abade, até uma vez que fez xixi pelas pernas abaixo porque a professora não o deixou ir à casa de banho, e que comia papel quando tinha fome!
Lembro-me quando íamos para a Gulbenkian jogar ao bate pé, com o Luís faria, o Filipe, Filipa Isabel, Joana, Zé....
lembro-me das aulas de ginástica na cidade universitária, e na viagem grande que havia sempre no fim do ano, lembro-me da de Óbidos....tanta coisa"
JOSÉ CASTELO BRANCO que arrasou a concorrência com 49% dos votos! A unanimidade mostra que o seu reinado está para durar! O povo sabe que é nele que podemos confiar o legado dos lusitanos em perpetuar uma imagem triste dos nossos habitantes. Já não há lugar para a postura ao fado, à Amalaia e ao Eusébio!
Numa votação renhida pelo segundo lugar, os votantes levaram em consideração, a sua avasoladora conquista perpectuada no homem comum, dos receios provocados e das aparições nos seus maiores pesadelos, de anos terapia para muitos e até, levando alguns a questionarem as suas preferências sexuais.... Linda Reis! Com 17% dos votos!
O pódium fica completo com a inquestionável presença dessa figura já mítica dos media de baixa densidade. O constante e deprimente excesso de julgamento da vida alheia, conspurcando tudo e todos sem olhar a meios e a fins, terá sido uma das características que pesou na sua votação! O verdadeiro "macho latino" dos tempos modernos... Analfabeto, intolerante e malicioso... Cláudio Ramos com 14% dos votos!
O avô do Bruno possui várias propriedades e entre essa variedade, uns quantos apartamentos em Isla Canela, perto de Ayamonte. Por duas vezes fomos para lá passar o fim-de-ano e em ambas, foram dias repletos de histórias. Da primeira vez, eram quatro malandros! Eu, o Bruno Reis, o Bruno Brito e o meu irmão. Mais tarde, no dia de passagem de ano, juntou-se a nós o Ismael, colega de liceu, do João e do Bruno Brito. Um rapaz de bom fundo, com energia para dar e vender e propenso a criar aventuras do nada! Encontrámo-nos todos no jardim para o dia de partida, eu tinha em mente seguir viagem no meu carro e o Bruno Reis levava o seu Vitara. À hora do arranque deixei-me convencer pelo Bruno Reis que não havia necessidade de levar dois carros e acabámos por fazer a viagem, os quatro, encafuados naquela amostra de jipe!
A viagem foi uma estucha! O poderoso Vitara fazia a estonteante média de noventa quilómetros por hora a gastar vinte litros aos cem! Não houve carteira que aguentasse o rombo e a paciência necessária para tantas horas de viagem! Ao fim de estonteantes seis horas de viagem atingimos o nosso destino. Isla Canela. Fomos para o apartamento que nos estava destinado e deparámos com o holocausto! O apartamento tinha sido alugado uns meses antes e desde então ninguém tinha entrado dentro do mesmo. O estado em que os inquelinos o deixaram, era lastimoso! Móveis partidos, lixo por todo lado e sem qualquer hipótese de alojar quatro adolescentes, com o mínimo de higiéne. Acabámos por convencer o Bruno Reis que não havia condições para permanecer ali e acabámos por nos instalar noutro apartamento.
Os dias passaram-se intercalados por boas sonecas e passeatas na vila. Já as noites eram de pura borga! Foram passando entre idas a Isla Cristina e Monte Gordo, até chegarmos ao dia de trinta e um de Dezembro. Como sempre fui o primeiro a acordar e depois de ir a Ayamonte tomar o pequeno-almoço, voltei ao apartamento ao fim da tarde. Já todos estavam despertos e prontos para mais uma noite de folia. Após os aprumos, a excitação para uma noite em grande, mas no meio disto ninguém se lembrou de reservar um restaurante ou se quer de ir comprar mantimentos para uma refeição digna da noite de fim-de-ano. Já tarde e sem hipótese de apanhar o supermercado aberto, decidimos rumar a Monte Gordo e procurar um restaurante que nos aceitasse. Nada feito! Só aceitavam clientes com reserva prévia ou já se encontravam fechados! Quatro miúdos a morrer de fome e sem saber muito bem o que fazer!
Estivemos no café uma hora, forrando o estômago com uns tremoços e umas cervejas, de maneira ajudar-me a desligar das dores no pé. Durante o convívio falou-se dos planos dessa noite. Ir ao Baile da Queima das Fitas e mais tarde seguir para o Parque. Estavam a contar com a nossa presença mas eu não tinha levado smoking, nem fato, fui para lá pelas borgas, não contava ventir fatos!
Quando fiz dezanove anos tirei a carta de condução e no verão preparava-me para fazer mais uma mini-volta pela europa, com o meu pai e o meu irmão. Desde miúdo que me recordo de fazer este género de viagens. Por hábito, o meu pai conduzia ao som dos afamados Paco Bandeira, José Cid, Júlio Iglesias e companhia, cantarolando as canções. Acredito que era a Era a paga pela viagem Para nós, o tempo que estávamos no carro era passado a dormir ou a apreciar a paisagem.
Fui sair na noite anterior, antes da partida e a rambóia foi tal, que acabei por chegar a casa às sete da manhã. Não cheguei a deitar-me e fui logo tomar um banho para estar pronto para a viagem. Fui o primeiro a despachar-me e aproveitei para ir tomar o pequeno almoço a um café, enquanto o meu pai e o meu irmão se arranjavam. Ao voltar já eles colocavam as malas no porta-bagagens do BMW e eu naturalmente fiz o papel que me competia. Abri a porta e sentei-me no banco do lado, rebaixei-o de maneira a preparar-me para a minha merecida sesta. Prontos para o arranque, o meu pai bate no vidro. Eu baixei o vidro e perguntei-lhe: - O que foi? - Durante anos tive de fazer de vosso motorista, agora já tens carta e eu estou velho! É a tua vez de levares o carro! - Disse-me ele ao abrir a porta. Que sina a minha! Arrancou-me do meu lugar e lá tive eu de conduzir com uma directa em cima!
O primeiro destino era Madrid, seiscentos quilómetros e antes de chegar à primeira centena percorrida já tinha como companhia roncos e ressonares. Ia sozinho, cheio de sono e sem
Em Lisboa nasceu um complexo de luxo. Agora não é necessário contar trocos para a gasosa e fazer-se à marginal para jogar à batota. Os alfacinhas já se podem deslocar de metro com direcção à Expo para esbanjar os euros, nas promessas da sorte.
Mais uma vez Lisboa, teve o privilégio de assistir a um Rock in Rio, desta vez com uma presença para mim relevante, os Guns ‘N Roses. Tinha curiosidade de ver como se comportaria Axel. A verdade é que a voz e a dinâmica continuam lá e foi do melhor que se assistiu. Em 2008 há mais!
Palhaçada, das palhaçadas, foi a teimosia inexplicável do governo, com a Colecção Berardo. Esteve para ir de armas e bagagens para a terra da “La Marseillaise”. A única imposição de Berardo? Que a colecção ficasse patente num espaço relevante cedido pelo estado! Com o poder negocial que lhe é reconhecido, Joe Berardo, sob contornar a ignorância dos nossos políticos e para nosso agrado, podemos visitar uma das maiores colecções de arte contemporânea no CCB.
DESPORTO

No desporto, foi um ano repleto de adeus aos idolos. Na minha prespectiva, uns mais sentidos do que outros. O futebol despediu-se de Zidane, um maestro da arte de tratar a bola por tu, mal amado entre muitos de nós, quis dar razão aos tugas ao despedir-se com uma reacção menos própria de uma figura mediática, na final do campeonato do mundo, vencida pela Itália. No automobilismo terminou uma era de domínio Ferrari, com a conclusão da carreira de Michael Shumacher, por muitos tido como o maior de sempre. Não que seja esta a minha opinião, mas não posso deixar de relevar o seu contribuito para a categoria. Um adeus precoce, deu-nos Ian Torpe. O “Torpedo” tem um currículo recheado de numerosos prémios internacionais e recordes mundiais onde se salienta 5 medalhas Olímpicas. Aos 24 anos fartou-se da pressão e com uma conta bancária recheada, virou costas à modalidade.
Desde miúdo lembro-me do Kid de Las Vegas, um senhor que sempre soube estar na ribalta. Foi com uma certa mágoa, que assisti à brilhante ovação prestada na sua despedida ao tenis. Para trás ficam 60 vitórias, entre elas oito títulos do Grand Slam.
Mas o mais relevante no desporto estava guardado para o fim do verão, com o caso Mateus a fazer manchete nos jornais nacionais e internacionais. Portugal no seu melhor! Foi por uma nesga que o campeonato não foi suspenso, bem como a participação nas competições europeias. Na minha opinião o Gil Vicente, bode expiatório desta história, só é culpado por aproveitar-se do amadorismo dos dirigentes que só vêem os cifrões. 2007 guarda-nos mais um circo com o Apito Dourado. Será desta que há culpados?
CURIOSIDADES
O sistema solar ficou mais curto. Da primeira vez que uma sonda chega a Plutão, este foi desqualificado. Não por doping ou por batota, mas porque não preenche os requisitos e é diferente dos outros planetas. Racismo, digo eu! Os pequenitos também tem direito a ser alguém.O senhor Microsoft esteve por terras lusas e não faltou quem lhe fosse lamber as botas em busca dos dolares. Houve direito a condecorações e todas as mordomias. Sempre gostava de saber onde vão parar os fundos do plano tecnológico, para a tal formação de um milhão de portugueses, quando a maioria dos portugueses mal sabe funcionar com um computador!
O que mais gostei na política, do Zé Tuga, este ano, foi a história da CIA. Aqueles secretos Americanos, pelos vistos fizeram do nosso país, posto de abastecimento mas ninguém sabia! Explicando melhor, enquanto foi ministro dos negócios estrangeiros, Freitas do Amaral, de nada sabia. A partir do momento que correram com ele do poder, avivou-se-lhe a memória e escreveu uma cartita para o Parlamento Europeu a confirmar os voos da CIA! Depois querem que o povo acredite nestes trolhas!
Para finalizar, nada melhor que a implementação das novas normas antitabagicas. É proibido fumar em locais públicos, como os hospitais. Não me assustei com a medida porque estamos a falar de Portugal e não de outro país educado. Para quem já presenciou, indivíduos a fumarem uns cigarritos para rir nas enfermarias dos hospitais de Lisboa, com a maior das conivências dos enfermeiros, querem-me fazer crer que estas normas vão pegar?
Só para rir! Para ano há mais!
Há alturas em que reflectimos sobre o que foi e no que se fez. É chegada a altura de fazer um balanço deste último ano e olhando para trás, chego à conclusão que foi intenso, repleto de alto e baixos. Em todos os sentidos e sentimentos. Foi um ano exemplar, reflexo do que sou e de como encaro a vida.Mas depois da tempestade, vem sempre a bonança, chegou o calor e com ele voltou o ânimo, o futuro sorriu. Nova oportunidade, a não desperdiçar! A vida começou-se a compor de cores alegres e vivas. Novo emprego, nova casa, nova vida, novos amigos. Tudo feito à medida do sonho perfeito. Talvez não perfeito, mas para lá caminha. Com o frio, as prioridades deram lugar à obra e já se concluíram as primeiras fundições.
Que fiz de errado este ano? Confiei cegamente, mais uma vez, em quem não merecia. Optei por decisões precipitadas. O que fiz de bem este ano? Muito! Voltei a acreditar em mim, comecei a criar património, recuperei amizades, recuperei alguma família e tentei, ainda tento, reparar erros do passado.
É caso para dizer comecei em baixo, acabei em alta! Mais um exemplo cabal do que é a minha vida. O que peço para 2007? Que continue a acreditar, a ter forças para lutar pelo meu lugar ao sol e acima de tudo a sonhar. Porque à que acreditar que o melhor ainda está para vir.
Não posso dizer que tenha sido um local onde me sentisse bem ou do qual tenha boas memórias. Como em tudo na vida, o mais selecto esconde sempre muita podridão. Meninos bem, com código de vestimenta e atitudes, que se sobrepunham a toda e qualquer qualidade ou virtude. Círculos restritos onde o ser popular era sinónimo de possuir um nome de família nobre ou um progenitor abastado. No meio deste ambiente de cortar à faca, onde era julgado constantemente, há que salientar a existência de alguns irreverentes que se desmarcavam do círculo.
E o que trago de positivo, por esse tempo, foram as amizades criadas. Os excluídos do círculo ou que se desmarcavam dele, produziram laços de amizade. Amizades sinceras e puras. Estes desalinhados eram olhados com desdém e inveja pelos membros do círculo. Sentimento causado por sermos irreverentes, revoltar-nos contra as normas impostas e que acreditavámos estarem erradas.
No seio dos desalinh
ados, começei uma união com outras três individualidades:Brito, rapaz que na infância era o gordo com o qual todos faziam troça. Na adolescência emagreceu e revoltou-se contra o passado. Adoptou uma imagem e postura controversa. Fã incondicional da era dos anos 50 americanos, apresentava-se como se pertence-se a essa época. De barba cerrada, nariz pronunciado, olhos vivos e sorriso nervoso. A vestimenta era uma mistura de James Dean com motard chopper. Casaco de napa a imitar cabedal, brinco na orelha, t-shirt branca, calças de ganga, botas à cowboy e os mais variados acessórios com simbolismo americano. No seu todo aquela postura acabava por fazer sentido e tornou-se a sua imagem de marca.
Luis Nuno, iludia a sua insegurança com uma máscara de confiança, assumia uma imagem mais conservadora, mais condizente com a conduta requerida pelo círculo, consequência própria de quem tem medo de cometer um erro social. Estes receios provinham de uma infância carente de apoio maternal. Desde tenra idade, o seu mundo particular, apresentou-se solitário. Era o único adolescente que conhecia naquela altura, que almoçava e jantava sozinho em restaurantes. Estas vicitudes da infância apuraram o seu sentido de critica e sarcásmo.
E como um grupo nunca está completo sem a sua mascote, foi incluída uma quarta personagem. O Ivo.
Era o único que não estudava no Valsassina. Apareceu no grupo através do Luís Nuno, era filho de uma amiga de infância da mãe. Veio um dia almoçar connosco e acabou por ficar. A sua aparência dizia tudo e ao mesmo tempo nada. Com quase dois metros de estatura, escanzelado até ao osso e com ar de rato de biblioteca, aparentava uma insegurança irrealista. Reservado e inteligente, soltou-se e começou a ver o mundo com outros olhos. Era o alvo predilecto das brincadeira e ao mesmo tempo o nosso protegido.
Foi assim que nasceram os quatro magníficos. Um grupo de miúdos de personalidades distintas que foram à descoberta do mundo. Do bom e do mau, viveram todas as experiências da juventude sempre unidos, sempre presentes. Estavam a toda a hora disponíveis para uma nova aventura, onde estava um, estavam os outros três. Fizeram o possível e quando já tinham feito tudo, fizeram o impossível. Foram as personagem de uma novela que durou vários anos, mas acima de tudo, o que sobressaía era a amizade que os unia.
Não sou da Terra, sou do mundo. Sou estranho, e gosto de ser assim. Divago sobre assuntos banais e peculiares. Prevejo atitudes futuras e sei falar com as estrelas. Sou esquisito, inventivo e estratégico. Não perco tempo a pensar sobre o que acham de mim e não quero descobrir. Adoro o excêntrico e o poder da imaginação. Alicia-me estar num café a dissertar sobre banalidades.
A arte e a história fascinam-me. Salvador Dali, Gustav Klimt, Andy Warhol e Le Croubusier. Na música encontro a minha alma e no futebol do Benfica encontro a paixão. A velocidade dos automóveis e a pacatez das vilas deste país, cativa a minha noção de tempo.
Adoro conhecer novas pessoas. Posso aprender algo e passar a outros as minhas teorias. Todo o indíviduo tem algo novo para oferecer. Detesto a ignorância e também a invejo. Não sou de inimizades mas não tolero traições. Sou radical e boémio, mas consigo rever-me na ponderação e no clássico. Sou despistado com o corriqueiro do dia-a-dia e diligente com questões do ser.
Esta é a minha essência e orgulho-me de ser único...
Nos últimos fins-de-semana andei a pôr a conversa em dia, com um amigo e colega de adolescência. Com a nostalgia sempre presente fomos revivendo o passado, as aventuras e as grandes emoções que elas nos provocaram. As histórias já saem algo foscas, pormenores faltam, mas o sorriso nas nossas caras, ao recriar esses momentos, é impagável.
O local destes nossos encontros é no Botas, restaurante que este meu amigo possui em Ranholas. Apareci a primeira vez, durante uma tarde e acabei por ficar para jantar, chegando a permanecer até a hora de fecho. Passamos o tempo recatados a uma mesa, deliciando com os petiscos e regando os copos com bons vinhos. A conversa flui naturalmente entre duas pessoas que viveram as aventuras dos quatro magníficos. Enquanto vamos avivando mutuamente a memória relembrando episódios caricatos que nos fazem rir, falamos também, sobre outros que passaram pelas nossas vidas, como estão e o que fazem. A esposa deste meu amigo junta-se a nós quando o movimento da casa o permite e vai ouvindo todas as embrulhadas e desventuras da nossa sobrevivência à adolescência.
A conversa parece nunca ter fim, o que faz com que acabe sempre por voltar no fim-de-semana seguinte, para retomar o diálogo, como se nunca o tivessemos parado. Como se pode condensar no tempo de uma conversa, as várias histórias que temos no nosso livro de memórias? Tem sido um vício, ou melhor, um gozo. É de salutar poder reviver, em companhia, estas lembranças e estas aventuras. Poder recordar o tempo em que a vida nos permitia sermos livres, jovens e despreocupados com o amanhã. Memórias que parecem tão distantes, tão longe de onde nos encontramos mas que por estes dias parecem ter acontecido ontem. O tempo passou, os miúdos tornaram-se graúdos mas as histórias estão vivas na memória para perdurarem até onde o tempo as permita.
I know i’m going to die so my reveange is living well...
Para quem não sabe, sempre tive uma paixão enorme pela música. Desde miúdo que tento cantarolar, não que seja um Frankie mas gosto de cantar, mesmo tendo a noção que não o faça da melhor maneira. Com os anos tenho melhorado mas sei que a minha voz também não dá para sair do mediano e para entoar com a mínima perfeição conta-se pela palma da mão o número de músicas.Nas longas viagens de carro feitas no verão durante a infância e adolescência, acompanhava o meu pai nas músicas da k7, o resultado? Mandavam-me calar! Quando das festas lá em casa com o Zé Lúcio, ou mesmo os encontros de fim-de-semana passados no Brasil. Lá vinha eu de mansinho e entrava no coro improvisado! O resultado? Mandavam-me calar! Na adolescência entrei para uma banda, tocava guitarra de acompanhamento e aos poucos, sem qualquer indicação dos meus colegas, comecei a fazer segundas vozes. Resultado? Madavam-me calar!
Desde que abriu o bar cá na vila, a minha presença naquele local é diária. É onde muitas das vezes vou almoçar e onde bebo o cafezito de fim de tarde. Onde bebo a imperial a seguir ao jantar e onde convivo com os meus amigos da vila. O bar possui noites temáticas, uma das quais por qual anseio é a do torneio de pes. Ainda em estado embriatório mas que já conta com acérrimos candidatos. Às sextas-feiras é noite de dj, ao domingo temos de vez enquando stand-up comedy e sábado é a noite das estrelas! Karaoke!
Ora ao princípio, não estando ambientado ao meio, foi um bocado complicado atirar-me para um palco, sozinho e pouco à vontade. Mesmo assim ganhei coragem depois de ver um certo número de participantes, fiz-me à maré e cantei a primeira música! Muita gente veio-me dar os parabéns, incluíndo o rapaz que estava a fazer o karaoke. Desde o primeiro sábado, em que cantei a primeira música, as pessoas abordam-me assim que entro no bar, a perguntar que música vou cantar nessa noite. Acho piada, porque embora continue a ter a noção de que não sou nenhum rouxinol, bem longe disso, as pessoas esperam que eu vá cantar! O meu grande problema neste momento, é que o repertório está a acabar e vou ter que começar a treinar outras músicas para não desapontar ninguém, na hora de actuar!
Já se desenvolvem as ferramentas para as novas conquistas. Há novas metas, outras batalhas para gladiar. Vem aí a maior de todas. Aquela onde vou clamar por todas as forças do universo para que arduamente possa pelejar pela verdade e pelo
que é correcto. A sensação de que desta vez não haverá espaço para desilusões, alia-se à fortuna do querer. Ela incita-me a corrigir o maior dos meus pecados passados, orgulho estúpido e banal que só a outro lesou. Está para breve o próximo degrau. Isso prometo-te.Espera por mim à janela, eu estou a chegar!
