Enquanto vivi a minha meninice resguardado no jardim da praceta, fui participando em aventuras muito engraçadas. Existia um grupo de miúdos maioritariamente rapazes, verdadeiras pestes, que faziam as maiores partidas possíveis. O grupo consistia na minha pessoa, o meu irmão João, o Bruno Reis, o filho da porteira do meu prédio o Carlinhos sopinha de massa, o Patrick que morava no doze juntamente com os irmão Mário Bruno e Miguel, os irmão Diogo e Bernardino, que tinha por alcunha Bébé por ser minúsculo para a idade, o Faneca, o mais ingénuo de todos e que parecia uma estufazinha e o Sérginho, o grande Sérginho! Este era o nosso predilecto quando se tratava de pregar uma partida!
O Sérginho era o único do grupo que vinha de uma família com dificuldades financeiras, pois o pai andava sempre de baixa e o que recebia era maioritariamente gasto em equipamento de som para os concertos de música pimba que ia dando em casórios e festas! Rapaz com dificuldades de aprendizagem mas muito educado, pois a mãe assim o era opondo-se ao pai que era uma verdadeira ave rara! Capaz de incutir no rapaz as maiores barbaridades sobre todos os assuntos! O Sérginho, como qualquer miúdo, bebia da sabedoria do pai. Lembro-me de uma ou duas tiradas do pai excelentes, que ele afirmava com a maior das convicções. Do género: Quando arrebentou a Guerra no Golfo, o pai diziam que o Saddam iria ganhar a guerra contra os Estados Unidos e o Sérginho vinha para a praceta bramar a quem quisesse ouvir tamanho disparate! O Sérginho nos estudos era rapaz previsível. Se passava um ano, era certo que no próximo iria chumbar! Assim foi acontecendo desde a terceira classe, até que por fim desistiu dos estudos e dedicou-se à música! Começou por andar a acartar o material de som do pai e com a prática lá foi aprendendo a tocar viola e órgão. Hoje faz disso vida!
Das partidas que mais vontade dá para me rir, sempre que me lembro desses tempos, era quando jogávamos às escondidas e já chegando a hora de voltar para casa, fazíamos sempre a mesma coisa! Combinávamos entre nós de deixar o Sérginho ser o primeiro a ser apanhado quando jogássemos a última vez. Quando ele começava a contar íamos todos para casa e era ver da janelas o Sérginho a deambular durante uma hora ou mais, à nossa procura! A graça da piada estava, em que sempre que combinávamos isto era certo que ele caia!
Houve outra vez que o Sopinha de massa, lembrou-se de saltar para cima de um galinheiro nas traseiras do doze e esqueceu-se que pesava oitenta e cinco quilos e media um metro e oitenta! Resultado? Partiu o tecto do galinheiro e rasgou as costas tendo de ir para o pronto-socorro. O Sérginho, sempre amigo do seu amigo, dispôs-se a acompanhar o Carlinhos e era ver-lo a colar macacos na parede do consultório enquanto o médico cozia o Carlos, sopinha de massa!
Mas verdade seja dita! O Sérginho era rapaz esforçado. Estava sempre disponível para levar os sacos de compras das velhotas, na expectativa de receber uns trocos. Foi também à custa do miserável dinheiro que o pai lhe pagava por andar a acartar o equipamento de som, que conseguiu juntar dinheiro para ir tirar a carta! Lembro-me que quando começou a aprender a tocar viola, vinha muitas vezes ter comigo para ensinar-lhe acordes, que depois com muita perseverança ia treinar para casa!
Num verão, com horário mais alargado para permanecer no jardim, por estarmos nas férias da escola. Não tínhamos nada para fazer e já não sei como começou esta partida, mas começámos a mandar parar táxis. Ao princípio mandávamos para e depois fugíamos, mas rapidamente cansámos-nos e tivemos de elaborar um plano mais astuto! Era verem-nos a atirar ovos, abrir as portas todas e até uma vez atirámos lá para dentro uma carpete cheia de bichos que encontrámos no lixo! Depois era desatar a correr para as garagens e refugiar nos nos muros, que tão bem conhecíamos! Muitas vezes os taxistas saiam dos carros e corriam atrás de nós mas não tinham muita sorte, pois nós conhecíamos aquelas paragens como ninguém! Tendo havido uma certa vez, que a coisa deu para o torto...
O meu irmão, quando pequeno era para o gordito e uma lesma a correr. numa dessas fugas foi apanhado pelo taxista que o levou ao panda bingo, onde se encontrava sempre presente um guarda da psp. Quando saí do meu esconderijo, contaram-me o que se sucedera e lesto, agarrei duas pedras da calçada e desatei a correr em direcção ao bingo. O taxista pelo caminho tinha dado uns tabefes no João, o que para mim era inadmissível! Foi uma carga dos trabalhos, afastar-me do taxista, nem mesmo o policia teve coragem para agarrar-me não fosse também apanhar por tabela! Valeu na altura o meu vizinho que ao sair do bingo deparou-se com a situação e apaziguou-me. Indo o taxista embora, sem apresentar queixa mas com umas mazelas como presente!
No Verão, andávamos sempre de bicicleta e um dia tivemos a brilhante ideia de montar uma rampa no meio do jardim, para podermos fazer uns saltos! O Patrick, tinha comprado uns punhos todos xpto e para os colocar no guiador, lembrou-se de passar-los por água e sabão para encaixarem mais facilmente! Parece que estou a ver a fotografia! Quando ele foi saltar, em pleno voo, os punhos escorregaram e saíram do guiador! Pareceu que tudo se desenrolava em câmara lenta! O Patrick com os punhos em cada mão em pleno ar, fora do guiador, a olhar para uma e outra mão, a fazer um trejeito de cara, como quem sabe o fim da história, até se estatelar no meio do alcatrão! Aquilo é que foi rir!
Na praceta havia rituais e normas. Quem fosse de fora, sofria praxes para ser do grupo! As passagens dos muros das garagens eram nossas e não era permitida a passagem a mais ninguém! Quantos alunos do Camões não ficaram nus amarrados aos postes por ousarem atravessar os muros? Lembro-me de uma história que ia dando para o torto. Nós tínhamos por norma, ir para o portão do Camões atazanar a miudagem. Ovos, belas, caldos, etc! Até que um dia os miúdos revoltaram-se! Por sorte apercebemos-nos a tempo! Tinham chamado os irmãos mais velhos e eram para mais de cinquenta! Nós não chegávamos a dez mas tivemos a ajuda preciosa dos grandes! Os grandes, assim eram chamados, eram a rapaziada da praceta mais velha, já na casa dos vinte. Faziam-nos as maiores maldades, mas não deixavam que ninguém nos tocasse! Foi assim com a ajuda, do Romeu, do Zé cara-de-homem, do Peixoto e de mais uns quantos, que fomos esperar os revoltados nos muros do nove. Os grandes encolheram-se, para parecerem da mesma altura do que nós. Quando os miúdos do Camões acercaram-se do muro, cheios de coragem, os grandes levantaram-se e foi ver aquelas alminhas a ficarem brancas como a cal! O Zé cara-de-homem, ainda teve de dar uns tabefes no líder da pandilha! Foi remédio santo! Nunca mais houve revoltas e assim continuámos a poder fazer as nossas esperas ao portão do Camões!
Existem muitas mais histórias sobre a praceta, mas ficam para um próximo post...
O Sérginho era o único do grupo que vinha de uma família com dificuldades financeiras, pois o pai andava sempre de baixa e o que recebia era maioritariamente gasto em equipamento de som para os concertos de música pimba que ia dando em casórios e festas! Rapaz com dificuldades de aprendizagem mas muito educado, pois a mãe assim o era opondo-se ao pai que era uma verdadeira ave rara! Capaz de incutir no rapaz as maiores barbaridades sobre todos os assuntos! O Sérginho, como qualquer miúdo, bebia da sabedoria do pai. Lembro-me de uma ou duas tiradas do pai excelentes, que ele afirmava com a maior das convicções. Do género: Quando arrebentou a Guerra no Golfo, o pai diziam que o Saddam iria ganhar a guerra contra os Estados Unidos e o Sérginho vinha para a praceta bramar a quem quisesse ouvir tamanho disparate! O Sérginho nos estudos era rapaz previsível. Se passava um ano, era certo que no próximo iria chumbar! Assim foi acontecendo desde a terceira classe, até que por fim desistiu dos estudos e dedicou-se à música! Começou por andar a acartar o material de som do pai e com a prática lá foi aprendendo a tocar viola e órgão. Hoje faz disso vida!

Das partidas que mais vontade dá para me rir, sempre que me lembro desses tempos, era quando jogávamos às escondidas e já chegando a hora de voltar para casa, fazíamos sempre a mesma coisa! Combinávamos entre nós de deixar o Sérginho ser o primeiro a ser apanhado quando jogássemos a última vez. Quando ele começava a contar íamos todos para casa e era ver da janelas o Sérginho a deambular durante uma hora ou mais, à nossa procura! A graça da piada estava, em que sempre que combinávamos isto era certo que ele caia!
Houve outra vez que o Sopinha de massa, lembrou-se de saltar para cima de um galinheiro nas traseiras do doze e esqueceu-se que pesava oitenta e cinco quilos e media um metro e oitenta! Resultado? Partiu o tecto do galinheiro e rasgou as costas tendo de ir para o pronto-socorro. O Sérginho, sempre amigo do seu amigo, dispôs-se a acompanhar o Carlinhos e era ver-lo a colar macacos na parede do consultório enquanto o médico cozia o Carlos, sopinha de massa!
Mas verdade seja dita! O Sérginho era rapaz esforçado. Estava sempre disponível para levar os sacos de compras das velhotas, na expectativa de receber uns trocos. Foi também à custa do miserável dinheiro que o pai lhe pagava por andar a acartar o equipamento de som, que conseguiu juntar dinheiro para ir tirar a carta! Lembro-me que quando começou a aprender a tocar viola, vinha muitas vezes ter comigo para ensinar-lhe acordes, que depois com muita perseverança ia treinar para casa!
Num verão, com horário mais alargado para permanecer no jardim, por estarmos nas férias da escola. Não tínhamos nada para fazer e já não sei como começou esta partida, mas começámos a mandar parar táxis. Ao princípio mandávamos para e depois fugíamos, mas rapidamente cansámos-nos e tivemos de elaborar um plano mais astuto! Era verem-nos a atirar ovos, abrir as portas todas e até uma vez atirámos lá para dentro uma carpete cheia de bichos que encontrámos no lixo! Depois era desatar a correr para as garagens e refugiar nos nos muros, que tão bem conhecíamos! Muitas vezes os taxistas saiam dos carros e corriam atrás de nós mas não tinham muita sorte, pois nós conhecíamos aquelas paragens como ninguém! Tendo havido uma certa vez, que a coisa deu para o torto...
O meu irmão, quando pequeno era para o gordito e uma lesma a correr. numa dessas fugas foi apanhado pelo taxista que o levou ao panda bingo, onde se encontrava sempre presente um guarda da psp. Quando saí do meu esconderijo, contaram-me o que se sucedera e lesto, agarrei duas pedras da calçada e desatei a correr em direcção ao bingo. O taxista pelo caminho tinha dado uns tabefes no João, o que para mim era inadmissível! Foi uma carga dos trabalhos, afastar-me do taxista, nem mesmo o policia teve coragem para agarrar-me não fosse também apanhar por tabela! Valeu na altura o meu vizinho que ao sair do bingo deparou-se com a situação e apaziguou-me. Indo o taxista embora, sem apresentar queixa mas com umas mazelas como presente!
No Verão, andávamos sempre de bicicleta e um dia tivemos a brilhante ideia de montar uma rampa no meio do jardim, para podermos fazer uns saltos! O Patrick, tinha comprado uns punhos todos xpto e para os colocar no guiador, lembrou-se de passar-los por água e sabão para encaixarem mais facilmente! Parece que estou a ver a fotografia! Quando ele foi saltar, em pleno voo, os punhos escorregaram e saíram do guiador! Pareceu que tudo se desenrolava em câmara lenta! O Patrick com os punhos em cada mão em pleno ar, fora do guiador, a olhar para uma e outra mão, a fazer um trejeito de cara, como quem sabe o fim da história, até se estatelar no meio do alcatrão! Aquilo é que foi rir!
Na praceta havia rituais e normas. Quem fosse de fora, sofria praxes para ser do grupo! As passagens dos muros das garagens eram nossas e não era permitida a passagem a mais ninguém! Quantos alunos do Camões não ficaram nus amarrados aos postes por ousarem atravessar os muros? Lembro-me de uma história que ia dando para o torto. Nós tínhamos por norma, ir para o portão do Camões atazanar a miudagem. Ovos, belas, caldos, etc! Até que um dia os miúdos revoltaram-se! Por sorte apercebemos-nos a tempo! Tinham chamado os irmãos mais velhos e eram para mais de cinquenta! Nós não chegávamos a dez mas tivemos a ajuda preciosa dos grandes! Os grandes, assim eram chamados, eram a rapaziada da praceta mais velha, já na casa dos vinte. Faziam-nos as maiores maldades, mas não deixavam que ninguém nos tocasse! Foi assim com a ajuda, do Romeu, do Zé cara-de-homem, do Peixoto e de mais uns quantos, que fomos esperar os revoltados nos muros do nove. Os grandes encolheram-se, para parecerem da mesma altura do que nós. Quando os miúdos do Camões acercaram-se do muro, cheios de coragem, os grandes levantaram-se e foi ver aquelas alminhas a ficarem brancas como a cal! O Zé cara-de-homem, ainda teve de dar uns tabefes no líder da pandilha! Foi remédio santo! Nunca mais houve revoltas e assim continuámos a poder fazer as nossas esperas ao portão do Camões!
Existem muitas mais histórias sobre a praceta, mas ficam para um próximo post...
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