The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida

Enquanto vivi a minha meninice resguardado no jardim da praceta, fui participando em aventuras muito engraçadas. Existia um grupo de miúdos maioritariamente rapazes, verdadeiras pestes, que faziam as maiores partidas possíveis. O grupo consistia na minha pessoa, o meu irmão João, o Bruno Reis, o filho da porteira do meu prédio o Carlinhos sopinha de massa, o Patrick que morava no doze juntamente com os irmão Mário Bruno e Miguel, os irmão Diogo e Bernardino, que tinha por alcunha Bébé por ser minúsculo para a idade, o Faneca, o mais ingénuo de todos e que parecia uma estufazinha e o Sérginho, o grande Sérginho! Este era o nosso predilecto quando se tratava de pregar uma partida!
O Sérginho era o único do grupo que vinha de uma família com dificuldades financeiras, pois o pai andava sempre de baixa e o que recebia era maioritariamente gasto em equipamento de som para os concertos de música pimba que ia dando em casórios e festas! Rapaz com dificuldades de aprendizagem mas muito educado, pois a mãe assim o era opondo-se ao pai que era uma verdadeira ave rara! Capaz de incutir no rapaz as maiores barbaridades sobre todos os assuntos! O Sérginho, como qualquer miúdo, bebia da sabedoria do pai. Lembro-me de uma ou duas tiradas do pai excelentes, que ele afirmava com a maior das convicções. Do género: Quando arrebentou a Guerra no Golfo, o pai diziam que o Saddam iria ganhar a guerra contra os Estados Unidos e o Sérginho vinha para a praceta bramar a quem quisesse ouvir tamanho disparate! O Sérginho nos estudos era rapaz previsível. Se passava um ano, era certo que no próximo iria chumbar! Assim foi acontecendo desde a terceira classe, até que por fim desistiu dos estudos e dedicou-se à música! Começou por andar a acartar o material de som do pai e com a prática lá foi aprendendo a tocar viola e órgão. Hoje faz disso vida!
Das partidas que mais vontade dá para me rir, sempre que me lembro desses tempos, era quando jogávamos às escondidas e já chegando a hora de voltar para casa, fazíamos sempre a mesma coisa! Combinávamos entre nós de deixar o Sérginho ser o primeiro a ser apanhado quando jogássemos a última vez. Quando ele começava a contar íamos todos para casa e era ver da janelas o Sérginho a deambular durante uma hora ou mais, à nossa procura! A graça da piada estava, em que sempre que combinávamos isto era certo que ele caia!
Houve outra vez que o Sopinha de massa, lembrou-se de saltar para cima de um galinheiro nas traseiras do doze e esqueceu-se que pesava oitenta e cinco quilos e media um metro e oitenta! Resultado? Partiu o tecto do galinheiro e rasgou as costas tendo de ir para o pronto-socorro. O Sérginho, sempre amigo do seu amigo, dispôs-se a acompanhar o Carlinhos e era ver-lo a colar macacos na parede do consultório enquanto o médico cozia o Carlos, sopinha de massa!
Mas verdade seja dita! O Sérginho era rapaz esforçado. Estava sempre disponível para levar os sacos de compras das velhotas, na expectativa de receber uns trocos. Foi também à custa do miserável dinheiro que o pai lhe pagava por andar a acartar o equipamento de som, que conseguiu juntar dinheiro para ir tirar a carta! Lembro-me que quando começou a aprender a tocar viola, vinha muitas vezes ter comigo para ensinar-lhe acordes, que depois com muita perseverança ia treinar para casa!
Num verão, com horário mais alargado para permanecer no jardim, por estarmos nas férias da escola. Não tínhamos nada para fazer e já não sei como começou esta partida, mas começámos a mandar parar táxis. Ao princípio mandávamos para e depois fugíamos, mas rapidamente cansámos-nos e tivemos de elaborar um plano mais astuto! Era verem-nos a atirar ovos, abrir as portas todas e até uma vez atirámos lá para dentro uma carpete cheia de bichos que encontrámos no lixo! Depois era desatar a correr para as garagens e refugiar nos nos muros, que tão bem conhecíamos! Muitas vezes os taxistas saiam dos carros e corriam atrás de nós mas não tinham muita sorte, pois nós conhecíamos aquelas paragens como ninguém! Tendo havido uma certa vez, que a coisa deu para o torto...
O meu irmão, quando pequeno era para o gordito e uma lesma a correr. numa dessas fugas foi apanhado pelo taxista que o levou ao panda bingo, onde se encontrava sempre presente um guarda da psp. Quando saí do meu esconderijo, contaram-me o que se sucedera e lesto, agarrei duas pedras da calçada e desatei a correr em direcção ao bingo. O taxista pelo caminho tinha dado uns tabefes no João, o que para mim era inadmissível! Foi uma carga dos trabalhos, afastar-me do taxista, nem mesmo o policia teve coragem para agarrar-me não fosse também apanhar por tabela! Valeu na altura o meu vizinho que ao sair do bingo deparou-se com a situação e apaziguou-me. Indo o taxista embora, sem apresentar queixa mas com umas mazelas como presente!
No Verão, andávamos sempre de bicicleta e um dia tivemos a brilhante ideia de montar uma rampa no meio do jardim, para podermos fazer uns saltos! O Patrick, tinha comprado uns punhos todos xpto e para os colocar no guiador, lembrou-se de passar-los por água e sabão para encaixarem mais facilmente! Parece que estou a ver a fotografia! Quando ele foi saltar, em pleno voo, os punhos escorregaram e saíram do guiador! Pareceu que tudo se desenrolava em câmara lenta! O Patrick com os punhos em cada mão em pleno ar, fora do guiador, a olhar para uma e outra mão, a fazer um trejeito de cara, como quem sabe o fim da história, até se estatelar no meio do alcatrão! Aquilo é que foi rir!
Na praceta havia rituais e normas. Quem fosse de fora, sofria praxes para ser do grupo! As passagens dos muros das garagens eram nossas e não era permitida a passagem a mais ninguém! Quantos alunos do Camões não ficaram nus amarrados aos postes por ousarem atravessar os muros? Lembro-me de uma história que ia dando para o torto. Nós tínhamos por norma, ir para o portão do Camões atazanar a miudagem. Ovos, belas, caldos, etc! Até que um dia os miúdos revoltaram-se! Por sorte apercebemos-nos a tempo! Tinham chamado os irmãos mais velhos e eram para mais de cinquenta! Nós não chegávamos a dez mas tivemos a ajuda preciosa dos grandes! Os grandes, assim eram chamados, eram a rapaziada da praceta mais velha, já na casa dos vinte. Faziam-nos as maiores maldades, mas não deixavam que ninguém nos tocasse! Foi assim com a ajuda, do Romeu, do Zé cara-de-homem, do Peixoto e de mais uns quantos, que fomos esperar os revoltados nos muros do nove. Os grandes encolheram-se, para parecerem da mesma altura do que nós. Quando os miúdos do Camões acercaram-se do muro, cheios de coragem, os grandes levantaram-se e foi ver aquelas alminhas a ficarem brancas como a cal! O Zé cara-de-homem, ainda teve de dar uns tabefes no líder da pandilha! Foi remédio santo! Nunca mais houve revoltas e assim continuámos a poder fazer as nossas esperas ao portão do Camões!
Existem muitas mais histórias sobre a praceta, mas ficam para um próximo post...

Johnny's leaving today (don't know where he's going).
Holds his head in disgrace (he can't escape the truth).
He knows the price that he's paid.
He admits that it's too late to admit that he's afraid.
Tomorrow comes. Sorrow becomes his soul mate. The damage is done.
The prodigal son is too late. Old doors are closed but he's always open,
To relive time in his mind.
Oh Johnny.
Johnny's leaving today (don't know where he's going).
He's got lines on his face (they tell the story of his pain).
He accepts it's his fate.
He admits it took too long to admit that he was wrong.
Tomorrow comes. Sorrow becomes his soul mate. The damage is done.
The prodigal son is too late. Old doors are closed but he's always open,
To relive time in his mind.
Oh Johnny.

Embora tenha havido desilusões na viagem a Brighton, pois nenhuma das informações que nos foi fornecida antes da viagem fossem a verdadeira realidade com que depará-mos. A verdade é que as dificuldades, fez com que o grupo se tornasse muito unido, criando-se um laço de camaradagem que ainda hoje, sempre que casualmente nos encontramos falamos entusiasticamente desses momentos. Foi uma aventura muito gira e enriquecedora, a todos os níveis.
Ao fim da primeira semana, as minhas caminhadas para casa, já não eram feitas solitariamente. Tinha a companhia de um grupo de colegas que moravam todos na mesma zona do que eu e que optaram por acompanhar-me. Essas caminhadas eram repletas de animadas conversas e como a fome estava sempre presente, era ver-nos a surripiar o leite que o leiteiro deixava às portas das casas! Houve uma vez, numa dessas caminhadas, que duas raparigas do Porto, (uma delas vim a reencontrar, quando fui estudar para Coimbra) que tinham trazido uma garrafa do Porto de sessenta e troca o passo, para oferecer à senhoria, decidiram não a oferecer pelos maus modos como tinham sido recebidas e decidiram partilhar-la comigo e com o Hugo. Eu que já tinha experimentado vinho do Porto mas do novo, quando dei o primeiro golo, quase saltaram-me os olhos das órbitas! O Hugo com dois golos ficou logo a sentir os efeitos e era ver-lo a correr pelo jardim aos pulos e a gritar que aquela terra era uma treta, às tantas da manhã! Sabendo como são os ingleses, nunca entendi como não fomos presos!
Numa outra caminhada, quando já estava perto de casa, já estando a percorrer os últimos metros sozinho e de repente do nada quase dou um tombo, ao ser albaroado por um cão! Pensei eu que era um cão! Quando começo a olhar com mais atenção percebo que não era um cão mas sim uma raposa! Uma raposa!? Pois é! Eu morava a poucos metros da floresta e o bicharoco levava a sua ceia na boca!
Na segunda semana, decidi não ir às aulas. Tinha que estar às oito da manhã na outra ponta da cidade e para isso era necessário levantar-me todos os dias às seis! Eu estava de férias, não estava em trabalhos forçados! Os meus colegas que viviam perto de mim, aderiram à balda e no fim dessa semana fomos chamados para uma reunião com a directora da viagem, que nos quis amedrontar, dizendo que ao fim de quatro faltas, ela mandava-nos de volta para Portugal. Os outros baixaram a cabeça e eu que não sou de me ficar retorqui! Disse-lhe que se enviava-nos de volta tinha de nos reembolsar e que ainda colocaria um processo em cima por mentir-nos descaradamente sobre as condições e actividades que íamos ter! Foi remédio santo! Nunca mais vi tal personagem e as nossas faltas às aulas da manhã foram sempre negligenciadas!
ao fim de duas semanas eu e o João, já não tínhamos dinheiro, tal como a maioria dos meus colegas, pois o dinheiro que tínhamos levado era para compras e não contava-mos despender dinheiro em comidas e roupas! Era ver toda a malta, a contar trocos e a pedir dinheiro emprestado aos que ainda tinham algum! Como os meus pais não estavam em Portugal, liguei para a minha avó, que através dos contactos do meu tio ao Lloyds Bank, conseguiu fazer uma transferência para Brighton! Foi o que me safou a mim, ao meu irmão e ainda deu para ajudar uns companheiros!
Foi também em Brighton, que conheci a minha primeira paixão. Uma morena de olho verde, de sorriso dócil, com um coração enorme, ingénua e cheia de sonhos. Foram muitas as tardes a passear ou sentados o dia inteiro num café a falarmos do que éramos, do que tínhamos vivido e do que queríamos para o futuro. Mas como em tudo na vida, há um princípio, meio e fim e todo o amor de verão termina quando começam a cair as primeiras folhas de Outubro e se aproxima o frio... Foi do que melhor encontrei nessa viagem e hoje relembro essa paixão com carinho e ternura

Num verão de adolescência, fui numa daquelas viagens para aperfeiçoar o inglês, onde se fica hospedado em casas particulares. O destino era Brighton e antes da viagem, cheio de pompa e circunstância, todos os pais e respectivos participantes tiveram um breafing no Hotel do Campo Grande, onde nos informaram sobre as actividades. Entre estas havia windsurf, natação, futebol, viagens lúdicas e as noites seriam preenchidas com festas numa discoteca onde poderíamos interagir com adolescentes de outras nações que aderiram ao mesmo programa. Sobre o tempo, ressalvaram que não se comparava com o habitual frio que se deparava em Londres, pois Brighton era uma vila de veraneantes, onde as praias eram de uma areia clara, o mar calmo e cristalino. A alimentação estaria a cargo dos proprietários das casas que nos acolhiam e que por isso não seria necessário levar dinheiro, sendo este só relevante para compras e lembranças. Durante a nossa estadia iríamos frequentar um curso de inglês, leccionado por formadores experientes. Este curso distribuía-se por meio dia, sendo uma semana de manhã, alternado para a tarde na semana seguinte.

Assim pelas cinco da manhã, de um dia no principio de Agosto, parti com o meu irmão e alguns amigos num grupo de quarenta adolescentes. Primeira paragem em Heatrow, Londres. onde seguimos de autocarro com destino final à praça central de Brighton. Desembarcámos as trouxas, envoltos em chuva e um frio de rachar e aguardávamos a chegada dos pais adoptivos. Conforme iam chegando, ia fazendo gozo, mais uns colegas, do que aguardava para cada um de nós! Às tantas, chega uma pandeireta a deitar fumo por todos os lados e saí lá de dentro duas matronas e começo eu com a minha grande boca, a fazer pouco do desgraçado que teria a sorte de viajar naquela aventura. Depressa o sorriso desapareceu-me do rosto, quando ouvi chamarem pelo meu nome!!!

Cheguei à minha casa adoptiva, situava-se numa das últimas ruas da vila, a seguir só floresta, era uma daquelas ruas típicas inglesas onde todas as casas se apresentam seguindo a mesma linha arquitectónica. Sendo que a minha era a única com o jardim por tratar e o muro parcialmente destruído. A minha senhoria, fez-me a voltinha de apresentação. No piso térreo tínhamos a sala, a casa-de-banho e a cozinha, onde me aguardavam os dois filhos e um matulão de um cão imundo. No piso superior à direita o quarto da senhora e à esquerda o meu quarto, que teria de dividir com um francês que chegaria daí a uma semana! O asseio era algo prescindível, ao ponto de na primeira vez que fui tomar banho saí do quarto descalço e ao chegar à casa-de-banho já tinha os pés negros! A alimentação consistia numa única refeição. Um pequeno-almoço horroroso que fazia questão de dividir com o matulão do cachorro. A única vantagem, foi o à vontade com que a senhora deixou-me. As chaves de casa, sem horário de entrada, tendo só que preocupar-me em não incomodar ninguém quando entrasse ou saísse.

A primeira coisa combinada pelos monitores era encontrar-nos na praça central, às sete da noite. A viagem de autocarro de casa à praça demorava uma bela e secante hora e acabei por chegar atrasado! A primeira coisa a fazer foi ir ao McDonalds saciar o pedido do estômago, seguindo para a praça, onde começou logo a primeira aventura! Estávamos todos reunidos na praça e um grupo de ingleses, já embriagados começaram a picar o nosso monitor, Hugo. Este não respondeu às provocações mas eu e uns quantos começamos a fazer frente e foi por pouco que a coisa não deu para o torto! O Hugo serenou os ânimos e seguimos para a discoteca onde permanecemos até à hora do fecho que era às onze horas. Como não sabia o horário do autocarro, deixei-me ficar à conversa e perdi o último autocarro que era às vinte e três e um quarto! Toca de fazer-me ao caminho a pé! De phones nos ouvidos fui trilhando o meu caminho durante duas horas e meia!

No dia seguinte só tinha que estar na escola à hora de almoço, o que permitiu-me deambular pela vila umas horas a mais. Estando avisado pelos responsáveis da viagem que se tratava de um local de verão onde o calor está sempre presente, a roupa que levara, consistia maioritariamente em t-shirts e polos mas com o tempo a não mostrar intenção de apresentar um solzito para amenizar o frio, foi um ver se te avias a comprar roupa de inverno! Aproveitei para dar um salto à praia para ver o mar e descobri que a areia clara descrita no breafing não existia, o seu lugar era ocupado por um monte de calhaus, onde terminavam umas ondas enormes que ate faziam um arrepio na espinha! A partir desse momento ficou certo, que ir à praia tomar um banho não era uma opção!

Sem possibilidade de almoçar ou jantar em casa, despendia o dinheiro que tinha trazido para compras, de maneira a poder ir enganando a barriga. Como era impossível ir a um restaurante decente tinha de me contentar com fast-food. Os dias eram passados entre uma seca de aulas que não aprendia nada de novo e as actividades extra-curriculares, que consistia em passar as tardes a passear, em cafés ou enfiado na casa de jogos! Windsurf, futebol e natação, não haviam!

Ainda fizemos duas jogatanas no parque organizadas por nós, pois de outra maneira não nos safávamos e tínhamos de arranjar maneira de nos entreter! Até que numa conversa casual, apareceu-nos uma oportunidade de ouro!

Dizia o Filipe na brincadeira - Isto para passar o tempo só falta é arranjar uma caça aos gambuzinos! - O Jujú que estava entre o grupo responde - Gambuzinos!? O que é isso? - Estava dado o mote!!! Olhámos uns para os outros com um sorriso malicioso e começamos a explicar-lhe que os gambuzinos eram um bicho muito raro, apreciado em Portugal e que valia muito dinheiro! Só era possível caçar-los à noite com sacos, sendo abundantes por terras de sua majestade e que se escondiam em árvores e sítios escuros. O Jujú, sentiu-se tentado e nós iniciámos os preparativos para a caçada!

A primeira questão que se nos colocou foi o local para pregarmos a partida. Esse problema ficou resolvido quando numa das minhas voltas a pé, à noite a caminho de casa, lembrei-me de fazer um corta-mato e dei por mim, não num jardim mas sim num cemitério! Local para a partida encontrado. Faltava encontrar o dia perfeito e desenvolver o esquema da falcatrua! Andámos a treinar o Jujú para a caça e era ver-lo na praça central aos salto com um saco na mão ia a gritar - Gambuzinos para o saco, gambuzinos para o saco!!! - Como estes treinos não passaram despercebidos aos restantes elementos do grupo, tivemos de os por a par do plano e a pedir juras de silêncio, ao qual todos concordaram mas com o pedido de também estarem presentes quando pregássemos a partida.

Assim foi numa noite que todos os elementos do grupo se enfiaram num autocarro em direcção ao cemitério, excluindo o Hugo e o Jujú que seguiram no autocarro seguinte, o que nos dava tempo de manobra para os preparativos. Eu montei uma vela no cimo de uma árvore previamente escolhida enquanto o Jorge se maquiava para a partida final. Os restantes esconderam-se atrás de campas, o mais perto possível da árvore. Quando o Hugo chegou acompanhado do Jujú, este indagou pelo resto do pessoal e o Zé Miguel indicou-lhe que estavam todos distribuídos por árvores e qual era a árvore que tinha-lhes ficado destinada. O Hugo fez o seu papel e disse para o Jujú - Olhá! Está está recheada! Vês como brilham as luzes!? - O Jujú começou aos saltos à volta da árvore, enquanto o Hugo o incentivava! Eu, o Jorge e o Chang estávamos escondidos atrás de um arbusto a cerca de uns dois metros. O Chang gravava a cena em vídeo e o Jorge preparado pelas minhas indicações para entrar no terreno. Chegara o momento da pièce de résistance! O Jorge saí disparado dos arbustos meio aos trambolhões, com o cabelo desalinhado, os olhos escuros e as roupas sujas e rotas, a gritar por socorro! Caí mesmo em frente ao Jujú e murmura-lhe - Ajuda-me! E começa a espumar ketchup enquanto fingia colapsar! O Jujú feito barata tonta começa a gritar pelo Hugo líder e tentando sair dali, começa a dirigir-se para o meio do cemitério! Mas o Jorge teve um momento de lucidez e agarrou-lhe a perna e disse - Não vás! Não me deixes! - Era ver o Jujú de lágrimas nos olhos a gritar pelo Hugo líder! Foi a apoteose! Saem 30 pessoas dos seus esconderijos a rirem desalmadamente com a situação!!!
Foi das melhores partidas em que participei na minha vida! Só tenho pena de não ter ficado com uma cópia do vídeo do Chang.... Talvez um dia destes dê de caras com esse vídeo no You Tube!

Revejo o meu eu a 125 azul. Foi assim sem mais nem menos, que um dia acordei e fugi, não sei se do que a vida queria de mim, se era mesmo vontade de sonhar ou fúria de acabar. Não liguei muita importância àquilo que queriam de mim e fui palmilhando o meu caminho sentindo desafios que nunca ninguém sentiu. Tem sido necessária muita força para me encontrar mas sei que um dia há-de haver uma hora para a vontade de parar. Curiosamente dou por mim pensando, talvez um dia me encontre, assim talvez me encontre. Fazem falta neste caminho aqueles que amamos mas Deus leva os que ama, só Deus tem os que mais ama.
E foi assim sem mais nem menos que em 1991 entrei no Coliseu, com um bilhete oferecido à última hora para ver o último concerto dos Trovante. Não tinha a verdadeira percepção da sua biografia e do legado musical que iria influenciar-me. Já se passaram mais de quinze anos mas no dia 30 entrarei pelos portões do coração da cidade assobiando
Du-ru du-ru-ru-ru Du-ru-ru-du-ru Du-ru-ru

Scars are souvenirs you never lose
The past is never far
Did you lose yourself somewhere out there
Did you get to be a star
And don't it make you sad to know that life
Is more than who we are

Houve um ano que a Arca se lembrou de concorrer para a realização da decoração do Baile de Gala da Queima das Fitas. O tema proposto foi Conimbriga e a ocupação romana e com a qualidade apresentada acabámos por ganhar o concurso. Todos os alunos participavam na concepção e montagem das peças para a decoração, pois contava para melhoramento das notas. A maioria das peças foram criadas em poliuretano, uma espuma parecida com esferovite mas rígida. Uma fonte, cachos de uvas gigantes, colunas enormes de cinco metros finalizadas com capitel.
Lembro-me da azáfama que foram esses dias! O tempo para criar as peças era pouco e trabalhava-se quase vinte e quatro horas seguidas! Depois veio as montagens e aí sim, foi mesmo complicado. Tivemos de montar uma estrutura de andaimes à volta da sala para poder-se montar as colunas. Lembro que havia colegas meus que dormiam em colchões do ginásio para não perderem tempo a ir a casa! Eu como sempre, perco um pouco a noção da minha incapacidade e era verem-me no topo dos andaimes a colar as colunas, porque a maioria dos meus colegas tinha medo de cair! Francamente eram só cinco metros de altura! Foram dias esgotantes e só acabámos a decoração a três horas de começarem a entrar as pessoas!
Durante o tempo que vivi em Coimbra, nunca fui a um Baile de Gala. Apanhei um enjoo tal com a decoração que nunca lá fui! Acabei por ir uma única vez quando já não era aluno. Foi no ano que nasceu o Gui e a mãe dele, como se encontrava grávida queria ir também mas opus-me pois não era seguro para ela e para o Gui estarem na Queima, fizemos então um acordo, que contemplava deixar-lhe o carro. E assim fui para a Queima.
Não tinha planeado ir ao Baile, mas acabou por se proporcionar e com um fato emprestado por um amigo do Zé Miguel, acabei por ir. Foi a primeira vez que senti-me deslocado em Coimbra! Todos de smoking e vestidos de gala e aqui o enjorcado de fato! Acabei por ficar sentado na mesa com antigos colegas e professores e com a descontracção que o tempo foi instalando, acabou por ser a galhofa total! Comi muito, bebi muito e às tantas os meus colegas apresentaram-me uma rapariga.
Estivemos na conversa uma boas duas horas e comecei a sentir que o intuito dela estava virado para outro lado, que não o da amizade. fui indo na onda até que chegou-se a um ponto da conversa que ela acabou por ser bastante atrevida, de maneira que colocou-me entre a espada e a parede. Saí graciosamente da situação com a desculpa que a minha namorada estava grávida e que prezava muito a fidelidade na nossa relação. Ela sorriu e pareceu satisfeita com o meu esclarecimento. A conversa ainda se prolongou por mais uma meia-hora até que chegou-se perto de mim um colega que pediu para falar comigo em privado. "Olha lá, mas tu não bates bem!? Essa é a filha do reitor e ele está a olhar para vocês!" Olhei de soslaio para o professor Freire disfarçadamente e bem vi a sua cara! Expliquei ao meu colega que não se passava nada, mas que tinha recebido uma proposta bem tentadora! Nesse momento agradeci aos céus por ser comprometido, porque se assim não fosse, até teria aceitado o convite! Não sou é suicida, ao ponto de ter uma aventura com a filha do Reitor!!!

But I can hardly move .... Sensação de imperfeições da vida, luta constante por fugir para longe, para fugir de algo imaterial. Reconduzir o meu presente para aquele que é o meu futuro. Onde se perdeu a sensação de sucesso? Qual o momento que os planos deixaram de fazer sentido? Que é feito do sorriso que deambulava naturalmente? Há a noção exacta do tempo e espaço onde começou a bola de neve de decisões menos próprias. Sente-se a sofridão de ter a noção que é possível reavivar esses momentos, sonhos que se materializão nas horas altas da noite em que luta contra o fechar dos olhos... Falta algo, imperceptível mas que se sente em falta. Aquele empurrão final para recondizir ao meu estado natural, aquela posição que é minha por direito... só que neste momento é a pressão da falta que gere o dia-a-dia. As decisões foram feitas, as cartas estão na mesa, o jogo já vai finalizar-se, esperemos pelas novidades dos próximos dias para saber o resultado final.

Saquei esta do baú de memórias... Tão apropriada aos tempos que passam. Muitos de vós podem não se lembrar, mas na minha juventude bem tentei imitar os trejeitos e penteados do vocalista... Com o título não chegam lá? Ok, ok... Meio brega para os tempos que correm, mas eu sou um saudosista por natureza!!! Johnny Hates Jazz


Another day is ended

And I still cant sleep

Remembering my yesterdays

I begin to weep

If I could have it over

Live my life again

I wouldnt change a single day

I wish that I could turn back the clock

Bring the wheels of time to stop

Back to the days when life was so much better

Lying here in silence

Picture in my hand

Of a boy I still resemble

But I no longer understand

And as the tears run freely

How I realise they were the best years of my life

You might say its just

A case of giving up

No But without these memories where is the love

Where is the love

If I could have it over

Live my life again

I wouldnt change a single day

Why cant I turn back the clock

Bring the wheels of time to a stop

Back to the days

Oh no noI remember when

Life was so good Id go back Id I could

Oh oh I wouldnt change a single day

Dont let the memories slip away

I wouldnt change a single day

Dont let the memories slip away

Aos 15 anos, já jogava à bola mais seriamente e foi assim que conheci o Bruno Evangelista. Apareceu para treinar na posição de guarda-redes e acabou por impressionar, não só pelas qualidades futebolisticas mas para a grande arte que é a música. Animava as nossas viagens tocando uma guitarradas, fazendo com que o tempo passase depressa e fosse recheada de cavaqueira.

Fomos desenvolvendo uma excelente relação de amizade que ainda perdura pelos dias que correm. Com o passar do tempo, fui-me interessado pela guitarra e o Bruno com toda a paciência deste mundo foi-me ensinando como retirar os sons da guitarra. Em troca dessa paciência, eu proporcionava-lhe a bela da mousse de ananás da minha Mammy.

Muitos foram os serões passados na casa da minha mãe, até altas horas a compor músicas. Eu como de voz nada tinha e ainda só arranhava a guitarra, dedicava-me às letras, deixando a composição das melodias a cargo do Bruno. Recordo com gosto esses serões de onde brotaram músicas que o nosso grupode amigos, pedia insistentemente para serem tocadas. À uns anos reencontrei uma amiga desses tempos, e para meu espanto ainda levava na memória letras de músicas nossas!

Esta introdução, tem por finalidade a casualidade da noite de segunda-feira passada. Estava no café e aparecu uma guitarra. À anos perdidos que não toco, mas o bicho continua cá dentro! E Foi assim que me deparei a fazer um serão de guitarradas revesando com um amigo. Quando cheguei a casa, deu-me para fazer algo que à muito não o faço... não é do melhor que fiz, considero-me mesmo muito amador, causa de anos enferrugado, mas deixo aqui para apreciação. Agora vou aventurar-me e tentar encontrar a melodia certa.


Olho cristalino que esconde a alma

Mostra as palavras que não se fala

Embarga o silencio desta sala

E o coração que não acalma


Solta o que tens no fundo

Não quero voltar a crescer

Abriga-me em teu mundo

Sem fugas, sem mentiras, sem sofrer


Mas o mundo é feito para sofrer

De passados que não voltam,

Futuros que abortam

E sonhos que não podem haver


É impossível viver a sonhar

A realidade prende-nos de amarras

Mas sem puder ter as palavras

Apenas deixa-me o teu olhar

Estranho que neste país, os adolescentes não tenham uma noção real do que é a Queima das Fitas em Coimbra. Todo o adolescente procura diversão, impregnada de uma dose de loucura e liberdade. Se existe hora e local onde isso é possível, e que conte com a anuência da população, esse local é a Queima de Coimbra.
Quando por lá passeei os livros, de tudo vi um pouco, era uma semana de fazer arrepiar Woodstock. Excessos na bebida eram mais que muitos, libertinagem em extremos e muitos, mas mesmos muitos episódios caricatos. Imbuído neste espírito, também ia na onda e cometi os meus excessos. Existem memórias claras, outras vagas, sorrisos contidos ao recordar, aventuras amorosas e loucuras.
O álcool tem um efeito caricato, por mais que se tente explicar ao estudante de Coimbra que beber em demasia, não é sinónimo do corpo conseguir boiar, há quem não acredite. Nos longos anos que leva a Queima, quantos não tentaram por em causa essa teoria, quando iam ao rio fazer as suas necessidades? O resultado era sempre o mesmo, mais um morcego ensopado!
Quem diz que levar uma loira para casa é garantia de a encontrar na cama na manhã seguinte, está errado. O susto é grande quando se acorda e encontra-se uma morena de feições bem diferentes! Nada como sair para o pequeno-almoço de surra, deixando um bilhete a agradecer pela noite e recomendações para fechar bem a porta ao sair. Para tudo à solução.
As manhã na Ferreira Borges, têm um ar pitoresco, quando vistas de um ponto de vista sóbrio, com capas e batinas a servirem de cama a muitos. É ver os para-médicos a fazerem as recolhas matinais ao hospital. Pelos cafés, já se cantam Baladas de Coimbra, por entre um copo de vinho, Moscatel ou Favaios. O que interessa é que tenha álcool! O engraçado é como a população acha todos estes excessos salutares e por muitas vezes junta-se aos estudantes.
Das memórias que guardo da Queima, a que mais aprecio é a história da Rotunda. Estávamos em 1996 e por toda a Lisboa se viam bonecos gigantes do Gil, a fazerem propaganda à Expo 98. Acordei tarde e dirigi-me de carro para uma reunião de café com o bando do costume. Na praça da República já havia bastante movimento, comecei a subir para a universidade e qual não é o meu espanto quando ao passar pela rotunda onde se encontra a estátua do Papa João Paulo II, este não estava sozinho. Tinha por companhia um boneco do Gil, decorado com uma capa estudantil e um t-shirt com o seguinte dizer: O Gil também é um dos nosso! Desatei em gargalhada contínua, que quase provocou um acidente, na rotunda!

P.S.: Muito sofre esta estátua do Papa!!!

A vida é uma caixa de surpresas onde de tudo se encontra a cada esquina. Costumo dizer que não me arrependo do que fiz no passado. Mas cada vez mais, o tempo me mostra que estou errado em pensar assim. Começo a clariar as vistas e a ponderar em escolhas tão simples que se tomaram no passado. É irónico como um sim, ou um não podem mudificar uma vida. O irónico é que uma atitude imponderada, sem reflexão leva o tempo a revelar, tal um furacão, o erro de não se ter parado para pensar. Isto não implica que não continue a decidir muitas da minhas opções de vida, no instinto e no intuito.
Talvez a idade, não diria bem a idade, o tempo.. Sim, o tempo é o termo correcto. O tempo, já revelou-me que não ter seguido por um sim em vez de um não, teria sido bem mais proveitoso, bem melhor, mais feliz, mais tudo. Mas orgulho-me do que tenho, ou do que não tenho, porque foi essa a opção e no fundo vivo bem com ela. Será que isso já não é bom? Sim é verdade, que o tempo encarregou-se de mostrar que poderia ter sido melhor. Mas o que há, não é mal e a lição é saber viver com isso, e acima de tudo respeitar.
Respeitar o que a vida nos dá, o que a vida nos tira e as opções que tomamos. Há que saber viver como o que nos circunda, porque aí vamos encontrar a paz de espírito que necessitamos. Não tentem mudar o passado, pois esse já lá vai e o que foi não volta a ser.

If I could wish for something in this moment, I would wish for a white rose kiss

Um mal que advém de ter tido várias operações cirúrgicas, é que as anestesias fazem com que percamos memórias. Ultimamente, graças ao reencontro com velhos amigos, aviva-se a memória em conversas electrónicas. Soltam-se desbravadas gargalhadas ao ler certas conversas.
Ontem recebi este texto, foi rir até virem as lágrimas aos olhos!

"Sim lembro-me perfeitamente do Abade, até uma vez que fez xixi pelas pernas abaixo porque a professora não o deixou ir à casa de banho, e que comia papel quando tinha fome!
Lembro-me quando íamos para a Gulbenkian jogar ao bate pé, com o Luís faria, o Filipe, Filipa Isabel, Joana, Zé....
lembro-me das aulas de ginástica na cidade universitária, e na viagem grande que havia sempre no fim do ano, lembro-me da de Óbidos....tanta coisa"

No dia nove deste mês, proporcionou-se uns quantos reencontros com a inocência da juventude. Reviver brincadeiras e histórias de antigamente. De um tempo que se mostrava longinquamente perdido, onde a inocência do gostar, impera e as nossas escolhas de amizade não eram formadas por motivos alheios aos sentimentos.
Deixamos sempre passar muito tempo, mesmo muito tempo, para rever aqueles de quem realmente gostamos. Aqueles que nos conhecem desde o tempo de meninos traquinas. Daqueles que conviveram connosco no tempo onde não havia receios ou vontade de esconder dos outros quem realmente somos. Onde o cinzento do profissionalismo não existe, onde só há lugar à beleza da amizade pura, que é recheada de risos, e onde a inocência de ser feliz se enche com momentos simples. Assim foi esse dia!
Falo-vos do almoço de convívio dos antigos alunos do académico. Tive a possibilidade de voltar a ser criança como muitos dos meus outros colegas presentes e encher o espaço com risos e alegria contagiante. É víciante poder desfrutar destes encontros onde reavivamos histórias esquecidas no tempo e que eram tão vitais naqueles tempos. As aventuras e desventuras, os namoros, as histórias e as traquinices. Foi muito, muito bom...
Deixo-vos aqui as fotografias, pois como diz o cliche uma imagem vale mais do que mil palavras... E por mais que tente pôr por escrito a alegria vivida nada melhor do que verem pelos vossos próprios olhos.

Há palavras que nos afectam das mais variadas maneiras... Quando estou a preparar uma entrada de corpo e alma numa nova etapa da minha vida, onde obrigo-me a encarar as dificuldades e o desconhecido, que se vislumbram na proximidade do horizonte. Deparo-me com a seguinte frase:
"it´s win or lose not how you play the game. And the road to darkness has a way of always knowing my name... Tomorrow I'll be there my friend. I'll wake up and start all over again, when everybody else is gone"
Do melhor que tenho visto ultimamente

E assim chegamos à votação final! Sem qualquer espanto o trono para pior cromo português vai para....
JOSÉ CASTELO BRANCO que arrasou a concorrência com 49% dos votos! A unanimidade mostra que o seu reinado está para durar! O povo sabe que é nele que podemos confiar o legado dos lusitanos em perpetuar uma imagem triste dos nossos habitantes. Já não há lugar para a postura ao fado, à Amalaia e ao Eusébio!

Numa votação renhida pelo segundo lugar, os votantes levaram em consideração, a sua avasoladora conquista perpectuada no homem comum, dos receios provocados e das aparições nos seus maiores pesadelos, de anos terapia para muitos e até, levando alguns a questionarem as suas preferências sexuais.... Linda Reis! Com 17% dos votos!


O pódium fica completo com a inquestionável presença dessa figura já mítica dos media de baixa densidade. O constante e deprimente excesso de julgamento da vida alheia, conspurcando tudo e todos sem olhar a meios e a fins, terá sido uma das características que pesou na sua votação! O verdadeiro "macho latino" dos tempos modernos... Analfabeto, intolerante e malicioso... Cláudio Ramos com 14% dos votos!

Quando era miúdo, tive a sorte de crescer num local resgardado por um jardim e baloiços, foi onde brinquei ao mata, à apanhada, às escondidas e à bola. Fui criando as minhas primeiras raizes neste lugar, suportadas nas amizades inocentes da infância. Existia nesta praceta uma amizade entre um grupo de rapazotes e de entre os miúdos que viviam naquele lugar, tive sempre uma ligação maior com um rapaz de nome Bruno Reis.

Com ele brinquei, corri, joguei, saí à noite e partilhei emoções. Essa amizade perdura até aos dias que correm, embora não exista um contacto diário, e de algum tempo para cá que não nos vê-mos, a amizade e as memórias das aventuras continuam presentes.
O avô do Bruno possui várias propriedades e entre essa variedade, uns quantos apartamentos em Isla Canela, perto de Ayamonte. Por duas vezes fomos para lá passar o fim-de-ano e em ambas, foram dias repletos de histórias. Da primeira vez, eram quatro malandros! Eu, o Bruno Reis, o Bruno Brito e o meu irmão. Mais tarde, no dia de passagem de ano, juntou-se a nós o Ismael, colega de liceu, do João e do Bruno Brito. Um rapaz de bom fundo, com energia para dar e vender e propenso a criar aventuras do nada! Encontrámo-nos todos no jardim para o dia de partida, eu tinha em mente seguir viagem no meu carro e o Bruno Reis levava o seu Vitara. À hora do arranque deixei-me convencer pelo Bruno Reis que não havia necessidade de levar dois carros e acabámos por fazer a viagem, os quatro, encafuados naquela amostra de jipe!
A viagem foi uma estucha! O poderoso Vitara fazia a estonteante média de noventa quilómetros por hora a gastar vinte litros aos cem! Não houve carteira que aguentasse o rombo e a paciência necessária para tantas horas de viagem! Ao fim de estonteantes seis horas de viagem atingimos o nosso destino. Isla Canela. Fomos para o apartamento que nos estava destinado e deparámos com o holocausto! O apartamento tinha sido alugado uns meses antes e desde então ninguém tinha entrado dentro do mesmo. O estado em que os inquelinos o deixaram, era lastimoso! Móveis partidos, lixo por todo lado e sem qualquer hipótese de alojar quatro adolescentes, com o mínimo de higiéne. Acabámos por convencer o Bruno Reis que não havia condições para permanecer ali e acabámos por nos instalar noutro apartamento.
Os dias passaram-se intercalados por boas sonecas e passeatas na vila. Já as noites eram de pura borga! Foram passando entre idas a Isla Cristina e Monte Gordo, até chegarmos ao dia de trinta e um de Dezembro. Como sempre fui o primeiro a acordar e depois de ir a Ayamonte tomar o pequeno-almoço, voltei ao apartamento ao fim da tarde. Já todos estavam despertos e prontos para mais uma noite de folia. Após os aprumos, a excitação para uma noite em grande, mas no meio disto ninguém se lembrou de reservar um restaurante ou se quer de ir comprar mantimentos para uma refeição digna da noite de fim-de-ano. Já tarde e sem hipótese de apanhar o supermercado aberto, decidimos rumar a Monte Gordo e procurar um restaurante que nos aceitasse. Nada feito! Só aceitavam clientes com reserva prévia ou já se encontravam fechados! Quatro miúdos a morrer de fome e sem saber muito bem o que fazer!

Andámos e revirámos a vila de Monte Gordo até que, cerca das dez e meia da noite, damos de caras com um restaurante indiano que ainda nos aceitava!

Recordo-me plenamente do meu pedido. Queria algo baseado em carne, que não possuísse muito picante, acompanhado de uma garrafa de João Pires. O prato que me foi destinado consistia num bife rodeado com um molho creme onde despontavam pequenos círculos de uma cor vermelha alaranjada. Sendo um restaurante indiano e de comida exótica, não fiz muito caso do aspecto (verdade se diga, que também sou um bom garfo e que não viro a cara a quase nada). Ao fim de duas ou três garfadas, as gotas de suor começaram a transparecer na testa, percorrendo todo o corpo. A garganta ardente, como se o pitéu, de fogo se tratasse. Logo apelei à comparência do empregado, para me explicar o que não tinha compreendido no meu pedido! - Picante, sim muito bom! Picante! - Raios o partam! Eu cheio de fome e a arder por todos os lados sempre que me arriscava a provar mais uma garfada! A garrafa de João Pires levou um rombo, como nunca na vida tal me acontecera!

Findada a risota à minha conta e depois de muitas pragas rogadas ao empregado, fomos direitos ao Irish bar lá da zona, para celebrar a entrada no ano novo. Tudo corria às mil maravilhas e já nem me recordava do episódio do restaurante. Poucos minutos faltavam para a passagem de ano mas ainda tivemos tempo para nos encostarmos no balcão e pedir uma bebida refrescante. Chegada a meia-noite, distribuiu-se abraços e felicitações, com brindes à mistura e desejos de

Fim de Semana da Queima, levanto-me por volta das três da tarde, dormi mal e estava a ficar com os dedos negros. Maldita raiz! Na noite anterior, em pleno parque da queima, bati violentamente com o pé numa raiz! Tomei banho, apertei uma ligadura ao pé e segui para o pequeno-almoço colocado na mesa do quarto. Enquanto tentava esquecer as dores, o Zé levantou-se com uma ressaca maior que o mundo, tinha a cabeça a explodir! Esteve uns bons trinta minutos na banheira! Lá arranjou-se e seguimos para o café, onde nos encontramos com os amigos do Zé.
Estivemos no café uma hora, forrando o estômago com uns tremoços e umas cervejas, de maneira ajudar-me a desligar das dores no pé. Durante o convívio falou-se dos planos dessa noite. Ir ao Baile da Queima das Fitas e mais tarde seguir para o Parque. Estavam a contar com a nossa presença mas eu não tinha levado smoking, nem fato, fui para lá pelas borgas, não contava ventir fatos!

Quando fiz dezanove anos tirei a carta de condução e no verão preparava-me para fazer mais uma mini-volta pela europa, com o meu pai e o meu irmão. Desde miúdo que me recordo de fazer este género de viagens. Por hábito, o meu pai conduzia ao som dos afamados Paco Bandeira, José Cid, Júlio Iglesias e companhia, cantarolando as canções. Acredito que era a Era a paga pela viagem Para nós, o tempo que estávamos no carro era passado a dormir ou a apreciar a paisagem.
Fui sair na noite anterior, antes da partida e a rambóia foi tal, que acabei por chegar a casa às sete da manhã. Não cheguei a deitar-me e fui logo tomar um banho para estar pronto para a viagem. Fui o primeiro a despachar-me e aproveitei para ir tomar o pequeno almoço a um café, enquanto o meu pai e o meu irmão se arranjavam. Ao voltar já eles colocavam as malas no porta-bagagens do BMW e eu naturalmente fiz o papel que me competia. Abri a porta e sentei-me no banco do lado, rebaixei-o de maneira a preparar-me para a minha merecida sesta. Prontos para o arranque, o meu pai bate no vidro. Eu baixei o vidro e perguntei-lhe: - O que foi? - Durante anos tive de fazer de vosso motorista, agora já tens carta e eu estou velho! É a tua vez de levares o carro! - Disse-me ele ao abrir a porta. Que sina a minha! Arrancou-me do meu lugar e lá tive eu de conduzir com uma directa em cima!
O primeiro destino era Madrid, seiscentos quilómetros e antes de chegar à primeira centena percorrida já tinha como companhia roncos e ressonares. Ia sozinho, cheio de sono e sem

ARTE & EVENTOS

A capital foi invadida por “vacas”, não que já não estivesse bem preenchida por umas quantas mal disfarçadas pela cidade, mas desta vez a exibição deste animal tinha o intuito de angariar fundos para instituições de caridade e as vacas sempre foram dando outra cor e ânimo à cidade.

Em Lisboa nasceu um complexo de luxo. Agora não é necessário contar trocos para a gasosa e fazer-se à marginal para jogar à batota. Os alfacinhas já se podem deslocar de metro com direcção à Expo para esbanjar os euros, nas promessas da sorte.

Mais uma vez Lisboa, teve o privilégio de assi
stir a um Rock in Rio, desta vez com uma presença para mim relevante, os Guns ‘N Roses. Tinha curiosidade de ver como se comportaria Axel. A verdade é que a voz e a dinâmica continuam lá e foi do melhor que se assistiu. Em 2008 há mais!

Palhaçada, das palhaçadas, foi a teimosia inexplicável do governo, com a Colecção Berardo. Esteve para ir de armas e bagagens para a terra da “
La Marseillaise”. A única imposição de Berardo? Que a colecção ficasse patente num espaço relevante cedido pelo estado! Com o poder negocial que lhe é reconhecido, Joe Berardo, sob contornar a ignorância dos nossos políticos e para nosso agrado, podemos visitar uma das maiores colecções de arte contemporânea no CCB.

DESPORTO
No desporto, foi um ano repleto de adeus aos idolos. Na minha prespectiva, uns mais sentidos do que outros. O futebol despediu-se de Zidane, um maestro da arte de tratar a bola por tu, mal amado entre muitos de nós, quis dar razão aos tugas ao despedir-se com uma reacção menos própria de uma figura mediática, na final do campeonato do mundo, vencida pela Itália. No automobilismo terminou uma era de domínio Ferrari, com a conclusão da carreira de Michael Shumacher, por muitos tido como o maior de sempre. Não que seja esta a minha opinião, mas não posso deixar de relevar o seu contribuito para a categoria. Um adeus precoce, deu-nos Ian Torpe. O “Torpedo” tem um currículo recheado de numerosos prémios internacionais e recordes mundiais onde se salienta 5 medalhas Olímpicas. Aos 24 anos fartou-se da pressão e com uma conta bancária recheada, virou costas à modalidade.
Desde miúdo lembro-me do Kid de Las Vegas, um senhor que sempre soube estar na ribalta. Foi com uma certa mágoa, que assisti à brilhante ovação prestada na sua despedida ao tenis. Para trás ficam 60 vitórias, entre elas oito títulos do Grand Slam.

Mas o mais relevante no desporto estava guardado para o fim do verão, com o caso Mateus a fazer manchete nos jornais nacionais e internacionais. Portugal no seu melhor! Foi por uma nesga que o campeonato não foi suspenso, bem como a participação nas competições europeias. Na minha opinião o Gil Vicente, bode expiatório desta história, só é culpado por aproveitar-se do amadorismo dos dirigentes que só vêem os cifrões. 2007 guarda-nos mais um circo com o Apito Dourado. Será desta que há culpados?

CURIOSIDADES
O sistema solar ficou mais curto. Da primeira vez que uma sonda chega a Plutão, este foi desqualificado. Não por doping ou por batota, mas porque não preenche os requisitos e é diferente dos outros planetas. Racismo, digo eu! Os pequenitos também tem direito a ser alguém.

O senhor Microsoft esteve por terras lusas e não faltou quem lhe fosse lamber as botas em busca dos dolares. Houve direito a condecorações e todas as mordomias. Sempre gostava de saber onde vão parar os fundos do plano tecnológico, para a tal formação de um milhão de portugueses, quando a maioria dos portugueses mal sabe funcionar com um computador!

O que mais gostei na política, do Zé Tuga, este ano, foi a história da CIA. Aqueles secretos Americanos, pelos vistos fizeram do nosso país, posto de abastecimento mas ninguém sabia! Explicando melhor, enquanto foi ministro dos negócios estrangeiros, Freitas do Amaral, de nada sabia. A partir do momento que correram com ele do poder, avivou-se-lhe a memória e escreveu uma cartita para o Parlamento Europeu a confirmar os voos da CIA! Depois querem que o povo acredite nestes trolhas!

Para finalizar, nada melhor que a implementação das novas normas antitabagicas. É proibido fumar em locais públicos, como os hospitais. Não me assustei com a medida porque estamos a falar de Portugal e não de outro país educado. Para quem já presenciou, indivíduos a fumarem uns cigarritos para rir nas enfermarias dos hospitais de Lisboa, com a maior das conivências dos enfermeiros, querem-me fazer crer que estas normas vão pegar?

Só para rir! Para ano há mais!

Há alturas em que reflectimos sobre o que foi e no que se fez. É chegada a altura de fazer um balanço deste último ano e olhando para trás, chego à conclusão que foi intenso, repleto de alto e baixos. Em todos os sentidos e sentimentos. Foi um ano exemplar, reflexo do que sou e de como encaro a vida.
Há erros que insisto em cometer e pergunto-me porque tanta teimosia? É de feitio ou de carácter? Não chego a uma conclusão que me satisfaça sobre este assunto. Tenho a noção que a estrada ainda vai mostrar-me muitas curvas perigosas para serem palmilhadas, que eu poderia abordar em modo cruzeiro. Mas afinal, seria eu, se não fossem feitas a duzentos à hora? Talvez...
O ano começou numa nova casa, cheia de sonhos de felicidade eterna. A esperança nos píncaros, depressa deu lugar à tristeza, alento trazido pela traição de quem menos se espera. Que cópia tão vulgar de um passado longínquo. Bati no fundo, desesperei e esperei. Olhei para cima, ergui-me e desta vez o erro, fez-me ir à luta, endireitar prioridades. Quando comecei a edificar o futuro, apareceu o azar. Parti um pé, da maneira mais ridícula possível! Para ironia, das ironias, foi o pé que já não era muito católico! Tinha de ser, se não, não seria eu! Numa sucessão de acontecimentos, atestada de azar, vivi de tudo um pouco do que há de pior na vida. Voltei a duvidar, a desesperar, cheguei ao ponto de pensar se seria desta. A vida reviveu o fim da adolescência ao mostrar, quem realmente me quer bem. Foi por eles, valeu por eles.
Mas depois da tempestade, vem sempre a bonança, chegou o calor e com ele voltou o ânimo, o futuro sorriu. Nova oportunidade, a não desperdiçar! A vida começou-se a compor de cores alegres e vivas. Novo emprego, nova casa, nova vida, novos amigos. Tudo feito à medida do sonho perfeito. Talvez não perfeito, mas para lá caminha. Com o frio, as prioridades deram lugar à obra e já se concluíram as primeiras fundições.
Que fiz de errado este ano? Confiei cegamente, mais uma vez, em quem não merecia. Optei por decisões precipitadas. O que fiz de bem este ano? Muito! Voltei a acreditar em mim, comecei a criar património, recuperei amizades, recuperei alguma família e tentei, ainda tento, reparar erros do passado.
É caso para dizer comecei em baixo, acabei em alta! Mais um exemplo cabal do que é a minha vida. O que peço para 2007? Que continue a acreditar, a ter forças para lutar pelo meu lugar ao sol e acima de tudo a sonhar. Porque à que acreditar que o melhor ainda está para vir.

Os meus primeiros anos de liceu foram percorridos no Colégio Académico. Na altura não dei conta, mas os estudos não requeriam muita atenção, para conseguir notas apreciáveis. Por isso mesmo, fiz o meu percurso até ao nono ano do liceu, com notas agradáveis dispondo sempre de tempo, para as amizades, o futebol e os namoricos. Ao concluir os exames globais, queria enveredar pela área das artes, área que não se encontrava disponível no colégio. Para ajudar à novela, fui “convidado” a sair. O lado negativo da arte de bem desenhar é que o nosso traço é inconfundível e devido a esse meu dote para o desenho, não foi difícil à direcção do colégio perceber, quem era o artista que tinha exposto uma exibição, nas paredes da sala de ping-pong, de carácter pornográfico!
Para bem da minha integridade física, a minha mãe achou por bem não comunicar ao meu pai, o convite que me foi endereçado pela direcção do colégio. Abordando o tema da necessidade de mudança de escola, sobre o pretexto de não haver àrea de desenho no colégio. O meu pai, deliciou-se com a possibilidade de eu poder ingressar no Colégio Valsassina, local onde ele tinha feito todo o seu percurso académico. Puxou de alguns conhecimentos e tanto eu como o meu irmão ingressámos no Valsassina.
Não posso dizer que tenha sido um local onde me sentisse bem ou do qual tenha boas memórias. Como em tudo na vida, o mais selecto esconde sempre muita podridão. Meninos bem, com código de vestimenta e atitudes, que se sobrepunham a toda e qualquer qualidade ou virtude. Círculos restritos onde o ser popular era sinónimo de possuir um nome de família nobre ou um progenitor abastado. No meio deste ambiente de cortar à faca, onde era julgado constantemente, há que salientar a existência de alguns irreverentes que se desmarcavam do círculo.
E o que trago de positivo, por esse tempo, foram as amizades criadas. Os excluídos do círculo ou que se desmarcavam dele, produziram laços de amizade. Amizades sinceras e puras. Estes desalinhados eram olhados com desdém e inveja pelos membros do círculo. Sentimento causado por sermos irreverentes, revoltar-nos contra as normas impostas e que acreditavámos estarem erradas.
No seio dos desalinhados, começei uma união com outras três individualidades:
Brito, rapaz que na infância era o gordo com o qual todos faziam troça. Na adolescência emagreceu e revoltou-se contra o passado. Adoptou uma imagem e postura controversa. Fã incondicional da era dos anos 50 americanos, apresentava-se como se pertence-se a essa época. De barba cerrada, nariz pronunciado, olhos vivos e sorriso nervoso. A vestimenta era uma mistura de James Dean com motard chopper. Casaco de napa a imitar cabedal, brinco na orelha, t-shirt branca, calças de ganga, botas à cowboy e os mais variados acessórios com simbolismo americano. No seu todo aquela postura acabava por fazer sentido e tornou-se a sua imagem de marca.
Luis Nuno, iludia a sua insegurança com uma máscara de confiança, assumia uma imagem mais conservadora, mais condizente com a conduta requerida pelo círculo, consequência própria de quem tem medo de cometer um erro social. Estes receios provinham de uma infância carente de apoio maternal. Desde tenra idade, o seu mundo particular, apresentou-se solitário. Era o único adolescente que conhecia naquela altura, que almoçava e jantava sozinho em restaurantes. Estas vicitudes da infância apuraram o seu sentido de critica e sarcásmo.
E como um grupo nunca está completo sem a sua mascote, foi incluída uma quarta personagem. O Ivo.
Era o único que não estudava no Valsassina. Apareceu no grupo através do Luís Nuno, era filho de uma amiga de infância da mãe. Veio um dia almoçar connosco e acabou por ficar. A sua aparência dizia tudo e ao mesmo tempo nada. Com quase dois metros de estatura, escanzelado até ao osso e com ar de rato de biblioteca, aparentava uma insegurança irrealista. Reservado e inteligente, soltou-se e começou a ver o mundo com outros olhos. Era o alvo predilecto das brincadeira e ao mesmo tempo o nosso protegido.
Foi assim que nasceram os quatro magníficos. Um grupo de miúdos de personalidades distintas que foram à descoberta do mundo. Do bom e do mau, viveram todas as experiências da juventude sempre unidos, sempre presentes. Estavam a toda a hora disponíveis para uma nova aventura, onde estava um, estavam os outros três. Fizeram o possível e quando já tinham feito tudo, fizeram o impossível. Foram as personagem de uma novela que durou vários anos, mas acima de tudo, o que sobressaía era a amizade que os unia.

Não sou da Terra, sou do mundo. Sou estranho, e gosto de ser assim. Divago sobre assuntos banais e peculiares. Prevejo atitudes futuras e sei falar com as estrelas. Sou esquisito, inventivo e estratégico. Não perco tempo a pensar sobre o que acham de mim e não quero descobrir. Adoro o excêntrico e o poder da imaginação. Alicia-me estar num café a dissertar sobre banalidades.

A arte e a história fascinam-me. Salvador Dali, Gustav Klimt, Andy Warhol e Le Croubusier. Na música encontro a minha alma e no futebol do Benfica encontro a paixão. A velocidade dos automóveis e a pacatez das vilas deste país, cativa a minha noção de tempo.

Adoro conhecer novas pessoas. Posso aprender algo e passar a outros as minhas teorias. Todo o indíviduo tem algo novo para oferecer. Detesto a ignorância e também a invejo. Não sou de inimizades mas não tolero traições. Sou radical e boémio, mas consigo rever-me na ponderação e no clássico. Sou despistado com o corriqueiro do dia-a-dia e diligente com questões do ser.

Intriga-me o romance e relevo a amizade. Sou fiel e convicto nas relações. Necessito de espaço mas sinto-me bem na multidão. Perco-me no espaço mas saliento-me no indivíduo.

Esta é a minha essência e orgulho-me de ser único...

Nos últimos fins-de-semana andei a pôr a conversa em dia, com um amigo e colega de adolescência. Com a nostalgia sempre presente fomos revivendo o passado, as aventuras e as grandes emoções que elas nos provocaram. As histórias já saem algo foscas, pormenores faltam, mas o sorriso nas nossas caras, ao recriar esses momentos, é impagável.

O local destes nossos encontros é no Botas, restaurante que este meu amigo possui em Ranholas. Apareci a primeira vez, durante uma tarde e acabei por ficar para jantar, chegando a permanecer até a hora de fecho. Passamos o tempo recatados a uma mesa, deliciando com os petiscos e regando os copos com bons vinhos. A conversa flui naturalmente entre duas pessoas que viveram as aventuras dos quatro magníficos. Enquanto vamos avivando mutuamente a memória relembrando episódios caricatos que nos fazem rir, falamos também, sobre outros que passaram pelas nossas vidas, como estão e o que fazem. A esposa deste meu amigo junta-se a nós quando o movimento da casa o permite e vai ouvindo todas as embrulhadas e desventuras da nossa sobrevivência à adolescência.

A conversa parece nunca ter fim, o que faz com que acabe sempre por voltar no fim-de-semana seguinte, para retomar o diálogo, como se nunca o tivessemos parado. Como se pode condensar no tempo de uma conversa, as várias histórias que temos no nosso livro de memórias? Tem sido um vício, ou melhor, um gozo. É de salutar poder reviver, em companhia, estas lembranças e estas aventuras. Poder recordar o tempo em que a vida nos permitia sermos livres, jovens e despreocupados com o amanhã. Memórias que parecem tão distantes, tão longe de onde nos encontramos mas que por estes dias parecem ter acontecido ontem. O tempo passou, os miúdos tornaram-se graúdos mas as histórias estão vivas na memória para perdurarem até onde o tempo as permita.

I know i’m going to die so my reveange is living well...

Para quem não sabe, sempre tive uma paixão enorme pela música. Desde miúdo que tento cantarolar, não que seja um Frankie mas gosto de cantar, mesmo tendo a noção que não o faça da melhor maneira. Com os anos tenho melhorado mas sei que a minha voz também não dá para sair do mediano e para entoar com a mínima perfeição conta-se pela palma da mão o número de músicas.
Nas longas viagens de carro feitas no verão durante a infância e adolescência, acompanhava o meu pai nas músicas da k7, o resultado? Mandavam-me calar! Quando das festas lá em casa com o Zé Lúcio, ou mesmo os encontros de fim-de-semana passados no Brasil. Lá vinha eu de mansinho e entrava no coro improvisado! O resultado? Mandavam-me calar! Na adolescência entrei para uma banda, tocava guitarra de acompanhamento e aos poucos, sem qualquer indicação dos meus colegas, comecei a fazer segundas vozes. Resultado? Madavam-me calar!
Até que um dia as nuvens dissiparam-se e fiz uma grande descoberta! O karaoke! Por piada e com um certo nervosismo à mistura comecei a frequentar bares de karaoke’s. Tinha a noção de não ser o melhor mas como via bem pior do que eu, lá ia cantando as minhas musiquitas pleno de orgulho! O apogeu chegou, quando tive o meu próprio bar. Às quintas fazia noite de karaoke e criei amizade com a pessoa que fazia o espectáculo. Seguia-o para todo o sitio, onde ele fosse actuar e como àgua mole em pedra dura tanto bate até que fura! Comecei a entender como entoar certas músicas e como colocar a voz em certos trechos. Na plenitude da aventura e da incosciência do ridículo, cheguei a fazer um quarto lugar num concurso! Nada mal para quem era mandado calar! Mas o melhor ainda estava para vir!
Desde que abriu o bar cá na vila, a minha presença naquele local é diária. É onde muitas das vezes vou almoçar e onde bebo o cafezito de fim de tarde. Onde bebo a imperial a seguir ao jantar e onde convivo com os meus amigos da vila. O bar possui noites temáticas, uma das quais por qual anseio é a do torneio de pes. Ainda em estado embriatório mas que já conta com acérrimos candidatos. Às sextas-feiras é noite de dj, ao domingo temos de vez enquando stand-up comedy e sábado é a noite das estrelas! Karaoke!
Ora ao princípio, não estando ambientado ao meio, foi um bocado complicado atirar-me para um palco, sozinho e pouco à vontade. Mesmo assim ganhei coragem depois de ver um certo número de participantes, fiz-me à maré e cantei a primeira música! Muita gente veio-me dar os parabéns, incluíndo o rapaz que estava a fazer o karaoke. Desde o primeiro sábado, em que cantei a primeira música, as pessoas abordam-me assim que entro no bar, a perguntar que música vou cantar nessa noite. Acho piada, porque embora continue a ter a noção de que não sou nenhum rouxinol, bem longe disso, as pessoas esperam que eu vá cantar! O meu grande problema neste momento, é que o repertório está a acabar e vou ter que começar a treinar outras músicas para não desapontar ninguém, na hora de actuar!

Que dias, belos dias, vividos nas emoções que bramam no fundo do eu. Sentido de despertar, do realizar dos sonhos. De ver real o que muito sentia-se em falta. Que gozo que é vislumbrar o sorriso que de manhã se apresenta no espelho, andava desaparecido há muito, chegou-se a achar perdido. Os degraus que andavam soltos, já fazem uma escada. Ainda não se chega ao topo mas já se pode subir ao próximo patamar.
Como parecem longe as incertezas de tempos recentes. Dúvida-se da sua existência quando se olha à volta mas as marcas da alma e do corpo, provam que foram factuais, presentes de uma realidade que não voltará a existir. Que bom que são essas marcas do tempo. Empregam satisfação no que tanto custou a construir de raiz.
Já se desenvolvem as ferramentas para as novas conquistas. Há novas metas, outras batalhas para gladiar. Vem aí a maior de todas. Aquela onde vou clamar por todas as forças do universo para que arduamente possa pelejar pela verdade e pelo que é correcto. A sensação de que desta vez não haverá espaço para desilusões, alia-se à fortuna do querer. Ela incita-me a corrigir o maior dos meus pecados passados, orgulho estúpido e banal que só a outro lesou. Está para breve o próximo degrau. Isso prometo-te.
Espera por mim à janela, eu estou a chegar!

Ora já está! Oficializou-se mais um Bucelense. Com toda a pompa e circustância, o príncipe foi recepcionado pelos habitantes. Já se encontra imiscuído no meio da população, criou amizades e já é reconhecido quando passeia pela vila. As pessoas na sua amistosidade, vão soltando cumprimentos e jogando conversa sobre os sítios a frequentar, as virtudes e desvirtudes da vila. Esta pacatez do campo inspira o príncipe, eleva-lhe a alma e dá-lhe uma sensação de concretização e bem-estar.
O seu Chateau encontra-se no coração da povoação, com vistas frontais para a serra, onde na sacada respira-se o cheiro do orvalho pela madrugada. O Salão, banhado pelo sol matinal reflectido nas paredes, apresenta uma cromática de cores que espera ansiosamente pelas recepções e jantaradas que o tempo lhe apresenta. O quarto incubído no resguardo da privacidade apresenta cores alegres e intimistas que num redomar de acolhimento aconchegador, convida-nos a disfrutar do seu espaço. O Spot perfeito para uma vida perfeita.
O Chateau é hoje inaugurado, o príncipe encontra-se orgulhoso. Cheio que nem um sapo, recorda o caminho para aqui chegar. Longo, tortuoso, mas com um final saboroso, como quando encontramos aquela cereja no fim do bolo, de que não estamos à espera! Está aí para quem o quiser vislumbrar! Venham a Bucelas encontrar a rota dos vinhos, o calor e a simplicidade das pessoas, os cheiros do campo e do verde, o Chateau du Prince de Bucelas, onde serão sempre acolhidos aqueles que queiram disfrutar de bons momento de convívio!

Convergi em vários sentimentos este sábado. Tinha-me mentalizado para o que me iria deparar mas nunca se está realmente preparado. Quando cheguei à igreja fui conversar com a minha Querida. Embora não pratique qualquer religião, é nesta igreja que consigo manter um diálogo com a minha avó. Talvez por todo o simbolismo que este sítio teve na vida dos Moser. Foi aqui que presenciámos os batizados, os casamentos e onde velámos os nossos.
Quando me despedi da minha querida, sentei-me para o início da cerimónia. Ocupei um lugar mais resguardado, equivalente à minha ligação ao seio desta família. Fui revendo os rostos à muito longe do meu dia-a-dia, ao mesmo tempo que olhava com orgulho para o Pemy. Uma opção de vida, um querer e firmeza para levar por diante essa mesma opção. Senti-me orgulhoso ao mesmo tempo que mentalmente ia vislumbrando filmes de tempos idos. Tempos de rara felicidade e beleza, momentos onde as intempéries não existiam. Ao acordar para a realidade, olhei com carinho para as minhas primas e tive consciência de como o tempo voa. Estando ali naquele momento, começava a fazer sentido de manhã ter ficado espantado ao olhar para o meu cabelo, onde já são bem visíveis uns quantos cabelos brancos.
No fim da cerimónia, segui sozinho para o copo d'àgua, onde estive à conversa com a madrinha Margarida. Por ela é que o tempo não passa, nem deixa marcas. Gostei muito de a rever. É extraordinaria a sua sensatez e postura. Depois dos aperitivos, regados com Martini, fiquei colocado na mesa da duvideo. E a entrada dos noivos, foi feita ao som do Star War's. Indicada para o meu primo. O jantar correu bastante bem e estive sempre na conversa com os meus companheiros de mesa. Já de barriga cheia fiquei tentado a atacar a mesa de queijos e assim o fiz. Quando se começou a ouvir os primeiros sons do dj, fui sentar-me mais à frente.
Estive o tempo todo, perto da mesa das bebidas, junto a um pequeno grupo de amigos. Uns recentes outros de longa data, sempre em amena cavaqueira. Fomos os últimos resistentes a abandonar a festa e enquanto seguia o caminho para casa, enchi-me de pensamentos. quando tinha a idade deles optei pelos caminhos mais sinuosos. A vida dá muitas voltas e hoje estabilizaste. Agora é o tempo deles, esta-se a apróximar a altura dos grandes desafios da vida, das grandes decisões e sinto confiança neles. Sei que tudo irá correr pelo melhor.
E assim chegamos à conclusão de mais uma etapa da vida.






















Este fim-de-semana estive na festa do Vinho e das Vindimas. A festa tradicional de Bucelas. Nunca tinha ouvido falar de tal festa e estava curioso em saber como se processava. Durante a semana, fui sabendo mais pormenores, através dos meus conhecidos do núcleo sportingista de Bucelas. Sim do sporting! Ouviram bem! É uma águia na toca do leão! Querem o que? Não existe mais nada por aqui, onde se possa estar à noite! O Luís lá me foi explicando como se iria processar a festa, enquanto o Vasco me dizia o melhor sítio para ver o cortejo.

A praça central de Bucelas é contemplada, com um palco, uma zona de dança, outra de comes e bebes, uma banca de rifas, um espaço da padaria, com pão a sair na hora e uma outra em representação da junta. Ao longo da estrada podemos encontrar barraquinhas com artesanato local. O habitual nestas romarias mas o que realmente diferencia esta festa, das outras vilas, é o cortejo. Este é no domingo à tarde e apresenta vários carros alegóricos com as variadas fazes da criação do vinho.

Sexta-feira, saí do trabalho eram umas sete da tarde e fui directo para a praça, a festa já tinha começado e queria vislumbrar o que se passava. Misturei-me com a multidão que já preenchia a praça. Percorri todos os espaços e bancas. Na banca dos vinhos, para meu espanto, as Caves Velhas, só estavam representadas com o vinho branco de Bucelas. Depois fui à barraca da padaria exprimentar um pão com chouriço, feito em forno de lenha. De bramar aos céus! Percorri a zona do artesanato e segui caminho para o núcleo para ver o jogo do Beira-mar contra o Braga. Ainda o jogo não tinha terminado e já estava a ser aliciado para uma jogatana de snooker, com uns miúdos cá da terra. Depois de levarem três séries a seco, deram por finalizado o jogo! Este também era o dia da abertura do bar laranjinha que fica mesmo por baixo do núcleo e aproveitei para ir dar uma vista de olhos ao espaço. Depois do que vi, não ponho muita fé na longividade do bar. Os donos são simpáticos mas sem qualquer experiência e durante a hora que lá permaneci, vi de tudo um pouco. Bebedeiras, rixas e caloteiros a sairem sem pagar a despesa. Tenho pena, porque o espaço se fosse bem aproveitado, teria condições excelentes. Comecei a ouvir a música do bailarico e decidi, rumar para lá.

Encontrei o Luis perto dos comes e bebes, a dar o seu passo de dança. Convidou-me para juntar-me ao grupo e bem regado como já estava, aceitei o convite. O tempo foi passando com muitas rodadas de cerveja, coscuvelhices sobre as miúdas presentes. Aquela era isto e aquilo, a outra namorava com este mas já tinha estado com fulano e cicrano.... Eu no meio da conversa, sem conhecimento de causa lá ia dando o meu parecer sobre as belezas! Com a brincadeira já eram três da manhã e cheio de cerveja até à cabeça, foi com um enorme esforço que consegui despedir-me e conseguir ir embora para casa.

Sábado de manhã, pelas dez e meia, já estava de pé e fui para a vila, tomar o pequeno-almoço. Como é meu hábito, fui comprar o jornal e segui para o café. Bebi dois leites com chocolate, para ajudar a limpar o organismo e duas merendas para forrar o estômago. Depois de pôr a leitura em dia e ter feito as palavras-cruzadas, dirigi-me para a praça. Estava na hora de almoço e a barriga continuava a pedir atenção. Fiz a asneira de pedir uma fritada! Tanta gordura meu Deus! Tive de voltar a regar o estômago. Nesta vila quando se começa a beber, aparece sempre alguém para fazer companhia! O mais dificil é ir recusando mas tentei preservar-me, porque não ia ficar para a festa dessa noite, tinha outra mais siginificativa que obrigava-me a pegar no carro. Tinha de ir a Lisboa para a festa de despedida de solteiro do meu primo! Mesmo assim foi um martírio conseguir-me safar às solicitações.

Cheguei ao restaurante eram oito e meia. Não vi viva alma e indaguei o empregado sobre se seria mesmo ali o jantar da festa. tinha a ideia que era esta a hora combinada mas estava errado. A mesa estava marcada para as nove e meia. Fiquei a bebericar umas caipiroscas acompanhadas por mini-chamuças enquanto ia vislumbrando o jogo do Porto. Os primeiros a chegar foram o padrinho do noivo e um amigo. O meu primo chegou para lá da hora combinada.

O Pedro, recusou-se logo a beber, com a desculpa que não apreciava a sangria, nem as caipirinhas. Manteve-se na coca-cola mas comentou que a sua bebida predilecta é o whisky Jameson. Quando se aproximava o final do jantar, o noivo, continuava sóbrio e Eu, O Miguel e o Tiago, combinámos de pedir um Jameson para o Pedro e que o Miguel faria um discurso, obrigando-o a beber aquando do brinde! A brincadeira pegou, e o miúdo deve ter bebido uns bons quatro baldes de whisky de penalti! Tal foi a onda de discursos!

O Pedro que ao início da noite se tinha mostrado relutante a uma ida a casa de strip, como é usual neste momentos! À saída já nem sabia bem o que queria e lá o conseguimos colocar dentro do moquinhas com rumo ao strip. Pelo caminho tive de parar o carro. O Pedro precisava de vomitar e só o parou de fazer à porta da casa de strip. Ainda fui pedir umas garrafas de àgua com gás para tentar recompor-lo mas o rapaz não se aguentava em pé e só pedia para o levarem a casa! Como só tinhamos levado dois carros. Fiquei sozinho enquanto os restantes levaram o Pedro para casa. Como àquela hora já não iria a tempo de voltar para a festa em Bucelas, acabei por entrar e beber mais um copo antes de ir para casa.

Domingo, fui para a praça era meio-dia e dei de encontro com a Paula, minha colega na empresa e que estava de serviço na Enoteca. Tinha vindo cedo de mais e andava a conhecer a vila. Fomos comprar jornais. Eu, o correio da manhã, ela o público e sentámos na praça a ler-los. Pedimos uma sopa para cada um para servir de almoço. Ficámos por lá a ouvir a banda e a fazer tempo para a enoteca abrir. Estava a contar com uma prova de vinhos antes de ir ver o cortejo!

Às duas horas seguimos o percurso a pé até à Enoteca. Pelo caminho ia cumprimentando as pessoas e a Paula ia comentando como eu já estava integrado na vila. Levei logo um balde de àgua fria quando chegámos ao nosso destino. Estava lá a Dr. Maria José, não ia haver provas de vinho para ninguém! Os planos estavam desfeitos e decidi ficar por ali a ajudar e ainda aproveitei para fazer uma visita às caves, que não conhecia.

O cortejo é giro de se ver. É diferente dos cortejos que já vislumbrei. Os participantes trajados com vestes antigas, vão em cima de carros puxados a tractores, retratando cada fase da produção do vinho. Outros seguem atrás dos carros cantando, cantigas de outros tempo. Mas o meu maior espanto foi ver que no final do cortejo, as pessoas que participam sentam-se no chão ao longo das ruas, a merendar. A invocar os tempos antigos em que as pessoas se juntavam todas a seguir à vindima. Quem está presente a assistir ao costejo é convidado a juntar-se à festa, sentando-se no chão a comer sardinhas, uvas e pão e a beber vinho tirado da pipa! Muito giro e muito penoso para o estômago! Juntei-me ao senhor Júlio, perto do carro que trazia a pipa, em amena cavaqueira, sempre de copo cheio!

Quando terminou a merenda, desloquei-me para o café da praça onde me aguardava o Luis. Tinha-lhe prometido que passava por lá para provar a ginginha e comer um pão com torresmo. E foi então que fiz a maior descoberta do fim-de-semana! Então não é que os cafés oferecem àgua-pé à discrição durante o fim-de-semana!? Podiam ter-me avisado com antecedência! Escusava de ter gasto dinheiro em bebida! Bem, fiquei por ali abancado a beber a minha àgua-pé até à hora do jogo do sporting. Ainda me aguardava um lanche ajantarado no núcleo!

Cheguei ao núcleo pelas oito da noite, levei uma garrafa do nosso Bucelas para juntar à festa. Fiquei a ver o jogo do Sporting à conversa com o Bicho, um dos dirigentes do núcleo. Ele ainda ofereceu-me uma cerveja, mas já não conseguia beber mais nada! Não cheguei a participar do lanche ajantarado. Ganhei tino e achei que tinha chegado a hora de rumar à cama e fiz-me a casa! Afinal hoje é dia de trabalho!

O Rali Rainha Santa disputa-se todos os anos no fim-de-semana mais perto do dia da celebração do falecimento da Rainha Santa Isabel. Dia oito de Julho. Antigamente estava incluído no calendário nacional de ralis mas com o vinte cinco de Abril deixou de ser disputado sendo retomado nos anos oitenta, como rali de segunda categoria. Foram convidados os antigos concorrente a participar e entre eles o meu pai, por isso desde novo que acompanhava o meu pai nesse fim-de-semana. Com o passar do tempo o rali foi aberto a novos concorrentes e um dos sonhos que o meu pai sempre quis realizar, era o de conseguir juntar toda a familia como concorrentes. Ele, eu e o meu irmão.
Em noventa e cinco o meu irmão tinha acabado de tirar a carta e eu tinha saído do hospital em Abril. Foi-me dada alta com a perna esquerda engessada, com previsão de um ano até ser removido. Na minha mente, só ponderava participar no rali desse ano como co-piloto do João ou do meu pai, e mesmo assim só o faria para agrado do meu pai. Na cabeça do meu pai, ele achava que era bom eu participar, mesmo que não forçasse o andamento, o que importava era participar. Fui-me recusando a pilotar no rali. Não estava em condições fisicas para conduzir depressa e tinha medo de poder prejudicar-me. Acabei por ceder às pretensões do meu pai e deixei-o inscrever-me.
Durante um mês o meu pai, não falava de outra coisa. todas as conversas desembocavam no rali e como pela primeira vez ia participar o "clã" Manique. Para não dar mais ideias ao meu pai, eu recusei-me a levar o Crx. Participava sim, mas com o Corsa. Assim não lhe dava uma desculpa para pedir-me para disputar o rali para vencer. Tendo-me recusado a levar o Crx era preciso arranjar um carro para o João e foi reservado um Twingo para aluguar em Coimbra.
No dia de arranque para Coimbra, o meu pai saiu à frente com a Elsa Steglich, sua namorada da altura e co-piloto, enquanto eu ia buscar o Ivo e o meu irmão. Tinha combinado com eles em Alvalade num café por baixo da casa do Ivo. Iriamos os três no meu carro para cima. Ao chegar a Alvalade, à hora combinada o Ivo estava atrasado como sempre e comecei a ligar ao meu irmão. O telefone tocava e nada! O Ivo desceu e fomos tomar café. Passei as duas horas seguintes a ligar para casa da minha mãe e nada de resposta. Já fartos de esperar, comecei a ponderar passar em casa da minha mãe. Voltei a fazer uma última tentativa. Atende-me o João com voz de sono, tinha-se deitado tarde e não ouvira o telefone. Disse-lhe para se despachar rapidamente e para ir ter ao café, estavamos mais do que atrasados. Passou-se mais uma hora e nada do João aparecer! Entretanto, recebo um telefonema do meu pai preocupado conosco, contei-lhe o que se sucedia e ele disse-me para me vir embora. Respondi que ia dar ao João mais meia hora depois disso seguia viagem.
Quando estava prestes a vir-me embora o João chegou, com a maior cara de paú. Dei-lhe uma descompostura e preparava-me para ir-me embora, quando ele me comunica que ainda teria de voltar a casa para fazer a mala. Perdi as estribeiras e disse-lhe para ele fazer a viagem como quissese pois de certeza que comigo não a faria, pois recusava-me a esperar mais um minuto por ele! Já se tinham passado três horas desde a hora combinada! Sua excelência, saí-se com o seguinte comentário: - Por mim nem vou. Eu até nem queria ir! Foi a gota-de-àgua! Vim-me embora e liguei logo ao meu pai a contar a história.
A minha participação no rali estava a ser de uma postura de passeio e tinha dito em alto e bom som, para toda a gente ouvir-me, que iria fazer a prova de perícia devagar. Esta é a última fase do rali e na qual se encontram os resultados. Todo o resto da prova é de uma postura de convívio e todos cumprem o mesmo tempo. Quando chegou a minha altura de entrar para a perícia, olhei para o meu pai e vi uma certa amargura por não se cumprir o seu sonho. Tomei uma decisão e pensei bem na asneira que ia fazer. Não disse-lhe nada.
Mesmo antes do Ivo sair do carro, para eu começar a minha participação. Virei-me para ele e disse-lhe só isto: - Vou dar tudo por tudo, pelo menos a ver se o meu pai ficar contente. Ele respondeu-me: - Achas que é boa ideia, estando tu nesse estado? Só tive tempo para dizer: - Não! Mas tem de ser.
Foi o minuto e quarenta e nove segundos, mais longo da minha vida. Acabei a participação e não tinha forças para sair do carro, todo eu pingava do suor. Fiquei sentado no carro uns bons dez minutos a tentar recuperar forças. A primeira pessoa a vir ter comigo foi o Ivo. Pergunto-me se estava bem, fiz sinal de mais ou menos. Ele sorriu e disse-me: - Tens o melhor tempo e só faltam mais cinco concorrentes! Não quis acreditar, tinha a sensação que tinha corrido bem, mas nunca imaginei ser possível bater os tempos dos Coopers. Esta notícia deu-me animo e sai do carro para ir ter com o meu pai que estava sentado ao lado do Ni. Quando me acercei deles, não me disseram nada. Nem um, nem outro. Sentei-me ao lado deles a apreciar as outras participações que faltavam, mas eu bem que vi a troca de olhares entre eles e pensei: - Pronto, o meu papel está feito. Fizeste bem!
A espera pelos fim das restantes participações parecia-me uma eternidade. Fui-me embora sem saber os resultados finais, precisava de descansar. Eram umas cinco da tarde e tinha de estar pronto às nove para o jantar de entrega de prémios. Cheguei ao hotel e caí que nem uma pedra na cama. Não me dei, sequer ao trabalho de tirar a roupa. Não tinha forças. O Ivo acordou-me, faltava um quarto de hora para as nove. Não teve coragem para acordar-me antes, passei o tempo que estive a dormir a gemer com dores e ele simplesmente percebeu que eu necessitava de descansar e teve pena de me acordar antes.
É com muito gosto que recordo o momento em que recebi o meu troféu. Foi das mãos do meu pai que o recebi. Foi um abraço muito sentido, de ambas as partes. O mais caricato da situação foi ver a cara de muita boa gente, quando subi ao palanque em canadianas. Pensavam que o Ivo é que ia a conduzir e eu seria o co-piloto! Passei uma boa hora a tentar explicar a muita gente que afinal era eu o condutor!

É incrível o ciclo de altos e baixos que existe numa vida. O que queremos hoje, pode ser o oposto do que tanto ansiámos no passado... Vá-se lá entender a vontade do ser humano!
Quando miúdo, fui um previlegiado por ter acesso a tudo e consequentemente isso era-me atirado à cara sempre que despoletava uma discussão com o meu pai. Essas discussões acabavam sempre com o mesmo final. A refugiar-me no fundo da minha cama, sonhando, em como de bom grado, trocava tudo o que possuia para poder usufruir de um pai presente. Alguém com quem podia contar no apoio das decisões. Que fosse comigo à bola ou que estivesse presente nas minhas pequenas glórias. Tal nunca sucedeu e a infância e adolescência, passei-a sem a figura paternal que tanto ansiava.
Depois do divórcio dos meus pais, passei a usufruir de uma relação muito estreita com o meu pai. Aquilo que tanto almejei chegou de uma maneira deturpada. Talvez por necessitar de um ponto de referência familiar onde se abrigar, o meu pai apoiou-se muito na nossa relação, tornando-se a mesma algo extravagante, muitas das vezes os papeis foram trocados. Tive que tomar as rédeas da nossa relação para poder preservar o seu bem estar e muitas foram as noites passadas em claro dando sermões sobre excessos e comportamentos menos próprios.
A adolescência percorri-a repleta de namoricos, nunca me entreguei por inteiro e descontraidamente ia coleccionando relações sem futuro. Fugia sempre que encontrava alguém com vontade de se entregar por inteiro e com isso, ainda parti alguns corações. Quando entrei na idade adulta passei a olhar com ternura e inveja as relações duradouras e desejava muito, quando miúdo, ter tido a sabedoria de cultivar uma relação. Vivia a sonhar com a "minha" família e como trocava num ápice toda a vida noctívaga e de luxo, por um ambiente aconchegante de um lar nosso.
Um dia esse momento chegou, um pouco forçado pelo meu sonho de ser pai e pela vontade de alguém de ser independente dos progenitores. Foi uma altura repleta de dificuldades, onde vivia com o único objectivo de ser melhor pai, que o meu tinha sido para mim. Esqueci-me, ou melhor, a vida não me tinha ensinado que era preciso existir amor entre duas pessoas para que as coisas resultassem. As privações foram várias e com elas vieram ao de cima conflitos. Inevitável entre duas pessoas de classes sociais diferentes e com maneiras de estar na vida tão opostas. Eu conhecia o lado luxuoso da vida e não sentia falta dele, o outro lado desejava ardentemente por essa face supérflua que eu não conseguia proporcionar naquela altura. Abrutamente tudo terminou e que com isso quem mais sofria era quem eu mais tentara proteger.
A seguir, vi-me isolado durante muito tempo da lucidez necessária do querer. De objectivos para existir, vagueava pelos caminhos da vida à espera de algo que me fulminasse a ter vontades. Conformei-me com o que recebia da vida e dos outros. Fosse muito ou pouco. Não tinha projectos e não pretendia criar um futuro. Aceitava os impropérios, a castração e as criticas com indiferença. Nessa altura indagava-me sobre o que falhara no campo profissional e no campo sentimental, embora não desse relevância ao que o destino poderia guardar-me.
Foi num dia sem planos, que deixei-me impressionar por alguém que viu em mim capacidades que nem eu mesmo já era capaz de rever. Fez-me acreditar novamente, ganhei uma lufada de força interior e julguei que seria possível ser feliz sentimentalmente. Mais uma vez errei. Voltei a sonhar que o materialismo dos nossos dias não afectava os demais. A verdade é que quem nunca teve não sabe apreciar o que é o não ter e o gozo que dá a luta a percorrer para ter. As dificuldades fazem parte desse caminho e fazem com que o sucesso tenha um sabor ainda mais especial. Será tão complicado entender isso?
Nas primeiras dificuldades o timoneiro ficou sem a tripulação e revelaram-se as reais posturas de vida de outros. O barco foi apanhado numa tempestade sem ver um porto de abrigo. Mas a vida tem destas coisas, a experiência é um factor extremamente importante. O saber e o querer, ganharam mais força e não podiam dar razão às críticas e depreciações que se conjugavam à sua volta. Prometi a mim mesmo que embora a fé nas minhas capacidades tivesse desaparecido da face dos outros, um dia todas as críticas de desperdício de talento e de sucessivos insucessos seriam bem refutadas. O tempo amainou, e o barco chegou a bom porto profissional. Agora há que consolidar alicerces e recuperar o tempo perdido. Vamos dar tempo ao tempo e focar um aspecto da vida de cada vez.
Continuo a sonhar... Talvez seja possível, um dia conciliar os dois campos com sucesso mas nesta fase da vida aprendi a não voltar a abdicar do que conquistei. Custou muito voltar a estar no topo e hoje já não faço qualquer troca radical.
O calo da vida lembra-me, que o meu sucesso profissional é uma grande orgulho para todas as privações passadas e que se a vida não me bafejar noutros campos posso sempre dar-me por satisfeito por ter chegado aqui.