The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida

Hoje chorei muito. Pela primeira vez, eu e a minha mãe, falámos abertamente sobre os meus acidentes de uma forma natural. Revivemos cada detalhe, relatámos como alterou para sempre quem nós somos. Senti a sua dor, senti a nossa dor, dei por mim angustiado pelo mal que causei aos que mais amo.
Recordei o meu anjo da guarda, que deixou-me amputado e o peso que a sua promessa tem em cada dia que vivo. Que promessa tão estúpida, uma riqueza de vida desperdiçada com alguém que não é merecedor.
Hoje deveria sentir-me muito feliz, sou acolhido no seio da minha família como há muito não acontecia. Sinto-me amado, foi um Natal em pleno, rodeado de mimos, abraços e beijos mas não deixo de sentir profunda tristeza.
A névoa negra que envolve o horizonte, não agoira bom futuro. Tenho saudades de nós, o que não daria para ter as minhas meninas a celebrar o auge familiar do meu lado. Eu sei, o quanto é utópico mas elas serão sempre a minha Princesa e Rainha, donas do meu mundo. Preocupado que estou com o meu irmão e os meus sobrinhos. O que guardará o futuro para eles? Não quero estar longe dos meus sobrinhos, são eles que voltaram a dar sentido ao Natal, que amenizam a ausência do meu filho. Já não basta sentir falta da Princesa, também tenho de perder-los? E a bomba que ainda não larguei, que irá mexer com os alicerces de todos? Não era justo comunicar num momento de harmonia e felicidade.
Vida madrasta, que teimas em fazer sofrer. Faz uma pausa, acalenta a esperança de um futuro, não pintes de cinza o que merece ser colorido.

Novo ano, nova vida, novo recomeço. Em busca de forças para esta mudança forçada, dou por mim a pensar: E agora? Estou com receio de perder-me no isolamento mas foi a única solução viável que encontrei. Já não estou habituado a mudanças drásticas, ao empacotar, montar tudo de raiz, ao começar de novo. Sempre aceitei o destino, encarei sem temor as alterações de residência, de hábitos, de convivências. Soube ser um camaleão e adaptar-me ao meio em redor mas e agora? E agora, que já não és jovem e as forças teimam em faltar. Será que tens o que é necessário para vencer? E agora?
Já eram alguns anos de arraiais assentes numa zona que estimo muito, onde criei laços, onde sinto-me querido. Talvez não seja tanto o que se deixa para trás mas o vazio do horizonte que se avizinha. Longe de tudo e de todos acorrentado à pacatez, de novo um estranho numa terra que me viu crescer.
Tento agarrar-me ao lado positivo, a descortinar vantagens. A possibilidade de uma vida mais saudável, poder acordar ao lado do mar, que tanta saudade deixou mas tudo isto não esbate o sentimento de perda.
Há que cerrar fileiras, não há volta a dar, portanto vamos começar de novo...




Sara Bareilles é uma das minhas cantoras predilectas. Talvez por ser uma luso-americana, consegue atingir o profundo do meu ser transformado em majestosas melodias, sentimentos que guardo nos escombros da minha alma. Por vezes dá calafrios ouvir uma música sua pela primeira vez. É como quem decifra o negro íntimo de mim em busca de inspiração para criar algo maravilhoso. Um misto de surpresa e reconforto ao deparar que todos os cacos dilacerados ainda podem ser transformados em algo harmonioso.
Cansado desta força invisível que me puxa sempre ao mesmo sitio, repleta de hipocrisia que foram acusações constantes, eu só quero sair do limbo que não me deixa partir, impregnado na minha pele e em tudo ao meu redor. Não é justo amarrar alguém a uma ilusão que nunca passou de um capricho, ainda mais quando já se está num novo rumo. Roçar por um breve instante, não é o mesmo que um abraço e cansado de obrigações sem deveres, só quero erguer no alto de mim olhando com esperança o horizonte.

Desta vez quase esqueci esta data. Parece irreal mas já passaram vinte anos, mais de metade da minha vida e contra todas as previsões, aqui estou. Ainda estou, já sem a tenacidade inicial mas presente.
Como tudo poderia ter sido diferente, se tivesse ficado em casa naquele dia. Talvez seria um caminho menos penoso, mais inocente e menos amargo, talvez... muito talvez.
A partir daquele dia tudo passou a custar mais. Para as tarefas mais banais é necessário muito empenho e com o passar do tempo, cada vez mais. Tornei-me frio, fechado em mim, tornei mestre em esconder falhas, os receios, a enfrentar a vida de uma forma cada vez mais crítica, mais crítico com os outros e sobretudo comigo.
Também houve consequências positivas. Tornei-me mais aplicado, mais objectivo, testei os meus limites e hoje tenho real percepção das minhas capacidades. Sou decidido mas não sou o poço de força que proclamam. Escondo bem o quanto custa viver, o cansaço de sofrer constantemente, a batalha que é necessária para conseguir acompanhar os outros. Utilizo um sorriso como escudo, para disfarçar a dor que há em mim.
Por vezes, fechado em mim, na minha solidão, revolto-me com o destino. Queria uma folga, poder ser quem não me foi permitido. Poder viver ao invés de sobreviver, não tratar a dor por tu e ter uma casa a que pudesse chamar de lar. A minha família, que acolhe a minha chegada com carinho e afecto. Então, eis que chegam os primeiros raios de sol, dissolvendo o escuro da minha solidão e sou puxado novamente à realidade. A minha guerra solitária continua, não há tempo para sonhar, é vital haver empenho para almejar respirar.
Vinte anos passaram, vinte anos a batalhar, parabéns a mim, por vinte anos de sobrevivência.

Ontem morri, amanhã sangrando cairei nessa luz. O futuro aberto para além do imaginável, no intuito de descobrir o porque da esperança morrer.
Perdendo o que se achou, num mundo tão vazio, suspenso de compromisso. Ainda é cedo para seguir o silêncio desse som. De alguma forma o sol se foi e para encontrar respostas, é necessário cair no esquecimento das perguntas, às quais sempre apelidámos de casa.
A razão encobre os olhos num esplendor desvanecido. Ilusões dessa luz. Um reflexo de uma mentira que mantêm-me esperando há tanto tempo pelo fim da vida. Este final de dia é a prova do tempo secando toda a fé que conheço. sabendo que a fé é tudo o que tenho.
Eu perdi quem sou e não consigo compreender onde começou o declínio, um coração desfeito que ressoa palavras sem sentido, continuando, continuando...
Mas sei, apenas sei, que começou o fim do desgosto. Quem sou desde os primórdios, menino traquina, de sorriso fácil, levar-me-à a bom porto, para um tempo ou espaço onde tudo fará sentido, onde existe harmonia e os sonhos se casam à realidade. Deixo-me ir, vou navegando, não ficarei calado, seguirei.
Todo este tempo perdido em vão, anos perdidos, palavras sem vida num mundo destruído mas a esperança insiste e esta luta não termina aqui. Há uma luz, há um sol que eleva-nos ao lugar que pertencemos. O amor irá prevalecer e ainda conquistarei a felicidade.
Amanhã cairei nessa luz.

Foram quase três anos a contemplar do convés o dia-a-dia da ilha que apelidara de sua. Conhecia os seus traços de olhos fechados, cada grão de areia de uma praia luzidia, o verde vivo da vegetação palpitante e aquele mar de águas escuras e turvas que teimosamente impeliam o barco de atracar em porto seguro. Muitas foram as noites em que admirava a calma reinante, sobre o luar cintilante, envolvido pelo sopro de um vento quente que suspirava ao seu ouvido, acalentando os sonhos de um futuro risonho. Bolinou toda a costa infinitamente, embevecido por aquele éden que ansiava designar de casa. O seu lar. A paz de espírito vivia na esperança desse dia, reflectido no seu olhar quando vislumbrava os encantos daquele local aprazível.
O tempo ia correndo e as águas turvas, teimavam em não amainar. O barco na asas do sonho arrastava-se no mar bravio, enfrentando as tempestades que por vezes visitavam o paraíso. Os dias passavam e com eles levaram a crença a pouco e pouco definhar. O desespero e angústia reinavam no escuro do porão, o canto solitário onde a luz não era convidada, indagado de porquês sem sentido. A esperança desamparada mirrava, seca, podre, sem essência de cor.
Após quase três anos a amarar ao largo da ilha, sempre na esperança de colocar pé em terra firme, é chegada a hora de içar ancora, hastear as velas e zarpar contra o vento, rumo ao desconhecido. A verdade finalmente emergiu, brilha reluzente sem pudor da sua essência. Ao leme salpicado pela água salgada, escondem-se as lágrimas de um último olhar. Nas docas, jaze um barco imponente. LR


Fomos a simbiose perfeita. Vesti o teu corpo em mim e em ti encontrei um sentido para a vida. O aroma da tua pele, era a fragrância que enchia os pulmões no primeiro respirar. Matava a sede com a água dos teus beijos e no longo abraço encontrava o descanso para a minha alma turbulenta. Elegantemente dançavam os dias, numa valsa intimista e cúmplice, na toada perfeita de risos felizes.
O tempo que tudo trás e tudo leva, roubou a estrela incandescente que vivia no teu olhar, dando lugar à penumbra de um cinzento pardo. Inodoro tornaram-se as manhãs. Os lábios áridos que em tempos jorravam doce mel, já não conseguiam matar a sede e as noites passadas ao relento, frias como rochedos, mirraram a harmonia que um dia proliferou.
Não há esperança que sobreviva à irredutibilidade do ser. Não há luz ao fundo do túnel que resista, ao vento da tua vontade transformado em tornado. Devastador, assola tudo o que se construiu, deixando um rasto de destruição massiva, levando consigo o amor banalizado e desrespeitado.
O amor intenso, esse amor real e raro de um arco-íris profundo, já só consigo vislumbrar além longe pelo telescópio, perto das estrelas mais antigas e brilhantes. Foi o furacão da tua essência parda, absorvida de desconfiança e ressequida pelo egoísmo, que catapultou para as estratosfera.
De quando em vez, quando fumar um cigarro nas noites quentes de verão, talvez erga a cabeça tentando procurar entre o escuro da noite, esse amor cintilante que um dia iluminou a minha vida. Não sei se ainda existirás ou sequer se terei a sorte de encontrar-te entre dois bafos no cigarro, por isso deixo-te aqui o o meu adeus agradecido pelas memórias de um antigamente, que nunca chegou a ser realidade. Sê feliz nesse céu imenso, acompanhado das estrelas que serão para sempre tuas companheiras. Eu continuarei a calcorrear a minha estrada no encalce do arco-íris que dá cor e significado à vida.

O hábito de entregar quem és, não certifica a satisfação da correspondência. Cansado de mar alto e turbulento, olha-se para a meia-praia como se mira um oásis. Não dês a quem não dá retorno. Não mostres a quem se fecha. Não sonhes com quem vive no cinzento da realidade. Não dês cor à vida de alguém que não aprecia, valoriza, ou sequer estima.
A palavra impossível existe para ser testada mas não abdiques da felicidade. Traça um rumo para longe do vazio e faz a mala. Leva contigo na sacola o equilíbrio, ilumina o caminho com o sorriso característico e não esqueças de embalar uma grande dose de positivismo. Só assim poderás levar o barco a bom porto. Vamos em frente.
Acredita no amanhã, sem nunca recordar o que se perdeu. Não interessa com quem se partilha ou se quer se é necessário partilhar mas se for caso disso, que sintas que é alguém que deseja com a mesma intensidade e não alguém que vive no egoísmo indiferente ao que sentes. Importante é estares de bem com a vida, de bem contigo, inundado pela essência do que te faz feliz.
Enquanto houver a premissa e a crença, de que um melhor dia virá. Tudo é possível. Acredito em ti, acredito no sonho, aliás, ainda acredito que possas ser feliz. Mereces, é imperativo que isso aconteça, caso contrário qual o intuito desta passagem? Sonha menino, continua a sonhar, que o êxtase encontra-se ao virar da esquina à tua espera e deixa de persistir numa conjuntura que só vive no teu ideal. Procura a tua felicidade.

O arauto chegou com a sua proclamação solene, com medo de ouvir as palavras que sempre temi e a invasão dilacerante de um sentimento agridoce que penetra a pele ambígua a cada palavra. A esperança de realização do sonho de uma vida desvanece por completo na penumbra da mensagem, sendo apenas colmatada pela propagação de um sentimento de paz, ao compreender que já não é relevante o sentimento desta casa, a felicidade mora na porta ao lado. A noite toma conta de si, com estrelas que ofuscam a memória ao saber que voltou a sorrir. Achou o seu rumo, já não está sozinha.
Ao vislumbrar o vulto que se afasta na linha do horizonte, uma lágrima começa a escorrer face abaixo por ter dado à metade de mim, a liberdade de voar em busca do seu caminho mas essa mesma lágrima cessa ao tocar a ponta do lábio que sorri, por presenciar a existência de uma nova mão que se entrelaça. Guiando, envolvendo e acompanhando o seu caminho por águas menos turvas e revoltosas. É a maior prova de amor que poderia dar. Estou profundamente feliz por ti.
Eu nunca fui de promessas passageiras e houve algumas que quebrei mas juro que nos curtos dias que ainda restam, serei eternamente grato por ter tido o privilégio e o orgulho, de por breves instantes ter caminhado a teu lado. As memórias de quem fomos já foram embaladas e só desejo que este novo alguém compreenda e agradeça, a sorte de ser responsável pela tua felicidade. Eu não sou de muitas caras, uso só uma máscara, por isso compreendes que este desejo vem do mais sincero de mim.
Felicidades para o teu novo sonho, meu amor



Quando puderes Doce, envia um sonho da família feliz, porque acho que vou precisar dele para enfrentar mais uma noite. O meu orgulho, as palavras cruéis  a tua desconfiança constante, a dúvida sobre o amor e tantos episódios tristes, roubaram-nos o bom senso e com ele os beijos suculentos, que produziam um luzir muito próprio ao teu sorriso.
Doce, eu digo o que sinto. Se olhasses para mim nesta hora em que colapso, irias vislumbrar um vulto atormentado pelo pêndulo do desejo versus a razão, quando a minha ânsia de amar-te, só encontra sossego quando embalado pelo teu toque. Rogo. Envia um sonho da família feliz, para que possa beber lentamente do que mais desejei e fingir que ainda me pertence.
Tu meu Doce, que és a arqui-rival do meu sono, meu suave veneno, vergo a teus pés e imploro. Envia um sonho da família feliz, pois estou saturado de lutar com a almofada, nesta batalha infinita de "ses" que arranham as cicatrizes do meu coração. Combate de memórias, saudades e desejos que teimam em carregar-me as olheiras, presente das noites em que tolhas o pensamento.
Neste reino do incompleto, onde lá longe a linha do infinito guarda só para si a paz interior, num egoísmo atroz. A solução para as insónias, seria o sonho iluminado pelo brilho desse olhar Doce, num enredo de abracinhos desmesurados de piolha. O soporífero perfeito para o descanso merecido deste corpo velho e degradado.
Doce, envia um sonho da família feliz

Se ainda amo? Muito. Se ainda quero? Para sempre. Se ainda vens? Não acredito mas...


No calor intenso daquele consultório, na espaço hospitalar mais familiar do que se desejaria, as palavras penetraram como farpas de vidro e a sensação de impotência de não controlar o destino, de não poder alterar-lo, revolta e frustra a mente jovem que ainda reside neste corpo de velho. Não sou eterno, ninguém é mas nunca tive tanta percepção de que não alcançarei a longevidade como agora e sinto-me de mãos atadas. Não há nada que possa fazer, que altere o passado ou mais importante que mude a rota do futuro.
Caiu-me a ficha, sinto-me assolado pela noção de que o melhor já passou e que agora é sempre ladeira abaixo. Sinto muita pena pelos erros que cometi, pela saúde que não tenho, por tudo aquilo que não consegui e ainda mais pelo que perdi. Poderia ter feito mais, poderia ter dado mais, sido melhor pessoa, menos arrogante, menos orgulhoso.
Vivi e soube viver intensamente tudo o que tive e que fui, nunca soube estar de outra maneira neste mundo. Paguei caro por esta postura mas foi assim que regrei a minha vida e enquanto me for permitido, será assim que por cá andarei. Não fui perfeito, fui singular, marcante pela positiva ou pela negativa mas ainda assim marcante. Não que já não tivesse essa percepção mas os últimos dias, embora triste, soube bem o conforto e carinho, mesmo que distante de tantas pessoas preocupadas com a minha saúde. Mas não chega, precisava de um milagre e esses não tendem a cruzar-se comigo.
Tive a mãe ao lado, os amigos em contacto mas é sozinho que tenho de enfrentar esta batalha, mais uma vez voltar ao ringue e lutar contra o temível e impiedoso adversário chamado destino. Ao pisar o ringue, o cheiro do tapete, recorda-me a ausência prolongada e o brilho nos olhos do rival de sempre, reflectem as rugas, marcas de vida entranhadas na pele desgasta. Falta fulgor para mais um assalto, perseverança não pode ser a única vantagem neste combate tão desigual. O sonho é condição de vida e a própria existência é o prémio final. Ao ver a expressão do inimigo, sinto-me desmoralizado, desgastado e ainda mais receoso. Hoje mais do que uma expressão jogada ao ar, posso afirmar. Estou velho.


Uma relação autêntica, sincera, real, não se mede em palavras mas pela sua intensidade. Quando genuína, na sua pura essência, nem a vida, o mundo, a distância ou o tempo conseguem dissolver. Há almas que se completam, que se elevam de tal forma, a um limiar sublime, que nem a falta de equilíbrio do momento consegue corromper com distância. São almas que mesmo apartadas, sorvem a mesma ânsia de saudade da sua metade. São corpos racionais que quando resguardados nos seus sonhos almejam por outro desfecho da vida.
A angustia da distância não esmorece o sentimento de incompleto. Roçar a perfeição da simbiose de duas almas, não é corrigível através de uma ausência forçada ou na insistência de uma dor constante. Apenas o sentido de sobrevivência emanado da profundeza do ser, consegue manter viva uma chama de essência, que sem nunca ser fogo, não esmorece no vazio, perfilando-se como salvação sem nunca ser merecedora da denominação de luz. Há que continuar a respirar, mesmo que o ar já não tenha aquele aroma que oferece cor à vida.
Eu sou um deficiente, que sofreu a mutilação da outra metade do meu ser. Sobreviver, é a intenção de existir, que correndo no pulsar das veias, é insuportável na consciência da privação da metade que se ausentou de mim. Sou um círculo incompleto, uma figura geométrica inacabada, imperfeita. E essa imperfeição reside como factor preponderante em cada fôlego e segundo da minha existência.
A forma circular de um anel, sem começo nem fim, símbolo dos ciclos, da eternidade e da união, é a tatuagem que reside na minha essência, não no dedo mas na profundeza da minha alma. É o infinito da certeza ou a certeza do infinito, que esmaga a forma e contempla na mesma proporção o dia cinzento desprovido de cor que abunda a minha vida.


Eu sou a chuva, que molha mas que seca rapidamente. Sou aquela presença efémera. Não sou um marco, uma referência. Sou apenas mais um vulto que deambula por aqui, sem realmente deixar uma marca. Sou a gota incómoda que qualquer guarda-chuva reflecte, sem nunca perder um segundo a reflectir na sua existência.
Cada vez mais o cansaço penetra à raiz das entranhas, cada vez mais a vida empurra a tomar a decisão que não se deseja mas sendo verdade que episódio, atrás de episódio, compreende-se que não há outra opção válida, é apenas o sinal de seguir em frente. É forçar ignorar um farol de luz intensa a delinear o futuro.
Respira, perdoa, resigna, passa uma borracha e aceita a única solução que o destino oferece, faz já algum tempo. Tens de ir embora, é essa a resposta que está à tua frente. Não tenhas medo. Eu sei, só eu sei o que sentes mas não pares no tempo, porque quem amas, nunca parou por ti. Nunca deu uma demonstração de amor e não vivas na esperança de um dia vislumbrar algo, porque só vais ficar parado no tempo, esperando um milagre que nunca vai acontecer. Já não há mais lenha por onde arder e o futuro clama por ti.
Deixa de lado esse semblante infeliz que cada dia marca mais o rosto cansado. Um olhar molestado por tristezas, que acumula uma velhice precoce mas presente. Deixa de viver no limite, ansiando por uma punição, como forma de perdão e que nunca vais alcançar. Pára. Quem és tu? Cada vez menos nada. Realmente, pára. Para onde vais? Cada vez mais para um abismo profundo. Ganha ânimo, cria objectivos. Não podes continuar a viver na esperança de respirar um ar que já não é teu por direito. Aceita, nunca foi. Acorda para a realidade!
A fórmula do renascer, está na chuva, que lava o passado. Tu és a chuva, que todos conhecem e a poucos tocas. É a chuva que relembra, que há sempre um recomeçar. Há sempre uma nova hipótese. Um fenómeno mutável e esguio que se adapta ao presente.
Quando as nuvens abrirem e o sol raiar, recorda que perdeste tudo e aceita isso como uma verdade imutável. Aceita. Já estás no fundo, portanto, o que é que tens a perder? Arrisca, vai-te embora. Agora o futuro só pode ser a subir e a tua possível cura chama por ti. O céu inclina-se e segura a tua mão, dando a direcção correcta através do trilho de fogo. O fardo que relevas, só alivia se aprenderes a seguir em frente.
Espero que da próxima vez que escrevas, seja para dizer-me que estás feliz, porque agoniza-me saber, que já não és crente. Que já não acreditas em finais felizes.
Abraço meu amigo, falamos quando adormeceres e a almofada for aquela companheira, que revigorará o ânimo. Não percas a esperança em dias de sóis!


Estou cansado de correr. Corro todos os dias uma maratona. É a forma de manter-me ocupado, é um antídoto para pensamentos que não levam a lado nenhum.
Durante dois anos dei tudo de mim, transpus barreiras, orgulhos, dignidade. Porque acreditei. Acreditei sempre no cenário que tinha à minha frente. A mulher perfeita, a filha adorada, uma família, um lar. Nunca fui capaz de aceitar que estava num meio que não era meu por direito, não por falta de integração mas por falta de aceitação. Nunca a tua mãe fez-me sentir que merecia o que vivi.
A vida já foi madrasta o suficiente para saborear o que é a marginalização. Seja devido à atitude, postura, história de vida, condição física, monetária ou valores. Ninguém merece ser marginalizado nestas condições. Ninguém, muito menos eu.
Amo a minha enteada, como se tivesse sido gerada por mim. Revejo nela traços meus, o que faz-me sorrir. Adoro perder-me nas suas brincadeiras, nos nossos momentos... sinto a tua falta, fazes-me falta Princesinha e dou por mim muitas vezes a falar dos nossos momentos. Faz-me falta o teu sorriso, esse riso peculiar e aquele beijo desmesuradamente bruto que adoro de paixão, como sendo o melhor presente que o mundo pode oferecer.
Amo a tua mãe, independentemente de todas as mágoas que tenho. Não se resume à vergonha de assumir, é tudo que demais adveio daí. Há episódios demasiadamente maus, para compensar uma luta, que só eu quis batalhar, onde só eu fiz força para que acontecesse. Não deveria ser assim. Uma relação não dever ser oculta, não deve ter entraves se o amor existe. Ainda há demasiadas memórias violentas que não desaparecem com o tempo. Amo mas acho que nunca vou conseguir transpor a mágoa de alguns episódios.
Depois de toda a castração que vivi, a última coisa que quero, é sentir que sou algo que devo ser escondido. Não tenho vergonha de mim, do meu percurso  porque é que alguém, que está do meu lado, deverá ter? Já fiz muitos erros, já passei por grandes dificuldades, passei fome, vivi na rua mas se há poucas coisas de que tenho vergonha, uma delas é, a maneira repulsiva como a tua mãe não soube aceitar o amor que tivemos  Banalizar a dedicação, o nosso amor, esconder, negar.
Princesa, eu sei que estes últimos seis meses, nada dei de bom e para nada contribuí na tua vida, acredita que não é fácil manter esta distância e custa-me horrores. Era uma base na tua vida, que hoje falta. Não quero dar desculpas para esta ausência mas a verdade é que independentemente deste afastamento preciso que saibas que adoro-te. Desculpa assumir desta forma, mas para mim, aos meus olhos, és minha filha. Não de sangue mas de vida e sinto tanto a tua falta, como acredito que sintas a minha.
A grande questão é aprender a viver com a ausência. Tua, da tua mãe, nossa, da nossa família e acredita, não tem sido fácil. É a opção racional de preservar, de manter alguma dignidade, a levar a melhor sobre a opção emocional, de voltar mais uma vez a desculpar os erros passados e sentir que era possível chegar a casa, rolar no tapete abraçado a ti, enchendo-te de beijinhos, sem conseguires parar de rir. Essas são as memórias mais difíceis.
Um dia alguém há de aparecer, alguém para preencher esse vazio que deixei, confia em mim. Pode demorar mas isso vai acontecer, porque a tua mãe tem discernimento para saber quem é que será essa pessoa e acredito que ela vai saber escolher bem. Infelizmente para mim, essa pessoa não fui eu.
Independentemente do que o futuro trouxer, por favor nunca esqueças. Lembra-te, que estou à distancia de um telefonema, que sou um amigo, confidente, um apoio e que sempre mas mesmo sempre estarei disponível, porque amo-te.

Um beijo deste teu pai adoptivo, que morre de saudades tuas


O vaticínio várias vezes arremessado, como uma maldição que alcançaria o seu desígnio  talvez seja mesmo o final prometido. Quando a sucessão de eventos, teima em afirmar o trilho do destino, aceita o peso sobre o peito que teima em asfixiar e resigna a vontade, a pedaços de nada.
Prostrado em quarto escuro, envolvido pelos lençóis, em busca da companhia que só vive na memória da alma, a solidão é a recompensa oferecida, que aperta o querer e ainda mais o que não se quer. É uma lágrima que cai na convicção sem intenção de mudar a postura. A postura é a correcta. A razão, esse troféu que se conquista perdendo tudo.
Chega de sonhar com a felicidade, essa utopia que tolhe o movimento e entorpece a vontade. A letra do fado, já foi escrita e rasurada o suficiente, para compreender que o momento final, penetrará o coração contaminado, fundido à penumbra de um quarto vazio. Vazio, como a vida.
Já se morre a morte certa. Aconchega o corpo na bruma da solidão, envolve e aceita, que o mundo continua a girar, sem nunca se importar com a sua existência e mantêm sempre presente que o pecado foi sonhar.

Ainda vive em mim a vontade de resgatar um sonho, um sonho que sempre foi só meu. Uma ilusão que só a mim envolveu, embriagou e talhou o mais intimo de quem eu sou.
Eu sei, eu realmente sei que foi apenas uma grande ilusão, porque quando alguém se dedica, não existe aborrecimento, perda, não existe esforço... dá porque o acto de dedicação satisfaz.
O acto de assunção, é algo natural que advém de  um estado de espírito. Não se força. não se exige, existe porque é o caminho da essência de um estado, de uma condição.
Embora, com a plena noção da realidade, não deixa de chorar o sonho perdido, por mais que o fogo se torne chuva dissolvente, ela corrói na esperança de pensar que poderia haver uma opção para outro rumo, outra hipótese, que acima de tudo não levasse ao desespero e a tanto sofrimento. Será que havia essa possibilidade? Será que era possível não humilhar ou mesmo humilhado, ser assumido? É tão difícil acreditar mas irá sempre pairar essa possibilidade na nuvem cinzenta.
Cansado de viver assim, cansado de sentir falta, cansado de não ultrapassar o muro do amanhã e nem com o anjo que sustenta e dá guarda ao ser, consegue suportar tamanho fardo para transpor tamanho obstáculo mas tudo passa, tudo sempre passará. A Vida vem em ondas como o mar, num vai e vem infinito... e chegará o dia que esse muro será transporto.

O vício de ti vai passar, porque o orgulho de quem sou é maior do que tu. Arrebataste o meu mundo, foste mais e és sentido de viver mas atravessaste a linha da decência, do respeito, de tudo o que possa ser imaginável.
Amo-te e tenho a noção que dediquei-me a ti de uma forma impossível de alcançar. Tomaste isso como garantido e não soubeste valorizar. Finalmente parecia ter encontrado a "minha" família. No final, era só mais um "amigo" que iludiu-se com tudo.
Foste tão minha amiga, leste a minha alma como ninguém mas no fim a grande dor, é entender porque escancarei a porta para entrares? Como fui eu capaz de deixar-te entrar e permanecer por tanto tempo? Como fui eu capaz de suportar a ausência, banalização e sobretudo, a irrelevância?
Eu sei que tu sabes. Eu sei o que sentiste. E acredita que sempre soube muito mais do que tu! Só não consigo compreender a falta de aceitação. Sê o que queres ver no espelho. Sou um ser amargo, batido e rebatido pelas vicissitudes da vida como poucos e mesmo assim consigo ter algo que tu não conseguirás alcançar tão cedo. Esperança :)
Esperança em acreditar num dia melhor. Esperança, em acreditar que se calhar, numa improvável sorte magnífica, encontrei a pessoa ideal para compartilhar a minha vida. Passaste muito, sofreste muito mas acredita que o meu percurso foi muito mais sinuoso do que o teu, tu sabes isso. Mesmo assim, sou e serei sempre uma pessoa recheada de esperança. Acredito, com a mais pura das certezas, que o melhor ainda está para vir e que serei um tipo realizado quando alcançar esse meu objectivo e ele há de vir, porque eu mereço e eu sei que tenho o direito a ser feliz.
Poderias ter sido tu. Aliás, acho que tu sabes, que só tu tiveste tudo para seres tu mas deitaste tudo a perder. Quando não confias, quando desrespeitas, quando criticas, quando só consegues ver mal, mesmo onde ele não existe e mesmo assim duvidar do amor que te era oferecido.
Sou o grande culpado por essa tua postura e sinto-me frustrado por isso. A culpa que senti, fez-me admitir o que nunca permiti na vida. Invasão de privacidade, absurdos públicos, humilhações, violência, etc, etc. Como pode alguém a quem dedicas tanto amor, ser capaz de olhar para ti com tanto nojo? Não morri Doce, embora tenha sido o que desejaste na minha cara. Não vou morrer tão cedo, porque o meu percurso há de ser árduo, repleto de emoções e duradouro. Tanta pena tenho que não tenhas sentido o amor. Sou o reflexo de um espelho que nunca conseguiste deslumbrar. Onde as névoas da mágoa que pairavam no teu coração, deturpavam a imagem do casal perfeito. Tão lindos que fomos, que exemplo de família feliz... que pena eu tenho que tudo tenha sido uma mera ilusão, que nunca fluiu para o exterior e que só eu soube vislumbrar a imagem perfeita.
Hoje és um vício que combato, como uma dieta. Como um alcoólico que quer mudar de vida. Já não tenho desculpas para os teus abusos, violações e desrespeitos, resta aceitar que tenho de curar-me. Sinto-me triste, envergonhado por ser conivente com tamanhas cenas dantescas. Partiste óculos, computadores, atiraste roupa para a rua, quase partiste-me a mão, marcaste-me os braços, pescoço e a cara (as marcas dos braços, são mais umas cicatrizes que trarei comigo e que vão sempre relembrar a tua existência)... desejaste que morresse, que estou podre, chamaste a polícia como se eu fosse um ladrão. E a isto tudo, respondi como? Tentei arranjar uma desculpa para cada acto tresloucado. Hoje, esse não sou eu.
Amanhã podes ler estas linhas e ainda teres mais ódio mas o que tu possas interpretar, a mim já não me faz diferença. Depois de teres-me pintado como um monstro, besta, podre, usurpador que só te tratou mal (tão mal que foste tratada que estiveste dois anos com este canalha!) Aquele que não servia para teu namorado, marido, a quem foste contar do pior às amigas, que escondeste, colocaste em segundo plano e que acima de tudo fizeste questão de deixar sonhar quando nunca pretendeste dar-lhe uma hipótese de fazer parte da tua vida. Foi um idiota, casmurro, arrogante, de feitio complicado que amou-te tanto, tanto, que por breves momentos esse amor chegou a ser sublime. Isso eu sei. Foi o par perfeito que  nunca chegou a ser, por culpa de tamanha desconfiança e falta de aceitação. E a aceitação foi sempre a única coisa que esse idiota esperou da tua parte.
Não te desejo mal, quero o teu bem mas longe de mim. Não vou interferir para o teu bem, como não vou interferir para o teu mal mas és um vício que estou a curar e graças a muita vontade, vou no bom caminho. Hoje já não te sinto da mesma forma, já não sou um dependente e digo-o da forma mais sincera que sei. Escrevendo. Já te tornaste uma memória e isso é a pior coisa que um  futuro a dois poderia almejar. És mais uma memória.
Acredita, cada dia que passa, torna-se mais simples. Faz tempo que prometi a mim mesmo, não procurar notícias tuas e assim tenho feito. Não sei onde andas, o que tens feito e assim pretendo manter-me. Mas adorava, realmente adorava. Que por um eventual acaso daqui a uns tempos, viesses encontrar-nos numa rua qualquer e tivesses a humildade de pedir desculpas sinceras, não de ocasião. Porque eu mereço, eu sei que mereço e seria sinónimo que havia um ponto final que nunca tivemos e ambos merecemos.
Tu és um veneno que corre na minha veia e que estou a expulsar aos poucos e poucos para tentar respirar. E eu sei que vou conseguir, sabes porque? Porque eu fiz muita asneira na minha vida e eu só queria alcançar um objectivo. Sentir-me amado. Ter alguém dedicado a mim, com metade da intensidade que eu dediquei a ti. Eu mereço, mesmo com todos os erros que tenho no meu caminho (não sou nenhum santo nesta história, também deveria ter tido mais paciência contigo) mas porque a besta que está podre, que tu preferias que estivesse morto, que por estar morto faria a tua vida mais feliz, também é um ser vivo que merece rendição, respeito, amor e afecto. E que por tudo isso e por tudo o mais que abdicou e suportou para simplesmente tentar que um "nós" contigo resultasse numa história feliz, merece algo mais da vida. Ter suportado, toda a violência, desconfiança, humilhação, insultos, servirá com toda a certeza como prova de penitência, para que Deus seja justo e permita-lhe um um resto de vida feliz.
Um conselho para um futuro feliz. Não faças o que fizeste comigo com mais ninguém que apareça no teu caminho. Primeiro, porque acho difícil que alguém fique para suportar a humilhação e desrespeito da forma que eu suportei. Segundo, porque se queres ser feliz. Sorri. E é isso que terás do outro lado da cerca. Não basta pregar, é preciso fazer-lo. O amor, não é um campo de batalha. É onde os supostos inimigos tomam a iniciativa de dar as mãos para percorrer um caminho singular.
Que pena tenho de não teres sabido cuidar e amar o que de mais precioso tenho. O meu coração insignificante que te ofereci cegamente. Adeus CSaid. 

Nuno completava os exames finais do ensino obrigatório, adiando uma decisão que não pretendia tomar. O seu forte sempre tinha sido o desenho e o seu pai pretendia que o filho fosse arquitecto. Embora não estando convencido dessa escolha, pretendia fazer a vontade paternal mas para dar continuidade aos estudos, abria-se um dilema na sua mente. Não poderia manter-se no colégio que acolhera-o nos últimos quatro anos, por não leccionarem essa área.
Após o último exame e levado por um impulso trocista, lembra-se de fazer mais uma das suas tropelias e dirige-se  à sala de ping-pong deserta. Começa a desenhar nas paredes, pinturas obscenas e cómicas de carácter sexual tendo por personagens alguns dos professores. Inocentemente ou talvez ingenuamente não compreendeu a gravidade do seu acto. Facilmente foi descoberto o autor da obra, culminando com a chamada de Madalena ao conselho directivo do colégio. O convite para abandonar o colégio, foi a alavanca necessária para forçar a decisão que Nuno não queria tomar. Transferir-se para outro colégio.

Madalena, decide então inscrever os dois filhos no colégio onde o pai de Nuno tinha estudado e que sempre afirmara ser o local onde gostaria de ver os filhos. O episódio das pinturas murais, foi escondido do pai, não havia razão para azedar uma relação que já por si não era saudável. Pai e filho, eram distantes e era frequente existirem discussões motivadas por essa distância que o Pai sempre cultivou. Madalena, achou que Luís ter conhecimento do episódio, não iria abonar para melhorar esse relacionamento. O Pai contente por saber que os filhos iriam para o "seu" colégio, nunca desconfiou da razão para a mudança.
Ao entrar neste novo mundo, Nuno voltou a sentir-se perdido. Deparou-se com uma realidade bem oposta. O ensino era bem mais exigente e embora fosse causa de apreensão, não era tão assustador como as diferenças que encontrou na convivência com os outros colegas. A existência de uma diferença bem realçada entre os grupos sociais, causava-lhe revolta e injustiça e era algo com que não sabia lidar. Por um lado haviam os betos, onde todos se vestiam de igual, com uma postura intransigente no rigor das peças de roupa utilizadas, da maneira de estar, de falar, que se consideravam superiores e apresentavam uma postura arrogante perante os outros. Do outro lado da barricada existia um grupo mais reduzido. Os renegados, que era onde se enquadravam todos os outros adolescentes que não cumpriam a rigor as normas impostas pelos betos. O adolescente que não lidava bem com imposições e injustiças foi proscrito a ser parte do segundo grupo.
Foram três anos, em que a rebeldia foi crescendo dentro de si. Nuno fazia questão de distanciar-se da postura do grupo predominante. Sempre que podia escapulia-se do colégio, furou a orelha, começou a andar de botas e calças de ganga rotas e era o primeiro a fazer frente quando presenciava alguma injustiça cometida contra um dos renegados. A revolta que crescia, por ter de se manter num colégio onde tinha de conviver com pessoas com quem não se identificava, era reflectida nas atitudes que tomava e que muitas dores de cabeça trouxeram a Madalena. Nuno tornou-se um adolescente problemático.

Ao chegar aos dezoito anos, Nuno já trazia consigo um historial de conflitos. Era frequente ver o rapaz entrar em rixas, para tomar partido na defesa de alguém. Cometeu muitos actos de rebeldia e embora escondesse dos pais muitas das loucuras que fez, as discussões com o Pai acentuavam-se, por cada vez menos entender a postura distante e crítica que o progenitor assumia com os filhos. O único refúgio que encontrava, era em casa da sua Querida, onde o adolescente não se deparava com julgamentos mas com uma abordagem positiva na tentativa de chamar-lo à razão.
Foi também neste período que Nuno conheceu o seu primeiro amor. Uma discreta morena, de olhos verdes, com um sorriso que explanava ternura e uma inocência que Nuno admirava mas que já tinha perdido. Foi um verão inesquecível, onde os dois adolescentes passaram horas infindáveis à conversa, a deambular pelas páginas da vida de cada um. O brilho reflectivo pelos olhos dela, sempre que Nuno falava, enchiam o coração do rapaz e a ternura que ela colocava em cada gesto, traziam-lhe um reconforto que não conseguia encontrar  em outro lugar. Ana, vinha de uma família conservadora e que não viu com bons olhos o namoro com um rapaz que se apresentava de brinco na orelha e calças rasgadas. Tomaram-no por marginal e Nuno sentiu-se injustiçado. A mãe proibiu a filha de dar continuidade à relação e embora os adolescentes ainda tivessem tentado manter o namoro às escondidas, a pressão de toda a situação, fez com que Ana quebrasse. Nuno sentiu-se impotente para alterar o curso dos acontecimentos e embatendo na intransigência da mãe de Ana em alterar a imagem que tinha sobre si, os adolescentes não encontram outra solução que não fosse terminar o namoro. Nuno perdia assim o primeiro pedaço do seu coração.

Vendo-se perdido, sem saber que rumo dar e tendo a percepção que manter-se junto das más companhias, com um estilo de vida degenerativo, não agourava um bom futuro, decide que a única solução para os seus problemas é sair de Lisboa. Se pretendia ser alguém, teria de distanciar-se.
Um dia decide ligar para o Instituto da Juventude e perguntar que cursos sobre arte existiam fora de Lisboa. Deram-lhe duas opções. Porto ou Coimbra. Porto é uma cidade, onde Nuno nunca se sentira confortável, talvez pela sua escuridão ou pela falta de orientação que sentia sempre que se deslocara à capital do norte. Coimbra, por sua vez, trazia-lhe boas memórias. Era o lugar onde ia todos os anos acompanhar o Pai, no Rali Rainha Santa. Já conhecia algumas pessoas da cidade, os pais tinham lá amigos. E as visitas à cidade estudantil eram a única altura do ano, onde Pai e filho, mantinham uma relação saudável. Estava decidido, iria optar por Coimbra.
Sem colocar os pais a par da sua decisão, decide rumar a Coimbra e fazer a sua inscrição. Levantou-se cedo e seguiu com um amigo, em direcção à estação de comboios. Era o último dia para fazer a adesão e chegou mesmo em cima da hora de fecho. Tratou da papelada e rumou de volta a Lisboa, sem que mais ninguém além do amigo, soubesse da sua opção.
Ao chegar a hora do jantar, surgiu o comunicado: -Vou estudar para Coimbra! Os pais olharam um para o outro e enquanto Luís soltou uma gargalhada, Madalena manteve a vista no rapaz, com um ar sério. Luís replicou: - Tu pensas que isto é assim? Agora queres ir estudar para Coimbra e vais!? Nuno mantinha-se calmo a encarar o pai de frente e retorquiu: - Já inscrevi-me. Madalena, que contemplava o diálogo, percebeu imediatamente que o filho estava decidido.
Passaram as duas horas seguintes a tentar demover o adolescente, que o investimento que teriam de fazer, seria a última oportunidade para o filho se redimir e que desistir não era uma opção. Mesmo assim, não conseguiram demover o filho da decisão e em Setembro, Nuno iria dar continuidade à sua vida na cidade estudantil.

Pela primeira vez desde que retornara a Portugal, Nuno, agora adolescente, encontra estabilidade na sua curta vida. Ao dar entrada no colégio particular, descobre um ambiente mais equilibrado, as boas notas retornaram e faz os primeiros amigos fora da única vida que conhecia, a sua praceta.
É neste colégio, que ganha a alcunha que para sempre irá estar associada à sua pele. Este episódio nasce, devido à sua descendência Franco-Alemã, os seus apelidos encontravam-se mal escritos na pauta e num dos primeiros dias de aulas, uma das professoras ao fazer a chamada e ao chegar ao seu nome, não obteve resposta. Voltou a pronunciar o nome e mais uma vez não obteve resposta. A professora, já alterada por o aluno não responder à chamada, volta a repetir o nome que se encontrava na pauta. Desta vez Nuno respondeu. - Setôra, deve estar a chamar por mim, mas esse não é o meu nome. Ao que a professora replica: - Se está na pauta, é porque é o seu nome! Nuno, que não era miúdo de se conter, responde no mesmo tom: - Setôra, eu posso não saber ler, nem escrever, mas ainda sei o meu nome! Foi a porta aberta para a risota da turma e desde esse dia, Nuno passou a ser tratado entre os colegas, pelo nome que constava na pauta e do qual nunca mais iria conseguir desassociar-se.
Depois deste episódio, Nuno tornou-se rapidamente conhecido no colégio, não só por culpa da alcunha por que era tratado mas também pelo jeito fácil como comunicava. Era também um dos rapazes mais populares no pátio, por ser dos melhores praticantes de futebol. Os intervalos entre as aulas eram passados no pátio a fazer jogos com outros colegas, onde era sempre escolhido para a melhor equipa.
O último ano tinha sido de difícil adaptação. Um liceu estatal, onde a criança encontrou miúdos que forçaram à perda da sua inocência, o corte de relações entre o seu Pai e a sua Querida e a primeira percepção de perda. A morte do seu Avô Papi, que os cigarros teimaram em levar para o céu, envolto no fumo do último cigarro. Passado este período de adaptação a uma nova realidade, a novas sensações, o miúdo parecia ter encaixado e encontrado o rumo a seguir.

Foram quatro anos, em que o adolescente foi crescendo num ambiente saudável e harmonioso. Dedicou-se à sua paixão pelo futebol, foi convidado por um clube, perto de casa, para criar uma equipa e participar nos jogos da cidade de Lisboa, onde obteve um honroso quarto lugar. Seguiu-se o campeonato nacional de futsal durante três anos, onde o ponto alto, foi ser vice-campeão de Portugal e ter sido o terceiro melhor marcador do campeonato. Dava tanta importância ao futebol, que chegou a mentir à mãe para ir treinar um sábado de manhã, quatro dias após ser operado a uma apendicite. Fizesse chuva, frio, nada retinha-o de estar presente em todos os treinos e jogos.
Durante este período, talvez resultado da sua postura comunicativa e do sorriso sempre presente, teve os seus primeiros namoricos mas como nunca tornava-os prioridade na sua vida, acabavam sempre rapidamente sem guardar lugar relevante na memória e sem fazerem mossa ou rancores de ambas as partes, sobrava sempre a amizade.
As notas escolares eram exemplares, sem nunca ter de se esforçar, bastando estar atento nas aulas para assimilar a matéria e conseguir um bom desempenho nos exames. Entre os colegas, evidenciava-se a sua personalidade forte e a sua boa disposição, sempre pronto para criar umas tropelias inocentes que a todos fazia rir.
A vida familiar era equilibrada e rotineira, dividida entre os passeios familiares com os pais e o seu irmão, e os fins-de-semana com a sua Querida e o Padrinho, que entretanto tinham contraído matrimónio.Continuava a ir com frequência, passar os finais de tarde ao café, para beber da sabedoria da sua Avó, que alternava com as tarde passadas com os colegas do colégio.
O rapaz era um adolescente feliz com a vida que tinha e isso emanava na sua postura do dia-a-dia.

Passara-se um ano, desde a mudança para São Paulo e Luís encontrava-se agora num beco. O seu mentor profissional, que tinha promovido a sua ascensão na empresa,  tinha sido despedido e as previsões de futuro não eram animadoras. O seu lugar estava em risco e antes de chegar a um limite extremo, negoceia um acordo de rescisão de contrato. Cansado e com saudades do seu país, Luís debatia-se com um dilema. Voltar a Portugal ou ficar no Brasil, voltando para Salvador. Madalena era a favor de ficarem, argumentava que o choque da mudança seria maligno para a relação e para os filhos que já estavam ambientados à cultura brasileira. Nuno, também era contra o retorno. Embora fosse muito novo, tinha a percepção que retornar, era sinal de abandonar tudo. Os seus amigos, a escola, o mundo que conhecia e que tomava como seu.
Mesmo contra a vontade da esposa e do filho, Luís decide voltar. Houve um jantar de despedida no Pátio Alfacinha com promessas de não perderem contacto mas que o tempo se encarregaria de apagar. Foi assim, num final de verão, que a família retornou a Portugal. Ficaram a viver em casa dos pais de Madalena, a pedido do Avô de Nuno. Não fazia sentido procurarem uma nova casa, com um apartamento tão grande e havia o argumento do apoio familiar, que seria de grande ajuda na adaptação e educação das crianças.

Para Nuno, os primeiros tempos foram de adaptação, sentia-se um corpo estranho neste novo mundo. O tempo era frio o que impossibilitava viver de pés descalços como sempre fazia. As outras crianças da praceta embora tenham aceitado a sua presença, como sendo mais um do grupo das crianças, faziam troça do seu sotaque brasileiro, o que enfurecia Nuno. Pensava que ser apelidado de Português quando vivia no Brasil, iria morrer agora que voltava à sua pátria. Ao invés, ganhou novo apelido. Era o Brasileiro, por causa do seu sotaque. Felizmente, perdeu o sotaque rapidamente, o que fez com que o apelido desvanecesse das bocas das outras crianças. Passou a ser conhecido pelo Luís Nuno.
Os anos de Brasil, foram muito protectores para com Nuno, fazendo dele uma criança pura e inocente e isso ficou provado com os primeiros episódios em Portugal. Nuno era o único pré-adolescente, que ainda acreditava no Pai Natal e embora este episódio possa ser visto com ternura, as crianças conseguem ser muito cruéis perante tal ingenuidade. Nuno chegou a brigar com outra criança, porque esta difamava a existência de tal personagem. Também nunca soube o que era um palavrão, nunca tinha ouvido pronunciar essas palavras proibidas nos seus anos em Terra de Vera Cruz e isso aguçou o azo dos outros miúdos na prontidão de ensinar-lhe. Eram os primeiros passos para a perda da inocência.
O que mais agradava a Nuno, eram as tardes. Dividia o seu tempo no jardim em jogos, a saltar os muros para surripiar as frutas das árvores e a jogar futebol, onde era considerado um dos melhores da praçeta e arredores. O final de tarde, era passado no café da esquina, onde estudava com a sua Querida. Era ver-lo fascinado, embevecido com a cultura da avó, deliciava-se com o desenrolar de conversas infindáveis, onde a avó explicava a história do mundo, das línguas, dos países distantes e culturas tão distintas. Estas palestras duravam até o seu Padrinho vir buscar a sua Querida para jantar.
Os fins-de-semana eram alternados entre os passeios por Sintra, a visitar os familiares que por essas bandas viviam, com almoços tardios pelos melhores restaurantes que proliferam nesta zona do país. O final de tarde eram dedicados às feiras, onde Madalena procurava as suas raridades. Por outras vezes, Nuno passava os fins-de-semana, com a sua Querida, em casa do Padrinho. Mesmo já adolescente, a Avó tratava-o com toda a ternura, como se de um ser frágil se tratasse. Eram os pequenos-almoços reforçados, que Nuno tanto apreciava, os banhos de espuma e os passeios por zonas históricas, onde a sua Querida deslumbrava-o, relatando as histórias que se escondiam em cada pedra, em cada rio, em cada paisagem.
Nuno entra no Liceu e o primeiro ano, é o sinónimo da difícil adaptação. O aluno aplicado, tinha dado entrada numa escola estatal, onde às más companhias conjugadas com as diferenças que encontrou no ensino, quase fizeram-lhe perder o ano. Madalena decide então colocar-lo num colégio particular, tentando salvaguardar alguma da inocência que o miúdo tinha perdido com esta mudança na sua vida.