Estou cansado de correr. Corro todos os dias uma maratona. É a forma de manter-me ocupado, é um antídoto para pensamentos que não levam a lado nenhum.
Durante dois anos dei tudo de mim, transpus barreiras, orgulhos, dignidade. Porque acreditei. Acreditei sempre no cenário que tinha à minha frente. A mulher perfeita, a filha adorada, uma família, um lar. Nunca fui capaz de aceitar que estava num meio que não era meu por direito, não por falta de integração mas por falta de aceitação. Nunca a tua mãe fez-me sentir que merecia o que vivi.
A vida já foi madrasta o suficiente para saborear o que é a marginalização. Seja devido à atitude, postura, história de vida, condição física, monetária ou valores. Ninguém merece ser marginalizado nestas condições. Ninguém, muito menos eu.
Amo a minha enteada, como se tivesse sido gerada por mim. Revejo nela traços meus, o que faz-me sorrir. Adoro perder-me nas suas brincadeiras, nos nossos momentos... sinto a tua falta, fazes-me falta Princesinha e dou por mim muitas vezes a falar dos nossos momentos. Faz-me falta o teu sorriso, esse riso peculiar e aquele beijo desmesuradamente bruto que adoro de paixão, como sendo o melhor presente que o mundo pode oferecer.
Amo a tua mãe, independentemente de todas as mágoas que tenho. Não se resume à vergonha de assumir, é tudo que demais adveio daí. Há episódios demasiadamente maus, para compensar uma luta, que só eu quis batalhar, onde só eu fiz força para que acontecesse. Não deveria ser assim. Uma relação não dever ser oculta, não deve ter entraves se o amor existe. Ainda há demasiadas memórias violentas que não desaparecem com o tempo. Amo mas acho que nunca vou conseguir transpor a mágoa de alguns episódios.
Depois de toda a castração que vivi, a última coisa que quero, é sentir que sou algo que devo ser escondido. Não tenho vergonha de mim, do meu percurso porque é que alguém, que está do meu lado, deverá ter? Já fiz muitos erros, já passei por grandes dificuldades, passei fome, vivi na rua mas se há poucas coisas de que tenho vergonha, uma delas é, a maneira repulsiva como a tua mãe não soube aceitar o amor que tivemos Banalizar a dedicação, o nosso amor, esconder, negar.
Princesa, eu sei que estes últimos seis meses, nada dei de bom e para nada contribuí na tua vida, acredita que não é fácil manter esta distância e custa-me horrores. Era uma base na tua vida, que hoje falta. Não quero dar desculpas para esta ausência mas a verdade é que independentemente deste afastamento preciso que saibas que adoro-te. Desculpa assumir desta forma, mas para mim, aos meus olhos, és minha filha. Não de sangue mas de vida e sinto tanto a tua falta, como acredito que sintas a minha.
A grande questão é aprender a viver com a ausência. Tua, da tua mãe, nossa, da nossa família e acredita, não tem sido fácil. É a opção racional de preservar, de manter alguma dignidade, a levar a melhor sobre a opção emocional, de voltar mais uma vez a desculpar os erros passados e sentir que era possível chegar a casa, rolar no tapete abraçado a ti, enchendo-te de beijinhos, sem conseguires parar de rir. Essas são as memórias mais difíceis.
Um dia alguém há de aparecer, alguém para preencher esse vazio que deixei, confia em mim. Pode demorar mas isso vai acontecer, porque a tua mãe tem discernimento para saber quem é que será essa pessoa e acredito que ela vai saber escolher bem. Infelizmente para mim, essa pessoa não fui eu.
Independentemente do que o futuro trouxer, por favor nunca esqueças. Lembra-te, que estou à distancia de um telefonema, que sou um amigo, confidente, um apoio e que sempre mas mesmo sempre estarei disponível, porque amo-te.
Um beijo deste teu pai adoptivo, que morre de saudades tuas

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