No calor intenso daquele consultório, na espaço hospitalar mais familiar do que se desejaria, as palavras penetraram como farpas de vidro e a sensação de impotência de não controlar o destino, de não poder alterar-lo, revolta e frustra a mente jovem que ainda reside neste corpo de velho. Não sou eterno, ninguém é mas nunca tive tanta percepção de que não alcançarei a longevidade como agora e sinto-me de mãos atadas. Não há nada que possa fazer, que altere o passado ou mais importante que mude a rota do futuro.
Caiu-me a ficha, sinto-me assolado pela noção de que o melhor já passou e que agora é sempre ladeira abaixo. Sinto muita pena pelos erros que cometi, pela saúde que não tenho, por tudo aquilo que não consegui e ainda mais pelo que perdi. Poderia ter feito mais, poderia ter dado mais, sido melhor pessoa, menos arrogante, menos orgulhoso.
Vivi e soube viver intensamente tudo o que tive e que fui, nunca soube estar de outra maneira neste mundo. Paguei caro por esta postura mas foi assim que regrei a minha vida e enquanto me for permitido, será assim que por cá andarei. Não fui perfeito, fui singular, marcante pela positiva ou pela negativa mas ainda assim marcante. Não que já não tivesse essa percepção mas os últimos dias, embora triste, soube bem o conforto e carinho, mesmo que distante de tantas pessoas preocupadas com a minha saúde. Mas não chega, precisava de um milagre e esses não tendem a cruzar-se comigo.
Tive a mãe ao lado, os amigos em contacto mas é sozinho que tenho de enfrentar esta batalha, mais uma vez voltar ao ringue e lutar contra o temível e impiedoso adversário chamado destino. Ao pisar o ringue, o cheiro do tapete, recorda-me a ausência prolongada e o brilho nos olhos do rival de sempre, reflectem as rugas, marcas de vida entranhadas na pele desgasta. Falta fulgor para mais um assalto, perseverança não pode ser a única vantagem neste combate tão desigual. O sonho é condição de vida e a própria existência é o prémio final. Ao ver a expressão do inimigo, sinto-me desmoralizado, desgastado e ainda mais receoso. Hoje mais do que uma expressão jogada ao ar, posso afirmar. Estou velho.
Eu sou a chuva, que molha mas que seca rapidamente. Sou aquela presença efémera. Não sou um marco, uma referência. Sou apenas mais um vulto que deambula por aqui, sem realmente deixar uma marca. Sou a gota incómoda que qualquer guarda-chuva reflecte, sem nunca perder um segundo a reflectir na sua existência.
Cada vez mais o cansaço penetra à raiz das entranhas, cada vez mais a vida empurra a tomar a decisão que não se deseja mas sendo verdade que episódio, atrás de episódio, compreende-se que não há outra opção válida, é apenas o sinal de seguir em frente. É forçar ignorar um farol de luz intensa a delinear o futuro.
Respira, perdoa, resigna, passa uma borracha e aceita a única solução que o destino oferece, faz já algum tempo. Tens de ir embora, é essa a resposta que está à tua frente. Não tenhas medo. Eu sei, só eu sei o que sentes mas não pares no tempo, porque quem amas, nunca parou por ti. Nunca deu uma demonstração de amor e não vivas na esperança de um dia vislumbrar algo, porque só vais ficar parado no tempo, esperando um milagre que nunca vai acontecer. Já não há mais lenha por onde arder e o futuro clama por ti.
Deixa de lado esse semblante infeliz que cada dia marca mais o rosto cansado. Um olhar molestado por tristezas, que acumula uma velhice precoce mas presente. Deixa de viver no limite, ansiando por uma punição, como forma de perdão e que nunca vais alcançar. Pára. Quem és tu? Cada vez menos nada. Realmente, pára. Para onde vais? Cada vez mais para um abismo profundo. Ganha ânimo, cria objectivos. Não podes continuar a viver na esperança de respirar um ar que já não é teu por direito. Aceita, nunca foi. Acorda para a realidade!
A fórmula do renascer, está na chuva, que lava o passado. Tu és a chuva, que todos conhecem e a poucos tocas. É a chuva que relembra, que há sempre um recomeçar. Há sempre uma nova hipótese. Um fenómeno mutável e esguio que se adapta ao presente.
Quando as nuvens abrirem e o sol raiar, recorda que perdeste tudo e aceita isso como uma verdade imutável. Aceita. Já estás no fundo, portanto, o que é que tens a perder? Arrisca, vai-te embora. Agora o futuro só pode ser a subir e a tua possível cura chama por ti. O céu inclina-se e segura a tua mão, dando a direcção correcta através do trilho de fogo. O fardo que relevas, só alivia se aprenderes a seguir em frente.
Espero que da próxima vez que escrevas, seja para dizer-me que estás feliz, porque agoniza-me saber, que já não és crente. Que já não acreditas em finais felizes.
Abraço meu amigo, falamos quando adormeceres e a almofada for aquela companheira, que revigorará o ânimo. Não percas a esperança em dias de sóis!
Estou cansado de correr. Corro todos os dias uma maratona. É a forma de manter-me ocupado, é um antídoto para pensamentos que não levam a lado nenhum.
Durante dois anos dei tudo de mim, transpus barreiras, orgulhos, dignidade. Porque acreditei. Acreditei sempre no cenário que tinha à minha frente. A mulher perfeita, a filha adorada, uma família, um lar. Nunca fui capaz de aceitar que estava num meio que não era meu por direito, não por falta de integração mas por falta de aceitação. Nunca a tua mãe fez-me sentir que merecia o que vivi.
A vida já foi madrasta o suficiente para saborear o que é a marginalização. Seja devido à atitude, postura, história de vida, condição física, monetária ou valores. Ninguém merece ser marginalizado nestas condições. Ninguém, muito menos eu.
Amo a minha enteada, como se tivesse sido gerada por mim. Revejo nela traços meus, o que faz-me sorrir. Adoro perder-me nas suas brincadeiras, nos nossos momentos... sinto a tua falta, fazes-me falta Princesinha e dou por mim muitas vezes a falar dos nossos momentos. Faz-me falta o teu sorriso, esse riso peculiar e aquele beijo desmesuradamente bruto que adoro de paixão, como sendo o melhor presente que o mundo pode oferecer.
Amo a tua mãe, independentemente de todas as mágoas que tenho. Não se resume à vergonha de assumir, é tudo que demais adveio daí. Há episódios demasiadamente maus, para compensar uma luta, que só eu quis batalhar, onde só eu fiz força para que acontecesse. Não deveria ser assim. Uma relação não dever ser oculta, não deve ter entraves se o amor existe. Ainda há demasiadas memórias violentas que não desaparecem com o tempo. Amo mas acho que nunca vou conseguir transpor a mágoa de alguns episódios.
Depois de toda a castração que vivi, a última coisa que quero, é sentir que sou algo que devo ser escondido. Não tenho vergonha de mim, do meu percurso porque é que alguém, que está do meu lado, deverá ter? Já fiz muitos erros, já passei por grandes dificuldades, passei fome, vivi na rua mas se há poucas coisas de que tenho vergonha, uma delas é, a maneira repulsiva como a tua mãe não soube aceitar o amor que tivemos Banalizar a dedicação, o nosso amor, esconder, negar.
Princesa, eu sei que estes últimos seis meses, nada dei de bom e para nada contribuí na tua vida, acredita que não é fácil manter esta distância e custa-me horrores. Era uma base na tua vida, que hoje falta. Não quero dar desculpas para esta ausência mas a verdade é que independentemente deste afastamento preciso que saibas que adoro-te. Desculpa assumir desta forma, mas para mim, aos meus olhos, és minha filha. Não de sangue mas de vida e sinto tanto a tua falta, como acredito que sintas a minha.
A grande questão é aprender a viver com a ausência. Tua, da tua mãe, nossa, da nossa família e acredita, não tem sido fácil. É a opção racional de preservar, de manter alguma dignidade, a levar a melhor sobre a opção emocional, de voltar mais uma vez a desculpar os erros passados e sentir que era possível chegar a casa, rolar no tapete abraçado a ti, enchendo-te de beijinhos, sem conseguires parar de rir. Essas são as memórias mais difíceis.
Um dia alguém há de aparecer, alguém para preencher esse vazio que deixei, confia em mim. Pode demorar mas isso vai acontecer, porque a tua mãe tem discernimento para saber quem é que será essa pessoa e acredito que ela vai saber escolher bem. Infelizmente para mim, essa pessoa não fui eu.
Independentemente do que o futuro trouxer, por favor nunca esqueças. Lembra-te, que estou à distancia de um telefonema, que sou um amigo, confidente, um apoio e que sempre mas mesmo sempre estarei disponível, porque amo-te.
Um beijo deste teu pai adoptivo, que morre de saudades tuas
O vaticínio várias vezes arremessado, como uma maldição que alcançaria o seu desígnio talvez seja mesmo o final prometido. Quando a sucessão de eventos, teima em afirmar o trilho do destino, aceita o peso sobre o peito que teima em asfixiar e resigna a vontade, a pedaços de nada.
Prostrado em quarto escuro, envolvido pelos lençóis, em busca da companhia que só vive na memória da alma, a solidão é a recompensa oferecida, que aperta o querer e ainda mais o que não se quer. É uma lágrima que cai na convicção sem intenção de mudar a postura. A postura é a correcta. A razão, esse troféu que se conquista perdendo tudo.
Chega de sonhar com a felicidade, essa utopia que tolhe o movimento e entorpece a vontade. A letra do fado, já foi escrita e rasurada o suficiente, para compreender que o momento final, penetrará o coração contaminado, fundido à penumbra de um quarto vazio. Vazio, como a vida.
Já se morre a morte certa. Aconchega o corpo na bruma da solidão, envolve e aceita, que o mundo continua a girar, sem nunca se importar com a sua existência e mantêm sempre presente que o pecado foi sonhar.
Ainda vive em mim a vontade de resgatar um sonho, um sonho que sempre foi só meu. Uma ilusão que só a mim envolveu, embriagou e talhou o mais intimo de quem eu sou.
Eu sei, eu realmente sei que foi apenas uma grande ilusão, porque quando alguém se dedica, não existe aborrecimento, perda, não existe esforço... dá porque o acto de dedicação satisfaz.
O acto de assunção, é algo natural que advém de um estado de espírito. Não se força. não se exige, existe porque é o caminho da essência de um estado, de uma condição.
Embora, com a plena noção da realidade, não deixa de chorar o sonho perdido, por mais que o fogo se torne chuva dissolvente, ela corrói na esperança de pensar que poderia haver uma opção para outro rumo, outra hipótese, que acima de tudo não levasse ao desespero e a tanto sofrimento. Será que havia essa possibilidade? Será que era possível não humilhar ou mesmo humilhado, ser assumido? É tão difícil acreditar mas irá sempre pairar essa possibilidade na nuvem cinzenta.
Cansado de viver assim, cansado de sentir falta, cansado de não ultrapassar o muro do amanhã e nem com o anjo que sustenta e dá guarda ao ser, consegue suportar tamanho fardo para transpor tamanho obstáculo mas tudo passa, tudo sempre passará. A Vida vem em ondas como o mar, num vai e vem infinito... e chegará o dia que esse muro será transporto.
O vício de ti vai passar, porque o orgulho de quem sou é maior do que tu. Arrebataste o meu mundo, foste mais e és sentido de viver mas atravessaste a linha da decência, do respeito, de tudo o que possa ser imaginável.
Amo-te e tenho a noção que dediquei-me a ti de uma forma impossível de alcançar. Tomaste isso como garantido e não soubeste valorizar. Finalmente parecia ter encontrado a "minha" família. No final, era só mais um "amigo" que iludiu-se com tudo.
Foste tão minha amiga, leste a minha alma como ninguém mas no fim a grande dor, é entender porque escancarei a porta para entrares? Como fui eu capaz de deixar-te entrar e permanecer por tanto tempo? Como fui eu capaz de suportar a ausência, banalização e sobretudo, a irrelevância?
Eu sei que tu sabes. Eu sei o que sentiste. E acredita que sempre soube muito mais do que tu! Só não consigo compreender a falta de aceitação. Sê o que queres ver no espelho. Sou um ser amargo, batido e rebatido pelas vicissitudes da vida como poucos e mesmo assim consigo ter algo que tu não conseguirás alcançar tão cedo. Esperança :)
Esperança em acreditar num dia melhor. Esperança, em acreditar que se calhar, numa improvável sorte magnífica, encontrei a pessoa ideal para compartilhar a minha vida. Passaste muito, sofreste muito mas acredita que o meu percurso foi muito mais sinuoso do que o teu, tu sabes isso. Mesmo assim, sou e serei sempre uma pessoa recheada de esperança. Acredito, com a mais pura das certezas, que o melhor ainda está para vir e que serei um tipo realizado quando alcançar esse meu objectivo e ele há de vir, porque eu mereço e eu sei que tenho o direito a ser feliz.
Poderias ter sido tu. Aliás, acho que tu sabes, que só tu tiveste tudo para seres tu mas deitaste tudo a perder. Quando não confias, quando desrespeitas, quando criticas, quando só consegues ver mal, mesmo onde ele não existe e mesmo assim duvidar do amor que te era oferecido.
Sou o grande culpado por essa tua postura e sinto-me frustrado por isso. A culpa que senti, fez-me admitir o que nunca permiti na vida. Invasão de privacidade, absurdos públicos, humilhações, violência, etc, etc. Como pode alguém a quem dedicas tanto amor, ser capaz de olhar para ti com tanto nojo? Não morri Doce, embora tenha sido o que desejaste na minha cara. Não vou morrer tão cedo, porque o meu percurso há de ser árduo, repleto de emoções e duradouro. Tanta pena tenho que não tenhas sentido o amor. Sou o reflexo de um espelho que nunca conseguiste deslumbrar. Onde as névoas da mágoa que pairavam no teu coração, deturpavam a imagem do casal perfeito. Tão lindos que fomos, que exemplo de família feliz... que pena eu tenho que tudo tenha sido uma mera ilusão, que nunca fluiu para o exterior e que só eu soube vislumbrar a imagem perfeita.
Hoje és um vício que combato, como uma dieta. Como um alcoólico que quer mudar de vida. Já não tenho desculpas para os teus abusos, violações e desrespeitos, resta aceitar que tenho de curar-me. Sinto-me triste, envergonhado por ser conivente com tamanhas cenas dantescas. Partiste óculos, computadores, atiraste roupa para a rua, quase partiste-me a mão, marcaste-me os braços, pescoço e a cara (as marcas dos braços, são mais umas cicatrizes que trarei comigo e que vão sempre relembrar a tua existência)... desejaste que morresse, que estou podre, chamaste a polícia como se eu fosse um ladrão. E a isto tudo, respondi como? Tentei arranjar uma desculpa para cada acto tresloucado. Hoje, esse não sou eu.
Amanhã podes ler estas linhas e ainda teres mais ódio mas o que tu possas interpretar, a mim já não me faz diferença. Depois de teres-me pintado como um monstro, besta, podre, usurpador que só te tratou mal (tão mal que foste tratada que estiveste dois anos com este canalha!) Aquele que não servia para teu namorado, marido, a quem foste contar do pior às amigas, que escondeste, colocaste em segundo plano e que acima de tudo fizeste questão de deixar sonhar quando nunca pretendeste dar-lhe uma hipótese de fazer parte da tua vida. Foi um idiota, casmurro, arrogante, de feitio complicado que amou-te tanto, tanto, que por breves momentos esse amor chegou a ser sublime. Isso eu sei. Foi o par perfeito que nunca chegou a ser, por culpa de tamanha desconfiança e falta de aceitação. E a aceitação foi sempre a única coisa que esse idiota esperou da tua parte.
Não te desejo mal, quero o teu bem mas longe de mim. Não vou interferir para o teu bem, como não vou interferir para o teu mal mas és um vício que estou a curar e graças a muita vontade, vou no bom caminho. Hoje já não te sinto da mesma forma, já não sou um dependente e digo-o da forma mais sincera que sei. Escrevendo. Já te tornaste uma memória e isso é a pior coisa que um futuro a dois poderia almejar. És mais uma memória.
Acredita, cada dia que passa, torna-se mais simples. Faz tempo que prometi a mim mesmo, não procurar notícias tuas e assim tenho feito. Não sei onde andas, o que tens feito e assim pretendo manter-me. Mas adorava, realmente adorava. Que por um eventual acaso daqui a uns tempos, viesses encontrar-nos numa rua qualquer e tivesses a humildade de pedir desculpas sinceras, não de ocasião. Porque eu mereço, eu sei que mereço e seria sinónimo que havia um ponto final que nunca tivemos e ambos merecemos.
Tu és um veneno que corre na minha veia e que estou a expulsar aos poucos e poucos para tentar respirar. E eu sei que vou conseguir, sabes porque? Porque eu fiz muita asneira na minha vida e eu só queria alcançar um objectivo. Sentir-me amado. Ter alguém dedicado a mim, com metade da intensidade que eu dediquei a ti. Eu mereço, mesmo com todos os erros que tenho no meu caminho (não sou nenhum santo nesta história, também deveria ter tido mais paciência contigo) mas porque a besta que está podre, que tu preferias que estivesse morto, que por estar morto faria a tua vida mais feliz, também é um ser vivo que merece rendição, respeito, amor e afecto. E que por tudo isso e por tudo o mais que abdicou e suportou para simplesmente tentar que um "nós" contigo resultasse numa história feliz, merece algo mais da vida. Ter suportado, toda a violência, desconfiança, humilhação, insultos, servirá com toda a certeza como prova de penitência, para que Deus seja justo e permita-lhe um um resto de vida feliz.
Um conselho para um futuro feliz. Não faças o que fizeste comigo com mais ninguém que apareça no teu caminho. Primeiro, porque acho difícil que alguém fique para suportar a humilhação e desrespeito da forma que eu suportei. Segundo, porque se queres ser feliz. Sorri. E é isso que terás do outro lado da cerca. Não basta pregar, é preciso fazer-lo. O amor, não é um campo de batalha. É onde os supostos inimigos tomam a iniciativa de dar as mãos para percorrer um caminho singular.
Que pena tenho de não teres sabido cuidar e amar o que de mais precioso tenho. O meu coração insignificante que te ofereci cegamente. Adeus CSaid.
Nuno completava os exames finais do ensino obrigatório, adiando uma decisão que não pretendia tomar. O seu forte sempre tinha sido o desenho e o seu pai pretendia que o filho fosse arquitecto. Embora não estando convencido dessa escolha, pretendia fazer a vontade paternal mas para dar continuidade aos estudos, abria-se um dilema na sua mente. Não poderia manter-se no colégio que acolhera-o nos últimos quatro anos, por não leccionarem essa área.
Após o último exame e levado por um impulso trocista, lembra-se de fazer mais uma das suas tropelias e dirige-se à sala de ping-pong deserta. Começa a desenhar nas paredes, pinturas obscenas e cómicas de carácter sexual tendo por personagens alguns dos professores. Inocentemente ou talvez ingenuamente não compreendeu a gravidade do seu acto. Facilmente foi descoberto o autor da obra, culminando com a chamada de Madalena ao conselho directivo do colégio. O convite para abandonar o colégio, foi a alavanca necessária para forçar a decisão que Nuno não queria tomar. Transferir-se para outro colégio.
Madalena, decide então inscrever os dois filhos no colégio onde o pai de Nuno tinha estudado e que sempre afirmara ser o local onde gostaria de ver os filhos. O episódio das pinturas murais, foi escondido do pai, não havia razão para azedar uma relação que já por si não era saudável. Pai e filho, eram distantes e era frequente existirem discussões motivadas por essa distância que o Pai sempre cultivou. Madalena, achou que Luís ter conhecimento do episódio, não iria abonar para melhorar esse relacionamento. O Pai contente por saber que os filhos iriam para o "seu" colégio, nunca desconfiou da razão para a mudança.
Ao entrar neste novo mundo, Nuno voltou a sentir-se perdido. Deparou-se com uma realidade bem oposta. O ensino era bem mais exigente e embora fosse causa de apreensão, não era tão assustador como as diferenças que encontrou na convivência com os outros colegas. A existência de uma diferença bem realçada entre os grupos sociais, causava-lhe revolta e injustiça e era algo com que não sabia lidar. Por um lado haviam os betos, onde todos se vestiam de igual, com uma postura intransigente no rigor das peças de roupa utilizadas, da maneira de estar, de falar, que se consideravam superiores e apresentavam uma postura arrogante perante os outros. Do outro lado da barricada existia um grupo mais reduzido. Os renegados, que era onde se enquadravam todos os outros adolescentes que não cumpriam a rigor as normas impostas pelos betos. O adolescente que não lidava bem com imposições e injustiças foi proscrito a ser parte do segundo grupo.
Foram três anos, em que a rebeldia foi crescendo dentro de si. Nuno fazia questão de distanciar-se da postura do grupo predominante. Sempre que podia escapulia-se do colégio, furou a orelha, começou a andar de botas e calças de ganga rotas e era o primeiro a fazer frente quando presenciava alguma injustiça cometida contra um dos renegados. A revolta que crescia, por ter de se manter num colégio onde tinha de conviver com pessoas com quem não se identificava, era reflectida nas atitudes que tomava e que muitas dores de cabeça trouxeram a Madalena. Nuno tornou-se um adolescente problemático.
Ao chegar aos dezoito anos, Nuno já trazia consigo um historial de conflitos. Era frequente ver o rapaz entrar em rixas, para tomar partido na defesa de alguém. Cometeu muitos actos de rebeldia e embora escondesse dos pais muitas das loucuras que fez, as discussões com o Pai acentuavam-se, por cada vez menos entender a postura distante e crítica que o progenitor assumia com os filhos. O único refúgio que encontrava, era em casa da sua Querida, onde o adolescente não se deparava com julgamentos mas com uma abordagem positiva na tentativa de chamar-lo à razão.
Foi também neste período que Nuno conheceu o seu primeiro amor. Uma discreta morena, de olhos verdes, com um sorriso que explanava ternura e uma inocência que Nuno admirava mas que já tinha perdido. Foi um verão inesquecível, onde os dois adolescentes passaram horas infindáveis à conversa, a deambular pelas páginas da vida de cada um. O brilho reflectivo pelos olhos dela, sempre que Nuno falava, enchiam o coração do rapaz e a ternura que ela colocava em cada gesto, traziam-lhe um reconforto que não conseguia encontrar em outro lugar. Ana, vinha de uma família conservadora e que não viu com bons olhos o namoro com um rapaz que se apresentava de brinco na orelha e calças rasgadas. Tomaram-no por marginal e Nuno sentiu-se injustiçado. A mãe proibiu a filha de dar continuidade à relação e embora os adolescentes ainda tivessem tentado manter o namoro às escondidas, a pressão de toda a situação, fez com que Ana quebrasse. Nuno sentiu-se impotente para alterar o curso dos acontecimentos e embatendo na intransigência da mãe de Ana em alterar a imagem que tinha sobre si, os adolescentes não encontram outra solução que não fosse terminar o namoro. Nuno perdia assim o primeiro pedaço do seu coração.
Vendo-se perdido, sem saber que rumo dar e tendo a percepção que manter-se junto das más companhias, com um estilo de vida degenerativo, não agourava um bom futuro, decide que a única solução para os seus problemas é sair de Lisboa. Se pretendia ser alguém, teria de distanciar-se.
Um dia decide ligar para o Instituto da Juventude e perguntar que cursos sobre arte existiam fora de Lisboa. Deram-lhe duas opções. Porto ou Coimbra. Porto é uma cidade, onde Nuno nunca se sentira confortável, talvez pela sua escuridão ou pela falta de orientação que sentia sempre que se deslocara à capital do norte. Coimbra, por sua vez, trazia-lhe boas memórias. Era o lugar onde ia todos os anos acompanhar o Pai, no Rali Rainha Santa. Já conhecia algumas pessoas da cidade, os pais tinham lá amigos. E as visitas à cidade estudantil eram a única altura do ano, onde Pai e filho, mantinham uma relação saudável. Estava decidido, iria optar por Coimbra.
Sem colocar os pais a par da sua decisão, decide rumar a Coimbra e fazer a sua inscrição. Levantou-se cedo e seguiu com um amigo, em direcção à estação de comboios. Era o último dia para fazer a adesão e chegou mesmo em cima da hora de fecho. Tratou da papelada e rumou de volta a Lisboa, sem que mais ninguém além do amigo, soubesse da sua opção.
Ao chegar a hora do jantar, surgiu o comunicado: -Vou estudar para Coimbra! Os pais olharam um para o outro e enquanto Luís soltou uma gargalhada, Madalena manteve a vista no rapaz, com um ar sério. Luís replicou: - Tu pensas que isto é assim? Agora queres ir estudar para Coimbra e vais!? Nuno mantinha-se calmo a encarar o pai de frente e retorquiu: - Já inscrevi-me. Madalena, que contemplava o diálogo, percebeu imediatamente que o filho estava decidido.
Passaram as duas horas seguintes a tentar demover o adolescente, que o investimento que teriam de fazer, seria a última oportunidade para o filho se redimir e que desistir não era uma opção. Mesmo assim, não conseguiram demover o filho da decisão e em Setembro, Nuno iria dar continuidade à sua vida na cidade estudantil.
Pela primeira vez desde que retornara a Portugal, Nuno, agora adolescente, encontra estabilidade na sua curta vida. Ao dar entrada no colégio particular, descobre um ambiente mais equilibrado, as boas notas retornaram e faz os primeiros amigos fora da única vida que conhecia, a sua praceta.
É neste colégio, que ganha a alcunha que para sempre irá estar associada à sua pele. Este episódio nasce, devido à sua descendência Franco-Alemã, os seus apelidos encontravam-se mal escritos na pauta e num dos primeiros dias de aulas, uma das professoras ao fazer a chamada e ao chegar ao seu nome, não obteve resposta. Voltou a pronunciar o nome e mais uma vez não obteve resposta. A professora, já alterada por o aluno não responder à chamada, volta a repetir o nome que se encontrava na pauta. Desta vez Nuno respondeu. - Setôra, deve estar a chamar por mim, mas esse não é o meu nome. Ao que a professora replica: - Se está na pauta, é porque é o seu nome! Nuno, que não era miúdo de se conter, responde no mesmo tom: - Setôra, eu posso não saber ler, nem escrever, mas ainda sei o meu nome! Foi a porta aberta para a risota da turma e desde esse dia, Nuno passou a ser tratado entre os colegas, pelo nome que constava na pauta e do qual nunca mais iria conseguir desassociar-se.
Depois deste episódio, Nuno tornou-se rapidamente conhecido no colégio, não só por culpa da alcunha por que era tratado mas também pelo jeito fácil como comunicava. Era também um dos rapazes mais populares no pátio, por ser dos melhores praticantes de futebol. Os intervalos entre as aulas eram passados no pátio a fazer jogos com outros colegas, onde era sempre escolhido para a melhor equipa.
O último ano tinha sido de difícil adaptação. Um liceu estatal, onde a criança encontrou miúdos que forçaram à perda da sua inocência, o corte de relações entre o seu Pai e a sua Querida e a primeira percepção de perda. A morte do seu Avô Papi, que os cigarros teimaram em levar para o céu, envolto no fumo do último cigarro. Passado este período de adaptação a uma nova realidade, a novas sensações, o miúdo parecia ter encaixado e encontrado o rumo a seguir.
Foram quatro anos, em que o adolescente foi crescendo num ambiente saudável e harmonioso. Dedicou-se à sua paixão pelo futebol, foi convidado por um clube, perto de casa, para criar uma equipa e participar nos jogos da cidade de Lisboa, onde obteve um honroso quarto lugar. Seguiu-se o campeonato nacional de futsal durante três anos, onde o ponto alto, foi ser vice-campeão de Portugal e ter sido o terceiro melhor marcador do campeonato. Dava tanta importância ao futebol, que chegou a mentir à mãe para ir treinar um sábado de manhã, quatro dias após ser operado a uma apendicite. Fizesse chuva, frio, nada retinha-o de estar presente em todos os treinos e jogos.
Durante este período, talvez resultado da sua postura comunicativa e do sorriso sempre presente, teve os seus primeiros namoricos mas como nunca tornava-os prioridade na sua vida, acabavam sempre rapidamente sem guardar lugar relevante na memória e sem fazerem mossa ou rancores de ambas as partes, sobrava sempre a amizade.
As notas escolares eram exemplares, sem nunca ter de se esforçar, bastando estar atento nas aulas para assimilar a matéria e conseguir um bom desempenho nos exames. Entre os colegas, evidenciava-se a sua personalidade forte e a sua boa disposição, sempre pronto para criar umas tropelias inocentes que a todos fazia rir.
A vida familiar era equilibrada e rotineira, dividida entre os passeios familiares com os pais e o seu irmão, e os fins-de-semana com a sua Querida e o Padrinho, que entretanto tinham contraído matrimónio.Continuava a ir com frequência, passar os finais de tarde ao café, para beber da sabedoria da sua Avó, que alternava com as tarde passadas com os colegas do colégio.
O rapaz era um adolescente feliz com a vida que tinha e isso emanava na sua postura do dia-a-dia.
Passara-se um ano, desde a mudança para São Paulo e Luís encontrava-se agora num beco. O seu mentor profissional, que tinha promovido a sua ascensão na empresa, tinha sido despedido e as previsões de futuro não eram animadoras. O seu lugar estava em risco e antes de chegar a um limite extremo, negoceia um acordo de rescisão de contrato. Cansado e com saudades do seu país, Luís debatia-se com um dilema. Voltar a Portugal ou ficar no Brasil, voltando para Salvador. Madalena era a favor de ficarem, argumentava que o choque da mudança seria maligno para a relação e para os filhos que já estavam ambientados à cultura brasileira. Nuno, também era contra o retorno. Embora fosse muito novo, tinha a percepção que retornar, era sinal de abandonar tudo. Os seus amigos, a escola, o mundo que conhecia e que tomava como seu.
Mesmo contra a vontade da esposa e do filho, Luís decide voltar. Houve um jantar de despedida no Pátio Alfacinha com promessas de não perderem contacto mas que o tempo se encarregaria de apagar. Foi assim, num final de verão, que a família retornou a Portugal. Ficaram a viver em casa dos pais de Madalena, a pedido do Avô de Nuno. Não fazia sentido procurarem uma nova casa, com um apartamento tão grande e havia o argumento do apoio familiar, que seria de grande ajuda na adaptação e educação das crianças.
Para Nuno, os primeiros tempos foram de adaptação, sentia-se um corpo estranho neste novo mundo. O tempo era frio o que impossibilitava viver de pés descalços como sempre fazia. As outras crianças da praceta embora tenham aceitado a sua presença, como sendo mais um do grupo das crianças, faziam troça do seu sotaque brasileiro, o que enfurecia Nuno. Pensava que ser apelidado de Português quando vivia no Brasil, iria morrer agora que voltava à sua pátria. Ao invés, ganhou novo apelido. Era o Brasileiro, por causa do seu sotaque. Felizmente, perdeu o sotaque rapidamente, o que fez com que o apelido desvanecesse das bocas das outras crianças. Passou a ser conhecido pelo Luís Nuno.
Os anos de Brasil, foram muito protectores para com Nuno, fazendo dele uma criança pura e inocente e isso ficou provado com os primeiros episódios em Portugal. Nuno era o único pré-adolescente, que ainda acreditava no Pai Natal e embora este episódio possa ser visto com ternura, as crianças conseguem ser muito cruéis perante tal ingenuidade. Nuno chegou a brigar com outra criança, porque esta difamava a existência de tal personagem. Também nunca soube o que era um palavrão, nunca tinha ouvido pronunciar essas palavras proibidas nos seus anos em Terra de Vera Cruz e isso aguçou o azo dos outros miúdos na prontidão de ensinar-lhe. Eram os primeiros passos para a perda da inocência.
O que mais agradava a Nuno, eram as tardes. Dividia o seu tempo no jardim em jogos, a saltar os muros para surripiar as frutas das árvores e a jogar futebol, onde era considerado um dos melhores da praçeta e arredores. O final de tarde, era passado no café da esquina, onde estudava com a sua Querida. Era ver-lo fascinado, embevecido com a cultura da avó, deliciava-se com o desenrolar de conversas infindáveis, onde a avó explicava a história do mundo, das línguas, dos países distantes e culturas tão distintas. Estas palestras duravam até o seu Padrinho vir buscar a sua Querida para jantar.
Os fins-de-semana eram alternados entre os passeios por Sintra, a visitar os familiares que por essas bandas viviam, com almoços tardios pelos melhores restaurantes que proliferam nesta zona do país. O final de tarde eram dedicados às feiras, onde Madalena procurava as suas raridades. Por outras vezes, Nuno passava os fins-de-semana, com a sua Querida, em casa do Padrinho. Mesmo já adolescente, a Avó tratava-o com toda a ternura, como se de um ser frágil se tratasse. Eram os pequenos-almoços reforçados, que Nuno tanto apreciava, os banhos de espuma e os passeios por zonas históricas, onde a sua Querida deslumbrava-o, relatando as histórias que se escondiam em cada pedra, em cada rio, em cada paisagem.
Nuno entra no Liceu e o primeiro ano, é o sinónimo da difícil adaptação. O aluno aplicado, tinha dado entrada numa escola estatal, onde às más companhias conjugadas com as diferenças que encontrou no ensino, quase fizeram-lhe perder o ano. Madalena decide então colocar-lo num colégio particular, tentando salvaguardar alguma da inocência que o miúdo tinha perdido com esta mudança na sua vida.
Era uma vez...
No carinho dos braços dos Avós e da tia, tudo parecia fazer sentido, a amurada familiar no qual estava envolvido, tornaram a vida da criança saudável e feliz. Era um menino que transbordava felicidade, com um olhar expressivo e de sorriso pronto, sendo incutido de uma educação firme e de boas maneiras, que muitos elogiavam. O seu apetite voraz e bom comportamento à mesa de refeição, eram tema recorrente de apostas nos jantares semanais do seu Avô Papi e do grupo de amigos, para o qual a criança era convidada frequentemente.
Era um miúdo que cedo demonstrou ser avido de conhecimento e que apresentava uma aptidão precoce para o desenho, dom que herdara do pai e que deixava a sua Avó muito orgulhosa. Senhora que muito apreciava as artes e cultura, e inspirada com a curiosidade da criança, a Avó, fazia questão em proporcionar o acesso à cultura, incentivando a criança a desenvolver as suas capacidades. A sua relação com a Avó, tornou-se quase umbilical. A maneira ternurenta e dedicada que a Avó tinha para com aquela criatura roliça, de olhar brilhante, fizeram brotar da boca de Nuno, o epíteto porque a partir desse momento todos os familiares passariam a tratar a Avó. Querida.
Foi sustentado por um ambiente familiar feliz, que Nuno cresceu e ganhou as defesas que necessitava. Com quase três anos de vida, viu a sua mãe retornar a Portugal, para dar à luz um irmão. João nasceu no final do verão e Nuno ganhava assim um cúmplice com quem partilhar as atenções. Eram crianças completamente opostas fisicamente. João era um bebé delgado e moreno ao contrário de Nuno, com a sua pele alva, olhos claros, cabelo loiro e gordinho. As diferenças de personalidades também se realçavam. Se Nuno fora precoce na sua curiosidade e aptidões, João demonstrava preguiça em aprender. Nuno era mais dado, João mais descontraído com a vida. Nuno traduzia tudo o que João balbuciava e que era incompreensível para todos. João por sua vez era um bebé sereno e ágil de movimentos, bem diferente de Nuno para quem andar, ainda era uma estranha coordenação de movimentos.
Assim que foi possível, Madalena e os seus dois filhos voltaram para o Brasil, onde Luís aguardava a chegada da família. As condições que Nuno encontrou eram outras. O seu pai tinha subido a pulso dentro da empresa, o que implicava uma melhor qualidade de vida. Um apartamento num primeiro andar numa zona de classe média alta, era a sua nova casa. Estas mordomias, implicavam uma ausência do pai durante longos períodos e Nuno ressentia-se dessas ausências, que o pai tentava colmatar com presentes e a mãe atenuava com um presença constante na vida das crianças.
Nuno ingressou na escola, onde o seu ponto forte continuava a ser o desenho. Era uma criança que demonstrava uma personalidade forte e onde a sua avidez de conhecimentos faziam dele um aluno atento. Sentia-se livre na Bahia, adorava andar descalço tendo sempre como companhia uma manta, a lembrar a personagem de Linus da banda desenhada do Snoopy. O Avô Papi, fervoroso adepto dos Belenenses, enviara como presente para as crianças, equipamentos do seu clube e uma bola de futebol. Foi o primeiro contacto de Nuno com esse desporto, sem imaginar que iria ter tanta dedicação àquele esférico durante a sua vida. Embora nenhum dos seus pais desse importância àquele desporto, Nuno ganhou imediato fascínio por aquele objecto redondo e com o chegar do Mundial de 82, compreendeu como aquele desporto movia multidões. Os pavimentos pintados com frases de incentivo à selecção, os vizinhos que se juntavam no salão para seguir os jogos e em que cada golo era festejado com um entusiasmo que Nuno nunca tinha presenciado. Até os seus pais, que não prestavam devoção, juntavam-se aos festejos.
Os fins-de-semana, eram dedicados ao círculo de amigos. Tornara-se uma tradição os encontros de sábado para os almoços, onde se tocava violão, cantarolando clássicos portugueses e brasileiros. Os amigos desenvolviam representações de peças, como o lago dos Cisnes ou simplesmente sentavam-se à mesa a degustar iguarias, que Nuno tanto apreciava.
Era uma fase feliz, à qual a família portuguesa tinha-se adaptado harmoniosamente, até Luís ser novamente promovido. Tinha 34 anos e ofereceram-lhe a posição de Vice-Presidente, a qual implicava mudarem-se para São Paulo. Mais uma vez, a família encontrava-se de malas aviadas para uma nova aventura. Mais uma vez Madalena foi o pilar das crianças. Com a mudança de cidade, Madalena dedicava o seu tempo aos filhos, onde o auge do dia eram os passeios de bicicleta da mãe com os seus dois filhos, pelas ciclovias daquela cidade caótica, tão diferente dos sons do mar que embalam Salvador. Tudo parecia conjugar-se mas o destino guardava outras ideias para esta família.
Deixa começar por dizer que amo-te,
Um beijo,
da tua mulher
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As palavras morrem, definham e secam, mas existirá sempre o desejo sincero de que o mundo entregue tudo de melhor à rainha e princesa.
O passado não tem retorno e não há nada que eu possa fazer para mudar-lo. Não sei onde estarei dentro de 10, 20, 40 anos. Não sei se vou proporcionar grandes façanhas, que te façam ter orgulho. Não sei quem serei ou o que serei. Não sei se algum dia vou poder oferecer a vida que mereces. Não sei o que virá com o amanhã, nem se vou conseguir proteger-te das intempéries, mesmo daquelas que possa ser eu a criar. Às vezes temos uma única hipótese de sermos felizes e eu não sei se não terei deixado fugir esse momento. Peço desculpa pelos meus erros mas sinto falta de serões intermináveis de conversa, do carinho e dedicação que empregas em tudo o que fazes por mim, do sorriso feliz que me contempla, do brilho alegre que os teus olhos transmitem, de poder fazer-te o jantar que agradeces diariamente. Sinto falta de pequenos nadas, que enchem a alma e me tornam uma pessoa capaz de acreditar que tudo é possível.
Não sei se alguma vez poderei ser tão feliz como fui do teu lado, nem sei se irei sempre optar pelo melhor caminho e se alguma dessas opções não for a mais correcta, se estarás lá para ajudar-me a ver os meus erros.
Há um milhão de coisas que eu não sei mas há uma única coisa que eu sei. E é que amo e vou continuar a amar todos os dias e todas as noites, para o resto da minha existência, dando sempre o máximo de mim para fazer-te feliz mesmo que para tal seja necessário estar dois passos atrás a velar pela tua felicidade.
Obrigado pelo tempo de partilha, por deixares-me fazer parte desse teu mundo e estarei sempre cá para e como queiras










