Num verão de adolescência, fui numa daquelas viagens para aperfeiçoar o inglês, onde se fica hospedado em casas particulares. O destino era Brighton e antes da viagem, cheio de pompa e circunstância, todos os pais e respectivos participantes tiveram um breafing no Hotel do Campo Grande, onde nos informaram sobre as actividades. Entre estas havia windsurf, natação, futebol, viagens lúdicas e as noites seriam preenchidas com festas numa discoteca onde poderíamos interagir com adolescentes de outras nações que aderiram ao mesmo programa. Sobre o tempo, ressalvaram que não se comparava com o habitual frio que se deparava em Londres, pois Brighton era uma vila de veraneantes, onde as praias eram de uma areia clara, o mar calmo e cristalino. A alimentação estaria a cargo dos proprietários das casas que nos acolhiam e que por isso não seria necessário levar dinheiro, sendo este só relevante para compras e lembranças. Durante a nossa estadia iríamos frequentar um curso de inglês, leccionado por formadores experientes. Este curso distribuía-se por meio dia, sendo uma semana de manhã, alternado para a tarde na semana seguinte.
Assim pelas cinco da manhã, de um dia no principio de Agosto, parti com o meu irmão e alguns amigos num grupo de quarenta adolescentes. Primeira paragem em Heatrow, Londres. onde seguimos de autocarro com destino final à praça central de Brighton. Desembarcámos as trouxas, envoltos em chuva e um frio de rachar e aguardávamos a

chegada dos pais adoptivos. Conforme iam chegando, ia fazendo gozo, mais uns colegas, do que aguardava para cada um de nós! Às tantas, chega uma pandeireta a deitar fumo por todos os lados e saí lá de dentro duas matronas e começo eu com a minha grande boca, a fazer pouco do desgraçado que teria a sorte de viajar naquela aventura. Depressa o sorriso desapareceu-me do rosto, quando ouvi chamarem pelo meu nome!!!
Cheguei à minha casa adoptiva, situava-se numa das últimas ruas da vila, a seguir só floresta, era uma daquelas ruas típicas inglesas onde todas as casas se apresentam seguindo a mesma linha arquitectónica. Sendo que a minha era a única com o jardim por tratar e o muro parcialmente destruído. A minha senhoria, fez-me a voltinha de apresentação. No piso térreo tínhamos a sala, a casa-de-banho e a cozinha, onde me aguardavam os dois filhos e um matulão de um cão imundo. No piso superior à direita o quarto da senhora e à esquerda o meu quarto, que teria de dividir com um francês que chegaria daí a uma semana! O asseio era algo prescindível, ao ponto de na primeira vez que fui tomar banho saí do quarto descalço e ao chegar à casa-de-banho já tinha os pés negros! A alimentação consistia numa única refeição. Um pequeno-almoço horroroso que fazia questão de dividir com o matulão do cachorro. A única vantagem, foi o à vontade com que a senhora deixou-me. As chaves de casa, sem horário de entrada, tendo só que preocupar-me em não incomodar ninguém quando entrasse ou saísse.
A primeira coisa combinada pelos monitores era encontrar-nos na praça central, às sete da noite. A viagem de autocarro de casa à praça demorava uma bela e secante hora e acabei por chegar atrasado! A primeira coisa a fazer foi ir ao McDonalds saciar o pedido do estômago, seguindo para a praça, onde começou logo a primeira aventura! Estávamos todos reunidos na praça e um grupo de ingleses, já embriagados começaram a picar o nosso monitor, Hugo. Este não respondeu às provocações mas eu e uns quantos começamos a fazer frente e foi por pouco que a coisa não deu para o torto! O Hugo serenou os ânimos e seguimos para a discoteca onde permanecemos até à hora do fecho que era às onze horas. Como não sabia o horário do autocarro, deixei-me ficar à conversa e perdi o último autocarro que era às vinte e três e um quarto! Toca de fazer-me ao caminho a pé! De phones nos ouvidos fui trilhando o meu caminho durante duas horas e meia!
No dia seguinte só tinha que estar na escola à hora de almoço, o que permitiu-me deambular pela vila umas horas a mais. Estando avisado pelos responsáveis da viagem que se tratava de um local de verão onde o calor está sempre presente, a roupa que levara, consistia maioritariamente em t-shirts e polos mas com o tempo a não mostrar intenção de apresentar um solzito para amenizar o frio, foi um ver se te avias a comprar roupa de inverno! Aproveitei para dar um salto à praia para ver o mar e descobri que a areia clara descrita no breafing não existia, o seu lugar era ocupado por um monte de calhaus, onde terminavam umas ondas enormes que ate faziam um arrepio na espinha! A partir desse momento ficou certo, que ir à praia tomar um banho não era uma opção!
Sem possibilidade de almoçar ou jantar em casa, despendia o dinheiro que tinha trazido para compras, de maneira a poder ir enganando a barriga. Como era impossível ir a um restaurante decente tinha de me contentar com fast-food. Os dias eram passados entre uma seca de aulas que não aprendia nada de novo e as actividades extra-curriculares, que consistia em passar as tardes a passear, em cafés ou enfiado na casa de jogos! Windsurf, futebol e natação, não haviam!
Ainda fizemos duas jogatanas no parque organizadas por nós, pois de outra maneira não nos safávamos e tínhamos de arranjar maneira de nos entreter! Até que numa conversa casual, apareceu-nos uma oportunidade de ouro!
Dizia o Filipe na brincadeira - Isto para passar o tempo só falta é arranjar uma caça aos gambuzinos! - O Jujú que estava entre o grupo responde - Gambuzinos!? O que é isso? - Estava dado o mote!!! Olhámos uns para os outros com um sorriso malicioso e começamos a explicar-lhe que os gambuzinos eram um bicho muito raro, apreciado em Portugal e que valia muito dinheiro! Só era possível caçar-los à noite com sacos, sendo abundantes por terras de sua majestade e que se escondiam em árvores e sítios escuros. O Jujú, sentiu-se tentado e nós iniciámos os preparativos para a caçada!
A primeira questão que se nos colocou foi o local para pregarmos a partida. Esse problema ficou resolvido quando numa das minhas voltas a pé, à noite a caminho de casa, lembrei-me de fazer um corta-mato e dei por mim, não num jardim mas sim num cemitério! Local para a partida encontrado. Faltava encontrar o dia perfeito e desenvolver o esquema da falcatrua! Andámos a treinar o Jujú para a caça e era ver-lo na praça central aos salto com um saco na mão ia a gritar - Gambuzinos para o saco, gambuzinos para o saco!!! - Como estes treinos não passaram despercebidos aos restantes elementos do grupo, tivemos de os por a par do plano e a pedir juras de silêncio, ao qual todos concordaram mas com o pedido de também estarem presentes quando pregássemos a partida.
Assim foi numa noite que todos os elementos do grupo se enfiaram num autocarro em direcção ao cemitério, excluindo o Hugo e o Jujú que seguiram no autocarro seguinte, o que nos dava tempo de manobra para os preparativos. Eu montei uma vela no cimo de uma árvore previamente escolhida enquanto o Jorge se maquiava para a partida final. Os restantes esconderam-se atrás de campas, o mais perto possível da árvore. Quando o Hugo chegou acompanhado do Jujú, este indagou pelo resto do pessoal e o Zé Miguel indicou-lhe que estavam todos distribuídos por árvores e qual era a árvore que tinha-lhes ficado destinada. O Hugo fez o seu papel e disse para o Jujú - Olhá! Está está recheada! Vês como brilham as luzes!? - O Jujú começou aos saltos à volta da árvore, enquanto o Hugo o incentivava! Eu, o Jorge e o Chang estávamos escondidos atrás de um arbusto a cerca de uns dois metros. O Chang gravava a cena em vídeo e o Jorge preparado pelas minhas indicações para entrar no terreno. Chegara o momento da pièce de résistance! O Jorge saí disparado dos arbustos meio aos trambolhões, com o cabelo desalinhado, os olhos escuros e as roupas sujas e rotas, a gritar por socorro! Caí mesmo em frente ao Jujú e murmura-lhe - Ajuda-me! E começa a espumar ketchup enquanto fingia colapsar! O Jujú feito barata tonta começa a gritar pelo Hugo líder e tentando sair dali, começa a dirigir-se para o meio do cemitério! Mas o Jorge teve um momento de lucidez e agarrou-lhe a perna e disse - Não vás! Não me deixes! - Era ver o Jujú de lágrimas nos olhos a gritar pelo Hugo líder! Foi a apoteose! Saem 30 pessoas dos seus esconderijos a rirem desalmadamente com a situação!!!
Foi das melhores partidas em que participei na minha vida! Só tenho pena de não ter ficado com uma cópia do vídeo do Chang.... Talvez um dia destes dê de caras com esse vídeo no You Tube!