The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida

Gostava de trocar de pele. Por vezes queria ser quem não sou, de assumir compromissos, condutas, de não me dar, não sentir tudo de uma vez, no fim há alturas em que gostava de ser um tipo diferente de quem sou. Consigo ter uma racionalidade de comportamento que até a mim, por vezes, impressiona. É sim ou não, não existe talvez. Não perco tempo, não me posso dar a esse luxo. É tão precioso o bónus que me foi oferecido por forças maiores que olho para a vida com uma enorme capacidade de encaixe às contrariedades. Quer, quer. Não quer, não quer. Adapto-me às disponibilidades e vontades.
Fazem de mim melhor pessoa do que na realidade sou, não há ninguém que me conheça melhor do eu e bem sei que sou capaz de deitar fora, de esquecer, de virar costas, quando assim acho que é necessário para preservar-me. Sei que tenho bom fundo, considero-me uma pessoa com valores e de bom trato. Dou a camisola, movo montanhas por quem gosto, estou sempre lá quando é necessário mas não sou boa pessoa porque sei que dou o melhor mas também tiro o tapete, quando me sinto magoado. Não gosto de limbos, não sei conviver com incertezas, ses e afins. A vida já me foi dura para insistir em dúvidas, por isso parto com facilidade para novos mundos, ideias, ambientes. Sou nómada de sentimentos e afectos, porque acima de tudo aprendi a amar e proteger quem sou.
Esta postura vem desde miúdo, embora tenha sido inflacionada com os tropeções da vida. Adorava o meu avô. Foi um pessoa com quem pouco convivi mas que recordo com muita ternura. Lembro-me que em pequeno, todas as manhãs antes de sair de casa, dava a mim e ao meu irmão, um tema para estudarmos e no final do dia, ao jantar, lançava-nos perguntas sobre esse mesmo tema que tínhamos de responder acertadamente, para receber um simples caramelo como prémio. Eram noites que guardo com muito carinho, é uma pessoa que guardo com muito carinho. No dia que faleceu, a minha mãe informou-me a mim e ao meu irmão, da sua morte e lembro-me perfeitamente que não fiz caso, joguei para trás das costas e continuei a brincar como se nada se passasse. É esta a minha maneira de estar. Não me dou ao luxo de magoarem-me, por isso esqueço o que me dói ou simplesmente abstraio-me.
Sim, muita vez acabo por chorar, choro muito a dor que me causam em cinco minutos, deito tudo cá para fora, depois ergo a cabeça e sigo caminho. Por isso, há alturas em que gostava de trocar de pele e não seguir este impulso de continuar, ser melhor pessoa e ficar mas esse não sou eu. Sou nómada, um nómada não sofre, não se prende a nada. Aproveita o que de bom há enquanto existe e depois segue o seu caminho.

Contagem Ao Segundo