Não vou guardar saudades tuas mas não esquecerei os momentos que vivemos. Foi intenso, cruel, repleto de dúvidas, de mágoas e até mesmo desesperante mas obrigado. Obrigado por mostrares o que é a reclusão, a realidade da sobrevivência num mundo selvagem recheado de violencia. Obrigado por recordares, que devemos sempre ser gratos pelas pequenas coisas, que no dia-a-dia damos como garantidas. Como tomar um banho de água quente ou apenas passar uma noite sem frio.
Obrigado por lembrares que podemos ir sempre um pouco mais fundo no fundo do poço. Onde as coisas boas são raras e espontâneas e as más notícias fluem incessantemente. Obrigado por colocares à prova o optimismo, a esperança e a força interior para superar todas as privações.
Obrigado por me fazeres mais forte, mesmo quando estive à beira do precipício da insanidade e físicamente ofereceste uma doença crónica para acompanhar-me no resto da minha existência. Já tinha poucos problemas de saúde, não era?
Obrigado por um ano de nadas e de tudo. De nada ter e de tudo mudar para pior. De muita perda e resiliência. Perda de orgulho, privacidade, dignidade. Resiliência em sobreviver, continuar a lutar e a acreditar num futuro melhor.
Obrigado pela saudade, daqueles a quem fechaste a luz, dos que partem ou apenas apartam. Obrigado pela solidão, o marasmo e a rotina de inadaptado. Obrigado por recordares, que não sou escolha, apenas fardo.
O que teria sido de mim, se tu não tivesses existido? Vai, vai rápido, que já vais tarde, e apenas desejo, que ao ano que cedes lugar, seja o oposto de ti.
Adeus 2016
Demorei a exprimir esta memória, talvez à espera do equilíbrio de absorção necessária para relatar com frieza um episódio que transforma a nossa essência. Passaram-se cinco meses desde que terminou o pesadelo, poderiam ser cinco anos, que as imagens continuariam frescas na memória.
Era terça-feira de carnaval, nove da manhã, um acordar lento. A humidade do inverno enchia os pulmões, enquanto caminhava para o banho. Meia-hora depois, estava pronto para sair, não havia nada em casa para o pequeno-almoço. Abro a porta de entrada e um frio apodera-se de mim, sentindo-me encurralado, sabia que não havia solução. Dois guardas nacionais, estavam a abrir o portão e a encarar-me de frente: - Sabe porque estamos aqui? Sim, sei - respondi. Era inevitável e assim fui conduzido ao posto.
Enquanto tratavam da papelada burocrática, com argumentos solidários, que não fazendo sentido a sentença, eram obrigados a cumprir o mandato de captura. Deixaram-me avisar a minha mãe e amiga/advogada, do que se passava. Ambas vieram em meu auxilio. A minha mãe trouxe cigarros e um pão, para poder matar a fome que entretanto tinha-se desvanecido. Tentei manter a frieza necessária para delegar os recados urgentes e ao mesmo não transparecer o pavor que se apoderava de mim. Ia passar os próximos cinco meses da minha vida numa prisão.
Foi num abraço apertado que me despedi da minha mãe, reconfortando-a: - Eu consigo sobreviver a isto, não se preocupe. Entrei no carro da patrulha, sem olhar para trás, para quê verem o desespero que tomava conta de mim? A viagem foi feita numa marcha lenta interminável, contemplando o vazio, absorvido pelo sentimento de culpa e de perda.
À entrada no estabelecimento prisional , um declive escondido do resto do mundo, sou encaminhado para a secretaria, onde despi a alma e o corpo para uma inspecção. Encostado a uma parede, a foto de perfil para reconhecimento e a perda de identidade. A partir de agora, sou o 307, é esse o meu nome aqui. Um número, apenas mais um no meio de 800 e poucos. Terminado o exame corporal, um guarda conduz-me à ala. Abre-se a porta do inferno. Uma secretária em madeira solitária ao centro do espaço, sentado indiferente à minha chegada, jaze um guarda prisional na cadeira. Ao redor um gradão, onde se empoleiram um amontoado de caras de poucos amigos. O guarda levanta-se, enfia a chave no ferrolho e sou literalmente engolido por uma multidão com perguntas: de onde vens? o que fizeste? quanto tempo apanhaste? Dá-me um cigarro, dá-me já um cigarro! Os guardas, a dois passos, assistem à cena indiferentes, é um filme visto e revisto e para o qual já não têm interesse. - Dirija-se ao chefe de ala! Grita a voz de ordem. - Ali, vai ali, dizem os outros reclusos. Entro numa pequena sala, empurrado por uns quantos. Boa tarde - digo eu. Sem nunca levantar os olhos do papel, diz o chefe de ala, pegue o saco, tem aí a roupa. Não perca... já o encaminham para a sua cela. Arrasto o saco de plástico, juntamente com a minha dignidade, para fora da sala. Continuo a sentir empurrões, perguntas mil, ameaças, mas a minha alma não está ali. Balbucio palavras, que nem consigo reconhecer. O barulho agressivo é ensurdecedor.
Deparo com a degradação que será o meu espaço nos próximos 150 dias. Um cubículo 3x2m, paredes cobertas com resquícios de sangue, uma pequena mesa encostada a uma das paredes laterais. Do lado oposto, uma cama singular de ferro, pintada a tinta acrílica vermelho rubro, descascada do tempo e do uso, deixando transparecer a ferrugem da idade. Um contraplacado a fazer de estrado e um colchão de espuma com 5cm de altura, prenúncio de que dormir uma noite relaxada será um luxo inalcançável. À cabeceira, uma meia parede a servir de divisória para a casa-de-banho, onde mora uma sanita em inox sem tampo, respingada de urina seca, proclamando que nunca fora propriamente limpa. Um lavatório, também em inox, povoado de calcário e por cima um espelho, embutido na parede de azulejos, desfeito em cacos. O meu rosto reflectido no recorte dos cacos, apresenta as linhas de uma cara sem alma, onde o futuro deixou de existir, apavorado com o sentido de estar a pagar todos os erros de uma vida. De frente para a sanita, um espaço para duche quadrangular, com cerca de 50cm. Onde sobressaía o chuveiro partido, remendado com uma garrafa de plástico cortada, para ajudar o fluxo da água. Três barras na janela, de vidros partidos, não deixam esquecer que não se trata de um quarto mas de uma cela de prisão, onde terei de aprender a sobreviver como nunca antes tinha sido necessário.
Respirei fundo, engolindo todo o pavor em busca de uma réstia de coragem no fundo do saco de plástico. Retirei os lençóis, fronha, almofada e os dois cobertores. Fiz a cama, com toda a calma, pois o tempo era algo que não faltava e qualquer distracção servia para abstrair do barulho agressivo e ensurdecedor que se fazia sentir no corredor, esmagava estridentemente o meu espaço. O vento entrava violentamente pelos vidros partidos, sem pudor de não ter sido convidado, enregelando corpo e alma. Tiro os sapatos, enfiando o corpo na cama, com a mesma roupa com que entrara neste pesadelo. Em busca de um abrigo contra o frio e do medo impregnado na pele, o corpo treme. Fecho os olhos, numa réstia de esperança que ao reabrir os olhos, esta opressão termine e não passe de uma alucinação.
O barulho constante não permite que o sono tome conta de mim, tapo a cabeça com o cobertor. O corpo continua a tremer insistentemente com o gelo do meu abrigo e o vazio da alma. Como foi que cheguei aqui? A tinta do tecto descascado, assemelha-se a um monstro, o monstro que observa e ameaça engolir-me. Falo com Deus, falo com o meu anjo da guarda, penitencio-me, divago sobre o que preciso pedir ao exterior, sinto a mente a perder-se, agora entendo o significado de alucinações.
Não sei quantas horas passaram. Levanto, calço os ténis e arrisco olhar pelos vidros partidos da janela. O pátio está escuro, o chão repleto de carcaças e sacos de plástico, revolto ao vento. Do outro lado outras janelas, luzes, barulho, som de televisões. Volto a olhar-me ao espelho partido. Sim, ainda parece que sou eu que estou no reflexo.
Oiço as trancas abrirem, o restolho roda estridente ao virar da chave. Um guarda aparece e um recluso empurra uma marmita para dentro da cela. É o suposto jantar. Uma sopa, que assemelha-se a óleo sujo, que nem atrevo a tocar, uma maçã e uma massa com restos de carne. Pego nos meus talheres, que vinham no saco de plástico da roupa de cama, provo o jantar. Insonso, a massa revolve na boca com um sabor intragável. Não consigo, limito-me a comer a maçã. Fecho os tupperware, encosto ao canto, perto da porta e volto a deitar-me. Continuo a tremer, está muito, muito frio. Hora de voltar a esconder-me debaixo dos cobertores. O pensamento vai, o pensamento vem e o tempo passa, embalado pelo barulho abrupto que teima em não desaparecer. Pancadas nas portas vizinhas, fazem sobressaltar até ao raiar do dia.
Foi apenas o primeiro dia, de 150. Já só faltam 149.
Olá meu amor. Eu sei que não sou fácil, que sou teimoso, orgulhoso, de temperamento volátil mas também sei, que fui eu para ti, sem segredos, sem máscaras, simplesmente eu. Nem sempre bonito, nem sempre elegante ou atractivo mas sempre, sempre teu, com todos os defeitos que me assistem. Não é fácil lidar comigo, não admira que ande aos caídos há tantos anos, não é? Mas investi tudo em ti, em nós. De corpo e alma, e infelizmente sempre com muito medo que o sonho acabasse. Camada, a camada foste descobrindo o meu ser. Aquele que escondo do mundo inteiro, aquele que não se acha digno de nada, nem ninguém. Aqui esteve para ti. Como nunca, como nunca se mostrou a ninguém.
Temos uma história tão rica, para o bem e para o mal. Também acho que nunca a escreveria de outra forma. Sempre intensa, sempre viva, sempre cheia de tudo. Se calhar foi esse o nosso mal, se calhar foi o sentimento ser tão grande. O meu, foi arrebatador. O teu, foi crescendo com o tempo. Nunca quisemos as mesmas coisas, ou se calhar quisemos mas de formas diferentes. Lutámos um contra o outro, lutámos cada um à sua maneira, cada um contra o seu mundo mas nunca juntos. Tentámos, sofremos, magoámos, desolámos... mas continuamos cá, isso é que importa.
Foste tão, tão, minha amiga. Posso não concordar com tudo o que fizeste mas agradeço, a forma como te empenhaste. Não há palavras, não há sentimento ou gesto, para demonstrar a gratidão mas meu amor, rainha do meu coração, mulher da minha vida, senhora do meu ser. Não dá. Somos aquele amor impossível. Falta só aquele bocadinho, que faz toda a diferença, para que as peças encaixem. Não poderei nunca ser completamente feliz, se não for contigo que partilho a minha vida mas também, não consigo aceitar que depois de tudo, de realmente tudo, possas duvidar do quão importante és para mim.
Eu acredito em grandes amores, porque tu foste o meu. Aquele amor que tudo consome. Aquele amor que entra impetuosamente como uma chama descontrolada e que com os anos torna-se numa labareda constante, que queima em silêncio. O nosso amor é daqueles amores, que serve de inspiração para criar romances e músicas. O género de amor que ensinou-me mais do que imaginava sequer viver um dia, e que retribuiu numa compensação infinitamente desproporcional.
Não sei de ti faz tempo, não procuro, não quero saber, evito até. Mas quando respiro, parece que não consigo inalar todo o ar, porque esse resto que falta, é teu, és tu que me dás, és a parte de mim, que me faz sentir completo.
Não entendes que o bom que me dás, também sofoca-me. Preciso de espaço, de confiança, de saber apenas que estás ali. De sentir que não sou segunda escolha, que me assumes, sem ter de estar algemado a ti. Não gosto, nem sei lidar com a tua disponibilidade para os outros, da mesma forma que tu não sabes compreender a minha fidelidade. Acho que funcionamos em frequências diferentes, emitindo a mesma canção.
Amor da minha vida, eu estive preso, Lembras-te? Eu sei e vou sempre recordar o teu olhar quando olhaste para mim naquela primeira visita. Era o dia dos namorados, tentaste segurar as lágrimas, eu tentei ser racional, não merecias estar ali. Beijaste-me e disseste: hoje é o nosso dia, é dia dos namorados. Mas o que tu não entendeste, é que essa prisão não terminou, quando sai cá para fora. Ainda estou preso dentro de mim. E no momento que mais necessitei da tua compreensão, foi quando tu falhaste. Eu sei, não tens culpa, andamos sempre desencontrados. Mas não faças filmes, não me dou a ninguém e nunca serei de ninguém, porque se é para ser, então desculpem, mas aquela teimosa, que só quer tudo à maneira dela, é dona e senhora do meu coração há muito tempo. São seis anos de amor.
Seria tão diferente se fossem vinte. Já te passou isso pela cabeça? Oh como eu gostava que tivesse sido assim. Seriam vinte anos de cumplicidade, seria uma história ainda mais rica. Seria o pai da nossa princesa. Que orgulho. Mas não é essa a nossa história, não crescemos juntos, embora tenhamos desabrochado na mesma altura. Foi apenas um desencontro, seguido de um encontro fora de horas, recalcado por várias experiências, que acabaram por influenciar o nosso futuro.
Fui bafejado pela sorte por poder viver o amor da minha vida. Aprendi contigo, dei o que tinha e não tinha e moldaste-me à imagem do que esperavas de mim. Sem questionar a forma de estar, vestir ou de conviver com terceiros. Foi uma experiência única, singular, mas que não se perpetuará no tempo.
O amor só por si, não conquista tudo. Não resolve os erros irreparáveis do passado, não vence a mágoa, a desconfiança ou supera a falta de respeito. Por isso, acho que a maior prova de amor que posso oferecer, é simplesmente deixar-te ir. Não viver o resto da minha vida ao teu lado, não retira uma vírgula ao significado que foram estes seis anos mas é hora de partir.
É tão bom sentir-te feliz, é tão bom sentir que estás bem. A minha gratidão impede que qualquer sentimento de dor tome posse. Eu sei que não entendes isto, sei que não me compreendes, nunca conseguiste completamente entender-me, não é? Mas acredita, ao menos por palavras. Acredita. É bom saber que estás bem. Irei sempre sentir-te, irei sempre sofrer por ti e estarei aqui no dia que chamares por mim. Afinal és a minha mulher. És o amor da minha vida, a metade da minha existência e apenas quis deixar o meu agradecimento.
Agradecer por tudo o que fizeste por mim, por tudo o que vivemos, por tudo o que partilhaste. Obrigado Rainha, por todo o apoio e sempre, sempre, estarei aqui para ti, se assim desejares.
Beijinhos CSaid
Hoje estive à tua porta a ouvir isto :) Acho que agora encontrei a minha paz,
Aos 41, ainda procuro por quem complete a outra metade de mim, este reboliço de sentir-me incompleto, que não dá descanso. Nunca é tarde para viver mas já se esvai o tempo e a esperança no cansaço da procura.
Não vou oferecer a alma e coração, a alguém que não é digno da pureza de sentimentos. A ser, que seja singular em toda a sua forma de esplendor, onde as memórias criadas são para sempre únicas e irrepetíveis. Não irei ceder à comodidade da companhia, por receio do silêncio da solidão.
Quero a paz que advém do respeito, da partilha a dois, sem julgamentos, sem segundas intenções, repleta de dedicação, sem nunca colocar em causa o que nos une ou a nossa identidade. Uma energia positiva de partilha, ao invés de consumida em egoísmo.
Quando tomo o rumo em direcção de quem gosto, faço-o da única forma que sei. Por inteiro, sem receios de mágoa do passado ou comparações. Faço-me à estrada a todo o gás, sem nunca olhar para trás mas não tolero chegar a meio do caminho para compreender que os braços do destino não estão abertos para receber. Se seduzem para percorrer um caminho, então o mínimo, é terem a certeza que querem o hoje, o amanhã, o sempre.
Começo um novo ciclo de vida com a convicção de querer abandonar rotinas, abraçando um novo mundo, uma nova realidade. Para trás fica a monotonia sem sentido, de esperanças vãs e promessas levadas ao vento, que prenderam amarras até ao abandono. Hoje sou mais amor próprio, hoje sou oriente, hoje acalento em mim todos os sonhos de uma vida estável.
Entrando na época em que o mundo exalta os melhores sentimentos da humanidade, onde ao virar de cada esquina se encontra glorificações a valores nobres, como a família, a amizade e o amor, a mensagem vai-se propagando aos sete ventos, celebrando esses sentimentos como solução miraculosa para uma conduta de vida repleta de satisfação. E eu, no peso que arrasta a alma por estes dias, sinto arrepio na pele perante a constatação de um mundo frio, onde o calculismo se sobrepõem ao impulso da bondade.
Um mundo onde o amor já não é como nos filmes a preto e branco, a paixão e dedicação são irrelevantes perante uma estabilidade ou comodismo. Já não se escolhe um parceiro para a vida de forma sentimental, pondera-se benefícios. A falsa esperança não pesa na consciência, desde que o egoísmo seja o centro do universo.
Sinto-me traído pela própria alma, que sempre tomou decisões baseadas numa visão idílica, em sonhos e esperanças, terminando invariavelmente condenado ao insucesso. Cansado de remar contra a maré, cansado da solidão, cansado do vazio. Quando se aprende a deixar a esperança morrer?
Oiço mil vozes em acesa discussão deambulando na cabeça, a boca economiza palavras por estes dias, refugia-se no escuro. O corpo arrasta-se do sofá para a cama, da cama para o sofá, em busca de um vazio. A angústia de uma alma que finalmente compreende que nunca foi relevante na vida de ninguém, nem mesmo na vida do filho que se perdeu.
É hora de fazer extinguir fantasias, aceitar que as amarguras possuam o corpo, como o ar que se respira. É deixar os dias correrem para um final sem mágoas, esquecido no tempo, descartável e irrelevante. É hora de enterrar as dores atrás de um sorriso, tudo está bem, é Natal.
Para que um novo rumo tome forma, há que criar a coragem de partir. O empurrão que necessitava aconteceu, impulsionou a necessidade de redescobrir alento. Agora, prestes a embarcar na maior das aventuras, já não existe força na esperança, que segure o barco ancorado ao cais. Não há tentação de olhar para trás, pois atrás, nada há além de miragens e esperanças perdidas.
É como se voltasse a ser criança, um frenesim de excitação e receio do desconhecido mas com a certeza de que parte para criar novas memórias, viver sensações desconhecidas num mundo milenar com raízes portuguesas. Talvez seja no oriente que encontre a cura, para este enorme vazio dentro de si.
Metódico nos passos, agora arrisca-se, já nada tem a perder. Perdido o seu mundo, ousa cegamente em busca de um rumo. Uma prescrição dúbia que dê alento, talvez na novidade consiga esquecer de sentir. Vai ou racha. Tudo ou nada, daqui a uns dias logo se vê o que o guardião do destino dita. Lusitano ou emigrante convicto.
Ao embarcar na roleta do destino, fecha-se os olhos recordando no recanto da memória, a brisa de olhar cintilante, a família que sempre ansiou e que um dia ousou apelidar de sua. Porque a saudade dessa história será um sentimento eterno, tal como a lua sente a falta do sol no céu matinal. No horizonte a ilusão de encontrar a cura, da falta imensa que faz viver um sonho feliz e que já não é seu por direito.
Adeus meu Doce, até já Macau
A confirmação através daquela mensagem seca, foi apenas a assinatura de uma sentença de morte há muito sentida. Há dois meses soou o alarme, a intuição que te mostra a certeza daquilo que não consegues ver, sussurrou. O mundo terminou, capacita-te disso. Tens de aceitar. O mundo morreu e não há nada que possas fazer para alterar o seu fim.
Mas aquela fé estúpida, que te consome até à última gota do teu ser, dizia. Acredita, o amor um dia irá falar mais alto. Sentimento estúpido que fazes tanto sofrer, que escondo na minha profundeza e luto todos os dias por ignorar, com o único intuito de manter um norte equilibrado. Hoje deitaste-me por terra. Senti-o bem cedo, senti que algo não estava bem e à noite, ali estava. Bem em frente dos olhos, o recado que apenas tinha um destinatário.
Senti o chão fugir, um peso enorme dentro de mim, como se fosse explodir. Respira, respira, dizia uma voz no fundo da alma mas não sei, não sei como respirar, sussurrava em resposta. Cada palavra dilacerava mas era impossível parar de consumir cada uma daquelas frases, tentar compreender a emoção com que foi escrito aquele recado. Sinto que fui abalroado por um camião em excesso de velocidade deixando-me consciente, apenas para sentir na plenitude, a imensa agonia corroer o meu corpo.
Não foi inocente a maneira como o recado foi escrito, como aliás nada do que fazes é feito irracionalmente. Doeu horrores, destruíste em segundos, o pouco do que tinha conseguido reparar com muito esforço neste último ano mas também não posso deixar de agradecer. Afinal, compreendo acima de tudo, que fizeste o que sempre pedi. Não foi uma declaração ao teu novo amor, foi uma afirmação para mim. Já não te quero, amo outra pessoa. Estas são as palavras que não escreveste.
Reli e voltei a reler cada palavra, perdi a conta às vezes que procurei os significados e agora mesmo de rastos, a maior mágoa é a forma como tudo aquilo que sei que fiz-te sentir de bom, forças em relativizar por completo, como se nunca tivesse existido. Em parte estou feliz que estejas a viver um grande amor, também compreendo que é necessário deixar para trás o passado, para poder viver o presente mas desculpa dizer-te.
Esse carrossel de sentimentos, as tais borboletas que agora sentes e que afirmas não viver desde a adolescência, viveste-as todas intensamente comigo. Estão tatuadas para sempre em cada foto, em cada recado de amor, na caixa de memórias que construímos, eu, tu e a nossa princesa. No vídeo que guardo e revivo tanta vez, onde declaras o amor que sentes, não pelas palavras que saem da tua boca mas pelo brilho que trazes no olhar, no imenso sorriso estampado no teu rosto. Estas memórias podes tentar ocultar-las da tua vida, da mesma forma que apagas tudo que te possa recordar o que vivemos mas estarão para sempre presentes num lugar dentro de ti.
Não havia necessidade de teres sido cruel, eu recebi o recado de uma forma clara. Não era preciso proclamar em tão viva voz, que estás a viver o teu grande amor. O que foi vivido entre nós tão intensamente, irá para sempre perdurar, mesmo que não leve em si a mesma adrenalina desse teu novo amor. Os pequenos pormenores de mim, estarão para sempre escondidos sobre pequenos marcos teus, que só nós dois sabemos decifrar. A cifra csaid que tanto estimas e usas até profissionalmente, é apenas um dos muitos exemplos.
Como vês meu doce, não foi necessário esperar dez anos, para arranjares antídoto para o nosso amor. Apenas um bastou para encontrares a morada da casa branca e apagares-me por completo da tua existência.
Aceito não ter sido o teu grande amor, mas com certeza fui um dos amores da tua vida.
Sonho com alguém que não tenha conversas dúbias. Que não seja de meias verdades, de meias palavras. Que não releve os seus actos. Que não crie barreiras ao que deve ser fácil e natural. Sonho com alguém que sabe o que quer e que quer já.
Sonho com alguém que assume. Que caminha ao meu lado com orgulho. Sonho com alguém que não esconde-se, que não esconde-me. Que apresenta à família, aos amigos, aos colegas, à senhora do café.
Sonho com alguém que pára por um segundo na rua, só para dar um abraço apertado. Sonho com alguém que quando abraço, o mundo pára e deixa de ter significado para além desse abraço.
Sonho com alguém que não esteja mal resolvido. Alguém que saiba que para ser feliz, o passado fica atrás. Sonho com alguém que só está interessada no futuro e que o desejo desse futuro seja ao meu lado.
Sonho com alguém que solta aquela gargalhada estridente que há em mim. Que em momentos mais pesados, consegue demonstrar que a vida pode ser leve. Sonho com alguém que seja o meu porto de abrigo quando o mundo revolve em tempestades.
Sonho com alguém que dá mais convicções do que dúvidas. Sonho com alguém que é a solução para os problemas e não a causa. Sonho com alguém que não quer saber o que os outros pensam de mim.
Sonho com alguém que queira fazer planos a dois. Que veja um futuro a dois. Que veja não uma casa mas uma família. Sonho com alguém que apesar de ter consciência que consegue viver sem mim, opta por uma vida ao meu lado.
Sonho com alguém que faça com que olhe para trás e seja grato por não ter resultado com mais ninguém. Sonho com alguém que faça o que fala, e não passe o tempo só a debitar promessas.
Sonho com alguém que confia, que apoia, que não passa o tempo a criticar. Sonho com alguém que acredita em mim, que acredita em nós.
Sonho com alguém que não preciso de convencer do meu amor. Sonho com alguém que olha-me de cima a baixo e sem hesitar sabe, sabe que é ao meu lado que quer estar.
Sonho com alguém...
A felicidade não tem medida, nem poderá existir em toda a sua essência enquanto penosamente houver memórias de um passado abrupto e amargo. Ele resguarda-se perseverante de portas fechadas para novas possibilidades, ainda mais trancadas a sete chaves para um reinado de desolação.
No melhor e pior de si, não é difícil de ser lido. É mistério sem segredos. Não te percas ao entrar no infindável do seu mundo, porque traição, promessas vazias e menosprezo de carinho, são impulsionadores de desterro.
Na minha praia, mandei ao mar a última peça oferecida por alguém que me fez tão mal, mas tão mal que não deixa qualquer pena ou memória que faça sorrir. Foi tão natural, tão libertador, tão prazeiroso... Perguntaram-me se ia pedir um desejo e naturalmente pedi ao mar: por favor leva-o e mantêm-o bem longe de mim.
Incrível como ainda consegue deixar-se surpreender pelo poder da mágoa. Convicto de ver o lado optimista em todas as situações. As palavras tornam-se um excelente repelente, um condutor afrodisíaco de silêncio e distância que salvaguarda a imensidão de más vibrações.
Chegou o sol, caracóis e imperiais, regados de convívios e risos. Pôr-do-sol em amizade, sensação de equilíbrio no horizonte do mar e uma determinação... à merda com o teu reinado :)
Virado do avesso, a avidez da pele transparece a preocupação. A revolta de um grito mudo vinca as expressões faciais. Silêncio, silêncio que impera a injustiça e impotente se faz o bom senso.
O futuro a Deus pertence e o que sobra, é enfrentar nova batalha concentrado em sobreviver. São 2400 horas surripiadas de uma existência, uma marca que prevalecerá na memória para o resto dos dias. Não é o tempo que repugna, é a tela de um futuro vazio, tentando alcançar paz interior para ver o mundo desabar. E onde encontrar forças para aceitar recomeçar do zero?
A espera, essa maldita que corrói as entranhas, que empurra o pensamento, na penumbra da noite, a correr uma maratona até se fazer dia. O que se quer é uma decisão. Sim ou Não, uma roleta desenfreada, onde as probabilidades não são favoráveis ao jogador. Solto ou encarcerado, decidam! Caso contrário, receio que seja a espera a definhar a existência.
Sinto que em cada passo estás ao meu lado, que quando a dúvida persiste és tu que iluminas o meu caminho. Perco a conta no número de vezes que falo contigo no nosso silêncio, quando fecho os olhos e o teu olhar doce toma conta do meu imaginário, trazendo nesse semblante a esperança e força para encarar a vida.
Foste tu que ensinaste-me a nunca perder a sede do conhecimento, a querer sempre saber mais. Que saudade das horas intermináveis no café, onde abrias o livro da tua sabedoria e deixavas-me folhear cada palavra, embebida num gesto de ternura e alimentado por um suspiro cor-de-rosa.
Este riso contínuo, marca registada da minha personalidade, de alguém que aprendeu a não duvidar do seu potencial, que dá alento a uma força interior para nunca desistir, foste tu que alimentaste e fizeste florescer. Foste sempre o apoio e os braços para onde corria, o meu retiro seguro. Que saudades dos teus beijos na minha testa, enquanto tentavas encaracolar o meu cabelo. Sinto falta desse calor humano, de um ser extraordinário que partiu cedo demais. Fazes-me falta Querida.
Obrigado meu anjo da guarda por teres ensinado a levantar a cabeça e apreciar o arco-íris neste trilho que é a vida. O teu corpo deixou-nos há 20 anos mas a tua alma tem sido a melhor das companhias. Amo-te muito minha Querida Avó. Parabéns pelos teus 86 anos
Desde sempre oiço aquela máxima que a vida começa aos quarenta. Será que hoje, que aqui chego, nasci para o mundo? A entrada nos entas vem atormentando a minha existência há um ano. Senti o peso nos ombros com a proximidade desta data simbólica. Recordo-me de entrar na adolescência e ter a convicção que nunca chegaria a este marco, que a minha existência nunca teria tal longevidade. Agora que aqui cheguei, pergunto-me: Como é que o tempo passou tão rápido!?
Afinal, juro que sinto-me exactamente o mesmo. Não sei o que é a chamada crise da meia idade, continuo a padecer do síndroma de Peter Pan, com um feitio sui generis. Da mesma forma que não estou preocupado em desvendar o sentido da vida. Sou apenas quem sou, ou sou tudo o que sou... não é relevante. Eu sou eu, com todas as minhas virtudes e defeitos.
Foram quarenta anos recheados de emoções e de vivências. Repleto de marcos importantes. Passeei pelo mundo, vivi fora, conheci outros lugares e pessoas interessantes. Dei-me à escrita de músicas ou no pretensiosismo deste blog. Tive sonhos desfeitos e outros concretizados. Lutei pela minha sobrevivência e venci. Descobri novas aptidões e esqueci os sonhos que não realizei. Namorei, juntei-me, sofri por amor e aprendi a viver muito bem com a minha solidão. Tive um filho lindo e uma filha adoptada que encheram o meu coração. Reencontrei-me na minha família e nos amigos que fui colhendo pela estrada. Dei tudo de mim esperando sempre mais, mas tal como dizia John Lennon, a vida é o que acontece enquanto fazemos planos. Por isso não aceito essa máxima de que a vida começa aos quarenta, porque isso implica aceitar que tudo o que vivi nunca existiu. Não quero que a vida comece, quero que ela se prolongue e traga consigo sensações novas, sabedoria e coragem para aceitar o que vem aí.
Se me perguntassem aos vinte o que gostaria de receber, a resposta seria de certeza uma vivenda na praia com um porsche na garagem, dois filhos e uma mulher fantástica do meu lado. Uma vintena depois, levanto-me feliz para ir comprar um micro-ondas. A importância do dia-a-dia tem muito mais força do que algum sonho alguma vez sonharia.
Neste caminho fui aprendendo muita coisa... Aprendi que os bens materiais são insignificantes ao lado de pequenos gestos. Aprendi que ser frontal nem sempre é a melhor postura e que o silêncio é a melhor resposta. Aprendi a dar-me às pessoas, sem nunca esquecer em proteger-me da malícia alheia. Aprendi que falar é sempre fácil mas são as acções que contam, por isso não devo criar expectativas. Aprendi que não se morre de amor, mas algo morre sem ele. Aprendi que mereço ser feliz. E aprendi que ainda tenho muito para aprender.
A conclusão a que chego é que a vida não começa aos quarenta, mas também não acaba. Os sonhos é que se tornaram simples, existe menos tempo para recomeços. Aceitei que não seria um jogador de futebol, muito menos seria um grande músico. Que nunca serei o melhor no que faço mas o que faço, faço com dedicação e empenho. Que não ter criado a minha própria família não é um drama e viver sozinho tem o seu lado positivo. E no fundo, o que importa não é o que ficou para trás mas o que há de vir.
Portanto só pretendo continuar a seguir esta estrada, mesmo que os pneus estejam um pouco desgastados. A vida não começa aos quarenta, ela começa quando olho ao espelho e digo: eu sou eu, com todas as minhas virtudes e defeitos.
Espero que venhas sem sobressaltos, que passes por mim como uma brisa quente de verão, onde os novos ventos elevem o sucesso nas apostas profissionais e pessoais. Que a criatividade e energia sejam uma constante, para fazer frente aos desafios que estão para vir.
Que os amigos marquem presença assídua e as jantadas proliferem, recheadas de conversas interessantes, risos e boa disposição. Pois são eles a outra família que dá sustento ao viver.
Que não falte a família e o sorriso dos meus pequenos, que dês alento à solidão, com a inocência do seu sentir. Que a saúde não falte, a mim e a quem mais quero bem. De encontrar constantemente o carinho maternal em meias-de-leite ao final de tarde ou no abraço de um petiz de cinco anos, que considera-te o seu melhor amigo.
Que o marco dos quarenta anos, não roube o sorriso de viver, a risada estridente, a parvoíce e espírito juvenil. Anseio que tragas à alma o discernimento para não reagir impulsivamente, a sabedoria para fazer as melhores escolhas e a coragem de seguir em frente, sem guardar rancor do passado.
Que a palavra desespero desapareça do teu dicionário e seja substituída pela paz. Que a harmonia sentimental seja uma constante, pois o teu antecessor encheu-se de emoções demasiado intensas e por pouco não levou-me ao abismo.
Quero poder viver o silêncio do pôr-do-sol banhado pelas ondas do mar, recordando as memórias no bafo de um cigarro e no final sorrir genuinamente.
Espero muito de ti 2015 e tentarei não desiludir-te.
Até já
Em noite de Consoada, encontro com humildade sorrisos de confiança e ternura.
Danço nas memórias e na nostalgia de guardar o que é bom de ser mantido.
Foi uma montanha-russa de desejos impossíveis, onde já só há espaço à resignação.
Doeu muito perder, mais ainda aceitar que nunca tive.
Já não há revolta, apenas uma caixa cheia de memórias guardada num recanto escuro.
Em resoluções de final de ano, só resta dizer adeus e desejar que sejas feliz, como e com quem quiseres... pois tudo fica mesmo quando se acaba.
Feliz Natal Rainha e Princesa
Tal como o tempo agreste, a realidade bate como a lufada de ar gélido. chocante no primeiro contacto, revigorante na sua convivência.
Sempre fui adepto do inverno, quando a natureza eleva-se ao expoente relembrando o quão infimos somos, sendo também nessa imensidão realçados os nossos sentidos. Ao vislumbrar o mar em todo o seu explendor, sinto-me tonificado. A paixão de viver que há em mim revitaliza-se.
Porque o mundo está cheio de palavras e poucos actos, cansado de ouvir e de verdades turvas. Talvez o maior choque seja compreender que o idealizado, nunca foi a realidade. O sentimento nunca será puro quando por trás se escondem outros interesses.
É entre bafos de um cigarro e as ondas que rompem contra os rochedos, que cresce em mim a convicção de que não permito mais desrespeito, que não tolero a ausência de compromisso. Sem entrega, não existe estabilidade, não existe futuro. A esperança, guarda-se naquele baú bem no recanto escuro que o tempo faz por esquecer.
Não se cura um vício com outro, só o tempo e o bem-estar interior saram feridas. Aos poucos caminho para lá, tal como as ondas que vislumbro, também eu chegarei à praia.
Os salpicos gélidos de água salgada escorrem pela cara, intensificando o sentir. Está na hora de recolher à lareira e deixar-me embalar pelas chamas, queimando o desgosto e apagando memórias.
"O meu corpo esqueceu-se de ti. A mão já não sabe o caminho para os teus cabelos. A língua estranha o teu sabor. Só o coração te reconhece. Ainda." by Nano Contos
No outro dia lia, viver perto do mar ameniza o stress. Não é o mar, é a sua imensidão que faz com que compreendamos o grão de areia que somos.
Fechei a lauda do qual nunca tive direito a passar, deixei de arranjar desculpas para as mutilações de privacidade, apenas aceitei que não poderia ter sucesso. Não foi o mar, esse embalo viciante que tolda os meus dias, foi a convicção do amor próprio que tenho de possuir.
É não privar das amizades, das conversas ou da essência de ser quem sou, é não sentir culpa por algo que não se fez, é sentir a consciência tranquila por dar muito mais do que alguma vez se recebeu. É amar sem esperança de retorno, são 1460 dias a sonhar com um único dia de postura decente que nunca existiu. É não mostrar disponibilidade, quando o verso da carta está aberto a nova escrita. Corpo e alma estiveram lá.
É ver a mesquinhes de quem jogou pedras, vive da hipocrisia de utilizar aquilo que foi dado por amor, banalizar o que foi dado com alma, trocado pela moeda do consumismo. Que bem que sabe, dormir profundamente, bom que foi entregue sem barreiras e agora utilizado para consumo popular. Obrigado destino, pelo reflexo desse espelho.
Ao invés do sentimento de traição profunda que oculta cada acção, cada manietação ou cada abuso, o melhor de tudo é a hipocrisia das palavras, duras como pedras no apedrejamento de acusação absurda.
Um dia iludi-me ao achar que tinha encontrado o amor da minha vida. Desde o primeiro instante, tive a completa noção que seria uma relação sem futuro por diversos factores mas mesmo assim, insisti e atirei-me de cabeça. Talvez baseado na esperança que todo o coração impregna nestes momentos.
Foi no final de uma longa ressaca, de um fim anunciado, que entraste na minha vida. Com a mesma graciosidade com que te movimentas, arrebataste a minha vida. Deste-lhe sentido, fizeste com que quisesse ser uma pessoa melhor. De repente os meus olhos brilhavam só por te ver e quando consegui tocar o chão, na imensidão da realidade, cheguei à conclusão fatal que era teu por inteiro.
Costumo dizer que a melhor fase da minha vida, foram os anos que passei em Coimbra, que era feliz, que tinha tudo o que sonhara mas não poderia contar maior mentira do que esta. A melhor fase da minha longa vida, foram três lindos anos que passei do vosso lado, a compartilhar o vosso dia, a viver de pequenos nadas, num bailado tão natural e tão nosso, que não há palavras suficientes para descrever tamanha felicidade. Sim, tivemos o nosso lado negro, a nossa luta constante de vontades diferentes, de ideais de compromisso mas foram tantos os sorrisos que inundaram a nossa vida, que toda a mágoa se desvanece com uma simplicidade atroz.
Estava saturado do círculo vicioso que era o nosso fica, não fica. Do é e não é, do esconder e de não assumir algo que deveria ser tão natural como o ar que se respira. Nós éramos um casal, com uma filha linda. É assim que ainda hoje olho para trás. Há dois anos atrás, precisamente, foste ter à minha antiga casa. Ofereci-te um bouquet de flores e fomos ao Vaskus jantar. Vinhas linda, de olhos pintados que realçam ainda mais o brilho da tua alma. Terminado o repasto fomos para tua casa, reescrever o retrato que tanto amámos. Uma conversa silenciosa de olhares e sorrisos, envolvida num copo de whisky e outro de amêndoa amarga com muito limão. Fomos nessa noite o melhor de nós, fomos o que sempre fomos, enquanto estivemos juntos. Um casal feliz.
O meu mundo entretanto desvaneceu de baixo dos meus pés, tanto se passou na tua ausência, tanto que sussurrei o teu nome ao vento e nem sinal de ti. Compreendi que era hora de partir, de seguir viagem para uma vida nova, de mudar rotinas. Foi sem poder recuar, olhando para o horizonte, que virei a minha vida do avesso. Aqui estou, nada arrependido, feliz na medida do possível, a ouvir o mar quando embalo no sono e fecho os olhos, como tantas vezes idealizámos o nosso futuro idílico. Recordaste? Era assim que queríamos viver, com uma grande janela com vista para o mar. Aqui estou eu no nosso sonho sem ti, sem vocês. E é assim que tem de ser.
É necessário respeito e compromisso, para além do amor. Que esse tivemos de sobra. Já não sinto mágoa, sinto saudade mas consciente que não devo e não posso agarrar-me a algo que não é meu por direito. Sigo os dias sempre com a premissa em mente, de que se fosse meu teria voltado mas consciente da verdade irrefutável, de que não voltará.
Quando sou invadido pelo impulso de ligar, de beijar, de sentir a presença ou o abraço, lei-o as tuas últimas palavras no telemóvel: Já não te amo faz tempo, já não estou ligada a ti.
Mas eu CSaid, amo-te para toda a eternidade.
Feliz dia dos namorados, Amores da minha vida.
"Na vida há erros que cometemos e verdades que não conhecemos. Entre erros e verdades, amei-te. Talvez tenha sido o meu único erro e a minha única verdade."
Hoje chorei muito. Pela primeira vez, eu e a minha mãe, falámos abertamente sobre os meus acidentes de uma forma natural. Revivemos cada detalhe, relatámos como alterou para sempre quem nós somos. Senti a sua dor, senti a nossa dor, dei por mim angustiado pelo mal que causei aos que mais amo.
Recordei o meu anjo da guarda, que deixou-me amputado e o peso que a sua promessa tem em cada dia que vivo. Que promessa tão estúpida, uma riqueza de vida desperdiçada com alguém que não é merecedor.
Hoje deveria sentir-me muito feliz, sou acolhido no seio da minha família como há muito não acontecia. Sinto-me amado, foi um Natal em pleno, rodeado de mimos, abraços e beijos mas não deixo de sentir profunda tristeza.
A névoa negra que envolve o horizonte, não agoira bom futuro. Tenho saudades de nós, o que não daria para ter as minhas meninas a celebrar o auge familiar do meu lado. Eu sei, o quanto é utópico mas elas serão sempre a minha Princesa e Rainha, donas do meu mundo. Preocupado que estou com o meu irmão e os meus sobrinhos. O que guardará o futuro para eles? Não quero estar longe dos meus sobrinhos, são eles que voltaram a dar sentido ao Natal, que amenizam a ausência do meu filho. Já não basta sentir falta da Princesa, também tenho de perder-los? E a bomba que ainda não larguei, que irá mexer com os alicerces de todos? Não era justo comunicar num momento de harmonia e felicidade.
Vida madrasta, que teimas em fazer sofrer. Faz uma pausa, acalenta a esperança de um futuro, não pintes de cinza o que merece ser colorido.
Novo ano, nova vida, novo recomeço. Em busca de forças para esta mudança forçada, dou por mim a pensar: E agora? Estou com receio de perder-me no isolamento mas foi a única solução viável que encontrei. Já não estou habituado a mudanças drásticas, ao empacotar, montar tudo de raiz, ao começar de novo. Sempre aceitei o destino, encarei sem temor as alterações de residência, de hábitos, de convivências. Soube ser um camaleão e adaptar-me ao meio em redor mas e agora? E agora, que já não és jovem e as forças teimam em faltar. Será que tens o que é necessário para vencer? E agora?
Já eram alguns anos de arraiais assentes numa zona que estimo muito, onde criei laços, onde sinto-me querido. Talvez não seja tanto o que se deixa para trás mas o vazio do horizonte que se avizinha. Longe de tudo e de todos acorrentado à pacatez, de novo um estranho numa terra que me viu crescer.
Tento agarrar-me ao lado positivo, a descortinar vantagens. A possibilidade de uma vida mais saudável, poder acordar ao lado do mar, que tanta saudade deixou mas tudo isto não esbate o sentimento de perda.
Há que cerrar fileiras, não há volta a dar, portanto vamos começar de novo...
Sara Bareilles é uma das minhas cantoras predilectas. Talvez por ser uma luso-americana, consegue atingir o profundo do meu ser transformado em majestosas melodias, sentimentos que guardo nos escombros da minha alma. Por vezes dá calafrios ouvir uma música sua pela primeira vez. É como quem decifra o negro íntimo de mim em busca de inspiração para criar algo maravilhoso. Um misto de surpresa e reconforto ao deparar que todos os cacos dilacerados ainda podem ser transformados em algo harmonioso.
Cansado desta força invisível que me puxa sempre ao mesmo sitio, repleta de hipocrisia que foram acusações constantes, eu só quero sair do limbo que não me deixa partir, impregnado na minha pele e em tudo ao meu redor. Não é justo amarrar alguém a uma ilusão que nunca passou de um capricho, ainda mais quando já se está num novo rumo. Roçar por um breve instante, não é o mesmo que um abraço e cansado de obrigações sem deveres, só quero erguer no alto de mim olhando com esperança o horizonte.




