The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida

Nuno completava os exames finais do ensino obrigatório, adiando uma decisão que não pretendia tomar. O seu forte sempre tinha sido o desenho e o seu pai pretendia que o filho fosse arquitecto. Embora não estando convencido dessa escolha, pretendia fazer a vontade paternal mas para dar continuidade aos estudos, abria-se um dilema na sua mente. Não poderia manter-se no colégio que acolhera-o nos últimos quatro anos, por não leccionarem essa área.
Após o último exame e levado por um impulso trocista, lembra-se de fazer mais uma das suas tropelias e dirige-se  à sala de ping-pong deserta. Começa a desenhar nas paredes, pinturas obscenas e cómicas de carácter sexual tendo por personagens alguns dos professores. Inocentemente ou talvez ingenuamente não compreendeu a gravidade do seu acto. Facilmente foi descoberto o autor da obra, culminando com a chamada de Madalena ao conselho directivo do colégio. O convite para abandonar o colégio, foi a alavanca necessária para forçar a decisão que Nuno não queria tomar. Transferir-se para outro colégio.

Madalena, decide então inscrever os dois filhos no colégio onde o pai de Nuno tinha estudado e que sempre afirmara ser o local onde gostaria de ver os filhos. O episódio das pinturas murais, foi escondido do pai, não havia razão para azedar uma relação que já por si não era saudável. Pai e filho, eram distantes e era frequente existirem discussões motivadas por essa distância que o Pai sempre cultivou. Madalena, achou que Luís ter conhecimento do episódio, não iria abonar para melhorar esse relacionamento. O Pai contente por saber que os filhos iriam para o "seu" colégio, nunca desconfiou da razão para a mudança.
Ao entrar neste novo mundo, Nuno voltou a sentir-se perdido. Deparou-se com uma realidade bem oposta. O ensino era bem mais exigente e embora fosse causa de apreensão, não era tão assustador como as diferenças que encontrou na convivência com os outros colegas. A existência de uma diferença bem realçada entre os grupos sociais, causava-lhe revolta e injustiça e era algo com que não sabia lidar. Por um lado haviam os betos, onde todos se vestiam de igual, com uma postura intransigente no rigor das peças de roupa utilizadas, da maneira de estar, de falar, que se consideravam superiores e apresentavam uma postura arrogante perante os outros. Do outro lado da barricada existia um grupo mais reduzido. Os renegados, que era onde se enquadravam todos os outros adolescentes que não cumpriam a rigor as normas impostas pelos betos. O adolescente que não lidava bem com imposições e injustiças foi proscrito a ser parte do segundo grupo.
Foram três anos, em que a rebeldia foi crescendo dentro de si. Nuno fazia questão de distanciar-se da postura do grupo predominante. Sempre que podia escapulia-se do colégio, furou a orelha, começou a andar de botas e calças de ganga rotas e era o primeiro a fazer frente quando presenciava alguma injustiça cometida contra um dos renegados. A revolta que crescia, por ter de se manter num colégio onde tinha de conviver com pessoas com quem não se identificava, era reflectida nas atitudes que tomava e que muitas dores de cabeça trouxeram a Madalena. Nuno tornou-se um adolescente problemático.

Ao chegar aos dezoito anos, Nuno já trazia consigo um historial de conflitos. Era frequente ver o rapaz entrar em rixas, para tomar partido na defesa de alguém. Cometeu muitos actos de rebeldia e embora escondesse dos pais muitas das loucuras que fez, as discussões com o Pai acentuavam-se, por cada vez menos entender a postura distante e crítica que o progenitor assumia com os filhos. O único refúgio que encontrava, era em casa da sua Querida, onde o adolescente não se deparava com julgamentos mas com uma abordagem positiva na tentativa de chamar-lo à razão.
Foi também neste período que Nuno conheceu o seu primeiro amor. Uma discreta morena, de olhos verdes, com um sorriso que explanava ternura e uma inocência que Nuno admirava mas que já tinha perdido. Foi um verão inesquecível, onde os dois adolescentes passaram horas infindáveis à conversa, a deambular pelas páginas da vida de cada um. O brilho reflectivo pelos olhos dela, sempre que Nuno falava, enchiam o coração do rapaz e a ternura que ela colocava em cada gesto, traziam-lhe um reconforto que não conseguia encontrar  em outro lugar. Ana, vinha de uma família conservadora e que não viu com bons olhos o namoro com um rapaz que se apresentava de brinco na orelha e calças rasgadas. Tomaram-no por marginal e Nuno sentiu-se injustiçado. A mãe proibiu a filha de dar continuidade à relação e embora os adolescentes ainda tivessem tentado manter o namoro às escondidas, a pressão de toda a situação, fez com que Ana quebrasse. Nuno sentiu-se impotente para alterar o curso dos acontecimentos e embatendo na intransigência da mãe de Ana em alterar a imagem que tinha sobre si, os adolescentes não encontram outra solução que não fosse terminar o namoro. Nuno perdia assim o primeiro pedaço do seu coração.

Vendo-se perdido, sem saber que rumo dar e tendo a percepção que manter-se junto das más companhias, com um estilo de vida degenerativo, não agourava um bom futuro, decide que a única solução para os seus problemas é sair de Lisboa. Se pretendia ser alguém, teria de distanciar-se.
Um dia decide ligar para o Instituto da Juventude e perguntar que cursos sobre arte existiam fora de Lisboa. Deram-lhe duas opções. Porto ou Coimbra. Porto é uma cidade, onde Nuno nunca se sentira confortável, talvez pela sua escuridão ou pela falta de orientação que sentia sempre que se deslocara à capital do norte. Coimbra, por sua vez, trazia-lhe boas memórias. Era o lugar onde ia todos os anos acompanhar o Pai, no Rali Rainha Santa. Já conhecia algumas pessoas da cidade, os pais tinham lá amigos. E as visitas à cidade estudantil eram a única altura do ano, onde Pai e filho, mantinham uma relação saudável. Estava decidido, iria optar por Coimbra.
Sem colocar os pais a par da sua decisão, decide rumar a Coimbra e fazer a sua inscrição. Levantou-se cedo e seguiu com um amigo, em direcção à estação de comboios. Era o último dia para fazer a adesão e chegou mesmo em cima da hora de fecho. Tratou da papelada e rumou de volta a Lisboa, sem que mais ninguém além do amigo, soubesse da sua opção.
Ao chegar a hora do jantar, surgiu o comunicado: -Vou estudar para Coimbra! Os pais olharam um para o outro e enquanto Luís soltou uma gargalhada, Madalena manteve a vista no rapaz, com um ar sério. Luís replicou: - Tu pensas que isto é assim? Agora queres ir estudar para Coimbra e vais!? Nuno mantinha-se calmo a encarar o pai de frente e retorquiu: - Já inscrevi-me. Madalena, que contemplava o diálogo, percebeu imediatamente que o filho estava decidido.
Passaram as duas horas seguintes a tentar demover o adolescente, que o investimento que teriam de fazer, seria a última oportunidade para o filho se redimir e que desistir não era uma opção. Mesmo assim, não conseguiram demover o filho da decisão e em Setembro, Nuno iria dar continuidade à sua vida na cidade estudantil.

Pela primeira vez desde que retornara a Portugal, Nuno, agora adolescente, encontra estabilidade na sua curta vida. Ao dar entrada no colégio particular, descobre um ambiente mais equilibrado, as boas notas retornaram e faz os primeiros amigos fora da única vida que conhecia, a sua praceta.
É neste colégio, que ganha a alcunha que para sempre irá estar associada à sua pele. Este episódio nasce, devido à sua descendência Franco-Alemã, os seus apelidos encontravam-se mal escritos na pauta e num dos primeiros dias de aulas, uma das professoras ao fazer a chamada e ao chegar ao seu nome, não obteve resposta. Voltou a pronunciar o nome e mais uma vez não obteve resposta. A professora, já alterada por o aluno não responder à chamada, volta a repetir o nome que se encontrava na pauta. Desta vez Nuno respondeu. - Setôra, deve estar a chamar por mim, mas esse não é o meu nome. Ao que a professora replica: - Se está na pauta, é porque é o seu nome! Nuno, que não era miúdo de se conter, responde no mesmo tom: - Setôra, eu posso não saber ler, nem escrever, mas ainda sei o meu nome! Foi a porta aberta para a risota da turma e desde esse dia, Nuno passou a ser tratado entre os colegas, pelo nome que constava na pauta e do qual nunca mais iria conseguir desassociar-se.
Depois deste episódio, Nuno tornou-se rapidamente conhecido no colégio, não só por culpa da alcunha por que era tratado mas também pelo jeito fácil como comunicava. Era também um dos rapazes mais populares no pátio, por ser dos melhores praticantes de futebol. Os intervalos entre as aulas eram passados no pátio a fazer jogos com outros colegas, onde era sempre escolhido para a melhor equipa.
O último ano tinha sido de difícil adaptação. Um liceu estatal, onde a criança encontrou miúdos que forçaram à perda da sua inocência, o corte de relações entre o seu Pai e a sua Querida e a primeira percepção de perda. A morte do seu Avô Papi, que os cigarros teimaram em levar para o céu, envolto no fumo do último cigarro. Passado este período de adaptação a uma nova realidade, a novas sensações, o miúdo parecia ter encaixado e encontrado o rumo a seguir.

Foram quatro anos, em que o adolescente foi crescendo num ambiente saudável e harmonioso. Dedicou-se à sua paixão pelo futebol, foi convidado por um clube, perto de casa, para criar uma equipa e participar nos jogos da cidade de Lisboa, onde obteve um honroso quarto lugar. Seguiu-se o campeonato nacional de futsal durante três anos, onde o ponto alto, foi ser vice-campeão de Portugal e ter sido o terceiro melhor marcador do campeonato. Dava tanta importância ao futebol, que chegou a mentir à mãe para ir treinar um sábado de manhã, quatro dias após ser operado a uma apendicite. Fizesse chuva, frio, nada retinha-o de estar presente em todos os treinos e jogos.
Durante este período, talvez resultado da sua postura comunicativa e do sorriso sempre presente, teve os seus primeiros namoricos mas como nunca tornava-os prioridade na sua vida, acabavam sempre rapidamente sem guardar lugar relevante na memória e sem fazerem mossa ou rancores de ambas as partes, sobrava sempre a amizade.
As notas escolares eram exemplares, sem nunca ter de se esforçar, bastando estar atento nas aulas para assimilar a matéria e conseguir um bom desempenho nos exames. Entre os colegas, evidenciava-se a sua personalidade forte e a sua boa disposição, sempre pronto para criar umas tropelias inocentes que a todos fazia rir.
A vida familiar era equilibrada e rotineira, dividida entre os passeios familiares com os pais e o seu irmão, e os fins-de-semana com a sua Querida e o Padrinho, que entretanto tinham contraído matrimónio.Continuava a ir com frequência, passar os finais de tarde ao café, para beber da sabedoria da sua Avó, que alternava com as tarde passadas com os colegas do colégio.
O rapaz era um adolescente feliz com a vida que tinha e isso emanava na sua postura do dia-a-dia.

Passara-se um ano, desde a mudança para São Paulo e Luís encontrava-se agora num beco. O seu mentor profissional, que tinha promovido a sua ascensão na empresa,  tinha sido despedido e as previsões de futuro não eram animadoras. O seu lugar estava em risco e antes de chegar a um limite extremo, negoceia um acordo de rescisão de contrato. Cansado e com saudades do seu país, Luís debatia-se com um dilema. Voltar a Portugal ou ficar no Brasil, voltando para Salvador. Madalena era a favor de ficarem, argumentava que o choque da mudança seria maligno para a relação e para os filhos que já estavam ambientados à cultura brasileira. Nuno, também era contra o retorno. Embora fosse muito novo, tinha a percepção que retornar, era sinal de abandonar tudo. Os seus amigos, a escola, o mundo que conhecia e que tomava como seu.
Mesmo contra a vontade da esposa e do filho, Luís decide voltar. Houve um jantar de despedida no Pátio Alfacinha com promessas de não perderem contacto mas que o tempo se encarregaria de apagar. Foi assim, num final de verão, que a família retornou a Portugal. Ficaram a viver em casa dos pais de Madalena, a pedido do Avô de Nuno. Não fazia sentido procurarem uma nova casa, com um apartamento tão grande e havia o argumento do apoio familiar, que seria de grande ajuda na adaptação e educação das crianças.

Para Nuno, os primeiros tempos foram de adaptação, sentia-se um corpo estranho neste novo mundo. O tempo era frio o que impossibilitava viver de pés descalços como sempre fazia. As outras crianças da praceta embora tenham aceitado a sua presença, como sendo mais um do grupo das crianças, faziam troça do seu sotaque brasileiro, o que enfurecia Nuno. Pensava que ser apelidado de Português quando vivia no Brasil, iria morrer agora que voltava à sua pátria. Ao invés, ganhou novo apelido. Era o Brasileiro, por causa do seu sotaque. Felizmente, perdeu o sotaque rapidamente, o que fez com que o apelido desvanecesse das bocas das outras crianças. Passou a ser conhecido pelo Luís Nuno.
Os anos de Brasil, foram muito protectores para com Nuno, fazendo dele uma criança pura e inocente e isso ficou provado com os primeiros episódios em Portugal. Nuno era o único pré-adolescente, que ainda acreditava no Pai Natal e embora este episódio possa ser visto com ternura, as crianças conseguem ser muito cruéis perante tal ingenuidade. Nuno chegou a brigar com outra criança, porque esta difamava a existência de tal personagem. Também nunca soube o que era um palavrão, nunca tinha ouvido pronunciar essas palavras proibidas nos seus anos em Terra de Vera Cruz e isso aguçou o azo dos outros miúdos na prontidão de ensinar-lhe. Eram os primeiros passos para a perda da inocência.
O que mais agradava a Nuno, eram as tardes. Dividia o seu tempo no jardim em jogos, a saltar os muros para surripiar as frutas das árvores e a jogar futebol, onde era considerado um dos melhores da praçeta e arredores. O final de tarde, era passado no café da esquina, onde estudava com a sua Querida. Era ver-lo fascinado, embevecido com a cultura da avó, deliciava-se com o desenrolar de conversas infindáveis, onde a avó explicava a história do mundo, das línguas, dos países distantes e culturas tão distintas. Estas palestras duravam até o seu Padrinho vir buscar a sua Querida para jantar.
Os fins-de-semana eram alternados entre os passeios por Sintra, a visitar os familiares que por essas bandas viviam, com almoços tardios pelos melhores restaurantes que proliferam nesta zona do país. O final de tarde eram dedicados às feiras, onde Madalena procurava as suas raridades. Por outras vezes, Nuno passava os fins-de-semana, com a sua Querida, em casa do Padrinho. Mesmo já adolescente, a Avó tratava-o com toda a ternura, como se de um ser frágil se tratasse. Eram os pequenos-almoços reforçados, que Nuno tanto apreciava, os banhos de espuma e os passeios por zonas históricas, onde a sua Querida deslumbrava-o, relatando as histórias que se escondiam em cada pedra, em cada rio, em cada paisagem.
Nuno entra no Liceu e o primeiro ano, é o sinónimo da difícil adaptação. O aluno aplicado, tinha dado entrada numa escola estatal, onde às más companhias conjugadas com as diferenças que encontrou no ensino, quase fizeram-lhe perder o ano. Madalena decide então colocar-lo num colégio particular, tentando salvaguardar alguma da inocência que o miúdo tinha perdido com esta mudança na sua vida.

Os próximos postes, será o abrir de cena. Deixar visível, todo um percurso de vida. Este sou eu, sem máscaras, sem defesas, sem grandiosidades. Apenas eu.

Era uma vez...

O início desta história começa num dia relevante para Portugal. 25 de Abril de 1974, dia da revolução dos cravos. Luís, recém-casado com Madalena, sai de casa, para mais um dia de trabalho, como outro qualquer. Deixa a sua casa em Oeiras e faz-se à marginal em direcção à baixa de Lisboa, onde na rua dos Fanqueiros, o seu pai tem a sede da empresa onde trabalha.
Ao passar pelo Restelo, estranha tanta movimentação no trânsito. Está uma brigada a vedar o acesso ao centro de Lisboa e é com espanto que fica a saber que se está a dar o golpe de estado que viria a mudar a sua vida.
Resignado, sem alternativa, regressa a casa, onde Madalena, já a par dos acontecimentos, recebe-o apreensiva com o desenrolar dos acontecimentos. Sem possibilidade, limitam-se a contactar a restante família para  inteirar-se que se encontram todos bem. Nessa tarde, deixam-se cair na cama, alheando-se do caos que reina no país. Fazem amor, sem imaginarem que nessa tarde, geram o seu primeiro filho.

22 de Janeiro de 1975, na Clínica São João de Deus, nasce Nuno. Uma lufada de esperança, para toda a família num tempo conturbado de muitas incógnitas sobre o futuro. A empresa do pai de Luís, tinha sido saneada e o recém-casal encontrava-se dependente da ajuda de familiares para sobreviver.
Foi como um raio de sol, como um sinal da bonança, que  o primeiro filho, o primeiro neto, desejado por ambos os lados da família, chegou a este mundo. Desde cedo, a criança foi acarinhada por todos, tomando prioridade nas atenções de todos.
O casal, vendo-se sem perspectivas de futuro risonho e vivendo em situação periclitante, toma a decisão, como muitos portugueses nessa altura da história. Imigrar era a solução. O destino escolhido? Brasil. O pai de Luís, tinha  alguns contactos no outro lado do Atlântico e um desses amigos, tinha uma vaga de emprego para Luís.
O casal opta, pela ida de Luís em primeira instância, até conseguir estabelecer-se e assim poder receber a esposa e o seu pequeno filho, com o mínimo de comodidade.
Luís, desfez-se do seu primeiro amor, um MGB vermelho descapotável, para assim conseguir angariar provisões para a viagem e os primeiros tempos em terras de Vera Cruz. Madalena abandou o apartamento em Oeiras e retornou com o seu bebé à casa dos pais, no centro de Lisboa.
Luís partiu, quando Nuno ainda nem conseguia ter a percepção da sua ausência. O seu pequeno filho, ainda só tinha 3 meses de vida. Não tinha noção do passo importante que esta acontecimento teria no seu crescimento.
Luís, chegou a Salvador, capital do estado da Baía. Foi trabalhar para um hotel, onde fez um pouco de tudo. O menino burguês do Castelo, deixou de lado as mordomias que sempre estiveram presentes na sua vida. Cerrou os dentes, convicto da importância que acarretam as responsabilidades de sustentar uma família e predispou-se a tudo para conseguir dar o melhor aos seus. Serviu às mesas, trabalhou como recepcionista e aproveitava as folgas, para ir a entrevistas de trabalho, em busca do El Dourado. Foi  numa dessas entrevistas que conseguiu empregar-se como vendedor na Martini Rossi - Sul Americana. Com o primeiro ordenado, abandonou o hotel onde trabalhava e vivia, e alugou um T2 numa cave de um prédio, no centro de Salvador. O chefe de família, com 25 anos, tinha reunido as condições mínimas para acolher a sua família.

Nuno, agora com 10 meses, partiu de mão dada com a sua mãe, para os braços do pai, que aguardava-os no outro lado do Atlântico. No dia de embarque, toda a família rumou ao aeroporto de Lisboa, para as despedidas. O menino que os seus Avós maternos acarinharam, como sendo seu durante 7 meses, partia sem data de retorno.
Os primeiros dois anos passaram-se, sem grandes luxos. A excepção, eram os almoços de fim-de-semana, no Pátio Alfacinha. Restaurante de um casal português, onde Luís e Madalena, tinham encontrado o abrigo, para manutenção de um laço com a sua pátria. Madalena, tinha começado a trabalhar numa empresa de eventos de um casal brasileiro, com quem ganharam amizade e que conhecera no restaurante português. Luís, subia a pulso dentro da empresa, sendo promovido a chefe de vendas da região.
Aos 2 anos,  Nuno começou a passar mal de saúde. A criança, não se tinha adaptado ao clima tropical e a viver numa cave, onde a humidade era presença assídua, fizeram com que as suas defesas ficassem periclitantes. Numa ida ao médico, ficou decidido, a criança teria de retornar imediatamente a Portugal, até ganhar imunidade ao clima. Foi com tristeza no olhar mas com a noção de que estarem a tomar a melhor decisão, que os pais de Nuno, embarcam o filho em direcção aos braços dos Avós maternos, em terras lusas.

No carinho dos braços dos Avós e da tia, tudo parecia fazer sentido, a amurada familiar no qual estava envolvido, tornaram a vida da criança saudável e feliz. Era um menino que transbordava felicidade, com um olhar expressivo e de sorriso pronto, sendo incutido de uma educação firme e de boas maneiras, que muitos elogiavam. O seu apetite voraz e bom comportamento à mesa de refeição, eram tema recorrente de apostas nos jantares semanais do seu Avô Papi e do grupo de amigos, para o qual a criança era convidada frequentemente.
Era um miúdo que cedo demonstrou ser avido de conhecimento e que apresentava uma aptidão precoce para o desenho, dom que herdara do pai e que deixava a sua Avó muito orgulhosa. Senhora que muito apreciava as artes e cultura, e inspirada com a curiosidade da criança, a Avó, fazia questão em proporcionar o acesso à cultura, incentivando a criança a desenvolver as suas capacidades. A sua relação com a Avó, tornou-se quase umbilical. A maneira ternurenta e dedicada que a Avó tinha para com aquela criatura roliça, de olhar brilhante, fizeram brotar da boca de Nuno, o epíteto porque a partir desse momento todos os familiares passariam a tratar a Avó. Querida.
Foi sustentado por um ambiente familiar feliz, que Nuno cresceu e ganhou as defesas que necessitava. Com quase três anos de vida, viu a sua mãe retornar a Portugal, para dar à luz um irmão. João nasceu no final do verão e Nuno ganhava assim um cúmplice com quem partilhar as atenções. Eram crianças completamente opostas fisicamente. João era um bebé delgado e moreno ao contrário de Nuno, com a sua pele alva, olhos claros, cabelo loiro e gordinho. As diferenças de personalidades também se realçavam. Se Nuno fora precoce na sua curiosidade e aptidões, João demonstrava preguiça em aprender. Nuno era mais dado, João mais descontraído com a vida. Nuno traduzia tudo o que João balbuciava e que era incompreensível para todos. João por sua vez era um bebé sereno e ágil de movimentos, bem diferente de Nuno para quem andar, ainda era uma estranha coordenação de movimentos.

Assim que foi possível, Madalena e os seus dois filhos voltaram para o Brasil, onde Luís aguardava a chegada da família. As condições que Nuno encontrou eram outras. O seu pai tinha subido a pulso dentro da empresa, o que implicava uma melhor qualidade de vida. Um apartamento num primeiro andar numa zona de classe média alta, era a sua nova casa. Estas mordomias, implicavam uma ausência do pai durante longos períodos e Nuno ressentia-se dessas ausências, que o pai tentava colmatar com presentes e a mãe atenuava com um presença constante na vida das crianças.
Nuno ingressou na escola, onde o seu ponto forte continuava a ser o desenho. Era uma criança que demonstrava uma personalidade forte e onde a sua avidez de conhecimentos faziam dele um aluno atento. Sentia-se livre na Bahia, adorava andar descalço tendo sempre como companhia uma manta, a lembrar a personagem de Linus da banda desenhada do Snoopy. O Avô Papi, fervoroso adepto dos Belenenses, enviara como presente para as crianças, equipamentos do seu clube e uma bola de futebol. Foi o primeiro contacto de Nuno com esse desporto, sem imaginar que iria ter tanta dedicação àquele esférico durante a sua vida. Embora nenhum dos seus pais desse importância àquele desporto, Nuno ganhou imediato fascínio por aquele objecto redondo e com o chegar do Mundial de 82, compreendeu como aquele desporto movia multidões. Os pavimentos pintados com frases de incentivo à selecção, os vizinhos que se juntavam no salão para seguir os jogos e em que cada golo era festejado com um entusiasmo que Nuno nunca tinha presenciado. Até os seus pais, que não prestavam devoção, juntavam-se aos festejos.
Os fins-de-semana, eram dedicados ao círculo de amigos. Tornara-se uma tradição os encontros de sábado para os almoços, onde se tocava violão, cantarolando clássicos portugueses e brasileiros. Os amigos desenvolviam representações de peças, como o lago dos Cisnes ou simplesmente sentavam-se à mesa a degustar iguarias, que Nuno tanto apreciava.

Era uma fase feliz, à qual a família portuguesa tinha-se adaptado harmoniosamente, até Luís ser novamente promovido. Tinha 34 anos e ofereceram-lhe a posição de Vice-Presidente, a qual implicava mudarem-se para São Paulo. Mais uma vez, a família encontrava-se de malas aviadas para uma nova aventura. Mais uma vez Madalena foi o pilar das crianças. Com a mudança de cidade, Madalena dedicava o seu tempo aos filhos, onde o auge do dia eram os passeios de bicicleta da mãe com os seus dois filhos, pelas ciclovias daquela cidade caótica, tão diferente dos sons do mar que embalam Salvador. Tudo parecia conjugar-se mas o destino guardava outras ideias para esta família.

Deixa começar por dizer que amo-te,

Não soube compreender que por mais insegura e magoada que a tua atitude inicial deixasse-me, foste com o passar do tempo demonstrando que estavas comprometido comigo. É verdade, não fui justa contigo e de certa forma fiz-te sofrer pela dor que fizeste-me sentir. 
Adaptaste-te ao meu mundo, aceitaste a minha insegurança e desconfiança. Não entendi que pedir desculpas não era suficiente, era preciso mudar. Agora sinto arrependimento pelas palavras cruéis, os actos de violência e principalmente em não confiar no teu amor por mim, que demonstravas em tudo o que fazias por mim.
Fomos uma equipa, uma família feliz mas o meu medo de que magoasses novamente impediu-me de ver o precioso que foram esses tempos. Não entreguei, não confiei, não inclui-te na minha vida, não foste uma prioridade e nunca te dei segurança quanto ao futuro. Mesmo assim tu foste estando lá por nós.
Foste violento comigo, disseste coisas terríveis em raiva, que doeram bastante mas agora entendo, que embora a tua atitude não fosse a mais correcta, eu magoava ainda mais, lentamente, com a minha postura e palavras, até fazer com que explodisses. Lutaste por nós e agradeço-te por teres sido meu amigo e por saber que ainda continuas a ser, mesmo que distante.
Demonstraste todo o teu amor, quando mais precisei de apoiar-me em alguém e mais uma vez não fui justa contigo, muito por culpa da minha insegurança, mesmo assim não consegui confiar em ti. Aquilo que tantas vezes acusei-te, acabei por fazer. Não, não dei conversa mas entendo a tua dor, deveria ter sido mais firme e impedido que as investidas tivessem tomado tamanha proporção. Nunca foi minha intenção mas quem sabe, inconscientemente foi uma forma de vingança.
Gostava de poder retirar tudo o que fiz e que disse e voltarmos ao tempo do sofá, onde éramos um só. Em que mimavas-me e eu tinha tanto gosto em tratar de ti mas o tempo não volta atrás. Foste parte importante da minha vida, aprendi com os erros que cometi e embora saiba que não seria justo da minha parte pedir-te tal coisa, gostava que desses a possibilidade de demonstrar que mudei. Gostava que tu fosses o meu futuro, o meu marido, a nossa família feliz. Temos saudades tuas.

Um beijo,

da tua mulher


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As palavras morrem, definham e secam, quando deixam de fazer sentido, ao embater estrondosamente num muro solidificado pela desconfiança e falta de respeito.
Uma imagem de lar vazio, abafado em memórias reais mas sem sentido comum, é a prova de que uma imagem vale mais do que mil palavras. 
Nestes olhos fechados, ecoa a gargalhada infantil, em mil jogos e brincadeiras. Uma escuridão que teima em ofuscar-se com o brilho de ternura, acompanhado do abraço quente e do sorriso enternecedor. A lembrança do baile mecanizado e ainda assim harmonioso, produzido diariamente por uma família feliz. Um teimosia sem limites, onde o amor próprio delimita-se. Interrogação constante do que terá sido verdade ou ilusão. Onde mora essa vida longínqua?
Não é o fechar da porta, que dilacera o coração, é a noção de que se espreitou à janela antes de fechar a porta que prostra a esperança sem fôlego.
Injustiça, é a palavra inicial. Injustiça para com tamanha dedicação. Tristeza, é a palavra do meio, por tantas reticências em viver um sonho comum. Era evitável, utilizar a palavra de conclusão final mas foi ela que triunfou. Dor. A dor de doar um coração que não foi rejeitado, foi simplesmente desvalorizado.
As palavras morrem, definham e secam, mas existirá sempre o desejo sincero de que o mundo entregue tudo de melhor à rainha e princesa.


Sentado à beira-mar, evadido pelo ecoar dos trovões dentro da cabeça, cegado pela luminosidade dos seus raios, a questão repete-se infinitamente: Será que ainda há vontade de vencer a tempestade?
Foge como areia entre os dedos, a noção do que significa tudo isto. Será uma demência ou um desmoronar do castelo? Sem nunca entender uma perspectiva maior, que retira qualquer hipótese de alcançar a perfeição, que se encontra ao virar da esquina.
A minha razão é deturpada por uma enxurrada de sentimentos, que fazem acreditar que a preferência deve recair em sangra de amor, que viver sem cicatrizes. Mas o equilíbrio, esse, só se atinge quando há consonância de vontades. A rampa, será sempre um plano inclinado enquanto a preferência não for consonante no outro extremo.
Talvez não optar, seja a opção sensata. Parado, não se opta, o mundo passa sem dar conta que existimos, e com o tempo vai-se esquecendo que alguma vez estivemos por cá.
É à beira-mar, sentado a contemplar a tempestade afastar-se lentamente, que os dias passam devagar, levando a vontade de acreditar.


Novo se torna o velho destino. Sigo o trilho que a sina à muito escreveu para a minha vida. Sem grande espanto, pois a estrada já se torna longa, para deslumbrar com a paisagem do atalho momentâneo.
Por mais que tente desviar para uma paisagem à beira mar, a minha estrada sinuosa, de difícil acesso, embrenhada no escuro, atravessa-se constantemente no meu caminho, relembrando que o meu destino não é o meu desejo.
A imagem de acalmia num sonho perpétuo, presenteada numa areia dourada, banhada pela sensação de felicidade, é a morada destinada a outra pessoa e no íntimo sempre ouvi que não tinha feito por merecer assentar amarras.
Alivia-me a alma saber que independentemente do tempo, das adversidades que possam aparecer, o atalho terá um futuro honrado por uma presença que o dignifique, valorize e compreenda o mérito de poder viver no seu mundo. Esse é o seu destino.
A mim, resta seguir a viagem, aligeirando a adversidade do trilho, com a imagem proporcionada pelo atalho, que um dia quis acreditar ser a minha casa.


Hoje é o teu dia, o primeiro que passo ao teu lado. Na esperança que seja uma data que durante longos tempos, ao soprares as velas, do teu lado direito, encontres sempre o meu sorriso orgulhoso de pavão.
Não escrevo há algum tempo e tu queixas-te disso, mas a razão para esta ausência incide num único argumento: Todos os instantes de vida ao teu lado, são sempre mais preciosos do que aqueles que passo a escrever sobre a minha vida.
O orgulho de poder ser parte integrante da vida de uma pessoa que admiro, respeito e amo, faz com que transborde de orgulho. Um pessoa que brilha de forma graciosa em tudo aquilo que faz. Mãe extremosa, esposa dedicada, mulher feminina de aparência frágil e gestos elegantes, com sentido apurado de justiça, amiga dos seus, por vezes teimosa e temperamental. Torna-se apaixonante parar no tempo, para observar a dança dos teus movimentos. Alguém que encontrou o seu rumo e com quem tenho uma dívida de gratidão, por traçar a rota da minha vida, de forma equilibrada e harmoniosa.
Do doce mel que é o brilho dos teus olhos, ao calor do sorriso que diz: Bom dia, meu amor - Não há que dúvida, que é um bálsamo para enfrentar a inconstância do mundo desequilibrado, que se encontra ao abrir a persiana.
Sinto que o equilíbrio que necessitava, está latente na nossa relação, na constância da boa-disposição que ambos transmitimos para o exterior. Quando se está bem, essa positividade transparece para o exterior. És o tónico inspirador que levita o meu espírito a estar resolvido com o mundo. Obrigado meu doce, por amares-me.
Por muitas voltas que a vida dê, desejo que a tua vida corra sempre pelo melhor caminho, o caminho que desejas, o caminho que acima de tudo, tu mereces.
Parabéns meu amor, tem um excelente dia.

P.S.: Espero ter acertado na hora da publicação... 10h, a mesma hora a que nasceste :)

O passado não tem retorno e não há nada que eu possa fazer para mudar-lo. Não sei onde estarei dentro de 10, 20, 40 anos. Não sei se vou proporcionar grandes façanhas, que te façam ter orgulho. Não sei quem serei ou o que serei. Não sei se algum dia vou poder oferecer a vida que mereces. Não sei o que virá com o amanhã, nem se vou conseguir proteger-te das intempéries, mesmo daquelas que possa ser eu a criar. Às vezes temos uma única hipótese de sermos felizes e eu não sei se não terei deixado fugir esse momento. Peço desculpa pelos meus erros mas sinto falta de serões intermináveis de conversa, do carinho e dedicação que empregas em tudo o que fazes por mim, do sorriso feliz que me contempla, do brilho alegre que os teus olhos transmitem, de poder fazer-te o jantar que agradeces diariamente. Sinto falta de pequenos nadas, que enchem a alma e me tornam uma pessoa capaz de acreditar que tudo é possível.
Não sei se alguma vez poderei ser tão feliz como fui do teu lado, nem sei se irei sempre optar pelo melhor caminho e se alguma dessas opções não for a mais correcta, se estarás lá para ajudar-me a ver os meus erros.
Há um milhão de coisas que eu não sei mas há uma única coisa que eu sei. E é que amo e vou continuar a amar todos os dias e todas as noites, para o resto da minha existência, dando sempre o máximo de mim para fazer-te feliz mesmo que para tal seja necessário estar dois passos atrás a velar pela tua felicidade.
Obrigado pelo tempo de partilha, por deixares-me fazer parte desse teu mundo e estarei sempre cá para e como queiras


As horas correm, como o riacho por baixo da ponte de madeira. A lua percorre suavemente a sua viagem até oferecer ao palco o sol. O rádio dedica a playlist da noite ao casal que se mantêm inerte no sofá, jogados num entrelaçar de abraços envolventes, abstraídos do movimento na rua, focados no seu mundo.
Uma transformação vagarosa, sublime em todo o esplendor do tempo, onde cada gesto é executado com a preciosidade da contemplação, com a mais profunda sensação de prazer. Um sorriso que irradia, um olhar que aquece, um afago que envolve. Aqui está ela, aqui está ele, aqui estão eles, em tempo e espaço que é seu por direito.
Aqui, longe dos olhares são um, onde a saudade não segura o ímpeto de correr em busca do vício de se ser um só. Corpo que treme com a aproximação, deseja e beija com ardor sem se tocar. A face de uma realidade consagrada num caminho, que não emite palavras, mas devolve-as em chorrilho no reflexo de um olhar. Assim, emerge na imensidão da noite, a simbiose que permite viver.
O sol já se anuncia e a valsa dos corpos, dá lugar ao desprendimento, ao receio do término que se aproxima silenciosamente com o clarear do dia. A razão da inconstância que mata qualquer ilusão ou réstia de esperança. O sol já a pique, seca, mirra, mata a semente, antes de esta poder germinar.
O dia terá o seu final, voltando a dar lugar à beleza da noite, mas trará também o receio do cansaço, da repetição, do pavor de se constipar e a opção mais segura dos corpos apartados, imbuídos de orgulho, sem nunca correr o risco de espreitar o luar, deixam-se prostrar na segurança que um aconchego enganador, a que chamam lar mas não o sentem.


O mundo encardido, escuro, que outrora fora cintilante, é jogado no cesto da roupa suja, sem descaro de consciência. Foi usado durante dias seguidos, até o seu tecido perder o tom vivo, manchado, marcado com vincos. No escuro do fundo do cesto, aguarda impaciente pela lavagem da sua alma. O tempo corre, mas o mundo convicto do seu traçado, sabe que chegará o dia da sua limpeza.
Finalmente atirado para a máquina de lavar, há que apagar a existência daquela mancha. Na memória ecoará a sensação que a marca atingiu-o fulminante, sem certeza de poder apagar o seu registo. Ainda é possível centrifugar o mundo, contorcer na saída até que caia a última gota de água. Húmido, o mundo deixa-se ficar no estendal, até que o sol venha presentear-lo com o milagre da pureza do seu calor, onde a nódoa que marcou o mundo, parte sem deixar vestígios.
O mundo agora exala a lavanda, cheira a lavado, trás consigo o aroma fresco, como que acabado de sair da embalagem, vivendo na esperança de ser reutilizado num novo dia. É um mundo como novo, preparado para novas aventuras, sem receio de se sujar novamente, porque é esse o seu destino. Ser sujado, enrugado, manchado, vincado, lavado e por fim seco, num ritual interminável até que o seu tecido deixe transparecer o desgaste no seu colarinho ou um qualquer pequeno buraco, que retire orgulho no seu uso.
Nessa altura findará o seu propósito, como qualquer outro mundo, despejado para um amontado de outros mundos, ansiando, que uma outra alma o queira levar vestido com brio. É um mundo desbotado, não tão brilhante como já fora mas rico de histórias para contar a quem quiser ouvir. O mundo só quer ficar no mundo de alguém.


O lamento ecoado na escuridão da noite, é o meu uivo que tenta alcançar o céu, clamando pelo teu nome. A razão do meu canto, guarda a esperança, que o uivo bata à porta do teu coração e o deixes aconchegar-se no espaço que é seu por direito.
No timbre do uivo, vai a ambição de avivar o beijo, aquele que enche de luz, encandeia e incendeia. Aquele que envolve, levita e reconforta no lar que são os teus braços, o teu colo, as curvas que esculpem o teu corpo, o sabor da pele que encanta, deslumbra e vicia.
Leva o uivo bem além do horizonte de uma noite, leva-o para lá de um amor de praia, de um verão. Envolve-o na lareira que é o teu olhar, atraído no sorriso que alumia o caminho da felicidade, deixa-o criar raízes na serenidade que é a tua essência e na força que explanas, sem grande alarido ou imposição.
Estou à janela, já não uivo, calei. Escuto o silêncio da noite, enquanto queimo mais um cigarro à espera de boas novas. Um uivo teu, feito do orvalho da noite, só para refrescar a alma!

Um dia acordas e dás conta que tudo o que te rodeia é uma amarra insossa, sentes a vida escorrer como areia entre os dedos, enquanto sonhas em alcançar feitos maiores, com a necessidade premente de seres mais do que vives. Para, respira fundo e deixa ganhar asas o imaginário que há em ti. Deixa o sol apresentar-te a sensação de calor, de quem renova energias e esperanças. Há qualquer coisa de leve, deixa-te ir no fluxo da sensação, mesmo quando a sensação de controle se esvai na percepção da independência que não é tua.
Ainda muita água vai correr de baixo da ponte e de certeza que a hipótese de perder o momento, será muito mais penoso, do que a delonga da espera. Deixa andar, deixa ver onde vai parar, deixa consolidar, acima de tudo não penses tanto, não tentes controlar e desfruta da espera, com a noção que sedimentar conhecimento, é vital e agir por impulso resulta sempre em algo efémero.
Não é fácil abstrair, o vício não passa, é necessário algum rigor e disciplina para manter a postura. A perda, tem a maior fatia dos prognósticos, portanto não há que analisar tudo. Uma postura descomplexada é o que se deseja e o tempo encarregue de trazer novidades, algo de bom deixará.

Um dia, mais tarde, um ano depois, eles voltam a encontrar-se, por acaso, num bar, à noite. Dizem olá, perguntam o que é feito de ti, e começam a falar como se se tivessem visto ontem, perplexos com o mesmo entendimento perfeito de outrora. Ficam a interrogar-se porque se separaram no passado e nenhum deles é capaz de se lembrar de uma razão suficientemente válida, de alguma questão inultrapassável que não lhes tivesse permitido ficar juntos até hoje. As questões que um dia os tiveram de costas voltadas já não lhes parecem tão importante assim. No entanto, afastam-se com uma saudade a roer-lhes o espírito, mas sem tomarem a iniciativa de sugerirem voltar a encontrar-se em breve. Tal como antes, vêem-se tolhidos pela incapacidade de dar o braço a torcer. Nenhum quer ser o primeiro a dizer olha, penso muito em ti, nunca deixei de sentir a a tua falta. Não sabem o que o outro dirá e preferem não arriscar o embaraço de uma resposta má. De modo que, de novo, o orgulho leva a melhor à possibilidade de virem a ser felizes um com o outro. Eram almas gémeas, diziam, não se deixariam nunca, garantiam.
Passam o resto da noite a espreitar-se discretamente por entre o crepitar frenético das luzes que, a todo o instante, lhes traz a angústia de se perderem de vista momentaneamente, pensando que ainda estão ali os dois, que ainda podem ir ao encontro um do outro, mas sem o fazerem. É como se insistissem num braço-de-ferro contra a sua vontade. Ela está sentada a uma mesa baixa, num banco, a vigiá-lo pelo canto do olho e a pensar ele, se quiser, que venha cá. Ele está de pé, entre o balcão e a pista, a falar com os amigos e a pensar exactamente o mesmo.
Ainda se vêem de raspão à saída, pois fazem de propósito para saírem ao mesmo tempo, mas despedem-se dizendo apenas gostei de te ver, até qualquer dia, pensando ela que ele já não a ama e ele que ela não o deseja. E, assim sendo, continuam em frente, separados na mesma cidade, mas cada um com a consciência do outro e com uma tristeza insanável que, a pouco e pouco, vão abafando numa resignação, fazendo por se esquecer, deixando-se absorver pela voragem dos dias e pela vida que corre demasiado depressa para voltar atrás.

By Tiago Rebelo

Buda reuniu os seus discípulos, e mostrou um flor de Lotus - símbolo da pureza, porque cresce imaculada em águas pantanosas.
- Quero que me digam algo sobre isto que tenho nas mãos - Disse Buda.
O primeiro discípulo, fez um verdadeiro tratado sobre a importância das flores.
O segundo, compôs uma linda poesia sobre as suas pétalas.
O terceiro, inventou um parábola usando a flor como exemplo.
Até que chegou a vez de Mahkashyao. Ele aproximou-se de Buda, cheirou a flor, acariciou o seu rosto com uma das pétalas.
- É uma flor de Lotus - Disse Mahkashyao. Simples e bela.
- Foste o único que viu o que tinha nas mãos - disse Buda.

Não é no amontoado de estereótipos de ideias vendidas sobre o que é conveniente e correcto, que se reencontra a pureza e simplicidade do sentimento que um dia usufruiu. Da mesma forma que a obsessão, mesmo que de forma simulada, é algo que entristece e não leva a bom porto.
Que bom seria poder ver, que as capas e divagações sobre o que não é essencial, foram deixadas para trás sem apelo, nem agravo. Aprender a contemplar e estimar a simplicidade, franqueza e a pureza do que é real.

P.S.: Continuo a desejar-te o melhor e espero do fundo do coração, que sejas muito feliz.

Só eu sei quem tu és, que me visita diariamente, que convives no imaginário do meu pensamento antes de deitar. Mulher, menina e moça. Só eu sei, o que significou cada dia da nossa existência conjunta. Fui mais do que o actor, vesti a minha pele e pude ser eu sem capas, nem desgraças. Só eu sei a memória do cheiro da tua pele, quando os teus cabelos pousaram no meu ombro ou quando os teus lábios tocavam os meus.
Só eu te conheço realmente, porque entendo as tuas inseguranças, façanhas e defeitos. Entendo na plenitude de aceitar quem és, sem questionar porquês e querendo-te com o mesmo desejo do primeiro olhar, do primeiro sorriso, do beijo nervoso ou do momento em que as mãos se entrelaçavam nervosas pela primeira vez. Só eu sei a entrega que existiu nas horas infindáveis dentro do carro, beijando-te ternamente como vício de mim que não quer partir.
Só eu sei, que a nossa cumplicidade vai além do papel natural que há em nós, da dedicação mútua e esforço conjunto que cada um de nós empregou nesta existência a dois. Só eu sei, como os teus olhos falam palavras de carinho e apreço, que o teu sorriso esboça o teu sentir e como cada gesto de expressão do teu corpo, é produto de um sentimento que só eu consigo descortinar. Mulher felina de garras afiadas na protecção, dócil e terna quando no aconchego da segurança. Só eu sei, que atrás da personagem batalhadora, realista, independente, jóia rara do universo, se encontra a menina generosa, de maneiras delicadas e suave.
Só eu sei, a saudade que me ocorre, quando vejo os verdes campos do outro lado do vidro ou quanto custa relembrar momentos de viagem e estar apartado da tua presença, com a consciência plena que é necessário serenidade, para viver certos momentos, pois não sou dono do destino para alterar-lo. Só eu sei, como estamos tão perto e tão distantes. Até quando não sei mas só eu sei, como custa esta distância.

Na minha vida fui sempre um outro qualquer
Era tão fácil, bastava apenas escolher
Escolher-me a mim, pensei que isso era vaidade
Mas já passou, não sou melhor mas sou verdade
Não ando cá para sofrer mas para viver
E o meu futuro há-de ser o que eu quiser

Fernando Tordo - Adeus tristeza

A semente enraíza no terreno molhado, cria fundações com expectativa de um futuro longínquo e sólido. Os seus tentáculos tentam prever a imensidão que será o seu tamanho, tendo por fé suportar todas as intempéries que se atravessaram no tempo. Por vezes essa base, torna-se frágil para a grandiosidade das adversidades, pode também encontrar desanimo e secar por não vislumbrar o crescimento desejado, tantas são as possibilidades de insucesso mas quando a semente consegue alicerçar o seu crescimento de forma sustentada, encontramos uma árvore, uma árvore repleta de folhas verdejantes, que dançam harmoniosamente no embalo do vento, com as suas flores de cores vibrantes ofuscando os olhos que a contemplam, perante tal graciosidade e beleza. Assim, também se pode descrever uma relação.
Já plantei algumas sementes, sem o resultado desejado, mal solidificadas, algumas por falta de fé, outras por raízes pouco tonificadas mas no final do dia, que será o meu despedir desta existência, espero ter conseguido plantar uma semente que perdure para além da minha existência, que simbolize o esplendor da beleza, que é uma vivência compartilhada a dois. Quero que o meu futuro represente uma árvore esbelta, onde as rugas do seu tronco contem a história de um vida repleta de aventuras, sorrisos e bem-estar. Quero uma árvore, que se denote no seio de uma clareira, pela sua imponência sólida de tantos anos de existência. Almejo pelo dia que a minha árvore, possa contar a sua bela história de vida.

Por vezes o orgulho não faz sentido, ausências sem sentido, síndromes de solidões representadas em teatros sobre cacos de vidro. Uma máscara em palco, que esconde o que no escuro do quarto enfeita o vazio. São viagens ao passado que buscam "De Mim para Ti", num espectro nostálgico ou de simples consciencialização da saudade.
Olhos que na noite procuram subtilmente o que já não aquece numa estrada que não logrei vencer mas quis um dia percorrer infinitamente. Que o amanhã te dê a sabedoria para perceber que por vezes os bastidores são o palco principal e é nele que se desenrola a parte mais vital da história. Não é o palco que sustenta o artista, é o que vive por trás da encenação, o sentimento que absorve-o no escuro do camarim quando retira a maquiagem.
Sábado tive o prazer de assistir um amigo transformar-se, durante hora e meia, noutra personagem. Uma viagem a solo no palco do Chapitô, numa actuação impregnada de coragem para abstrair-se de um sala cheia de espectadores. Uma performance quase imaculada de uma vivência que não é a sua, de narrar uma história aventureira, na primeira pessoa. Sorriu, excitou, chorou, desesperou e por fim morreu. Foi quando desceu do palco e entrou nos bastidores da sua vida, entre amigos, que realmente desfrutou do prazer da sua actuação, porque no final o importante é saborear a satisfação daqueles que ao nosso lado vivem as nossas vidas.
Não viverei para sempre, viverei para viver quem comigo quer partilhar a sua existência. Não viverei dum mar azul turquesa intemporal, este mar não tem cura e este céu asfixiou com a ausência de ar. Um regaço frio, frio contagiado pela longa ausência e é com olhos baços que recebem aqueles que no palco brilham à procura do seu espectador. Houve percepção da busca, do nervoso miúdo, da ausência de aplausos mas a verdadeira peça é outra e chama-se vida presente.
É como a canção que se ama e se deixa para trás, por não ser apropriada à ocasião. A melodia pode não ser apropriada mas se é nela que realmente se sente felicidade, então que a canção nunca pare de tocar, indiferente a quem atravessa a estrada. Pensar no conveniente seca o sangue que palpita, perde a força que se alimenta do sentimento. O sentir gera vivência, afasta solidões e é nessa semente agreste, rebelde, inconformada, alegre, fiel, amiga, que viverei para viver.