The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida


Sentado à beira-mar, evadido pelo ecoar dos trovões dentro da cabeça, cegado pela luminosidade dos seus raios, a questão repete-se infinitamente: Será que ainda há vontade de vencer a tempestade?
Foge como areia entre os dedos, a noção do que significa tudo isto. Será uma demência ou um desmoronar do castelo? Sem nunca entender uma perspectiva maior, que retira qualquer hipótese de alcançar a perfeição, que se encontra ao virar da esquina.
A minha razão é deturpada por uma enxurrada de sentimentos, que fazem acreditar que a preferência deve recair em sangra de amor, que viver sem cicatrizes. Mas o equilíbrio, esse, só se atinge quando há consonância de vontades. A rampa, será sempre um plano inclinado enquanto a preferência não for consonante no outro extremo.
Talvez não optar, seja a opção sensata. Parado, não se opta, o mundo passa sem dar conta que existimos, e com o tempo vai-se esquecendo que alguma vez estivemos por cá.
É à beira-mar, sentado a contemplar a tempestade afastar-se lentamente, que os dias passam devagar, levando a vontade de acreditar.


Novo se torna o velho destino. Sigo o trilho que a sina à muito escreveu para a minha vida. Sem grande espanto, pois a estrada já se torna longa, para deslumbrar com a paisagem do atalho momentâneo.
Por mais que tente desviar para uma paisagem à beira mar, a minha estrada sinuosa, de difícil acesso, embrenhada no escuro, atravessa-se constantemente no meu caminho, relembrando que o meu destino não é o meu desejo.
A imagem de acalmia num sonho perpétuo, presenteada numa areia dourada, banhada pela sensação de felicidade, é a morada destinada a outra pessoa e no íntimo sempre ouvi que não tinha feito por merecer assentar amarras.
Alivia-me a alma saber que independentemente do tempo, das adversidades que possam aparecer, o atalho terá um futuro honrado por uma presença que o dignifique, valorize e compreenda o mérito de poder viver no seu mundo. Esse é o seu destino.
A mim, resta seguir a viagem, aligeirando a adversidade do trilho, com a imagem proporcionada pelo atalho, que um dia quis acreditar ser a minha casa.


Hoje é o teu dia, o primeiro que passo ao teu lado. Na esperança que seja uma data que durante longos tempos, ao soprares as velas, do teu lado direito, encontres sempre o meu sorriso orgulhoso de pavão.
Não escrevo há algum tempo e tu queixas-te disso, mas a razão para esta ausência incide num único argumento: Todos os instantes de vida ao teu lado, são sempre mais preciosos do que aqueles que passo a escrever sobre a minha vida.
O orgulho de poder ser parte integrante da vida de uma pessoa que admiro, respeito e amo, faz com que transborde de orgulho. Um pessoa que brilha de forma graciosa em tudo aquilo que faz. Mãe extremosa, esposa dedicada, mulher feminina de aparência frágil e gestos elegantes, com sentido apurado de justiça, amiga dos seus, por vezes teimosa e temperamental. Torna-se apaixonante parar no tempo, para observar a dança dos teus movimentos. Alguém que encontrou o seu rumo e com quem tenho uma dívida de gratidão, por traçar a rota da minha vida, de forma equilibrada e harmoniosa.
Do doce mel que é o brilho dos teus olhos, ao calor do sorriso que diz: Bom dia, meu amor - Não há que dúvida, que é um bálsamo para enfrentar a inconstância do mundo desequilibrado, que se encontra ao abrir a persiana.
Sinto que o equilíbrio que necessitava, está latente na nossa relação, na constância da boa-disposição que ambos transmitimos para o exterior. Quando se está bem, essa positividade transparece para o exterior. És o tónico inspirador que levita o meu espírito a estar resolvido com o mundo. Obrigado meu doce, por amares-me.
Por muitas voltas que a vida dê, desejo que a tua vida corra sempre pelo melhor caminho, o caminho que desejas, o caminho que acima de tudo, tu mereces.
Parabéns meu amor, tem um excelente dia.

P.S.: Espero ter acertado na hora da publicação... 10h, a mesma hora a que nasceste :)

O passado não tem retorno e não há nada que eu possa fazer para mudar-lo. Não sei onde estarei dentro de 10, 20, 40 anos. Não sei se vou proporcionar grandes façanhas, que te façam ter orgulho. Não sei quem serei ou o que serei. Não sei se algum dia vou poder oferecer a vida que mereces. Não sei o que virá com o amanhã, nem se vou conseguir proteger-te das intempéries, mesmo daquelas que possa ser eu a criar. Às vezes temos uma única hipótese de sermos felizes e eu não sei se não terei deixado fugir esse momento. Peço desculpa pelos meus erros mas sinto falta de serões intermináveis de conversa, do carinho e dedicação que empregas em tudo o que fazes por mim, do sorriso feliz que me contempla, do brilho alegre que os teus olhos transmitem, de poder fazer-te o jantar que agradeces diariamente. Sinto falta de pequenos nadas, que enchem a alma e me tornam uma pessoa capaz de acreditar que tudo é possível.
Não sei se alguma vez poderei ser tão feliz como fui do teu lado, nem sei se irei sempre optar pelo melhor caminho e se alguma dessas opções não for a mais correcta, se estarás lá para ajudar-me a ver os meus erros.
Há um milhão de coisas que eu não sei mas há uma única coisa que eu sei. E é que amo e vou continuar a amar todos os dias e todas as noites, para o resto da minha existência, dando sempre o máximo de mim para fazer-te feliz mesmo que para tal seja necessário estar dois passos atrás a velar pela tua felicidade.
Obrigado pelo tempo de partilha, por deixares-me fazer parte desse teu mundo e estarei sempre cá para e como queiras


As horas correm, como o riacho por baixo da ponte de madeira. A lua percorre suavemente a sua viagem até oferecer ao palco o sol. O rádio dedica a playlist da noite ao casal que se mantêm inerte no sofá, jogados num entrelaçar de abraços envolventes, abstraídos do movimento na rua, focados no seu mundo.
Uma transformação vagarosa, sublime em todo o esplendor do tempo, onde cada gesto é executado com a preciosidade da contemplação, com a mais profunda sensação de prazer. Um sorriso que irradia, um olhar que aquece, um afago que envolve. Aqui está ela, aqui está ele, aqui estão eles, em tempo e espaço que é seu por direito.
Aqui, longe dos olhares são um, onde a saudade não segura o ímpeto de correr em busca do vício de se ser um só. Corpo que treme com a aproximação, deseja e beija com ardor sem se tocar. A face de uma realidade consagrada num caminho, que não emite palavras, mas devolve-as em chorrilho no reflexo de um olhar. Assim, emerge na imensidão da noite, a simbiose que permite viver.
O sol já se anuncia e a valsa dos corpos, dá lugar ao desprendimento, ao receio do término que se aproxima silenciosamente com o clarear do dia. A razão da inconstância que mata qualquer ilusão ou réstia de esperança. O sol já a pique, seca, mirra, mata a semente, antes de esta poder germinar.
O dia terá o seu final, voltando a dar lugar à beleza da noite, mas trará também o receio do cansaço, da repetição, do pavor de se constipar e a opção mais segura dos corpos apartados, imbuídos de orgulho, sem nunca correr o risco de espreitar o luar, deixam-se prostrar na segurança que um aconchego enganador, a que chamam lar mas não o sentem.


O mundo encardido, escuro, que outrora fora cintilante, é jogado no cesto da roupa suja, sem descaro de consciência. Foi usado durante dias seguidos, até o seu tecido perder o tom vivo, manchado, marcado com vincos. No escuro do fundo do cesto, aguarda impaciente pela lavagem da sua alma. O tempo corre, mas o mundo convicto do seu traçado, sabe que chegará o dia da sua limpeza.
Finalmente atirado para a máquina de lavar, há que apagar a existência daquela mancha. Na memória ecoará a sensação que a marca atingiu-o fulminante, sem certeza de poder apagar o seu registo. Ainda é possível centrifugar o mundo, contorcer na saída até que caia a última gota de água. Húmido, o mundo deixa-se ficar no estendal, até que o sol venha presentear-lo com o milagre da pureza do seu calor, onde a nódoa que marcou o mundo, parte sem deixar vestígios.
O mundo agora exala a lavanda, cheira a lavado, trás consigo o aroma fresco, como que acabado de sair da embalagem, vivendo na esperança de ser reutilizado num novo dia. É um mundo como novo, preparado para novas aventuras, sem receio de se sujar novamente, porque é esse o seu destino. Ser sujado, enrugado, manchado, vincado, lavado e por fim seco, num ritual interminável até que o seu tecido deixe transparecer o desgaste no seu colarinho ou um qualquer pequeno buraco, que retire orgulho no seu uso.
Nessa altura findará o seu propósito, como qualquer outro mundo, despejado para um amontado de outros mundos, ansiando, que uma outra alma o queira levar vestido com brio. É um mundo desbotado, não tão brilhante como já fora mas rico de histórias para contar a quem quiser ouvir. O mundo só quer ficar no mundo de alguém.


O lamento ecoado na escuridão da noite, é o meu uivo que tenta alcançar o céu, clamando pelo teu nome. A razão do meu canto, guarda a esperança, que o uivo bata à porta do teu coração e o deixes aconchegar-se no espaço que é seu por direito.
No timbre do uivo, vai a ambição de avivar o beijo, aquele que enche de luz, encandeia e incendeia. Aquele que envolve, levita e reconforta no lar que são os teus braços, o teu colo, as curvas que esculpem o teu corpo, o sabor da pele que encanta, deslumbra e vicia.
Leva o uivo bem além do horizonte de uma noite, leva-o para lá de um amor de praia, de um verão. Envolve-o na lareira que é o teu olhar, atraído no sorriso que alumia o caminho da felicidade, deixa-o criar raízes na serenidade que é a tua essência e na força que explanas, sem grande alarido ou imposição.
Estou à janela, já não uivo, calei. Escuto o silêncio da noite, enquanto queimo mais um cigarro à espera de boas novas. Um uivo teu, feito do orvalho da noite, só para refrescar a alma!

Um dia acordas e dás conta que tudo o que te rodeia é uma amarra insossa, sentes a vida escorrer como areia entre os dedos, enquanto sonhas em alcançar feitos maiores, com a necessidade premente de seres mais do que vives. Para, respira fundo e deixa ganhar asas o imaginário que há em ti. Deixa o sol apresentar-te a sensação de calor, de quem renova energias e esperanças. Há qualquer coisa de leve, deixa-te ir no fluxo da sensação, mesmo quando a sensação de controle se esvai na percepção da independência que não é tua.
Ainda muita água vai correr de baixo da ponte e de certeza que a hipótese de perder o momento, será muito mais penoso, do que a delonga da espera. Deixa andar, deixa ver onde vai parar, deixa consolidar, acima de tudo não penses tanto, não tentes controlar e desfruta da espera, com a noção que sedimentar conhecimento, é vital e agir por impulso resulta sempre em algo efémero.
Não é fácil abstrair, o vício não passa, é necessário algum rigor e disciplina para manter a postura. A perda, tem a maior fatia dos prognósticos, portanto não há que analisar tudo. Uma postura descomplexada é o que se deseja e o tempo encarregue de trazer novidades, algo de bom deixará.

Um dia, mais tarde, um ano depois, eles voltam a encontrar-se, por acaso, num bar, à noite. Dizem olá, perguntam o que é feito de ti, e começam a falar como se se tivessem visto ontem, perplexos com o mesmo entendimento perfeito de outrora. Ficam a interrogar-se porque se separaram no passado e nenhum deles é capaz de se lembrar de uma razão suficientemente válida, de alguma questão inultrapassável que não lhes tivesse permitido ficar juntos até hoje. As questões que um dia os tiveram de costas voltadas já não lhes parecem tão importante assim. No entanto, afastam-se com uma saudade a roer-lhes o espírito, mas sem tomarem a iniciativa de sugerirem voltar a encontrar-se em breve. Tal como antes, vêem-se tolhidos pela incapacidade de dar o braço a torcer. Nenhum quer ser o primeiro a dizer olha, penso muito em ti, nunca deixei de sentir a a tua falta. Não sabem o que o outro dirá e preferem não arriscar o embaraço de uma resposta má. De modo que, de novo, o orgulho leva a melhor à possibilidade de virem a ser felizes um com o outro. Eram almas gémeas, diziam, não se deixariam nunca, garantiam.
Passam o resto da noite a espreitar-se discretamente por entre o crepitar frenético das luzes que, a todo o instante, lhes traz a angústia de se perderem de vista momentaneamente, pensando que ainda estão ali os dois, que ainda podem ir ao encontro um do outro, mas sem o fazerem. É como se insistissem num braço-de-ferro contra a sua vontade. Ela está sentada a uma mesa baixa, num banco, a vigiá-lo pelo canto do olho e a pensar ele, se quiser, que venha cá. Ele está de pé, entre o balcão e a pista, a falar com os amigos e a pensar exactamente o mesmo.
Ainda se vêem de raspão à saída, pois fazem de propósito para saírem ao mesmo tempo, mas despedem-se dizendo apenas gostei de te ver, até qualquer dia, pensando ela que ele já não a ama e ele que ela não o deseja. E, assim sendo, continuam em frente, separados na mesma cidade, mas cada um com a consciência do outro e com uma tristeza insanável que, a pouco e pouco, vão abafando numa resignação, fazendo por se esquecer, deixando-se absorver pela voragem dos dias e pela vida que corre demasiado depressa para voltar atrás.

By Tiago Rebelo

Buda reuniu os seus discípulos, e mostrou um flor de Lotus - símbolo da pureza, porque cresce imaculada em águas pantanosas.
- Quero que me digam algo sobre isto que tenho nas mãos - Disse Buda.
O primeiro discípulo, fez um verdadeiro tratado sobre a importância das flores.
O segundo, compôs uma linda poesia sobre as suas pétalas.
O terceiro, inventou um parábola usando a flor como exemplo.
Até que chegou a vez de Mahkashyao. Ele aproximou-se de Buda, cheirou a flor, acariciou o seu rosto com uma das pétalas.
- É uma flor de Lotus - Disse Mahkashyao. Simples e bela.
- Foste o único que viu o que tinha nas mãos - disse Buda.

Não é no amontoado de estereótipos de ideias vendidas sobre o que é conveniente e correcto, que se reencontra a pureza e simplicidade do sentimento que um dia usufruiu. Da mesma forma que a obsessão, mesmo que de forma simulada, é algo que entristece e não leva a bom porto.
Que bom seria poder ver, que as capas e divagações sobre o que não é essencial, foram deixadas para trás sem apelo, nem agravo. Aprender a contemplar e estimar a simplicidade, franqueza e a pureza do que é real.

P.S.: Continuo a desejar-te o melhor e espero do fundo do coração, que sejas muito feliz.

Só eu sei quem tu és, que me visita diariamente, que convives no imaginário do meu pensamento antes de deitar. Mulher, menina e moça. Só eu sei, o que significou cada dia da nossa existência conjunta. Fui mais do que o actor, vesti a minha pele e pude ser eu sem capas, nem desgraças. Só eu sei a memória do cheiro da tua pele, quando os teus cabelos pousaram no meu ombro ou quando os teus lábios tocavam os meus.
Só eu te conheço realmente, porque entendo as tuas inseguranças, façanhas e defeitos. Entendo na plenitude de aceitar quem és, sem questionar porquês e querendo-te com o mesmo desejo do primeiro olhar, do primeiro sorriso, do beijo nervoso ou do momento em que as mãos se entrelaçavam nervosas pela primeira vez. Só eu sei a entrega que existiu nas horas infindáveis dentro do carro, beijando-te ternamente como vício de mim que não quer partir.
Só eu sei, que a nossa cumplicidade vai além do papel natural que há em nós, da dedicação mútua e esforço conjunto que cada um de nós empregou nesta existência a dois. Só eu sei, como os teus olhos falam palavras de carinho e apreço, que o teu sorriso esboça o teu sentir e como cada gesto de expressão do teu corpo, é produto de um sentimento que só eu consigo descortinar. Mulher felina de garras afiadas na protecção, dócil e terna quando no aconchego da segurança. Só eu sei, que atrás da personagem batalhadora, realista, independente, jóia rara do universo, se encontra a menina generosa, de maneiras delicadas e suave.
Só eu sei, a saudade que me ocorre, quando vejo os verdes campos do outro lado do vidro ou quanto custa relembrar momentos de viagem e estar apartado da tua presença, com a consciência plena que é necessário serenidade, para viver certos momentos, pois não sou dono do destino para alterar-lo. Só eu sei, como estamos tão perto e tão distantes. Até quando não sei mas só eu sei, como custa esta distância.

Na minha vida fui sempre um outro qualquer
Era tão fácil, bastava apenas escolher
Escolher-me a mim, pensei que isso era vaidade
Mas já passou, não sou melhor mas sou verdade
Não ando cá para sofrer mas para viver
E o meu futuro há-de ser o que eu quiser

Fernando Tordo - Adeus tristeza

A semente enraíza no terreno molhado, cria fundações com expectativa de um futuro longínquo e sólido. Os seus tentáculos tentam prever a imensidão que será o seu tamanho, tendo por fé suportar todas as intempéries que se atravessaram no tempo. Por vezes essa base, torna-se frágil para a grandiosidade das adversidades, pode também encontrar desanimo e secar por não vislumbrar o crescimento desejado, tantas são as possibilidades de insucesso mas quando a semente consegue alicerçar o seu crescimento de forma sustentada, encontramos uma árvore, uma árvore repleta de folhas verdejantes, que dançam harmoniosamente no embalo do vento, com as suas flores de cores vibrantes ofuscando os olhos que a contemplam, perante tal graciosidade e beleza. Assim, também se pode descrever uma relação.
Já plantei algumas sementes, sem o resultado desejado, mal solidificadas, algumas por falta de fé, outras por raízes pouco tonificadas mas no final do dia, que será o meu despedir desta existência, espero ter conseguido plantar uma semente que perdure para além da minha existência, que simbolize o esplendor da beleza, que é uma vivência compartilhada a dois. Quero que o meu futuro represente uma árvore esbelta, onde as rugas do seu tronco contem a história de um vida repleta de aventuras, sorrisos e bem-estar. Quero uma árvore, que se denote no seio de uma clareira, pela sua imponência sólida de tantos anos de existência. Almejo pelo dia que a minha árvore, possa contar a sua bela história de vida.

Por vezes o orgulho não faz sentido, ausências sem sentido, síndromes de solidões representadas em teatros sobre cacos de vidro. Uma máscara em palco, que esconde o que no escuro do quarto enfeita o vazio. São viagens ao passado que buscam "De Mim para Ti", num espectro nostálgico ou de simples consciencialização da saudade.
Olhos que na noite procuram subtilmente o que já não aquece numa estrada que não logrei vencer mas quis um dia percorrer infinitamente. Que o amanhã te dê a sabedoria para perceber que por vezes os bastidores são o palco principal e é nele que se desenrola a parte mais vital da história. Não é o palco que sustenta o artista, é o que vive por trás da encenação, o sentimento que absorve-o no escuro do camarim quando retira a maquiagem.
Sábado tive o prazer de assistir um amigo transformar-se, durante hora e meia, noutra personagem. Uma viagem a solo no palco do Chapitô, numa actuação impregnada de coragem para abstrair-se de um sala cheia de espectadores. Uma performance quase imaculada de uma vivência que não é a sua, de narrar uma história aventureira, na primeira pessoa. Sorriu, excitou, chorou, desesperou e por fim morreu. Foi quando desceu do palco e entrou nos bastidores da sua vida, entre amigos, que realmente desfrutou do prazer da sua actuação, porque no final o importante é saborear a satisfação daqueles que ao nosso lado vivem as nossas vidas.
Não viverei para sempre, viverei para viver quem comigo quer partilhar a sua existência. Não viverei dum mar azul turquesa intemporal, este mar não tem cura e este céu asfixiou com a ausência de ar. Um regaço frio, frio contagiado pela longa ausência e é com olhos baços que recebem aqueles que no palco brilham à procura do seu espectador. Houve percepção da busca, do nervoso miúdo, da ausência de aplausos mas a verdadeira peça é outra e chama-se vida presente.
É como a canção que se ama e se deixa para trás, por não ser apropriada à ocasião. A melodia pode não ser apropriada mas se é nela que realmente se sente felicidade, então que a canção nunca pare de tocar, indiferente a quem atravessa a estrada. Pensar no conveniente seca o sangue que palpita, perde a força que se alimenta do sentimento. O sentir gera vivência, afasta solidões e é nessa semente agreste, rebelde, inconformada, alegre, fiel, amiga, que viverei para viver.

Os olhos abriram lentamente na manhã fria ainda procurando o espaço e tempo onde se encontrava. Instintivamente aconchega-se ao edredão, numa mescal do frio que se sente e da ausência que se pressente. Deixa-se ficar deitado, dando corda ao raciocino que chega ao de leve imbuído em fotos antigas, revivendo imagens idas de um passado curto mas ao mesmo tempo distante, sem que haja lógica para tais pensamentos, instintivamente, puxa ainda mais o edredão contra o corpo.
Está frio, talvez seja do tempo, este cinzento que cobre os últimos dias, reavivando memórias condizentes com a sua cor. Imagens a preto e branco, que já não demonstram o calor de uma foto a cores. Enquanto vai deixando a inércia levar a melhor, na guerra do levantar, liga a televisão. Talvez o zapping, o desperte da nostalgia. Mais notícias sobre o tempo, desta vez ventos ciclónicos no continente e só de pensar que ainda há uma ida ao teatro ao anoitecer, torce-se o nariz. Não será possível ficar aqui aninhado no quente dos lençóis? Era bom mas há coisas a tratar e há que dar força aos amigos. Talvez no final volte-se a sentir o quente, no copo de uma bebida.
Mais uma batalha contra os lençóis ganha pela inércia, desta vez a vitória foi à justa e leva a mudar de posição, virado para a foto da cabeceira, o futuro. Também tu estás a cinzento, pensa, mas pelo menos vê-se o sorriso que irradia cor. Sorri de volta, é, foi mesmo do tempo. Drenou-se o que existia, secou por dentro até retirar toda a esperança e agora somente vislumbra-se lembranças que retornam a tempos. O futuro é a cores, não é um futuro de tonalidades intensas, de amarelos girassóis, é de um verde primaveril, equilibrado e ponderado. De sorrisos mil e olhares castanhos cintilantes, de um azul suave como a brisa que aviva a memória para o cheiro a jasmim.
É revigorante esta ausência do futuro, é a arma letal contra a inércia. Knock-out à primeira, levantar ao impulso de uma mola, os lençóis abandonados sem apelo, nem agravo. Um banho para despertar e seguir passivamente em direcção ao café. Vamos ler o que as notícias trazem hoje de bom, ao sabor de uma meia-de-leite e ao som do David Fonseca, que para cinzento já basta o tempo.

Através dos outros conseguimos entender quem somos. Em 2009, foi curioso como alguns amigos do passado, acabaram por reentrar no dia-a-dia, pela simples razão da proximidade de residência. Embora também tenha mudado de residência, reencontro-me no bairro que me viu crescer.
Um desses amigos voltou à casa mãe, embora que temporariamente e isso fez com que se torne mais fácil os nossos encontros. Perdemos o rasto um do outro, já faz alguns anos, reencontramos-nos há ano e picos, por mera coincidência num café do bairro. A partir desse dia, foi mais fácil tornar a convivência mais activa. No outro dia, lá fomos tomar um café mais prolongado para podermos relatar um ao outro, o que aconteceu nestes anos de ausência, como se estivéssemos a pôr a conversa a par de um interregno de dias.
É com agrado que revejo-o a trabalhar no que gosta, a ter novos projectos e com uma filhota de dois anos. Já em final de percurso, à porta do restaurante onde ia jantar, recebi um espelho de quem fui. Debatíamos uma outra relação de amizade e os porquês dessa amizade de infância ter dispersado. Ambos chegámos à mesma conclusão. Cada um gere as emoções à sua maneira mas a amizade não deve descurar a presença em momentos complicados e o meu sábio amigo terminou a conversa com esta frase: "Lembro-me de estar a jogar à bola e começar a chorar, lembrei-me de ti e percebi que nunca mais poderias jogar na vida"
Quem me conhece desde infância, sabe o quanto eu vivia para o futebol. Hoje não sinto essa falta, aprendi a lidar com ela, a aceitar o facto de que é algo impossível para mim. Há sempre uma solução para que as roturas sejam amenizadas, por isso continuo a viver o futebol, por fora, como torcedor, como adepto do meu clube mas acima de tudo, do desporto em si.
Assim como com o futebol, felizmente tenho encontrado antídotos para amenizar desgostos e se calhar é por isso, que ao entrar no restaurante, olhei para o meu reflexo no espelho. Estava a sorrir, um sorriso que espelha a sensação de que tem sido um percurso bonito.

Estava aconchegante em lençóis de fresco, edredão convidativo a dar asas à realização de um sonho. Nesse sono profundo, visualizava o momento único do que quero para o futuro.
Eram linhas de uma arquitectura minimalista, envolvida por amplas janelas rasgadas, dando uma noção de relação intima entre o interior e o exterior. Era final de dia e sentia-se que lá fora, o orvalho impunha o término do guerreiro sol. Imunes ao anúncio, reservados à primeira fila do espectáculo, refastelados num sofá de tons claros, contemplava as pequenas labaredas que dançam na lareira, recordando o sentido da palavra lar.
O dia tinha sido longo. Um almoço convívio ao ar livre, num tapete verde imaculado, a dispersar um cheiro florestal, que enchia o apetite para os petiscos que deambulavam numa valsa sincronizada e ensaiada tantas vezes. Um final de tarde a debater ideias, a jogar pensamentos e risadas, terminando com uma partida de snooker e o jogo do Benfica na tela. Vitória esmagadora para rematar. Abraços, beijos, despedidas e planos para o próximo convívio.
Foi um bom dia mas é hora de recolher ao sono dos justos. Antes, subir os degraus ao primeiro andar, para verificar que o quarto cor-de-rosa acolhe o mundo dos sonhos. Selar a vigia com um beijo ao de leve, uma carícia pelos cabelos de laivos doirados e compor os lençóis. Caminhando para o quarto, já o calor humano preenche a morada do meu sono. Um entrelaçar de corpos, num carinho terno, movimento sincronizado de uma existência duradoira e enquanto os olhos cerram-se, ainda há tempo para um último desejo. Que este seja um momento perpétuo do futuro.

Num sorriso de esperança, num futuro que nunca mais ascende ao seu expoente mais justo, é no riso de uma sinceridade profunda, que se apartam medos, dores e angústias. Não se perde tempo, erguesse a cabeça, vislumbrasse o horizonte, esboçasse um gracejo e prossegue a jornada. Qual é o sentido de viver a lamentar o inevitável?
Há sempre valor no amanhã, existirá sempre um amanhã que trará algo novo, algo melhor, ímpeto renovado, para apreciar o que se contempla à tua frente. Não esquecer de distribuir o riso sincero, a boa disposição contagiante, mesmo que ela sirva de máscara ao profundo obscuro que existe, para cada cara que encontres nas encruzilhadas do tempo. Talvez isso ofereça um caminho mais alegre àqueles que vão em sentidos opostos.
É hora de fechar os olhos, de sentir a brisa do futuro que quer envolver-se, colocar fé na sua vontade, deixar o contagio dessa fé tomar conta do momento e sorrir. Embarcar numa viagem, desprendendo amarras de um passado, que é isso mesmo. Passado. Navegar, conquistar o leme por direito próprio, confiando nos instintos, fechar os olhos e seguir numa rota que só o futuro guarda como certo, não olhando para trás e sem temor do incógnito do novo que aí vem. Mais vale receber-lo com contentamento, deixando fugir o sorriso que é imagem de marca, a desperdiçar a sua chegada, perdendo tempo pensando nas hipóteses do que é imprevisível. Portanto vamos sorrir, pior não pode acontecer.

Outro dia num confronto genuíno de preocupação, diziam-me: Não fumes, assim temos menos tempo para nós. Parei um segundo e expressei a minha opinião, a minha filosofia de vida: Não interessa a quantidade mas a qualidade de tempo.
Costuma-se dizer que só quando estamos no fio da navalha, é que passamos a dar valor às coisas importantes, à vida em si. Talvez, por ter-me deparado com esse momento, numa fase precoce da vida, passei a apreciar as coisas de outra forma, a dar valor a pequenos momentos, pequenos nadas que todos dão como garantidos, sem terem a noção do seu valor.
Não é que eu não saiba que comer fritos faz mal ao colesterol, que fumar tira-me anos de vida, que beber bebidas alcoólicas deterioriza-me o fígado, que ficar acordado até tarde e dormir pouco provoca fadiga muscular mas todas as opções tomadas são decisões conscientes, são decisões que faço consciente dos prós e dos contras. Pode não ser a melhor opção, podem até discordar mas é a minha maneira de desfrutar da vida e só por ser uma decisão consciente, deve ser respeitada.
Tenho o pecado da gula, gosto de beber, de fumar, de ficar a conviver até tarde, de passar horas no computador. Tantas coisas prejudiciais à saúde mas que fazem-me feliz, fazem bem ao espírito. Por isso suscita-me irritação, quando vejo que a fruta já não sabe ao que sabia quando eu era miúdo, pois agora utiliza-se químicos para tornar a fruta mais saudável mas sem sabor. Faz-me confusão, que proliferem tantas lojas gourmet, com preços exorbitantes, onde compramos aquilo que era natural encontrar na mercearia do bairro. Acho irracional, que hoje em dia as pessoas se preocupem tanto com a saúde, ao ponto de a comida ter deixado de ter aquele sabor apetitoso que entrava pelo corpo, com os seus cheiros deliciosos, quando sentávamos em casa dos nossos avós a usufruir de uma refeição de fim-de-semana, para passarem a saber a plástico, a não saberem a nada. É saudável, dizem... é saudável depende do ponto de vista.
Será que sou o único a questionar, que se os cuidados médicos que existem hoje em dia, proliferassem no tempo dos meus avós, estes teriam uma maior longevidade, independentemente do que comiam? Porque a verdade, é que as pessoas tinham uma taxa de mortalidade maior, devido aos fracos cuidados médicos, não porque comiam, bebiam ou fumavam. O facto final é que nos dias que correm, vivemos mais mas não temos qualidade de vida e isso para mim não me satisfaz e chego à conclusão que prefiro mil vezes ter sensações de prazer genuíno, que todas as gorduras, óleos, fumos, alcool, proporcionam, a viver confinado a uma castração desses sentimentos. A vida é feita para sentir-se e eu sou dependente de sensações. Não interessa quantos anos de vida vamos ter, mas quantos anos de qualidade vamos viver.

Já lá vão quase quatro meses desde a minha visita forçada à colónia de férias. Na altura, o acontecimento deveu-se à inconsciência desta geração morangos com açúcar, que talvez por estar a ficar velho ou porque não vislumbro nesta geração, o conceito de valores e respeito que me foi incutido, traz-me à superfície o sentimento de revolta e preocupação.
Preocupa-me a inconsciência, com que os adolescentes dos nossos dias são irresponsabilizados pelos seus actos, pelos próprios paizinhos que não sabem disciplinar os filhos e que não permitem que outros lhes chamem à razão da má educação que oferecem ou a falta da mesma. Mais preocupante, é que os pais destes meninos são os mesmos que viveram intensamente o 25 de Abril, na adolescência, são aqueles que sabem o que custou ganhar a liberdade de expressão e que cresceram a ouvir que se deve respeito a todo o ser.
Tropelias todos fizemos. Fiz eu, fizeram os meus pais e os meus avós. Tudo com conta, peso e medida. Todos pisámos o risco uma vez por outra mas sempre acabámos a pagar a factura, sempre tivemos de mostrar a cara e responsabilizar-nos pelos nossos erros, às vezes até com cinco dedos bem marcados na cara.
Na adolescência vivia num prédio onde os meus pais eram o casal mais jovem, fazendo larga diferença de idade para os outros inquilinos e foi-me imposto desde sempre, o bom dia, o boa tarde, o abrir a porta a qualquer vizinho. Fosse ele de que religião, credo, idade ou raça fosse. Foi-me incutido que se deve respeitar os outros, independentemente do seu extracto social, das sua postura. Sempre cresci a ouvir dizer que a educação tem sempre lugar garantido. Hoje, o que presencio é uma total falta de respeito, não só pelos mais velhos, mas também pelas hierarquias, onde o que se vislumbra é os adultos a deverem reverencia aos adolescentes, tentando ao máximo simplificar as suas vidas e desculpabilizando todo e qualquer acto idiota praticado por estas criaturas.
Coitadinhas destas próprias criaturas, que são obrigadas a ir para a escola, para tirarem notas negativas e mesmo assim serem premiados com a última versão da playstation. No meu tempo negativa, dava direito a castigo no quarto sem puder ver televisão, que seria o mesmo, que hoje em dia, retirar os privilégios da internet. Onde é que se ouve um pai dizer que o filho não pode utilizar a internet, porque está de castigo? Quantas vezes ouvíamos, no nosso tempo, que fulano a ou b, estava proibido de ver televisão durante umas quantas semanas?
Havia tarefas a serem cumpridas diariamente, para simplificar a vida daqueles que nos sustentavam. Pôr a mesa, ajudar a lavar a loiça, limpar os pratos ou levar o lixo à rua. Hoje em dia os meninos não podem fazer nada em casa, porque estão muito cansados de terem ido às aulas. As mesmas nas quais tiram as negativas! Os pais é que têm a obrigação de tratar-los como realeza, com todas as mordomias. Só comem o que querem, impõem a mesada que querem e saem para a rua sem dar cavaco a ninguém.
A culpa não é desta geração morangada, é da geração anterior à minha, que se demitiu de incutir valores e responsabilidades ao filhos e não admite que ninguém dê por eles.
É por estas e por outras, que a noite de sábado teve mais valor. Não só por ter sido o convívio de aniversário de um bom amigo mas por ter terminado a noite rodeado de adolescentes, que ainda revejo com valores e respeito pelos outros. É caso raro mas todos os adolescentes com que lidei nessa noite souberam ser bem comportados, educados, com noção de hierarquia e mesmo em hora de folia souberam respeitar as poucas regras que impus, proporcionando uma noite agradável a todos. Para eles e para mim.
É nesta pequena minoria da geração morangada, que consigo encontrar esperança para um futuro responsável e com consciência social, pois não me apetece nada chegar a velho e ser tratado como lixo pelas gerações mais novas.

Numa neblina, que cobre o amanhecer, o anjo desce do seu posto de vigia e pergunta: - Porque essa tristeza? O rapaz, debruçado sobre si, numa esquina escura, tentando por tudo passar despercebido, levanta os olhos, sem responder. O anjo insiste: - Porque estás assim?
O rapaz volta a mirar o anjo, sem nunca se deslumbrar com a sua presença e murmura: - Para que perdes tu, o teu tempo a olhar por mim? Volta a baixar os olhos, resguarda-se no seu interior, viaja para o seu espaço.
A sombra do anjo cobre o seu espírito, enquanto o rapaz percorre o seu caminho solitário. Mantém-se aninhado no seu canto, imbuído no espírito das questões que atormentam-no. Foram só uns segundos, parecia que uma eternidade se tinha passado. Ele levanta os olhos, fixa-os no anjo que permanecia estático na mesma posição, sem nunca arredar pé, buscando por uma resposta. Mirou-o durante uns segundos e devolveu-lhe o olhar condescendente com uma pergunta: - Porque não desistes Querida? Sim, ele sabia o nome por qual devia tratar o anjo que o protegia, sabia bem a sua missão, só não compreendia o porque.
- Olha para mim, olha para o que conquistei, olha para o que deixo para trás e responde-me com um lógica irrefutável que sou necessário, nesta existência disléxica. Sim somos um todo, somo uma existência acima do conhecimento global mas tenho a necessidade de saber o meu lugar e o meu papel. Quero contribuir, quero ser útil mas não compreendo a minha utilidade. A verdade? A verdadeira, cruel, sem rodeios? Não consegues açambarcar, não consegues assimilar e eu não quero magoar-te. Deixa-me, deixa-me na ausência de quem sou, do que é a minha existência, sem amparo desde que te tornaste uma presença espiritual, deixa-me na existência do inútil que sou, na dor, na solidão.
O anjo deixou escorrer uma lágrima, sorriu e murmurou: - Ainda acredito em ti. Levanta-te, olha bem para o teu futuro, olha mais além, olha para além da dor. Não, não estás só, olha bem para o caminho que percorreste e verás que estive sempre aqui, mesmo quando o silêncio imperava, acompanhei-te.
- Sim, tens razão. Não é o ponto de chegada, é ter sobrevivido ao caminho que mais interessa e agora vejo, vejo que todos perderam a fé, menos tu. Tu estiveste lá mas porque?
O anjo sorriu, genuinamente, esperou um segundo enquanto a ansiedade tomava conta do rapaz: - Porque no fundo, sei que tens potencialidades para chegares a muitas mais pessoas... ainda acredito em ti.