The Real Johnny Bravo

Histórias de um livro chamado vida

Buda reuniu os seus discípulos, e mostrou um flor de Lotus - símbolo da pureza, porque cresce imaculada em águas pantanosas.
- Quero que me digam algo sobre isto que tenho nas mãos - Disse Buda.
O primeiro discípulo, fez um verdadeiro tratado sobre a importância das flores.
O segundo, compôs uma linda poesia sobre as suas pétalas.
O terceiro, inventou um parábola usando a flor como exemplo.
Até que chegou a vez de Mahkashyao. Ele aproximou-se de Buda, cheirou a flor, acariciou o seu rosto com uma das pétalas.
- É uma flor de Lotus - Disse Mahkashyao. Simples e bela.
- Foste o único que viu o que tinha nas mãos - disse Buda.

Não é no amontoado de estereótipos de ideias vendidas sobre o que é conveniente e correcto, que se reencontra a pureza e simplicidade do sentimento que um dia usufruiu. Da mesma forma que a obsessão, mesmo que de forma simulada, é algo que entristece e não leva a bom porto.
Que bom seria poder ver, que as capas e divagações sobre o que não é essencial, foram deixadas para trás sem apelo, nem agravo. Aprender a contemplar e estimar a simplicidade, franqueza e a pureza do que é real.

P.S.: Continuo a desejar-te o melhor e espero do fundo do coração, que sejas muito feliz.

Só eu sei quem tu és, que me visita diariamente, que convives no imaginário do meu pensamento antes de deitar. Mulher, menina e moça. Só eu sei, o que significou cada dia da nossa existência conjunta. Fui mais do que o actor, vesti a minha pele e pude ser eu sem capas, nem desgraças. Só eu sei a memória do cheiro da tua pele, quando os teus cabelos pousaram no meu ombro ou quando os teus lábios tocavam os meus.
Só eu te conheço realmente, porque entendo as tuas inseguranças, façanhas e defeitos. Entendo na plenitude de aceitar quem és, sem questionar porquês e querendo-te com o mesmo desejo do primeiro olhar, do primeiro sorriso, do beijo nervoso ou do momento em que as mãos se entrelaçavam nervosas pela primeira vez. Só eu sei a entrega que existiu nas horas infindáveis dentro do carro, beijando-te ternamente como vício de mim que não quer partir.
Só eu sei, que a nossa cumplicidade vai além do papel natural que há em nós, da dedicação mútua e esforço conjunto que cada um de nós empregou nesta existência a dois. Só eu sei, como os teus olhos falam palavras de carinho e apreço, que o teu sorriso esboça o teu sentir e como cada gesto de expressão do teu corpo, é produto de um sentimento que só eu consigo descortinar. Mulher felina de garras afiadas na protecção, dócil e terna quando no aconchego da segurança. Só eu sei, que atrás da personagem batalhadora, realista, independente, jóia rara do universo, se encontra a menina generosa, de maneiras delicadas e suave.
Só eu sei, a saudade que me ocorre, quando vejo os verdes campos do outro lado do vidro ou quanto custa relembrar momentos de viagem e estar apartado da tua presença, com a consciência plena que é necessário serenidade, para viver certos momentos, pois não sou dono do destino para alterar-lo. Só eu sei, como estamos tão perto e tão distantes. Até quando não sei mas só eu sei, como custa esta distância.

Na minha vida fui sempre um outro qualquer
Era tão fácil, bastava apenas escolher
Escolher-me a mim, pensei que isso era vaidade
Mas já passou, não sou melhor mas sou verdade
Não ando cá para sofrer mas para viver
E o meu futuro há-de ser o que eu quiser

Fernando Tordo - Adeus tristeza

A semente enraíza no terreno molhado, cria fundações com expectativa de um futuro longínquo e sólido. Os seus tentáculos tentam prever a imensidão que será o seu tamanho, tendo por fé suportar todas as intempéries que se atravessaram no tempo. Por vezes essa base, torna-se frágil para a grandiosidade das adversidades, pode também encontrar desanimo e secar por não vislumbrar o crescimento desejado, tantas são as possibilidades de insucesso mas quando a semente consegue alicerçar o seu crescimento de forma sustentada, encontramos uma árvore, uma árvore repleta de folhas verdejantes, que dançam harmoniosamente no embalo do vento, com as suas flores de cores vibrantes ofuscando os olhos que a contemplam, perante tal graciosidade e beleza. Assim, também se pode descrever uma relação.
Já plantei algumas sementes, sem o resultado desejado, mal solidificadas, algumas por falta de fé, outras por raízes pouco tonificadas mas no final do dia, que será o meu despedir desta existência, espero ter conseguido plantar uma semente que perdure para além da minha existência, que simbolize o esplendor da beleza, que é uma vivência compartilhada a dois. Quero que o meu futuro represente uma árvore esbelta, onde as rugas do seu tronco contem a história de um vida repleta de aventuras, sorrisos e bem-estar. Quero uma árvore, que se denote no seio de uma clareira, pela sua imponência sólida de tantos anos de existência. Almejo pelo dia que a minha árvore, possa contar a sua bela história de vida.

Por vezes o orgulho não faz sentido, ausências sem sentido, síndromes de solidões representadas em teatros sobre cacos de vidro. Uma máscara em palco, que esconde o que no escuro do quarto enfeita o vazio. São viagens ao passado que buscam "De Mim para Ti", num espectro nostálgico ou de simples consciencialização da saudade.
Olhos que na noite procuram subtilmente o que já não aquece numa estrada que não logrei vencer mas quis um dia percorrer infinitamente. Que o amanhã te dê a sabedoria para perceber que por vezes os bastidores são o palco principal e é nele que se desenrola a parte mais vital da história. Não é o palco que sustenta o artista, é o que vive por trás da encenação, o sentimento que absorve-o no escuro do camarim quando retira a maquiagem.
Sábado tive o prazer de assistir um amigo transformar-se, durante hora e meia, noutra personagem. Uma viagem a solo no palco do Chapitô, numa actuação impregnada de coragem para abstrair-se de um sala cheia de espectadores. Uma performance quase imaculada de uma vivência que não é a sua, de narrar uma história aventureira, na primeira pessoa. Sorriu, excitou, chorou, desesperou e por fim morreu. Foi quando desceu do palco e entrou nos bastidores da sua vida, entre amigos, que realmente desfrutou do prazer da sua actuação, porque no final o importante é saborear a satisfação daqueles que ao nosso lado vivem as nossas vidas.
Não viverei para sempre, viverei para viver quem comigo quer partilhar a sua existência. Não viverei dum mar azul turquesa intemporal, este mar não tem cura e este céu asfixiou com a ausência de ar. Um regaço frio, frio contagiado pela longa ausência e é com olhos baços que recebem aqueles que no palco brilham à procura do seu espectador. Houve percepção da busca, do nervoso miúdo, da ausência de aplausos mas a verdadeira peça é outra e chama-se vida presente.
É como a canção que se ama e se deixa para trás, por não ser apropriada à ocasião. A melodia pode não ser apropriada mas se é nela que realmente se sente felicidade, então que a canção nunca pare de tocar, indiferente a quem atravessa a estrada. Pensar no conveniente seca o sangue que palpita, perde a força que se alimenta do sentimento. O sentir gera vivência, afasta solidões e é nessa semente agreste, rebelde, inconformada, alegre, fiel, amiga, que viverei para viver.

Os olhos abriram lentamente na manhã fria ainda procurando o espaço e tempo onde se encontrava. Instintivamente aconchega-se ao edredão, numa mescal do frio que se sente e da ausência que se pressente. Deixa-se ficar deitado, dando corda ao raciocino que chega ao de leve imbuído em fotos antigas, revivendo imagens idas de um passado curto mas ao mesmo tempo distante, sem que haja lógica para tais pensamentos, instintivamente, puxa ainda mais o edredão contra o corpo.
Está frio, talvez seja do tempo, este cinzento que cobre os últimos dias, reavivando memórias condizentes com a sua cor. Imagens a preto e branco, que já não demonstram o calor de uma foto a cores. Enquanto vai deixando a inércia levar a melhor, na guerra do levantar, liga a televisão. Talvez o zapping, o desperte da nostalgia. Mais notícias sobre o tempo, desta vez ventos ciclónicos no continente e só de pensar que ainda há uma ida ao teatro ao anoitecer, torce-se o nariz. Não será possível ficar aqui aninhado no quente dos lençóis? Era bom mas há coisas a tratar e há que dar força aos amigos. Talvez no final volte-se a sentir o quente, no copo de uma bebida.
Mais uma batalha contra os lençóis ganha pela inércia, desta vez a vitória foi à justa e leva a mudar de posição, virado para a foto da cabeceira, o futuro. Também tu estás a cinzento, pensa, mas pelo menos vê-se o sorriso que irradia cor. Sorri de volta, é, foi mesmo do tempo. Drenou-se o que existia, secou por dentro até retirar toda a esperança e agora somente vislumbra-se lembranças que retornam a tempos. O futuro é a cores, não é um futuro de tonalidades intensas, de amarelos girassóis, é de um verde primaveril, equilibrado e ponderado. De sorrisos mil e olhares castanhos cintilantes, de um azul suave como a brisa que aviva a memória para o cheiro a jasmim.
É revigorante esta ausência do futuro, é a arma letal contra a inércia. Knock-out à primeira, levantar ao impulso de uma mola, os lençóis abandonados sem apelo, nem agravo. Um banho para despertar e seguir passivamente em direcção ao café. Vamos ler o que as notícias trazem hoje de bom, ao sabor de uma meia-de-leite e ao som do David Fonseca, que para cinzento já basta o tempo.

Através dos outros conseguimos entender quem somos. Em 2009, foi curioso como alguns amigos do passado, acabaram por reentrar no dia-a-dia, pela simples razão da proximidade de residência. Embora também tenha mudado de residência, reencontro-me no bairro que me viu crescer.
Um desses amigos voltou à casa mãe, embora que temporariamente e isso fez com que se torne mais fácil os nossos encontros. Perdemos o rasto um do outro, já faz alguns anos, reencontramos-nos há ano e picos, por mera coincidência num café do bairro. A partir desse dia, foi mais fácil tornar a convivência mais activa. No outro dia, lá fomos tomar um café mais prolongado para podermos relatar um ao outro, o que aconteceu nestes anos de ausência, como se estivéssemos a pôr a conversa a par de um interregno de dias.
É com agrado que revejo-o a trabalhar no que gosta, a ter novos projectos e com uma filhota de dois anos. Já em final de percurso, à porta do restaurante onde ia jantar, recebi um espelho de quem fui. Debatíamos uma outra relação de amizade e os porquês dessa amizade de infância ter dispersado. Ambos chegámos à mesma conclusão. Cada um gere as emoções à sua maneira mas a amizade não deve descurar a presença em momentos complicados e o meu sábio amigo terminou a conversa com esta frase: "Lembro-me de estar a jogar à bola e começar a chorar, lembrei-me de ti e percebi que nunca mais poderias jogar na vida"
Quem me conhece desde infância, sabe o quanto eu vivia para o futebol. Hoje não sinto essa falta, aprendi a lidar com ela, a aceitar o facto de que é algo impossível para mim. Há sempre uma solução para que as roturas sejam amenizadas, por isso continuo a viver o futebol, por fora, como torcedor, como adepto do meu clube mas acima de tudo, do desporto em si.
Assim como com o futebol, felizmente tenho encontrado antídotos para amenizar desgostos e se calhar é por isso, que ao entrar no restaurante, olhei para o meu reflexo no espelho. Estava a sorrir, um sorriso que espelha a sensação de que tem sido um percurso bonito.

Estava aconchegante em lençóis de fresco, edredão convidativo a dar asas à realização de um sonho. Nesse sono profundo, visualizava o momento único do que quero para o futuro.
Eram linhas de uma arquitectura minimalista, envolvida por amplas janelas rasgadas, dando uma noção de relação intima entre o interior e o exterior. Era final de dia e sentia-se que lá fora, o orvalho impunha o término do guerreiro sol. Imunes ao anúncio, reservados à primeira fila do espectáculo, refastelados num sofá de tons claros, contemplava as pequenas labaredas que dançam na lareira, recordando o sentido da palavra lar.
O dia tinha sido longo. Um almoço convívio ao ar livre, num tapete verde imaculado, a dispersar um cheiro florestal, que enchia o apetite para os petiscos que deambulavam numa valsa sincronizada e ensaiada tantas vezes. Um final de tarde a debater ideias, a jogar pensamentos e risadas, terminando com uma partida de snooker e o jogo do Benfica na tela. Vitória esmagadora para rematar. Abraços, beijos, despedidas e planos para o próximo convívio.
Foi um bom dia mas é hora de recolher ao sono dos justos. Antes, subir os degraus ao primeiro andar, para verificar que o quarto cor-de-rosa acolhe o mundo dos sonhos. Selar a vigia com um beijo ao de leve, uma carícia pelos cabelos de laivos doirados e compor os lençóis. Caminhando para o quarto, já o calor humano preenche a morada do meu sono. Um entrelaçar de corpos, num carinho terno, movimento sincronizado de uma existência duradoira e enquanto os olhos cerram-se, ainda há tempo para um último desejo. Que este seja um momento perpétuo do futuro.

Num sorriso de esperança, num futuro que nunca mais ascende ao seu expoente mais justo, é no riso de uma sinceridade profunda, que se apartam medos, dores e angústias. Não se perde tempo, erguesse a cabeça, vislumbrasse o horizonte, esboçasse um gracejo e prossegue a jornada. Qual é o sentido de viver a lamentar o inevitável?
Há sempre valor no amanhã, existirá sempre um amanhã que trará algo novo, algo melhor, ímpeto renovado, para apreciar o que se contempla à tua frente. Não esquecer de distribuir o riso sincero, a boa disposição contagiante, mesmo que ela sirva de máscara ao profundo obscuro que existe, para cada cara que encontres nas encruzilhadas do tempo. Talvez isso ofereça um caminho mais alegre àqueles que vão em sentidos opostos.
É hora de fechar os olhos, de sentir a brisa do futuro que quer envolver-se, colocar fé na sua vontade, deixar o contagio dessa fé tomar conta do momento e sorrir. Embarcar numa viagem, desprendendo amarras de um passado, que é isso mesmo. Passado. Navegar, conquistar o leme por direito próprio, confiando nos instintos, fechar os olhos e seguir numa rota que só o futuro guarda como certo, não olhando para trás e sem temor do incógnito do novo que aí vem. Mais vale receber-lo com contentamento, deixando fugir o sorriso que é imagem de marca, a desperdiçar a sua chegada, perdendo tempo pensando nas hipóteses do que é imprevisível. Portanto vamos sorrir, pior não pode acontecer.

Outro dia num confronto genuíno de preocupação, diziam-me: Não fumes, assim temos menos tempo para nós. Parei um segundo e expressei a minha opinião, a minha filosofia de vida: Não interessa a quantidade mas a qualidade de tempo.
Costuma-se dizer que só quando estamos no fio da navalha, é que passamos a dar valor às coisas importantes, à vida em si. Talvez, por ter-me deparado com esse momento, numa fase precoce da vida, passei a apreciar as coisas de outra forma, a dar valor a pequenos momentos, pequenos nadas que todos dão como garantidos, sem terem a noção do seu valor.
Não é que eu não saiba que comer fritos faz mal ao colesterol, que fumar tira-me anos de vida, que beber bebidas alcoólicas deterioriza-me o fígado, que ficar acordado até tarde e dormir pouco provoca fadiga muscular mas todas as opções tomadas são decisões conscientes, são decisões que faço consciente dos prós e dos contras. Pode não ser a melhor opção, podem até discordar mas é a minha maneira de desfrutar da vida e só por ser uma decisão consciente, deve ser respeitada.
Tenho o pecado da gula, gosto de beber, de fumar, de ficar a conviver até tarde, de passar horas no computador. Tantas coisas prejudiciais à saúde mas que fazem-me feliz, fazem bem ao espírito. Por isso suscita-me irritação, quando vejo que a fruta já não sabe ao que sabia quando eu era miúdo, pois agora utiliza-se químicos para tornar a fruta mais saudável mas sem sabor. Faz-me confusão, que proliferem tantas lojas gourmet, com preços exorbitantes, onde compramos aquilo que era natural encontrar na mercearia do bairro. Acho irracional, que hoje em dia as pessoas se preocupem tanto com a saúde, ao ponto de a comida ter deixado de ter aquele sabor apetitoso que entrava pelo corpo, com os seus cheiros deliciosos, quando sentávamos em casa dos nossos avós a usufruir de uma refeição de fim-de-semana, para passarem a saber a plástico, a não saberem a nada. É saudável, dizem... é saudável depende do ponto de vista.
Será que sou o único a questionar, que se os cuidados médicos que existem hoje em dia, proliferassem no tempo dos meus avós, estes teriam uma maior longevidade, independentemente do que comiam? Porque a verdade, é que as pessoas tinham uma taxa de mortalidade maior, devido aos fracos cuidados médicos, não porque comiam, bebiam ou fumavam. O facto final é que nos dias que correm, vivemos mais mas não temos qualidade de vida e isso para mim não me satisfaz e chego à conclusão que prefiro mil vezes ter sensações de prazer genuíno, que todas as gorduras, óleos, fumos, alcool, proporcionam, a viver confinado a uma castração desses sentimentos. A vida é feita para sentir-se e eu sou dependente de sensações. Não interessa quantos anos de vida vamos ter, mas quantos anos de qualidade vamos viver.

Já lá vão quase quatro meses desde a minha visita forçada à colónia de férias. Na altura, o acontecimento deveu-se à inconsciência desta geração morangos com açúcar, que talvez por estar a ficar velho ou porque não vislumbro nesta geração, o conceito de valores e respeito que me foi incutido, traz-me à superfície o sentimento de revolta e preocupação.
Preocupa-me a inconsciência, com que os adolescentes dos nossos dias são irresponsabilizados pelos seus actos, pelos próprios paizinhos que não sabem disciplinar os filhos e que não permitem que outros lhes chamem à razão da má educação que oferecem ou a falta da mesma. Mais preocupante, é que os pais destes meninos são os mesmos que viveram intensamente o 25 de Abril, na adolescência, são aqueles que sabem o que custou ganhar a liberdade de expressão e que cresceram a ouvir que se deve respeito a todo o ser.
Tropelias todos fizemos. Fiz eu, fizeram os meus pais e os meus avós. Tudo com conta, peso e medida. Todos pisámos o risco uma vez por outra mas sempre acabámos a pagar a factura, sempre tivemos de mostrar a cara e responsabilizar-nos pelos nossos erros, às vezes até com cinco dedos bem marcados na cara.
Na adolescência vivia num prédio onde os meus pais eram o casal mais jovem, fazendo larga diferença de idade para os outros inquilinos e foi-me imposto desde sempre, o bom dia, o boa tarde, o abrir a porta a qualquer vizinho. Fosse ele de que religião, credo, idade ou raça fosse. Foi-me incutido que se deve respeitar os outros, independentemente do seu extracto social, das sua postura. Sempre cresci a ouvir dizer que a educação tem sempre lugar garantido. Hoje, o que presencio é uma total falta de respeito, não só pelos mais velhos, mas também pelas hierarquias, onde o que se vislumbra é os adultos a deverem reverencia aos adolescentes, tentando ao máximo simplificar as suas vidas e desculpabilizando todo e qualquer acto idiota praticado por estas criaturas.
Coitadinhas destas próprias criaturas, que são obrigadas a ir para a escola, para tirarem notas negativas e mesmo assim serem premiados com a última versão da playstation. No meu tempo negativa, dava direito a castigo no quarto sem puder ver televisão, que seria o mesmo, que hoje em dia, retirar os privilégios da internet. Onde é que se ouve um pai dizer que o filho não pode utilizar a internet, porque está de castigo? Quantas vezes ouvíamos, no nosso tempo, que fulano a ou b, estava proibido de ver televisão durante umas quantas semanas?
Havia tarefas a serem cumpridas diariamente, para simplificar a vida daqueles que nos sustentavam. Pôr a mesa, ajudar a lavar a loiça, limpar os pratos ou levar o lixo à rua. Hoje em dia os meninos não podem fazer nada em casa, porque estão muito cansados de terem ido às aulas. As mesmas nas quais tiram as negativas! Os pais é que têm a obrigação de tratar-los como realeza, com todas as mordomias. Só comem o que querem, impõem a mesada que querem e saem para a rua sem dar cavaco a ninguém.
A culpa não é desta geração morangada, é da geração anterior à minha, que se demitiu de incutir valores e responsabilidades ao filhos e não admite que ninguém dê por eles.
É por estas e por outras, que a noite de sábado teve mais valor. Não só por ter sido o convívio de aniversário de um bom amigo mas por ter terminado a noite rodeado de adolescentes, que ainda revejo com valores e respeito pelos outros. É caso raro mas todos os adolescentes com que lidei nessa noite souberam ser bem comportados, educados, com noção de hierarquia e mesmo em hora de folia souberam respeitar as poucas regras que impus, proporcionando uma noite agradável a todos. Para eles e para mim.
É nesta pequena minoria da geração morangada, que consigo encontrar esperança para um futuro responsável e com consciência social, pois não me apetece nada chegar a velho e ser tratado como lixo pelas gerações mais novas.

Numa neblina, que cobre o amanhecer, o anjo desce do seu posto de vigia e pergunta: - Porque essa tristeza? O rapaz, debruçado sobre si, numa esquina escura, tentando por tudo passar despercebido, levanta os olhos, sem responder. O anjo insiste: - Porque estás assim?
O rapaz volta a mirar o anjo, sem nunca se deslumbrar com a sua presença e murmura: - Para que perdes tu, o teu tempo a olhar por mim? Volta a baixar os olhos, resguarda-se no seu interior, viaja para o seu espaço.
A sombra do anjo cobre o seu espírito, enquanto o rapaz percorre o seu caminho solitário. Mantém-se aninhado no seu canto, imbuído no espírito das questões que atormentam-no. Foram só uns segundos, parecia que uma eternidade se tinha passado. Ele levanta os olhos, fixa-os no anjo que permanecia estático na mesma posição, sem nunca arredar pé, buscando por uma resposta. Mirou-o durante uns segundos e devolveu-lhe o olhar condescendente com uma pergunta: - Porque não desistes Querida? Sim, ele sabia o nome por qual devia tratar o anjo que o protegia, sabia bem a sua missão, só não compreendia o porque.
- Olha para mim, olha para o que conquistei, olha para o que deixo para trás e responde-me com um lógica irrefutável que sou necessário, nesta existência disléxica. Sim somos um todo, somo uma existência acima do conhecimento global mas tenho a necessidade de saber o meu lugar e o meu papel. Quero contribuir, quero ser útil mas não compreendo a minha utilidade. A verdade? A verdadeira, cruel, sem rodeios? Não consegues açambarcar, não consegues assimilar e eu não quero magoar-te. Deixa-me, deixa-me na ausência de quem sou, do que é a minha existência, sem amparo desde que te tornaste uma presença espiritual, deixa-me na existência do inútil que sou, na dor, na solidão.
O anjo deixou escorrer uma lágrima, sorriu e murmurou: - Ainda acredito em ti. Levanta-te, olha bem para o teu futuro, olha mais além, olha para além da dor. Não, não estás só, olha bem para o caminho que percorreste e verás que estive sempre aqui, mesmo quando o silêncio imperava, acompanhei-te.
- Sim, tens razão. Não é o ponto de chegada, é ter sobrevivido ao caminho que mais interessa e agora vejo, vejo que todos perderam a fé, menos tu. Tu estiveste lá mas porque?
O anjo sorriu, genuinamente, esperou um segundo enquanto a ansiedade tomava conta do rapaz: - Porque no fundo, sei que tens potencialidades para chegares a muitas mais pessoas... ainda acredito em ti.

Custam-me sobremaneira, ver o final de outros, especialmente quando já desafiei o meu final um par de vezes. Custa-me ainda mais quando tenho a noção que se trata de alguém com mais valor, com algo mais a oferecer à vida mas tal como diz a letra dos Trovante... só Deus tem os que mais quer.
Hoje as minhas orações, ou melhor pensamentos, já que não sou um católico convicto, estão contigo. Estão com a tua recuperação, estão com o teu bem-estar, pois a minha ausência seria irrelevante para muitos e a tua penosa para vários.
A história da semente aplica-se a este enquadramento. A pessoa semeia, vê crescer, ou vive na esperança de ver crescer, não para ver o resultado final mas porque é a sua competência perante a existência de outros. Eu não semeio, eu não planto, não fomento e muito menos partilho. Eu, singular, eu, solidão por mais partilhada que tente ser, serei sempre um elemento e não um conjunto.
Tu, tu que quebras o rochedo que é o teu pai a um misero grão de areia, tu que sugas a vida de uma menina de onze anos, que retiras por completo a alegria a um espaço de convívio, peço-te, rogo até, para que não deixes de lutar, que não nos deixes, pois embora sejas mulher-menina, és a alegria de muitos e o sono profundo em que te encontras não deve nunca tornar-se um vício constante. Acorda, acorda para a alegria de saber que muitos estarão felizes, só por te ver acordada.
Estamos à tua espera e este teu adormecimento tem causado um ímpeto de saudade. Volta P, sentimos a tua falta.

Não, não se enganou no blog, simplesmente achei que ao final de mais de três anos de escrita, este canto de histórias e pensamentos, já merecia uma imagem renovada.
Tal como tudo na vida evolui, também eu tento desenvolver-me. Às vezes escolhemos o caminho correcto à primeira escolha, outras é necessário um passo atrás mas sempre tentando melhorar, tentando não cair nos mesmo erros, aprimorando virtudes e corrigindo defeitos.
As imagens dos anjos vão manter-se, alguns links também, o conceito do blog idem, pois embora possa parecer uma local de exposição pessoal e ideias, nunca ultrapassou o intuito de ser o meu espelho, um local que gosto de revisitar para lembrar a minha história, para reviver sentimentos, experiências.
Eu gosto desta nova imagem, espero que aqueles que por aqui passam ocasionalmente, também fiquem agradados com a mudança. É o conceito da evolução, sem nunca perder o que há de mais valioso... a minha essência.

Nos últimos dias, tem-me feito uma certa confusão as suposições que as pessoas, algumas em particular, têm sobre as minhas possíveis reacções. O que me levou a reflectir sobre a minha maneira de abordar a convivência social.
Sou uma pessoa com um humor carregado, mais propriamente um gozão mas sem que o mesmo, tenha algum carácter malicioso, não é do meu feitio sentir-me bem com o mal das pessoas. Por vezes espanta-me que uma piada, possa indignar alguém, ainda mais vindo de pessoas que estão habituadas à minha presença. Claro que cada um tem o direito de não encaixar a piada, da mesma forma que quando passo os limites, sou o primeiro a desculpar-me.
Tenho um sentido de justiça muito apurado, seja comigo ou com os que conheço. Talvez por isso seja o grande confidente que muitos procuram. Talvez por isso, às vezes, possa parecer radical e impetuoso mas sempre na busca da melhor solução para os problemas. Sei também, que quando vejo um retratamento ou que a injustiça é corrigida, sou o primeiro a banalizar o erro e a deixar de lado divergências e quezílias. Acredito que o perdão deve ser uma constante da nossa vivência. Eu também não gosto que julguem-me pelos erros passados, nada garante que cometerei o mesmo erro. Há que existir o benefício da dúvida e não partir imediatamente para a crucificação.
Entrego-me, estupidamente em demasia, às relações. Sejam elas amorosas ou de amizade. Confio, respeito e dedico-me. Quem realmente conhece-me sabe, que raramente recusarei um pedido. Quantas e quantas vezes me disponibilizei para ajudar? Quantas e quantas vezes, digo para mim próprio que pago pela boca que tenho? Arranjo dores de cabeça, desnecessariamente por causa da minha vontade constante em querer ser prestável. As pessoas sabem que estarei sempre disponível para ajudar no que for preciso, sem nunca esperar algo em troca. Acredito piamente que o laço de amizade é uma responsabilidade que deve ser mantida, através do nosso esforço pessoal, em poder atenuar as dificuldades que se deparam no caminho dos nossos amigos. Sinto-me mais pessoa, por saber que pude ser útil de alguma forma.
Claro que já sucederam abusos de confiança mas só assim se pode compreender quem realmente nos olha com o verdadeiro espírito de amizade. De mim, passam a ter zero quando eu acho que atravessaram a linha da falta de respeito pela minha pessoa e é uma linha, que ironicamente, para quem se intitula de radical, está bastante distante do que realmente deveria estar. Quando chego a esse limite, talvez por questões hereditárias, corto. Simplesmente apago essa pessoa da minha existência, esqueço por completo sentimentos, emoções, histórias. São pessoas que passam a ser completamente indiferentes, tal como as suas conquistas ou percalços. Agora daqueles que me rodeiam e que gosto de sentir com parte integrante da minha vida, só espero contar com a sua atenção, de quando em vez e compreensão pela minha postura de encarar a vida.
Acho ser chegada a altura de fazer uma reflexão. Começo a sentir, que estou a ser repetitivo, quando tento insistentemente manter contacto sem retorno, quando há quem insista em esperar uma reacção intempestiva a factos que me são irrelevantes ou sentir que para outros, tornou-se indiferente o que acontece na minha vida. Não primo por ser uma pessoa banal, muito pelo contrário, considero-me intenso, por vezes até sufocante mas é a minha maneira de ser e se há algo que a idade nos oferece, é o poder de não querer ralar-me com o que os outros pensam sobre mim. Sou como sou, adapto-me ao feitio de cada individuo mas se não sabem lidar, não lhes entro no apetite ou fartaram-se... muito bem. Pelo menos tenham a decência de afirmar-lo em cara e não desrespeitarem uma história repleta de momentos onde a palavra mor foi a amizade.

Longe vai o tempo em que passava horas infindáveis a ouvir Guns. Faz dezoito anos que os álbuns Use Your Illusion I e II foram lançados. Parece que foi ontem, ainda consigo ver o filme desse tempo, rodar perante os meus olhos. Adolescência rebelde, feliz em emoções, o cabelo ao vento, momentos inesquecíveis com muita aventuras à mistura, muitas das quais nunca irei expor aqui. O compreender sentido da palavra amizade, começar a crescer e a ter de tomar opções concretas para o futuro. Momentos únicos e singulares no crescimento de um indivíduo.
Chinese Democracy, foi o renascer dos Guns, onze anos de espera pelo sexto álbum dos Guns. Com ele, o mundo ganhou mais duas excelentes músicas. Madagáscar e Better. E mais uma vez Axl entende-me. A broken heart, provides the spark, for my determination



À distância de um oceano, que é quase a mesma distância de Moscovo, será tão diferente da distância de um olhar? Olhar uma fotografia, não atribui o realce do brilho, não oferece aquela continuidade que se encontra num pequeno gesto, num sorriso cúmplice ou num jeito de estar . O cheiro, o movimento suave, o olhar penetrante, que só pode ser contemplado na imaginação, também demonstra a realidade da distância, quando se olha para uma fotografia.
Será mesmo só a distância do oceano ou poderá ser a vontade da presença que faz com que a distância seja importante? Horas de pensamento, de análise, no íman que faz fixar o olhar no sorriso sem movimento, no cheiro imaginativo, no olhar penetrante que se esconde por trás de uns óculos de sol. Uma saudade absurda mas com toda a lógica de sentimento, de razão, de ligação, que só se compreende vivendo na distância.
Assim se vai perpetuando o tempo, imaginando o dia, que o mundo assume a sua dieta, adelgaçando a distância de um oceano, à forma de um riacho.

Ora cá estamos nós no Dom Tacho ou como os amigos íntimos apelidam, Dom Juan, em mais uma noite animada de convívio. Já de porta fechada e com os cúmplices do costume, a noite parecia levar o melhor rumo, eis que nas despedidas e vindo embora com C, em direcção ao carro, deu-me uma daquelas saudades de visitar a minha colónia de férias predilecta.
Seguia eu atrás de C, quando as canadianas e os pés ganharam vida própria e vão por aí fora, numa cena a relembrar as quedas do "Sozinho em Casa". Resultado? Bem o resultado foi estatelar-me na calçada, no meio de um cheiro nauseabundo e com uma dor insuportável na coluna. Provocando-me dificuldades extremas em respirar. Logo se gerou o pandemónio, A. correndo em meu auxilio, quase que se junta a mim e numa questão de segundos já rodeado pelos companheiros, consigo quase perdendo os sentidos, compreender o sucedido.
O cheiro, era nada mais nada menos que vomitado, que preenchia toda a calçada, onde eu encontrava-me deitado, sem condições para levantar e só mantendo a cabeça de fora do charco, pois o VHS estava a apoiar-me a cabeça. Uns meninos, lembraram-se de embebedar-se em casa e vir para a varanda vomitar a rua toda e inclusive os carros estacionados, que isto de concurso de vomitar da varanda, tem muito que se lhe diga.
A queda, foi de uma cena hollywoodesca, as dores cada vez mais insuportáveis e como o cheiro ao redor não era dos mais agradáveis, eis que chega a minha carruagem. Numa viagem que mais parecia uma montanha-russa, ligado a oxigénio, pois viagem de montanha-russa que se preze, deve ser sempre acompanhada de umas belas inalações de ar fresco, só dispensava mesmo era as dores ao passarmos por cada buraco mas viagem em Lisboa sem passar por buracos é algo surreal. Não se pode ter tudo.
Ao chegar à colónia de férias, fui recebido pelos empregados do turno nocturno. Raio-X para abrir o apetite. De seguida, prepararam-me a cama, pois gostam tanto de rever-me, que quiseram logo que desse entrada na colónia com todas as mordomias possíveis. De manhã, sem direito a pequeno-almoço, pois ainda havia a possibilidade de sair-me a sorte grande e ir parar àquela sala VIP, onde gostam de fazer-nos uns cortes enquanto dormimos, acabei por ir ao TAC.
O TAC foi simpático, ditando que afinal não teria direito a entrada na sala VIP mas que ficaria para observação e com direito a bónus. Gostaram tanto da minha visita, que receitaram repouso absoluto, tramal e paracetamol para o traumatismo lombar e como prenda de despedida, ainda tive direito a receber um vale de compras para um colete protector para usar nos próximos tempos.
Há saudades que por vezes devem ser saciadas. Irra!

P.S.: Obrigado aos incansáveis amigos que quiseram reviver estes meus momentos de glória na colónia de férias. Vocês são excelentes :)

Tenho tido nos últimos meses tantas vitórias, tantas como as asas que sonho ter para voar e que todos possuímos mas que só damos conta da sua importância quando sentimos o alento daqueles que nos rodeiam para partilhar-mos. Faz sete meses, sete longos meses que roubaram-me o querer de algo mais. Ao início foi uma questão de orgulho, de demonstrar que era capaz, de que a conquista era tão fácil como uma breve respiração. Tentar provar que conseguia.
Hoje, foi um daqueles dias, em que fui o centro, fui o desejo e no entanto nunca senti-me realizado. Claro, que sabe bem, estarmos rodeados por pessoas que nos tomam como alguém desejável, como alguém acima das expectativas mas realmente, será isso importante perante a memória do passado? Não, não me parece, a memória vive, vive num piscar de olhos, vive num cheiro, num segundo de lembranças que por mais que se tentem apagar, entranharam na pele.
Não esqueço nenhum momento, os bons e os maus, pois mesmo esses tendo de ser vividos, foram vividos ao lado de quem se queria. Parece idiota, mas o que mais recordo são as discussões. Aquelas que no fundo sendo o lado menos convidativo, são aqueles que fazem-me pensar do porque de ter optado por estar sozinho, pois se há alguém que consegue tirar-me do sério, era ela. E não será isso a vida!?
Sabe bem, claro que sabe bem sentir-me desejado, sabe bem pensar no dia que se avizinha no amanhã, agora qual será a minha atitude? Realmente não posso afirmar qual será. Há sempre algo que prende-me e que não me deixa mergulhar, não me deixa entrar em loucuras. Um sentimentos estúpido ou que talvez de estúpido só tenha a não realização do passado. Porque a culpa não é minha, não é dela, foi do momento e se não deveria ter existido, será possível explicar a saudade? Essa constante que acompanha-me desde o levantar até ao momento em que perco os sentidos ao dormir, porque na verdade, aquele imagem acompanha-me no decorrer do dia-a-dia... Estúpido? Talvez, no sentido da Sarah McLachlan.
Hoje foi um bom dia para o ego, amanhã melhor será mas quem serei eu? Não sei responder. Será que vou saltar fora no último instante ou será que é desta que aventuro-me? Não sei, sei só que se optar pela aventura terei saudades do passado e que se não aventurar-me, saberei que perdi a hipótese de esquecer o passado. Dilema

Hoje sofri um intervenção. Uma intervenção consiste em ter-mos amigos a chamarem-nos à realidade. Estive dia e meio sem aparecer no local do costume, sem falar com as pessoas que correntemente estão no meu dia-a-dia. Fui bombardeado com telefonemas para saberem da minha existência, sem nunca atender e quando esta noite cheguei ao ponto de encontro, sofri esta intervenção. Sim, é verdade que são pessoas que convivem comigo há pouco tempo mas que já se habituaram à minha presença, por mais inacreditável que tal pareça.
Comecei por dizer, que era um stress, um filme, sem razão de ser, só porque não tinha atendido o telefone e faltado a um dia de convívio habitual, eu sou assim, sou um solitário, por vezes necessito do meu espaço. Ouvi de tudo, ouvi muito mais do que quis. Ouvi uma análise, do que realmente tentam descortinar do que sou e demonstro. Foi um erro de casting, não absorvi uma única palavra dessa análise mas revi-me em palavras de amizade.
A vida, os acontecimentos e as casualidades fizeram-me ser alguém solitário por muito que esteja em companhia. Talvez como mecanismo de defesa, talvez por habituação, talvez porque no fundo não há maneira de ser compreendido e compreender-me. No fim sobra uma razão muito racional. Porque não conseguirei nunca dar-me por inteiro. Porque no fundo tenho medo, tenho muitos bicho papão escondidos no armário e é muito mais seguro manter as relações superficiais, pois assim, é certo que não sairei decepcionado, magoado, triste. Se parecer que dás muito, não há muitas perguntas.
É comigo que conto, é comigo que sei que posso contar... Ok, é verdade, é incrível, há quem queira o meu bem mas também é verdade que o meu bem-estar só eu posso alcançar. Para poder estar bem, teria de expor-me e eu não o posso fazer, o medo e de certa forma a vergonha de quem realmente já fui, não me permite.
Quando o mundo era quase meu, tudo se desvaneceu, sofri o que nunca sofri e quando hoje disse que sendo o mais novo era o mais experiente, ninguém conseguiu compreender a minha frase. Só Deus, aquele meu amigo que está sempre presente, sabe o caminho tortuoso que já percorremos. Por vezes carregado, por vezes sobre o olhar crítico, por muitas vezes com uma coragem estúpida de sobrevivência que acho que nenhum de nós consegue compreender a sua existência. Insistência imperceptível.
Se nós não compreendemos, como podem outros entender!? Tem sido um caminho pecaminoso, recheado de erros, de amarguras, de estupidez enfática e de muita mágoa, de uma noção precisa de tudo o que se perdeu, de tudo o que faz falta para estar de bem com a vida. Se sou feliz? Não, não sou... ser feliz é um êxtase momentâneo, não vivo de ilusões, vivo para as ilusões, esperando com muita esperança que acima de tudo um dia o sol volte a nascer em todo o seu esplendor, trazendo tudo aquilo que já tive. Se não hoje, um dia, numa nova vida, numa nova dinâmica, numa vida em que seja possível esquecer todos os erros do passado.
Estou cansado de ser uma cortina, uma fachada e de esconder os meus sentimentos. Perdi os que mais amei, perdi a dignidade, falhei na escolhas do passado e não sei como dar a volta. Hoje tudo é fútil, tudo é insignificante perante tudo o que já tive e deixei fugir.

Skank - Me Sinto tão só, me sinto tão seu.. 25 de Agosto - 10 years

O beijo, acto de paixão, prazer ou carinho. Um acto viciante, ardente e perpetuando nas minhas memórias. Um beijo de fogo, capaz de seduzir e incendiar. Gosto de paixão, de desejo, de força e intensidade, trocado no segundo seguinte por outro dócil, alternado com carícias suaves, intensificando-se o desejo. O beijo corrido que empregue ao acordar torna o dia mais suportável de aturar. Aquele que remete-se ao simbolismo de uma relação duradoira e cúmplice. O beijo amigo, prolongado na face, sinal de carinho e amizade. Demonstração de respeito por aqueles que nos são queridos. O beijo sonhado, relembrado como marca de um passado. Um anseio de reviver memórias. O nervoso de um primeiro beijo, do primeiro de todos e do primeiro dado à pessoa amada. Chave simbólica de recordações, sensações e vivências. Aquele tudo diz sobre o caminho de uma relação.
Citando Oliver Wendell Holmes - O som de um beijo não é tão elevado como o do canhão, mas o seu eco perdura por muito mais tempo - Assim ecoa na minha cabeça todos os beijos que dei, os que sonhei, os que ensejo e os que sempre recordarei. O beijo é o melhor dos afectos.